—Eu creio que você pode começar a dizer alguma coisa, Thor, — avisou Steve enquanto observava a interação dos irmãos.

Thor e Loki estavam há algum tempo em silêncio, somente se encarando a uma distância considerável, sob a vigilância dos três vingadores.

—Agradeço, amigo Rogers, — disse o guerreiro, — mas eu avisei que teria algo em particular para falar com meu irmão. Coisas confidenciais de Asgard.

Tony, que estava em pé e em alerta, olhou para Loki. – Ficará muito desconfortável com ele a sós? Podemos estar aqui do lado, em outro cômodo. Qualquer coisa, só chamar.

—Eu não acho boa ideia, — disse Bruce incomodado. – Ele pode fugir com Loki.

Thor olhou para ele e começou a rir. – Não sou desonroso, doutor. Sou um príncipe de Asgard e não ajo pelas costas.

Loki suspirou e disse altivamente: – Tudo bem, acho que eu posso ter essa conversa com ele. Eu chamarei, se precisar.

—Loki... – pediu Steve.

—Eu ficarei bem.

Com relutância, os três vingadores se retiraram do local. Tony foi logo ao outro cômodo, um pouco distante, e pediu a Jarvis para ligar um monitor. – E deixe o áudio também.

Bruce observava as imagens que surgiram na tela. – Mas só poderemos ir até lá se ele chamar. Senão saberão que ficamos espiando.

—Ou se houver algo muito grave, — disse Steve, — e Loki não conseguir pedir ajuda.

Thor ainda observava o outro com atenção. – Estamos em um impasse, irmão. Para nosso pai, você representa um grande perigo e nosso rei preza por Asgard mais do que tudo.

—Conte-me uma novidade, Thor. – E Loki bufou, se erguendo e indo para longe dele. – Estou escondido, vivendo uma vida minha, o que mais ele quer?

—Sabemos o que ele quer. – A voz de Thor era quase triste. – Mas eu quero protegê-lo.

Loki deu uma risada sem força. – Você sabe que não pode.

Quando o mago deu por si, Thor já estava ao seu lado. – Afaste-se!

O guerreiro segurou os braços dele com firmeza. – Eu sinto muito por tudo que aconteceu, — disse sussurrando. — Você sabe dos meus sentimentos por você.

—Sei muito bem! — cuspiu Loki tentando se desvencilhar. – Você. É. Doente.

—Eu perdi a cabeça, apenas isso.

—Perdeu várias vezes... – O rosto dele estava a centímetros de distância do outro e ele podia sentir a sua respiração atingir sua pele.

No outro cômodo, Tony estava impaciente. – Vamos lá, olhem o que ele está fazendo!

—Loki não chamou... – disse Bruce indeciso. – Vamos aguardar.

Thor roçou de leve seus lábios no rosto do irmão. – Eu sinto sua falta, Loki...

—A sua puta não lhe serve? – O rapaz sentia seu coração disparar de medo.

—Você sabe que preciso de uma rainha, — sua voz rouca arranhava os ouvidos, — que eu não sinto nada por Sif. Ela é apenas minha amiga.

Loki sorriu maldosamente. – Assim não vai ter herdeiros, grande Thor. Agora me largue. Senão chamarei os seus amigos.

—Loki... – a voz dele escorria desejo.

—Largue!

Quando Thor o largou, Loki foi para longe dele e começou a rir nervosamente. – Sua estupidez chegou a um nível muito alto, Thor. Pense em Sif, sejam felizes e me esqueça.

—Como futuro rei, não poderei te esquecer. Há débitos que deve saldar em Asgard.

O outro respirou fundo. — Não terei o privilégio do seu perdão? Mesmo que possa contar algumas coisas para o povo de Asgard?

—Como...?

—Como o fato de que o futuro rei deles adora foder o próprio irmão?

Thor pegou o seu martelo e desferiu uma pancada na mesa, que se esmigalhou ao chão. – Nunca mais repita isso! – Ele estava furioso. Loki correu dele, indo para a saída. – NÃO SAIA!

—Stark! – gritou Loki indo em direção a outros cômodos.

Os vingadores retornaram correndo e Tony se pôs na frente de Thor. – Não dê mais nenhum passo e... – Nesse momento o martelo do guerreiro atingiu a armadura dele, o fazendo voar para longe.

Steve desferiu um soco no rosto de Thor e este revidou com um potente murro. O capitão cambaleou para trás muito zonzo.

—Thor... – rosnou Bruce respirando forte. – Vá embora agora!

O guerreiro sacudia seu martelo preparando um arremesso. – Estou pronto para uma batalha, mortal!

Banner começou a crescer rapidamente e sua pele tornou-se esverdeada. Um rosnado feroz saía dele, mostrando o que estava por vir. O agora Hulk espremeu sua mão e desceu um soco contra Thor, que desviou rapidamente.

Tony voltava de onde tinha caído quando viu o monstro verde. – Puta merda! Rogers, você está bem? – gritou para o capitão.

Steve abriu os olhos inchados e os arregalou ao ver a briga. – Oh, não! Ele vai acabar com o andar!

—E nós com eles! – E ele olhava de um para outro. — O problema é não sei se ajudo Thor ou Hulk!

O capitão gritou. – Em ambos os casos estamos em desvantagem!

Thor arremessou seu martelo na cabeça do Hulk, que foi lançado contra uma parede, a desmoronando. Ele tentou pegar o martelo para um revide, sem sucesso. O guerreiro sorriu satisfeito e esticou seu braço. Quando o martelo voltou para sua mão, ele desferiu outro golpe em Hulk, o atingindo no braço.

