Reencarnado Como Galo em Outro Mundo

17 Capítulo 16 De Peito e Asas Abertas.


_Eu não perguntei por maldade, sabia?


A mesa estava posta.


Na verdade se tratava de uma grande e razoavelmente plana pedra em que Rikko e Inako escolheram para se sentar e aproveitar sua refeição frugal. Peixes assados, frutas e água eram o cardápio, oferecido para acalmar os nervos de Inako e talvez fazer com que Rikko esqueça o inchaço causado pelo tapa recebido.


_Precisava mesmo bater — ai! Tão forte? — Disse Rikko, comendo seu peixe com dificuldade.


_Teria sido pior se eu não estivesse com fome, não reclama! Ninguém mandou você fazer uma pergunta besta feito aquela! — Exclamou Inako, com as bochechas inchadas pela comida e desaprovação.


_Eu só estava curioso, droga. Perguntar não ofende.


_Me ofendeu, sim!


_Tá bom, desculpa. E eu queria te perguntar outra coisa-epa! Não! Calma! Não é daquele tipo de pergunta! Joga essa pedra pra lá! — Complementou ao ver a garota-raposa insinuar uma nova pancada, desta vez com uma pedra.


_O que é?


_O que você está fazendo sozinha nessa floresta, sem bagagem e com as roupas aos farrapos?


Largando a pedra ao ouvir uma pergunta importante, Inako se pôs a pensar por um instante e então respondeu.


_Eu vim... procurar a minha irmã.


_Vocês se separaram em algum lugar?


_Quase isso. Ela foi raptada por mercadores de escravos, quando foi sozinha pra cidade fazer compras e receber as doações pro templo.


_Mercadores de escravos? Está me dizendo que veio resgatar sua irmã sozinha, sem ajuda de ninguém?


_Não tinha como! — O espeto com o peixe pela metade caiu de suas mãos trêmulas. — A carroça já tava abandonada e ela já tinha sumido! Ninguém tentou ajudar porque eram bandidos perigosos!


_Suas roupas são bem diferentes das que eu já vi. Você deve ter vindo de muito longe.


_Eu sou de Saquê, um pequeno país bem longe daqui. Meu pai é sacerdote de um templo em Ocha. Quando ele era novo, foi pra cidade escondido porque ele gostava muito de farra, e acabou conhecendo a minha mãe e a de Tenko, minha irmã.


“Saquê, Ocha… são bebidas japonesas! É impressão minha, ou todos os nomes de lugares são relacionados à bebidas?” — Pensou Rikko.


_Somos filhas de mães hanjin diferentes. Elas eram ao mesmo tempo amigas e rivais, e na noite em que conheceram meu pai estavam apostando pra ver quem apanhava o homem mais bonito. Dormiram com ele e nós nascemos tempos depois, mas tinham que manter segredo porque ia ser um escândalo daqueles se um sacerdote de repente aparecesse com duas filhas.


_Até imagino o porque. Você disse hanjin, o que é isso?


_Hanjin é como chamam a gente que é metade humano e metade outro ser. Eu sou metade Kitsune, e minha irmã é metade Tanuki.


_Tipo animais mágicos?


_Sim. Anos depois, uma doença tava matando muita gente e nossas mães acabaram morrendo. Nosso pai adotou a gente e fomos viver no templo. Nos ensinou tudo que sabia e agora nós somos sacerdotisas do templo.


_Sinto muito por suas mães. E então sua irmã foi raptada e aqui está você.


_Sim. Peguei o que eu podia e então fugi do templo atrás dela sem meu pai saber. Vim de clandestina em um navio quado ouvi falar pra onde a levaram e acabei parando nesse país, como é o mesmo o nome dele…? Cham… Cham…


_Champagne?


_Isso! Desde que eu cheguei, arrumei trabalho aqui e ali, era o jeito mais fácil de saber algo sobre a minha irmã. E foi aí que eu entrei como suporte em um grupo de aventureiros. les… Les Intrépides! Mas todos eles morreram durante a minssão de extermínio de monstros e fui forçada a fugir sozinha. Vim parar nessa floresta e estou caminhando há dias.


