Reencarnação
30 Presente, teste e vontades
Notas iniciais
Eren
Andava aleatoriamente pelos largos corredores do shopping olhando para cada nome de loja que me aparecia à vista. Buscava ideias... ideias... Mas nada me vinha à mente. Daria roupas? Não, acho que é muito comum... Queria algo diferente. Sapatos? Não, também é comum. Talvez alguma coisa relacionada à limpeza! Isso ele iria adorar, tenho certeza! O problema era achar alguma coisa do tipo que ele ainda não tenha. Seu último “brinquedinho” comprado foi aquele aspirador de pó, que, aliás, era o único acessório que lhe faltava para ter seu “kit de limpeza de última geração” completo.
Pois é... eu realmente estava sem opções. Que presente Levi gostaria? Um jogo novo de toalhas? Não, isso ele também já comprou há pouco tempo. Um super edredom antibacteriano novo? Desisti assim que vi o preço lindo de uma única peça pela vitrine da loja. Que tal um perfume então...? Não... não sei escolher perfume... Aliás, o Levi que sempre escolhia os meus.
Então... o que eu poderia lhe dar? Hum... Sexo...? Não!! O que eu estou pensando? Claro que não, Eren, isso não é coisa que se presenteie! Eu queria dar alguma coisa que ele usasse e que pudesse exibir para as pessoas. Tenho certeza que ele já ganharia bastante coisa dos outros... E eu queria que o meu presente se destacasse... Mas o que poderia ser...? Pensa, Eren, alguma coisa que provavelmente ninguém daria...
Oh, droga. Agora só consigo me lembrar do momento em que voltávamos do festival da minha escola e... bem, eu e Levi acabamos nos empolgando um pouco lá dentro do carro do Mike. Ahh, que embaraçoso... Eu nem estava prestando atenção em nada ao redor, a não ser no Levi. Mas ainda bem que paramos antes de começarmos a tirar qualquer peça de roupa, pois, agora eu posso até suportar falar do que nós fazemos, mas deixar verem é outra história! O que nos trouxe de volta para a realidade fora uma freada brusca e repentina que o Mike deu e nos fez quase cair. Foi aí que notei que Hanji segurava o seu celular virado para nós dois, Levi começou a reclamar dizendo-a para apagar o que quer que ela tenha filmado na hora. Essa situação foi realmente constrangedora, mas ao menos agradeci por ter sido Hanji e Mike a presenciá-la, já que são mais íntimos... Ahh!! Não é para eu ficar pensando nisso agora! Tenho que me concentrar no presente do Levi! Presente do Levi... Presente do Levi...
– Oh... Eren...? É você?
Minha atenção fora totalmente desviada para uma voz familiar.
– Ué... V-você... – Arregalei os olhos para a mulher de vestido longo e que eu não esperava encontrar tão cedo. – M-Martha?
– Oi, querido...! O que houve...? Não quer mais me chamar de tia? – Brincou ela, abrindo os braços para mim.
– Oii!! Er... foi mal, tia. – Sorri e logo corri para abraçá-la e dar-lhe um beijo no rosto, continuava abobado pela aparição repentina. – O que está fazendo aqui?
– Eu... Eu queria te ver de novo, então... Estava à caminho da sua casa, mas resolvi dar uma parada aqui neste estabelecimento. – Ela olhava ao redor, mostrando-se impressionada. – Um moço da rua havia me dito que havia uma cafeteria aqui dentro, mas... hehe, aqui é tão grande que acabei me perdendo.
– Ahh... quer que eu te leve até lá? Tem uma cafeteria muito boa neste andar.
– Oh, você não está ocupado agora?
– Não se preocupe, tia. – Falei sem resenhas. Fiquei surpreso com uma visita surpresa assim dela, já havia passado duas semanas desde a sua última visita. Aliás, a primeira.
