Redenção

9 Capítulo 08


Notas iniciais
Como a net está brincado de "Vivo/morto" Não posso falar com vocês agora.

POV OLIVER

Esperei Felicity descer atrás de mim com um movimento suave e logo me apressei em acompanha-la. Ela retirou o capacete e deslizou os dedos por entre os fios dourados colocando seu cabelo em ordem, parei de encara-la feito um bobo e me apresei em tirar o meu colocando os dois junto à moto, ela me lançou um olhar tímido e cheio de dúvidas antes de se virar encarando a ampla vista. Eu não estava acostumado a vê-la assim, tímida, estava acostumado a Felicity cheia de atitude que não recuava seu olhar quando eu a encarava, mas eu a estava confundindo e não poderia tirar sua razão em ter receio, provavelmente seria melhor para nós dois enquanto ela se mantivesse afastada, mas hoje não, por apenas um dia... Uma noite na verdade, eu estava disposto a não agir como um completo canalha perto dela, por esta noite eu estava deixando os muros que construí ruírem, ou ao menos foi o que me permiti acreditar.

– Nossa. – Exclamou olhando para as luzes da cidade. Eu havia parado apenas para comprar um lanche que havia trazido conosco e a trouxe para um mirante, eu costumava vir aqui quando precisava colocar minha cabeça no lugar, era um pouco afastado da entrada da cidade, a vista era incrível, havia por perto um bar de estrada, mas que não era muito frequentado, e apenas alguns poucos metros de onde estava, tomando uma pouca distância do bar havia um banco. Peguei a sacola com nossa comida que ainda estava pendurada na moto e parei de fitar seu rosto admirado, aproximei-me dela e peguei levemente em sua mão antes de recuar, ela me encarou confusa, mas tentei atenuar meu desconforto com um pequeno sorriso, então apontei com o queixo o banco.

– Vamos nos sentar. – Sugeri. Ela assentiu e me seguiu, esperei que ela tomasse seu lugar primeiro, ela sentou-se recolhendo suas pernas e cruzando um tornozelo sobre o outro. Sentei ao seu lado tomando certa distância. Eu não me permitia me aproximar muito.

– Como você descobriu esse lugar? – Perguntou enquanto eu a entregava as embalagens de seu lanche.

– Nenhuma teoria? – Perguntei tentando desviar da pergunta.

– Yep. – Sorriu. – Eu imagino um Oliver jovem trazendo suas “amigas de foda” aqui. – Murmurou hesitante, era quase como se estivesse sondando. Queria saber se isso realmente era verdade. Tentei ocultar a decepção que sua teoria havia trazido, mas ao que parece ela pegou algo em minha expressão. – Não?

– Se isso fosse verdade eu não a teria trazido aqui. –Murmurei bruscamente. Ela piscou surpresa, talvez não com meu tom bruto, a essa altura Felicity já estava acostumada com minha atitude arredia, ela parecia surpresa com o que eu disse.

– Então por que você não me responde? – Perguntou em tom suave.

– É pessoal. – Murmurei curto.

– Eu sinto muito Oliver, mas eu não sei como lhe abordar. – Confessou. – Pensei que esse seria um tema seguro, estava com medo de fazer outras perguntas que acabassem lhe irritando, por que obviamente você é fechado, eu não sei muito sobre você, ou pouco que sei é contado por outras pessoas, nem tudo é favorável e não sei até que ponto verdadeiro.

– Não procure algo favorável em mim, não procure partes boas. – Murmurei sincero. – Você estará decepcionando a si mesma, as coisas que ouviu pode não ser todas verdadeiras, mas a maioria o é e há coisas que você não sabe que são piores. – Ela me encarou com expectativa. – O Oliver mulherengo, o que fode uma mulher diferente a cada dia, às vezes mais do que uma, esse Oliver não é algo inventado, eu sou um canalha Felicity, eu não me importo com os sentimentos dessas garotas, eu não estou nem um pouco preocupado com elas, esse Oliver você conhece, não há bondade nele e se você for fundo descobrirá que esse é o menor dos meus defeitos.