_Que barra você tá passando… qual foi a última notícia de sua irmã que ouviu?


_Ah! Eu tenho isso aqui.


Inako apanhou em seu bolso um pequeno papel amarelado dobrado com forte cheiro do que parecia fumo e estendeu-o no chão, aberto, para mostrar a Rikko. Nele dizia:


11ª Feira Negra!


A ser realizada em Cognac, no primeiro dia do Mês de Juin, à primeira badalada da meia-noite.


O local da reunião será revelado apenas aos agraciados que portarem esta minuta.


Necessário que estejam trajados para a ocasião e reunidos na Taverne du crepúscule, sem atraso, para tomarem a condução.


A safra deste ano se encontra deveras imperdível, apenas os mais finos e exóticos produtos — cuidadosamente selecionados.


Atrasos não serão tolerados.


Aos da melhor estirpe, nos veremos em breve!


M.


_Está vendo? Isso caiu do bolso de um homem que tava na mesma cidade onde conheci os Les Intrépides. Bebeu tanto que não viu cair. A feira vai ser nessa tal cidade Cognac.


_…hum...


_E então, o que achou?


Ao ser indagado por Inako, Rikko sacudiu sua cabeça e deu seu parecer.


_Achei que sabia ler, mas agora vejo que não sei.


_…


_O que foi?


_Podia ter me falado isso antes. — A garota respondeu, com o semblante amargo.


_Foi mal. Pode ler pra mim?


-Tá bom. Então…


Desta vez, Inako releu novamente a mensagem, tomando o cuidado de fazê-lo com calma e apontando as palavras escritas para Rikko. Foi então que…


_Conseguiu entender agora?


_Sim, eu- espera.


_Que foi agora?


Habilidade Adquirida


-Decodificação


Torna o usuário erudito na arte das palavras.


“Isso só pode ser brincadeira. A Thanya fez um serviço bem meia-boca.”


_Agora eu sei ler. Entendi o que está escrito.


_Como assim?


_Apenas aceite que será melhor. Resumindo, essa feira é totalmente ilegal. Por isso precisa ser escondida da sociedade comum e claro, das autoridades. Quem for participar precisa aparecer disfarçado e se reunir nessa taverna, e de lá serem transportados para o local secreto. E deixaram bem claro que precisa chegar na hora, ou será deixado pra trás.


_Tenho que chegar lá de qualquer jeito!


_Olha, não quero te desanimar, mas… tá na cara que essa feira vai atrair gente tão perigosa quanto os caras que sequestraram a sua irmã, e gente poderosa.


_Eu não me importo! Só quero tirar a minha irmã de lá!


_E como pretendia fazer isso? Por acaso pediu ajuda a esses aventureiros que morreram?


_Não! Eu não disse nada pra eles! Eu não podia.


Nesse momento, Inako sentiu seus olhos ficando quentes, e lágrimas correram em seu rosto. Limpou o rosto com a manga de sua roupa esfarrapada e continuou.


_Eu não podia pedir ajuda pra eles, não era certo. Não quando tudo isso é culpa minha.


_Sua?


_Minha. Era eu quem deveria ter ido à cidade, mas eu disse que não queria ir por pura preguiça minha! Era eu quem deveria ser raptada, era eu quem deveria virar escrava, era eu, eu, eu, eu,EU! SÓ EU! - Inako não conseguia mais segurar o pranto e esmurrava o chão com punhos cerrados. — Só eu…


_Entendi, vocês se sente culpada. Mas isso não muda o fato de que uma das duas estaria nessa situação, independente de quem fosse. Não se culpe por algo que não tinha como saber que aconteceria.


_Mas…


_Você já deixou mais do que claro o quanto gosta dela, e aposto que ela diria o mesmo, então se acalme e use sua cabeça.


_Você diz para usar a minha cabeça, mas no que eu vou pensar?


_Quando você está em uma situação que parece não haver saída, peça ajuda.


_Mas pra quem vou pedir ajuda?


_Peça pra mim.


_Você?