~*~
Enquanto apreciávamos as bebidas quentes da cafeteria do shopping, não deixamos de conversar bastante. Martha era bem falante e cada gesto ou expressão que ela fazia me lembrava o meu pai. Até que era bem tranquilizante ficar olhando-a... Me fazia sentir um pouco mais próximo dele.
Soprava meu chocolate quente antes de cada golada, por outro lado, o café de Martha parecia esfriar de tanto que ela falava ao invés de tomá-lo. Mas eu não estava ligando, tudo que ela dizia era de meu interesse. Ela contara sobre meu avô, que não curtia muito viajar e que odiava cidade grande. Basicamente um típico sujeito do campo... Eu ouvia tudo que Martha dizia com bastante empolgação, pois se tratava da família que eu tinha e que não conhecia. Mas... ao mesmo tempo que eu ficava feliz com o que ouvia, mantinha o pé atrás. Pois é óbvio que eu confio mais no Levi do que em qualquer um, mesmo este sendo um parente sanguíneo. Por isso continuaria confiando nas palavras dele. Eu mantinha em mente que acabara de conhecer Martha Jaeger, este era nosso segundo encontro durante toda a vida... claro que eu ainda não sabia quase nada sobre ela, por isso eu tinha que ser cuidadoso no quanto eu poderia confiar. Por enquanto, tudo o que ela dizia sobre a fazenda que morava e sobre meu avô pareciam ser bem verdadeiros, por isso prossegui ouvindo com entusiasmo.
– ...Então, seu avô adorava sair com Grisha, pescar, ficar dando conselhos sobre garotas, ensinar tarefas do campo, ir para eventos no centrinho... Passavam boa parte do tempo juntos! Ele era muito apegado ao Grisha... Por isso, ele ficou tão feliz de saber que tinha um neto legítimo dele! Você tinha que ver a reação do seu avô!
– É mesmo? Legal! Algum dia eu gostaria de visitá-los! – Falei por impulso, mas não me arrependi. – S-será que eu... poderia...? – Abaixei um pouco o tom da voz, acanhado. Martha logo abriu um sorriso emocionado.
– Oww, é claro! Eu já lhe disse da outra vez, não disse? Aquela casa também é sua... Você pode vir quando quiser. Seu avô ficaria muito contente em conhecê-lo.
– Ahh, depois de tudo o que disse, eu também estou louco pra vê-lo. E bem, já que ele não curte muito cidade grande... Hehe, melhor eu me deslocar.
– Huhu, você é um bom menino, né, Eren? – Ela afagava meus cabelos de uma forma materna. – É bom, seu avô mesmo não gosta muito quando venho para cá sozinha.
– É mesmo? Por quê? A senhora chegou bem aqui.
– É, mas... Você mora aqui, deve conhecer a violência deste lugar melhor do que eu...
– Relaxa, tia. Nunca aconteceu nada comigo. – Afirmei com segurança. – Eu já estou acostumado com o movimento.
– Hum... mesmo assim me preocupa um pouco...
– Ah, só está assim, porque não mora aqui. Pessoas de fora sempre vão achar o meio urbano mais perigoso do que o campo, mas é sério, tia, é de boa.
– Mas... Você é tão jovem ainda... E morando aqui sozinho.
– Hã? Mas eu não estou sozinho, tia. Levi mora comigo, lembra?
– Er... – Notei ela apertar os punhos. – Eren... É que, mesmo que não seja realmente, esse seu responsável, Levi, parece ser ainda muito jovem também... Quase não dá pra acreditar que ele consiga sustentar a si mesmo e mais a você.
– Mas ele consegue! – Falei firme. – Ele é incrível. A aparência dele realmente deixa a maioria das pessoas bastante preocupadas por acharem que ele é um adolescente. Mas ele é um adulto muito responsável! Isso eu garanto, tia! Um dos motivos de nunca me ter acontecido nada até hoje, foi porque ele sempre me protegia... sempre... – Olhando o rosto da minha tia, vi que ela ainda parecia em dúvida.