– Eu não entendo por que insistiu que eu subisse na moto se vai ficar me afastando. – Murmurou olhando para frente, evitava me encarar. – Se vai ficar me incentivando a te odiar por que perder tempo me trazendo até aqui?

– Eu quero passar um tempo bom com você. – Sussurrei sincero, seu olhar alcançou o meu, me absorvendo. – Não queria chatear você.

– Eu apenas não sei como agir. – Deu de ombros. – Você não é muito aberto.

– Nem você. – Retruquei. Ela meneou a cabeça em negativa. – Tudo o que eu sei sobre você é seu nome e que é filha do meu mentor. – A interrompi. – O resto... São só partes de histórias pegadas através de outras pessoas.

– Podemos brincar um jogo. – Falou. Não pude erguer uma sobrancelha em resposta, todos os jogos que passaram em minha mente no momento a deixariam aturdida e profundamente embaraçada, se ela pudesse saber o que se passava. Mais uma vez ela foi capaz de pegar algo em minha expressão por que um sorriso se estendeu em seus lábios e ela meneou a cabeça. – Eu posso imaginar o que se passa em sua mente, você deveria ter vergonha de sua mente perversa.

– Eu me orgulho do quanto posso ser criativo em jogos. – Falei antes que pudesse frear minha língua que não tendia a se policiar. Ela me lançou outro olhar irônico e eu me concentrei em me controlar. – Está bem, de que jogo você está falando?

– Estabelecemos uma quantidade de perguntas. – Explicou. – E somos obrigados a responder, o bom senso de cada um irá limitar o tipo de pergunta. – Continuou. – Sinceridade não é uma escolha, é obrigatória. O que você acha? – Hesitei. Eu temia o tipo de pergunta que ela poderia fazer, havia coisas que eu não queria e não podia revelar, eu queria ser sincero, mas se ela escolhesse alguma pergunta que invadisse um terreno perigoso, eu teria que contornar.

– Você tem certeza? – Perguntei ainda hesitando, ela ergueu uma sobrancelha fazendo-me perceber que havia sido uma pergunta tola, eu não gostava de ter que revelar parte de mim, mas tinha que admitir que a ideia de conhecer mais sobre ela... Através dela, era tentadora.

– Cinco perguntas. – Cedi.

– Vinte. – Retrucou.

– De jeito algum. – Meneei a cabeça. – Daqui a pouco esperava que eu escreva um livro sobre minha vida.

– Cinco perguntas mal dão para sair das perguntas banais. – Argumentou.

– Não. – Voltei a negar inabalável. – Curta suas fritas.

– Oliver. – Suspirou. – Está bem, quinze perguntas. – Barganhou.

– Dez e é tudo o que posso lhe oferecer. – Sorri com seu olhar ferido encenado.

– Feito. – Concordou. – Eu tenho direito a lhe fazer dez perguntas e você é obrigado a respondê-las. – Lembrou-me erguendo um dedo, a provoquei lhe dando um tapa leve no dedo.

– Lembre-se que também terá que responder as minhas. – A provoquei.

– Eu não tenho nada a esconder grande ogro, e você? – Perguntou.

– Essa já está contando? – Perguntei de volta. Ela meneou a cabeça em negativa. – Então não preciso respondê-la.

– E ainda assim é uma resposta. – Falou em tom baixo.

– Exato. – Concordei roubando uma batata frita sua. – Agora, você quer começar? – Sorriu e assentiu com expectativa. – Mande o seu pior princesa.

– Hummm. – Mordeu o lábio em quanto pensava. – Ok. Primeira pergunta: Qual a sua cor favorita?