_Eu sei no que está pensando agora. Sim, eu sou um animal estranho e totalmente suspeito, não pareço ser de confiança. Mas… juntos podemos conseguir ajuda para salvar a sua irmã.


_Como a gente vai fazer isso?


_Não podemos fazer isso sozinhos, é claro. Mas talvez consigamos a ajuda de aventureiros e arrebentar com essa maldita feira!


Os olhos de Inako brilharam com a declaração determinada de Rikko. Até então ela nunca havia pensado que haveria alguém disposto a carregar seu fardo de tão bom grado, e tinha sido uma ave, a lhe mostrar uma nova esperança.


_SIM! EU ACEITO!


_Então agora estamos juntos nisso. Seja bem vinda a bordo!


_A bordo? De quê?


_Ah, nada não, é só jeito de falar.


_Ah, tá. Conto com você então, Senhor Rikko!


_Senhor Rikko?


_Sim! O Senhor é quem vai me guiar de agora em diante! Tudo que disser, eu faço! Por você eu mato ou morro!


Ao ouvir essas afirmações, Rikko finalmente compreendeu que havia acabado de se colocar em uma verdadeira saia justa. Mas ele não pretendia se arrepender de suas palavras. Esse encontro na floresta não poderia ser apenas obra do acaso.


_Muito bem. Conto com você.


Equanto isso, em outro lugar…


_Ei, você aí! Acorda!


Era um lugar escuro, fétido, que exalava medo e ódio. Haviam várias jaulas com espessas barras de ferro por todo o lugar, postas diretamente no chão com pouca ou nenhuma organização. Se haviam insetos por ali, eram percebidos apenas por suas fezes ou o rastejar de suas patas pelos cantos e frestas.


E é neste ambiente totalmente insalubre onde Tenko, a amada irmã de Inako, desperta.


_...Hã? AI!


Seu despertar foi abrupto, com o som de algo batendo contra sua jaula. A fonte deste som foi causada por um tipo de tigela de madeira contendo um pedaço de pão amanhecido e algo que parecia ser um mingau aguado fumegante, dispostos de qualquer jeito. Havia sido jogada ignorantemente por um homem de aparência grotesca.


_Aí está o seu almoço! Aproveite bem, porque não terá mais nada até o jantar, hahaha.


As roupas dela estavam em frangalhos. Seu Kosode tinha vários rasgos assim como seu hakama, mas este ainda possuía marcas de lama seca para completar o triste visual. Ainda atordoada pela noite mal dormida, sentiu que sua garganta estava seca.


_Senhor. Posso beber um pouco de água? Por favor.


_Ora, ora. Parece que estamos um tanto exigentes hoje, não é mesmo? Pois trate de tomar todo o seu mingau, nele tem a sua preciosa água, HAHAHAHAHA! — Disse o homem zombeteiramente, antes de sair ruidosamente pela mesma porta por onde entrou.


Desolada, Tenko entendeu que seu pedido não seria atendido. Era apenas mais uma das dezenas de meninas com quem compartilhava seu cativeiro. Podia ouvir várias delas chorando baixo, reprimidas pelo pranto da noite anterior. Também ouviu alguém tossir profundamente em algum lugar. Arrastou-se para perto das grades e estendeu o braço por entre elas para apanhar a tigela.


_AI!


Sentiu dor ao tocar no mingau fervido com seu indicador ao tentar apanhar a comida.


Já estava naquela jaula há alguns dias, então sabia que tentar passar a tigela pelas barras era inútil. Então a apanhou cuidadosamente com as mãos e soprou o mais forte que pôde antes de levá-la a boca com dificuldade.


_Ugh. Que amargo.


Estava sem fome, mas não podia se dar ao luxo de recusar a pífia refeição. Era ela ou os ratos que apareceriam em breve para disputar os restos. Deixou o pão para o final, se aproveitando da água excessiva do mingau para amolecê-lo. O comia aos poucos em silêncio, mas quando memórias de um passado recente lhe vieram à mente, deixou algumas palavras sôfregas escaparem por seus lábios ressecados.


_Papai. Inako. Sinto falta de vocês.