– Haha, bem, se você diz. Só digo para ser cuidadoso sempre. – Ela voltou a sorrir de forma amigável. – Ainda acho essa cidade grande um lugar muito perigoso. Viu o tanto de crimes e atentados passando no noticiário da TV?
– Hum, mais ou menos. Mas eu não me assusto. Acho meio comum... – Falei normalmente. Terminando de tomar o restinho de chocolate quente da minha xícara. – Uhh, esse chocolate estava ótimo! – Lambi os lábios. – E aí? Gostou do café, tia?
– Hum, é bom sim. Obrigada por me trazer até aqui, Eren. – Ela novamente afagava o topo da minha cabeça antes de dar mais algumas goladas em sua bebida. Sempre me lançava um olhar com um brilho estranho. – Bem, você ainda vai andar mais um pouco aqui nesse... shopping?
– Ah, é!! Eu tenho que comprar um presente! – Levantei-me da cadeira por impulso. Faltava poucos dias para o Natal e eu ainda nem tinha ideia do que comprar.
– Presente?
– Sim, para o Levi! O aniversário dele é no Natal e quero lhe dar alguma coisa...
– Hum... Entendo.
– Vamos dar mais uma voltinha por aí então, tia? Aí a gente vai conversando. – Chamei-a na maior naturalidade, afinal né, ela não deixava de ser minha parente, além de não demonstrar-se uma pessoa perigosa. Ela já veio de tão longe até aqui só para me ver, nada mais justo então do que dar uma voltinha com ela aqui e mostrar-lhe algumas novidades.
– Uhh, certo! – Martha gentilmente aceitou e foi me seguindo.
~*~
Levi
Hoje, segunda-feira, estava sendo basicamente meu primeiro dia de férias. Seria um dia útil da semana que eu poderia ficar tranquilo em casa. Mas mesmo assim, resolvi dar um pulo no hospital. Erwin continuava a trabalhar, mais precisamente, ele ficara de plantão hoje, mesmo quase perto do Natal. Sua última cirurgia do ano. Médicos realmente não tinham folga quando bem queriam. Era uma vida bem corrida, mas o retorno financeiro ao menos compensava.
Como ele estava aqui, deixou nas mãos de Hanji ajudar a organizar algumas coisas para o Natal em sua casa. E eu... vim mais pra fazer uma faxina à minha maneira de alguns lugares específicos. Agora eu terminava de limpar tudo na “sala do chefe”, que é onde eu normalmente trabalho, embora eu não seja realmente o chefe daqui.
Mudei todos os móveis de lugar, mandei os tapetes e as cortinas para a lavanderia e aproveitei a área livre para dar uma encerada no chão e tirar qualquer resquício de poeira nos cantinhos do rodapé. Além de deixar tinindo cada prateleira, gaveta, porta de armário, arquivo e mais os acessórios da minha mesa. Pra mim não foi um trabalho muito pesado, mas demorou. Apoiei o esfregão ainda úmido sobre a bacia do kit de faxina do hospital e soltei um breve suspiro.
Enxuguei o suor observando o resultado até agora. Parecia-me bastante limpo, não via nenhuma sujeira ou resquícios de poeira aparente. Assim que meus olhos passaram pela janela é que eu percebi que estava entardecendo. Lembrei do Eren dizer que iria sair para algum lugar, só não me disse onde. Me pergunto se ele já havia voltado pra casa. Particularmente espero que sim, não o quero andando por aí sozinho enquanto Kenny ainda esteja por aí.
Argh... Kenny... Lembrar que esse lazarento está vivo me deixa com dor de cabeça.
Retirei meu celular do bolso e disquei o número do garoto. Caminhei até a janela para observar o movimento mais ameno lá fora, enquanto o esperava atender... o que demorou um pouco, mas logo sua vozinha me foi audível.
– Oi, Levi!