– Eu não acredito. – Meneei a cabeça, estava incrédulo com sua pergunta. – “Qual a sua cor favorita?” Sério? Não é a toa que você precise de vinte perguntas, uma para a cor, outra para o café da manhã preferido, outra para o tamanho da minha camisa...

– O quê? – Interrompeu em meio a uma risada. – Eu quero começar de leve. – Defendeu-se. — Agora me responda.

– Verde. – Respondi automaticamente, ela me encarou com o cenho franzindo. – O quê? Resposta errada?

– Eu nunca o vi de verde. – Deu de ombros. – Sempre usa branco, ou preto, até mesmo já o vi de azul. Nem mesmo em casa temos qualquer coisa na cor verde.

– Há uma regra onde eu tenha que estampar minha cor preferida no meu rosto? – A provoquei.

– Bruto. – Retrucou. – Você vai me perguntar algo ou não?

– Eu não sei, eu sou terrível com perguntas. – Confessei. – Eu quero saber mais sobre você, mas não sei qual pergunta eu deveria fazer.

– Pergunta qual minha cor favorita. – Brincou.

– Vamos deixar as perguntas estúpidas para você. – Senti meu ombro ser empurrado e não pude evitar sorrir com seu gesto. – E eu já sei a resposta para isso.

– Huh?

– Você não tem cor favorita. – Respondi. – Você é uma fã de cores, gosta de todas as cores e estampas, você é muito feminina, mas por alguma razão não tem usado vestidos, e eu sei que você tem vários deles por que já entrei no seu quarto...

– Você bisbilhotou minhas coisas? – Interrompeu-me.

– Sara. – Respondi. – Quando você não era mais do que uma bêbada inconsciente e ela pensou em vestir algo mais leve em você, quando ficou claro que seu pai não sairia do seu quarto ela desistiu, assim como eu. Essa conta como uma pergunta? – Perguntei incerto.

– Não. Por que não era minha vez, e eu precisava saber até onde você bisbilhotou minhas coisas. – Argumentou.

– Eu não cheguei a ver suas calcinhas, infelizmente. – Ela recebeu a provocação com um olhar impaciente.

– Quando chegaremos a sua pergunta? – Tentou prosseguir. – Não que eu ache que você precise fazer alguma, já que sabe de todas as respostas apenas me observando.

– Não tudo. – Neguei. – Eu não entendo muito sobre você e seu pai por exemplo, eu não entendo o relacionamento de vocês dois, todos se surpreenderam por ele ter filhas, pelo que entendi alguns sabiam sobre Nyssa, mas você foi uma surpresa total.

– Ainda esperando sua pergunta. – Seu humor tinha diminuído a menção do seu relacionamento com Ra’s, eu quase me arrependia de falar algo, mas eu sabia que ainda que não gostasse do tema, ela não fugiria, ela havia sugerido o jogo, ela não poderia voltar atrás.

– Como você conheceu seu pai? – Perguntei por fim. – Pelo o que pude observar de vocês eu posso deduzir que você nem sempre esteve com ele.

– Quem diria que o Al Sahim prestava atenção em algo além dos seios de uma mulher. – Comentou antes de levar o copo de refrigerante que havia até o momento deixado de lado aos lábios. – Você não deveria começar pelo mais fácil? – Questionou-me em um sussurro que me dizia que não esperava de verdade por uma resposta. – Você está certo, nem sempre estive com meu pai, a verdade é que desde o momento em que nasci até completar meus quinze anos tudo o que eu tive foi minha mãe, tínhamos uma a outra e éramos felizes assim, ao menos era o que eu pensava, então cerca de um mês antes de completar quinze, um pouco mais talvez, eu estava voltando para casa e encontro esse homem saindo de nossa varanda e minha mãe completamente descontrolada, ela estava chorando, o cara era um credor, minha mãe tem muitos amigos, inúmeros na verdade, mas ela não tem nenhuma família, fora eu é claro, ela me criou completamente sozinha com um salário medíocre de uma garçonete em Vegas, eu era nova, não era completamente ciente das dívidas que tínhamos, mas era ciente que ela dava muito duro pegando vários turnos, eu nunca tive uma babá contratada, mas esses amigos da minha mãe atuaram como tal, cada dia era um diferente, sempre me adequando ao seus horários. Eu acho que foi nesse dia que ela rompeu, a realidade explodiu, ela queria me ver em uma faculdade, não atrás de um balcão de bar, ela queria o melhor para mim, então ela me contou sobre meu pai, não era a primeira vez que ela falava sobre ele, mas foi a primeira vez que ela deu um nome à figura ausente, eu fiquei surpresa, não como eles se conheceram, minha mãe nunca soube escolher bem seus relacionamentos, sempre fui ciente da sua natureza apaixonada, então eu ser o resultado de uma noite entre ela e um lutador não foi exatamente um choque, mas fiquei surpresa e confusa por ter sido escolha dela me esconder, sempre deduzi que ela havia falado com o cara e ele simplesmente resolvera não assumir sua responsabilidade. – Suspirou. – Poucos dias depois ela de alguma forma o encontrou, ligou para ele e falou sobre mim, então tudo virou de cabeça para baixo, Ra’s apareceu dono do meu mundo e disse que me levaria.

– Eu acho que agora não posso mais te chamar de princesa. – Murmurei tentando deixa-la mais a vontade e tirar a tristeza que havia assumido em seu semblante. Funcionou, um pequeno sorriso surgiu.

– Ambos sabemos que você nunca irá parar de me chamar assim. – Disse erguendo seu olhar até o meu. – O que me deixa chateada é que foi ideia dela, de me levar. Ra’s queria me conhecer, mas eu a escutei dizendo que não poderia mais seguir assim, que ele teria que me levar, que era o melhor a ser feito. Eu me fechei, zangada com a interrupção de um pai que sequer me conhecia e magoada com a atitude de uma mãe a quem amei por toda uma vida. – Um novo suspiro se fez audível ela se endireitou forçando um outro sorriso e virou-se ficando mais próxima de mim. – Agora é minha vez. Eu ainda tenho direito a nove perguntas.

– Oito. – A corrigi. – Você perguntou se bisbilhotei suas roupas.

– E ambos concordamos que não contou. – Retrucou.

– Eu não me lembro disso. – Neguei.

– Você sequer consegue lembrar o nome das garotas com quem transa. – Ergueu uma sobrancelha. – O que me leva a segunda pergunta: Você não acredita em um envolvimento sério entre homem e mulher? Acha realmente que tudo se resume a sexo.

– Começo a sentir falta da primeira pergunta. – Debochei. – Eu não sei Felicity, eu acho que não é uma lei universal, não são todos os relacionamentos ou apenas casos que se resumem a algo tão banal como sexo, mas eu acho que todos partem dessa premissa, confiança, companheirismo... Parceria, é sim possível, não sou tão cético assim, eu só acho que não sou o tipo de pessoa que tem isso.

– Por que você as trata como lixo. – Argumentou.

– Eu as trato como elas desejam ser tratadas. – Meneei a cabeça. — Ninguém quer namorar comigo, ninguém está interessado em conversar, em saber como eu sinto, elas vêm até mim porque querem sexo, e sexo é tudo o que posso oferecer, depois de lhe dar isso elas se envolvem com o modelo de homem perfeito, o cara que irá poder te levar em casa todo dia, que assistirá filmes com você, aquele que será atencioso e fará do seu mundo o dele, eu não sou assim, eu não posso ser assim, ter alguém leal, uma companheira, é possível, apenas não para mim, eu não acho que mereça. – Observei em seus olhos o desejo de falar algo, argumentar contra, mas nem mesmo Felicity poderia ir contra o que eu havia dito, eu não era o “Sr. Perfeito” e ela sabia disso, eu não o tipo de homem que uma filha apresenta ao seu pai, eu era o tipo de homem que o pai alerta a sua filha. Eu era todo errado, ser mulherengo era o menor dos meus defeitos. – Ok, minha vez: Por que medicina?