– Ahh... Até que enfim atendeu. Onde você está?
– Er... R-relaxe eu vou voltar pra casa logo, juro!
– Você não respondeu minha pergunta.
– Hm... Eu tô no shopping agora.
– E o que está fazendo aí?
– Vim comprar um livro que Armin havia me indicado, depois dei uma parada na cafeteria. – Explicou. – Ah, e encontrei a minha tia Martha aqui! – Ele disse numa certa empolgação. Eu logo senti o tique no meu olho começando a manifestar.
– Como é? Martha Jaeger? Ela está aí com você?
– Sim! Quer dar um oi para ela?
– Hum, não precisa.
– Ué, mas...?
– Eren... – Massageei as têmporas. Era só o que me faltava. O que essa mulher veio fazer aqui? Veio tomar o menino para si? – Ouça... ela está por perto agora?
– Hmm... Agora não... ela acabou de entrar no banheiro.
– Então ouça. Não se esqueça do que eu disse a você antes, por favor. Não confie totalmente nela.
– Eu sei! Estou indo maneiro, pode deixar.
– Certo... – Dei outro suspiro. – Vai pra casa então se já acabou tudo aí. Aliás, Martha ficará com a gente?
– Não... Ela disse que voltaria para a casa dela de noite.
– Hum... – Cocei o queixo, pensativo. Por que ela se daria ao trabalho de vir até aqui, num lugar tão longe de sua casa, só para ver o Eren e ir embora no mesmo dia? Hunf, bem, pensando melhor, tem mesmo gente que faz isso... A menos que... Ela tenha vindo na intenção de buscar Eren para visitar sua casa... e então convencê-lo a ficar lá de vez...? Não! – Se ela te chamar pra ir embora com ela, não vá! Negue tudo!
– Han?? Do quê está falando? Calma, Levi...! – Ouvi-lo rindo baixinho. – Até parece que eu aceitaria algo assim. Como você mesmo disse, acabei de conhecê-la!
– Hum... É... Então chega de graça e vai logo pra casa, já está escurecendo...
– E você? Volta que horas?
– Daqui a pouco eu saio do hospital... Aliás... – Foi aí que me veio uma ideia. – Eren, pensando melhor... venha até aqui e traga Martha com você.
– Hum? Por quê? – Ele pareceu confuso.
– Quero cumprimentá-la.
– Agora você quer dar oi pra ela? Está bem bipolar, Levi... – Eren riu novamente.
– Não só isso. Na verdade... Quero aproveitar para fazer algo...
– Tipo o quê?
– Um teste... de DNA.
– Ah...
– Não estou acusando que ela seja uma impostora. Dá pra ver que ela é da família do Grisha só pela aparência. – Argumentei antes que ele protestasse. – É só para não dizer que nunca provamos de fato que ela seja sua parente.
– Oh, tudo bem! – Sua voz não me pareceu aborrecida. Aliás, mostrava-se ansioso. – Na verdade, eu também queria ver uma prova médica disso...
– Então venha logo para cá... Vou estar te esperando.
– Tá... Ah, ela voltou! Vou desligar... – Ele fez uma pequena pausa antes de finalizar. – Eu te amo. – E assim, a ligação foi terminada e eu mantive-me ainda um tempo parado... Era pouco, mas eu ainda sentia um calor toda vez que Eren pronunciava essas três últimas palavras. Dei um último longo suspiro antes de desligar o celular e ir para a saída de minha sala. Dei uma última olhada, vendo os móveis ainda arrastados fora dos lugares. Bem, não arrumaria por enquanto, pelo menos não até os tapetes retornarem da lavanderia. Sendo assim, apaguei as luzes e deixei a sala, indo rumo à sala de atendimento do Erwin. Creio eu que ele já tenha terminado sessão cirúrgica.
Chegando lá, olhei pelo vidro fosco da porta. A silhueta do loiro me era visível. Estava aparentemente sentado em sua mesa, checando exames talvez, e pelo que notei, estava sozinho. Sendo assim, resolvi entrar, mesmo sem bater.