– Talvez eu goste de ter um “Drª” antes do meu nome. – Murmurou aceitando a mudança com humor. A encarei com descrença. – Suponho que Sara tenha lhe dito meu curso? – Perguntou-me recebendo um aceno afirmativo. – Eu queria dizer que foi pensando em um bem maior, queria falar que alguém próximo me fez pensar em seguir uma carreira na qual eu salvaria vidas, mas o motivo é bem mesquinho, um pouco de comodismo em ter algo seguro, meu QI é alto, sempre me dei bem na escola, eu poderia escolher qualquer curso, eu queria também impor distância entre meu pai e eu, com dezoito anos eu já estava um pouco mais próxima de Nyssa, mas sempre me mantive mais afastada dele, então tive a impressão que ter um bom curso me permitiria afrouxar um pouco mais as amarras. Eu não tinha mais interesse em me aproximar da minha mãe, até agora hesito em fazer chamadas para ela, eu queria uma nova vida, e medicina parecia ser o certo. E você, por que ser um lutador?

Fiquei rígido diante sua pergunta, ela implicava mais do que eu estava disposto a dar. A razão que eu havia me tornado lutador era como uma sequência de dominó caindo em fileiras, uma coisa levou a outra.

– Seu pai me deu a oportunidade e eu aceitei. – Optei por responder não conseguindo ocultar certa aspereza, ela me encarou com dúvida.

– Há mais por aí. – Murmurou. – Meu pai lhe deu a oportunidade, ok, mas o que o levou até ele, o que fez com que você se tornasse um lutador. A querer ser um.

– Felicity...

– Você prometeu ser honesto Oliver. – Murmurou me interrompendo.

– Eu faço isso de vez em quando princesa, eu faço promessas que não posso cumprir. – Falei agora sem nem ao menos tentar esconder meu tom ríspido. – Eu as quebro.

– Foi isso que aconteceu? – Insistiu. – Você prometeu algo a alguém?

– Não me empurre Felicity. – Pedi.

– Você diz que ninguém quer te conhecer realmente, mas eu estou aqui. – Murmurou. – Eu quero saber mais do que sua cor favorita, eu lhe fiz uma pergunta simples e mais uma vez você está sendo esquivo, não é que você não possa ser honesto, você não quer ser honesto, a confiança, parceria, o companheirismo dos quais você falou antes... Você os quer para si, mas você não se permite ter por que com a mesma intensidade que você deseja ter alguém assim para você, você teme perde-la.

– Eu não gosto de psicologia barata. – Murmurei me erguendo. – Você diz que quer me conhecer, mas isso é mentira, você não quer realmente me conhecer, eu já disse a você que o que está na superfície nem se compara ao que está no fundo, eu posso lhe dar uma coisa ou outra, ou apenas poderia contar toda a verdade e assim por fim conseguir mantê-la afastada de mim, eu sei que você tem essa ideia de que sou algo além da casca dura, além de uma máscara bonita, mas eu não sou, você quer enxergar algo bom em mim, quer algo que explique essa suposta ligação que você mesma criou em sua mente, eu posso afirmar que não há nada de bom, e lhe explicar que não passa de atração.

– Não fale em suposta ligação, eu nunca pensei em algo assim. – Negou. – Não fui eu que fui atrás de você Oliver.

– Apenas você tem direito a ficar confusa? – Perguntei colocando minhas mãos nos bolsos. – Você é diferente, eu posso assumir isso, eu estou curioso e confuso como o inferno, eu quero saber mais sobre você tanto quanto desejo te levar para cama, eu estou bem comigo mesmo ao ponto de assumir que você fez um estrago na minha cabeça, mas ainda assim eu estou ciente de que nós dois não podemos ser mais do que uma ideia, Oliver e Felicity não foi feito para acontecer.

– Eu nunca te pedi nada semelhante. – Meneou a cabeça.

– E ainda assim eu me vejo querendo lhe dar. – Confessei.

– Seria assim tão ruim Oliver? – Perguntou-me inquieta. – Envolver-se comigo?

– Não para mim. – Não precisei acrescentar nada mais, ela sabia que eu me referia ao contrário, que seria terrível para ela.

– Eu sinto muito se fiz um estrago em sua mente Oliver. – Murmurou se levantando. – Mas a verdade é que você fez o mesmo comigo. – Aproximou-se ficando em minha frente, seus olhos tão perto que ficou impossível não ler a fragilidade neles. – Você não é o único confuso como o inferno. – Respirei fundo assimilando o que dizia, ela suspirou com desânimo mostrando até mesmo desgosto. – Leve-me para casa, o jogo acabou.

– Não faça isso. – Pedi segurando seu braço. – Eu estava gostando de nossa conversa.

– Até o momento em que pisei em seu calo. – Retrucou. – O mais frustrante é que eu nem sei exatamente no que errei. Eu não posso seguir esse jogo Oliver, eu não posso ficar dando de mim, não quando você não pode fazer o mesmo, o melhor é voltarmos. – Murmurou antes de se afastar indo em direção à moto. Fechei meus olhos brevemente. Incerto do que realmente deveria fazer e inquieto, eu não queria que voltássemos, no momento em que pisássemos no apartamento voltaríamos a agir como antes, em uma fria bolha onde seriamos extremamente educados um com o outro, começaríamos a nos evitar.

– Minha irmã. – Murmurei fazendo com que ela parasse abruptamente. Ela voltou-se me encarando com uma interrogação em sua expressão. Caminhei de volta até o banco e esperei que ela se aproximasse, não havia mais o bom humor om que chegamos, mas esperava que pelo menos ainda fosse movida pela curiosidade. – Ela está morta, ela fez uma série de escolhas erradas que a levou a morte, eu tinha apenas ela, minha mãe tinha problemas com álcool e se envolvia com qualquer um que pudesse contribuir com seu vício até que a levou a morte. Thea era tudo o que eu tinha, eu não fiquei muito bem depois que ela morreu, uma bagunça na verdade, um completo desastre, fiz minhas próprias escolhas erradas, pesadas, escolhas que me levaram até seu pai, ele me estendeu a mão quando eu não merecia, me deu conselhos e me apresentou a possibilidade de ser um lutador, eu não aceitei de primeira, sempre fui muito orgulhoso, mesmo quando muito novo então voltei a fazer as coisas erradas que eu estava acostumado, até o momento em que atingi o fundo do poço e percebi que não podia seguir assim, então eu me lembrei de Ra’s eu fui até ele, e pedi uma nova oportunidade, ele me apresentou Diggle e ambos me fizeram o lutador que sou hoje, foi assim que eu me tornei um lutador.

– Sinto muito. – Murmurou. Assenti imaginando que lamentava pela morte de Thea ou por sua pergunta ter gerado uma resposta que ela não esperava.

– Está tudo bem. – Dei de ombros, se eu fosse sincero comigo mesmo eu admitiria que não estava nada bem, mas eu não estava pronto para admitir. – Pensar em sua morte já não tem o mesmo impacto que antes.

– Eu não lamentei pela morte de sua irmã, é triste e algo a ser lamentando sim, mas não foi por isso. – Murmurou parecendo está com vergonha por não ter sido essa a razão. – Eu sinto muito, por ter perdido a si mesmo na perda de sua irmã. – Esclareceu.

– Você deveria estar me fazendo novas perguntas. – Comentei desconcertado. – Deveria perguntar quais foram as coisas erradas que eu fiz, quais foram minhas escolhas. Não deveria estar sentindo empatia agora.