– Erwin... Eu quero te pedir um fav... – Arqueei a sobrancelha ao ver que ele na verdade estava mexendo em seu celular, e rapidamente o escondeu quando eu entrei.
– Levi...?! Não sabe bater? – Disse, mantendo a compostura.
– Ué... Eu nunca bato na sua porta. Aliás... o que você estava vendo aí? – Perguntei desconfiado de sua reação.
– Hm? Eu não estava vendo nada.
– Nada? Então por que escondeu isso aí?
Erwin deu um suspiro.
– Era mensagem da Hanji, não era grande coisa...
– Está trocando mensagens com a Hanji...? Mas ela está aqui no hospital, por que não vai até ela pra dar seu recado?
–É que ela me mandou umas fo... A questão é que você não deveria entrar desse jeito escancarado, isso assusta as pessoas. Ao menos avise de sua presença lá fora antes de entrar. – Reclamou o loiro da forma mais serena possível.
– Hunf... – Estreitei os olhos. Ele ia dizer “fotos”? No mesmo momento lembrei que a doida havia tirado algumas fotos minha e do Eren lá no carro do Mike... – Mostre-me agora o que estava vendo aí!
– O quê? Não ouviu nada do que eu disse? – Ele deu um suspiro. – Não sabe que celular é algo super pessoal, rapaz? – Erwin disse com ironia.
– Você estava rindo olhando para a tela...
– Isso não é da sua conta, Levi. – Erwin como sempre mantinha-se totalmente de boa e com um sorriso tranquilo, não importa o quão intimidante fossem minhas expressões ou tom de voz. Seu jeito sereno convencia muita gente, mas não a mim, mas me dei por vencido.
– Hunf, certo... – Mesmo se fossem fotos minhas com o Eren, Erwin não era de ficar tirando sarro, então, não tinha com o quê se preocupar.
– Então, o que veio me pedir? – Ele inclinou-se para trás, cruzando os braços.
– Podemos fazer um teste de DNA agora?
– Hm? Teste para quem? – Erwin arqueou a sobrancelha. Eu dei um suspiro antes de revelar-lhe a história. Não havia mencionado Martha para ninguém, exceto, claro, para o Eren. Mas, de todos os meus amigos mais próximos, o único em quem eu confiava contar assuntos mais “delicados” assim era no Erwin, pois ele sabia guardar segredo e ainda ajudar da melhor e mais sutil forma para a resolução. Tanto que eu estava há dias pensando se contava a ele também sobre Kenny ou continuava a manter isso apenas para mim... Não. No caso do Kenny, melhor apenas eu continuar ciente. Já no caso Martha, Erwin podia dar uma mão.
– É o seguinte... Há poucos dias, apareceu uma mulher lá em meu apartamento... – Expliquei detalhadamente ao loiro sobre essa história de Martha Jaeger e ele ouvia tudo com bastante atenção. Claro que ficara tão abismado quanto eu por pensar que a família do Eren ainda estava por aí, mas também, não acreditou muito logo de cara, uma reação óbvia, eu mesmo não teria acreditado se não tivesse visto o rosto dela...
– Hum... Tia do Eren. Irmã do doutor Grisha... Eu preferia ver com meus próprios olhos para constatar. Mas como você mesmo está dizendo com tanta certeza assim... – Erwin coçou o queixo, pensativo.
– Na verdade... – Abaixei o olhar, passando a fitar o chão. – Bem... Eu... Eu ainda não queria acreditar nisso. – Falei. – Eren tem uma tia legítima... Ainda não digeri isso. Por isso quero fazer o teste.
– Hm... – Erwin encarou-me sério. – No fundo, você ainda não crê que ela seja tia dele, então?
– Talvez... Mas quando eu vejo o rosto dela... É um tanto impossível não acreditar que ela não seja parente do Grisha.