– Eu não tenho ideia das coisas que você fez Oliver. – Sussurrou. – O que eu sei é que você lamenta ter feito e que meu pai sabendo ao menos o tipo de coisa que fez lhe deu uma chance, eu posso chama-lo de muitos nomes, mas nunca estúpido nunca esteve entre eles, ele sabia o que estava fazendo e que você merecia uma chance. Eu poderia fazer mais perguntas, insistir em ir mais ao fundo, mas eu não quero.

– Não?

– Eu sinto que quando for o momento você mesmo me dirá. – Deu de ombros. – Ou não, mas será você a decidir, então quando ou se você fizer eu tentarei não julga-lo, por que eu acho que você já se julgou o bastante. – Estendeu sua mão, a encarei confuso. – Está na hora de me levar para casa. – Ainda confuso e um pouco contrariado alcancei sua mão e me aproximei à medida que ela me puxava, por um momento me concentrei no toque de sua mão e me distrai, então notei que estava fria, usava blusa com mangas longas, mas o material era fino.

– Você está congelado. – Murmurei apertando sua mão, ela olhou para nossas mãos unidas com o cenho franzido.

– Um pouco. – Confessou. – Assim que chegar em casa vou tomar um banho quente. – Suspirei com sua declaração e soltei minha mão da sua para tirar minha jaqueta. – Não seja idiota Oliver, você vai receber mais vento frio do que eu.

– Eu não me importo. – Murmurei estendendo a jaqueta, ela me deu as costas com um suspiro exasperado, mas me permitiu ajuda-la a vesti-la, quando tornou a se virar concentrei-me em puxar o zíper a fechando. – Pronto, vamos para casa. – Recebi um último aceno seu concordando, mas quando subi na moto e coloquei meu capacete ela recuou lembrando-se de jogar fora a comida que mal foi tocada, quando por fim subiu não foi preciso que eu fizesse algum movimento, senti suas mãos entrelaçarem em volta de mim e seu corpo se aderir mais firmemente ao meu, eu gostava de senti-la contra mim, o problema era que esse pensamento levava a outros menos inocentes e mais pecaminosos, indiferente da direção que nossa conversa tomou eu já tinha em mente que no dia seguinte não faríamos outra coisa se não nos evitarmos e ocasionalmente nos provocarmos. Então até o fim da noite eu tinha uma liberdade com ela, certa intimidade, mas por mais tentando que eu estivesse eu não poderia toca-la.

– Eu não tinha me dado conta que havia uma entrada nos fundos da academia. – Murmurou enquanto subia as escadas comigo. – Você manteve sua moto lá todo esse tempo?

– Não. – Neguei abrindo a porta do apartamento e permitindo que passasse. – Eu não tinha pegado ela até hoje, oficialmente ela ainda estava na oficina, um amigo meu, colega na verdade, fez alguns reparos nela, eu deveria ter pego antes, mas nunca tinha visto necessidade, eu também não tinha certeza se ela caberia nos fundos até que a coloquei agora.

– Entendo. – Assentiu, ela caminhou até o corredor e eu a segui, quando parou em frente à porta de seu quarto nenhum de nós dois sabíamos o que dizer ou como agir. – Então, obrigada pelo passeio.

– Eu não queria que tivesse sido assim. – Confessei. – Era para ter sido divertido, uma trégua e eu a chateei.

– Você não me chateou. – Negou rapidamente. – De uma forma ou de outra você foi o que eu pedi, honesto. – Aproximei-me concentrado em seu rosto. – Você foi honesto em relação a mim, e sobre seu passado, mas eu ainda acho que você mentiu sobre sua cor. – Brincou.

– Eu não mentiria sobre algo tão importante como a minha cor preferida. – Murmurei com um sorriso, o sorriso que veio em resposta fez com que fosse impossível que eu não deslizasse meu polegar em seu lábio inferior e segurasse seu queixo, ela segurou sua respiração e pude notar que seus olhos brilhavam com expectativa. – Feliz aniversário, princesa. – Murmurei antes de erguer seu queixo e descer meus lábios até os seus, era para ter sido algo rápido e leve, mas provar seus lábios nunca seria algo tão simples e fugaz, não quando em vez de recuar suas mãos envolveram o tecido da minha camisa na região do meu abdômen e me atraiu ainda mais para si, então de um mero contato de lábios passamos a um beijo profundo, minha mão por vontade própria deslizou por suas costas até sua bunda e atraí ainda mais para mim, sua língua movia-se atrevida junto a minha. Beija-la era como uma amostra do céu mesclada ao inferno, começava como algo sutil inclusive inocente e em poucos instantes passava para algo totalmente pecaminoso, incontrolável e desejável, seu beijo era uma porta para muito mais. Reuni toda a minha força de vontade e o pouco controle que me restava e me afastei de seu abraço apaixonado, seus olhos estavam confusos quando me encararam, mas havia também um leve toque de malícia e diversão.

– Eu pensei que você não me tocaria hoje. — Observou com um pequeno sorriso de canto. – Eu acredito que recebi uma promessa sobre isso.

– Não foi mais do que uma carícia. – Murmurei a surpreendendo. Seu sorriso se ampliou, não havia desconforto no que havia acontecido. – Boa noite princesa. – Murmurei antes de recuar até minha própria porta.

– Oliver. – Chamou-me, seu semblante não exibia mais diversão, na verdade me impressionou com a seriedade que havia em seus olhos nesse momento. – Com tudo o que aconteceu eu não tive aquelas dez perguntas, nem mesmo você teve, mas eu estava pensando se poderia fazer apenas mais uma, você não precisa responder se não quiser.

– Você pode. – Falei incerto se essa era realmente uma boa ideia.

– É apenas algo que minha irmã falou hoje com Sara, mas que eu não havia dado muito crédito. – Confessou. – Até o momento eu não tinha percebido quão certa ela poderia estar e que eu estava sendo impudente e até mesmo um pouco ingênua ao achar que não era passível disso. – A forma com que falava me fez ficar inquieto, algo a estava chateando. – Se nós tentássemos levar isso adiante, se tentássemos fazer “Oliver e Felicity acontecer”... Eu não sei, mas eu acho que ela poderia está certa. – A encarei esperando por sua pergunta, seus olhos encontraram os meus com receio, eu imagino que ela já imaginava minha resposta e era justo isso que a chateava. – Você vai quebrar meu coração, não vai? – Sua respiração em suspenso mostrava o quanto a pergunta a perturbava, perturbava até mesmo a mim, por que eu era incapaz de dar a resposta que ela na realidade esperava.

– Eu queria dizer que não. – Respondi por fim, com um gosto amargo em minha boca quando o disse, ela assentiu já ciente que a resposta não seria muito diferente do que essa.

– Mas não faria tudo ter valido a pena? – Questionou me surpreendendo, eu não tive uma resposta imediata para isso, nem ela esperou, tão logo proferiu a pergunta escutei sua porta sendo fechada tirando-me do meu estupor.

Quando deitei em minha cama suas palavras dominavam minha mente. Eu não conseguia me livrar do inquietante “se”, mas voltando para nossa conversa no mirante eu percebia que o “se” nunca seria mais que uma possibilidade e nunca passaria a algo real, por eu não pude ser sincero com ela esta noite, não 100%. Eu falei que havia feito coisas erradas, mas nunca disse o que eram, eu não merecia alguém como Felicity Smoak, não quando não poderia lhe dar a honestidade que pedia, quando não fui capaz de dizer que entre os vários erros cometidos por mim, das várias escolhas mal feitas, havia uma de que eu não me arrependia que foi a de matar o filho da puta que assassinou minha irmã.

Notas finais
Espero que tenham gostado, peço desculpas pela demora e fico no aguardo nos comentários, Xoxo LelahBallu.