– Entendo... Então, você está com medo de ela ter direito à guarda do Eren em prioridade a você?
– Ah... – Arregalei os olhos, ainda fitando o chão. Apertei os punhos só de pensar nessa possibilidade. – Erwin... No nosso país, eu sou legalmente o responsável pelo Eren, não? Acima de qualquer um, até mesmo de parentes... não é?
– Hum... sinceramente eu não sei. – Respondeu. – Mas sei que um documento como o que você tem, assinado pela própria mãe da criança, tenha um valor muito alto juridicamente. Mas, creio que essa mulher terá direto de ser responsável dele também, caso seja confirmado que ela é de fato a tia.
– Tsc! – Senti uma pontada em meu peito ao ouvir isso.
– Mas... isso só se o Eren quiser, eu acho. Caso contrário, creio que perante a lei, ele continue na sua responsabilidade.
– ... – Fiquei ainda um tempo só nos pensamentos antes de responder algo. – Mas isso só se ele tivesse mais de dezoito anos, não? Ele ainda é de menor, Erwin.
– Olha, resumindo... Você ainda quer fazer esse teste? Ver a confirmação com seus próprios olhos?
Permaneci calado por um tempo apenas repensando esse assunto... Um lado meu até pensou em desistir, mas outro me mostrou a voz de Eren novamente dizendo aquelas coisas...
“Levi... s-se está achando que eu vou morar com Martha... Pode esquecer.”
“Até parece que eu aceitaria algo assim. Como você mesmo disse, acabei de conhecê-la!”
“Essa ideia nunca me passou pela cabeça. Acha que eu tenho coragem de ir pra algum lugar sem você? Nunca que eu vou te deixar...”.
Lembrar dessas palavras me fez abrir um sorriso tímido. Isso novamente me aqueceu e fez com que eu parasse de pensar paranoias e encarar esse problema de frente.
– Sim... Quero fazer o teste e ver o resultado com meus próprios olhos.
Nada vai me tirar o Eren! Nem Kenny, nem tia nenhuma!
– Oh, essa expressão é bem melhor. – Erwin voltou a sorrir.
– Estava me testando por acaso? – Perguntei irônico, pois ele era de fazer isso.
– Hum... Não.
– Bem... Agora apague as fotos minhas que a quatro-olhos maldita te mandou, que eu tenho certeza que era disso que você tava rindo, loiro abusado!
~*~
Não demorou muito para Eren chegar junto de Martha. Ela, como da última vez, usava um vestido longo e botas de montaria, além de não largar mão de um sorrisinho simpático que para mim parecia tão falso quanto nota de três euros. Eu os encontrei na recepção.
– Levi!! – Eren correu até mim e me abraçou de forma bem agitada. Quase me fez cair para trás.
– Ei, garoto. – Abracei-o de volta, mas não demos nenhum beijo. Não era por estarmos em público, agora nem eu e nem o Eren ligávamos mais de nos esconder. O problema era a Martha, pois ela sabe a minha idade e a do garoto, e ela pode querer implicar com isso se soubesse da nossa relação.
– Olá, Levi. É um prazer vê-lo novamente. – Disse ela, sorrindo sem parar.
– Hm... O prazer é meu. – Respondi da minha forma indiferente.
– Que belo hospital! É enorme e limpo. – Elogiou Martha.
– É que aqui é hospital de cidade grande.
– Bem, então como é que vai ser esse exame? – Eren perguntou curioso.
– Vou levá-los até o Erwin. Ele é quem coletará amostra de vocês dois e levará pra analisar no laboratório.
– Será de sangue? – Perguntou Martha.
– Sim. Pensamos em usar fio de cabelo, mas o Erwin acha que tem mais precisão quando é de sangue, então, vamos. – Fiz sinal para que os dois me seguissem, Eren logo ficou branco.
– M-mas... De sangue? Não quer meu cabelo? Isso mais rápido de coletar!
– Eren... Relaxe. – Tentei acalmá-lo. – É só uma picada. Não vai doer muito, eu prometo. – Disse de forma firme e confiante. Sei bem que Eren tem medo de agulhas, não tanto como quando era criança, mas tinha.
~*~
Eren
Já de volta ao nosso apartamento, eu acabara de tomar um bom banho quente e agora terminava de secar o cabelo só com a toalha, quando eu usava secador ele costuma ficar bem bagunçado.
Olhei-me no espelho e dei um suspiro de alívio, parece que agora eu finalmente conseguiria relaxar. Fiquei boa parte do dia apenas andando a pé, seja dentro do shopping ou pela cidade. No final das contas, procurei e procurei por um presente de cabo a rabo e não encontrei nada. Sinceramente eu já estava sem esperanças de achar algo diferente para dar ao Levi. Mas quando estava a caminho do hospital com a minha tia, vi um banner que me deu uma ideia. Era meio simples, mas achei legal, logo entrei na pequena lojinha embaixo do tal banner e encomendei o presente dele. Espero que ele goste... com certeza era algo meio comum, mas somente eu iria dar daquele jeito. Provavelmente amanhã já estaria pronto.
Agora estava tranquilo, o presente do Levi era o último que faltava. Já comprei para Hanji, Erwin, Mike, Armin e Mikasa. Como eu não tinha muito dinheiro, sempre me limitei a presentear apenas essas pessoas, mas quando eu estiver trabalhando, darei presentes a mais gente. Talvez até ao Jean... Posso não suportá-lo em diversos momentos, mas ele era mais meu amigo do que uma porção de gente daquela escola.
Agora, depois de dar uma ajeitada no meu cabelo ainda úmido, comecei a me vestir. Coloquei apenas minha camisa e calça de moletom velho, que poderia ser chamado de pijama. Por questão de costume passei meu perfume também, mesmo que não fosse mais sair de casa.
Me perguntava se estava tudo bem minha tia ir voltando assim a esta hora da noite para sua casa no interior. Afinal, ela mesma disse que é perigoso para mim, imagina para ela, que parece ser uma camponesa desacostumada com movimento urbano... Bem, mas a deixamos na estação de trem, ela não pegaria nenhuma outra condução, então acho que ficaria tudo bem. Também comecei a refletir que ela perguntou várias vezes se eu queria ir até sua casa hoje mesmo. Mas recusei todas as vezes e sempre lembrava que fim de ano era meio puxado, afinal, o Natal já seria daqui cinco dias e logo depois viajaríamos para a praia no ano novo. Então, disse à minha tia que poderia visitá-la quando eu voltasse em Janeiro. E bem... Ainda nem falei nada disso com o Levi. Será que tudo bem para ele?
E também eu estava ansioso pelo resultado do teste de DNA. Tio Erwin mandaria uma mensagem a Levi mais tarde dizendo no que deu. Bem, outra coisa que me preocupou era a forma como Levi olhava Martha. Eu percebi bem o quanto ele estava cismado com ela... Será que ele estava tão inseguro assim? Bem, seja como for, mesmo confirmado medicamente que Martha é minha tia, nada mudaria entre nós, será que ele ainda não estava confiante nisso?
Talvez eu devesse mostrar a ele o quanto é e continuará importante na minha vida. E que nunca que eu o deixaria...
Ouvia o som do chuveiro ainda ligado. Levi realmente demorava um pouco em seus banhos. Ao menos, ele sempre ficava mais relaxado depois de uma boa ducha de água quente...
Comecei a pensar coisas... Oficialmente ele estava de férias, então, ele não acordaria cedo amanhã, certo...? Será que... se eu tomar a iniciativa, ele topa “relaxar” um pouco mais comigo hoje? Afinal... não terminamos aquilo que começamos no carro do Mike no outro dia... E eu estava com vontades...
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