—Oh, grande merda! – disse Tony preparando sua armadura para um ataque. – Não daria para Thor ficar parado?

—Você não pode matá-lo! – gritou Steve do outro lado, tentando se proteger. – Causará uma guerra contra Asgard!

—E EU FAÇO O QUÊ, ENTÃO? – Porra!

Hulk conseguiu segurar o braço de Thor e o lançar para o alto com muita força. Steve pode ouvir alguns ossos se partindo. – Deve ter doído...

Quando o guerreiro caiu ao chão, Hulk foi por cima dele e lhe deu uma chave de braço, tentando enforcá-lo. Thor esticou seu braço para chamar o martelo, porém o objeto não se mexia.

—O que aconteceu? – perguntou Tony. – Perdeu os poderes do martelo?

Steve observou. – Ele não consegue se concentrar! Tony, Hulk está matando ele!

Tony se aproximou com cuidado da cena. – Grande monstrão, por favor, não mate esse cara. Ele merece, mas eu não mereço ter uma horda de asgardianos descendo do céu...

—TONY! – gritou o capitão.

—Ok, ok. Bruce, sei que está aí. Largue Thor agora. Vamos lá...

Hulk rosnou perigosamente para ele e, agarrando a cabeça de Thor, a bateu com força contra o chão.

—Isso não é largar, Bruce... – disse Tony. – Isso se chama continuar matando.

Thor gemeu e tentou se mexer, levando outro soco da fera.

E uma voz soou no ambiente. -Pare!

Hulk se voltou para a direção da voz e viu Loki em pé olhando para os dois. – Pare, Hulk. Já basta.

O monstro rugiu fortemente, estremecendo as janelas, porém o rapaz permaneceu onde estava e continuou em voz firme: – Deixe-o. O que fez foi o bastante.

Hulk se ergueu repentinamente e foi direto para Loki. Este não se mexeu, olhando fixamente para o outro. O monstro o mediu, quase o cheirando, como tentasse reconhecer seu oponente. O asgardiano se manteve firme e sem nenhum medo aparente.

—Isso, fique calmo. Não há mais razão para tudo isso. – E Loki estendeu a mão em direção ao rosto dele.

Hulk se afastou um pouco, temeroso, mas depois aceitou o afago. Steve podia jurar que viu um quase sorriso no rosto da fera.

Os minutos que pareceram horas fizeram com que ele fosse ficando calmo, até o momento em que se sentou no chão e ficou olhando quase que hipnotizado por Loki. Este agora sorria. – Você fez muito bem. Agora, precisamos do doutor Banner aqui.

Hulk resmungou, contrariado, mas não passou disso. Loki viu, de canto de olho, que Thor começava a se mexer novamente, já tendo ciência ao seu redor. Ele tinha que ser rápido.

—Vamos, preciso falar com o doutor. Sim? – pediu em voz doce.

O monstro foi fechando os olhos e diminuindo sensivelmente, sua cor recuando para o tom bege pálido, até Bruce aparecer totalmente. Steve veio com um cobertor para ele se cobrir e Tony foi se aproximando de Thor. – E aí, grande guerreiro, está bem? Os seus últimos neurônios estão bem?

Thor olhava para ele sem entender, tonto ainda pelos socos. Bruce se ergueu constrangido. – É uma droga quando isso acontece. – E ele olhou para os lados. – Olha o que eu fiz com seu andar!

—Não se preocupe, Bruce, — disse Tony. – Tenho muitos andares onde Loki pode ficar. E tudo isso aqui posso mandar arrumar e ficará como novo. Ou deixar como prova do que nosso caro Hulk pode fazer.

O doutor olhava agora para Loki. – Como fez isso? Ele te obedeceu totalmente.

—As feras gostam de mim, doutor. É só o que tenho a dizer.

—Isso foi incrível...

Loki deu um sorriso mínimo. – Eu... Agradeço a todos por me ajudarem. Não sei nem o que dizer.

—Ainda não acabou, — avisou Steve vendo Thor se levantar e recuperar seu martelo.

—Bruce, vá para o quarto de Loki agora... Deixe com a gente. – pediu Tony.

O doutor assentiu e se retirou. Steve ainda se lamentava não ter seu escudo com ele.

—E aí, mister bíceps, vamos parar por aqui? – disse Stark com o lançador de raios de sua armadura acionado. – Não queremos mais encrencas.

Thor passou a mão na cabeça, sentindo uma grande dor por todo o corpo. – Eu vou levar meu irmão comigo. – Avisou em voz rouca.

Steve e Tony bufam ao mesmo tempo. – Não, Thor. – disse Tony em voz firme. – E não tenho escrúpulos nenhum em chamar nosso amigo verde novamente. E desta vez ninguém vai interrompê-lo.

O guerreiro pareceu considerar enquanto olhava para Loki. – Tudo bem. Eu voltarei para Asgard para ver o andamento do julgamento. Mas retornarei para cá, quer vocês queiram ou não. Ele é cidadão do meu reino e é assim que lidamos com as coisas.

—Veremos, Thor, — disse Stark entredentes. – Agora, dê-nos o prazer de sua ausência.

—Vou chamar meu pessoal.

—Eu faço questão de acompanha-lo. – E apontou para o elevador. – Vamos.

Quando partiram, Loki soltou um longo suspiro e Steve se aproximou dele. – Foi muito corajoso, Loki. – E o sorriso do capitão contagiou o mago. – Como conseguiu aquilo com o Hulk?

—É uma longa história, — disse simplesmente.

—Vou querer ouvir.

Loki respondeu com outro sorriso.

~o ~

No dia seguinte...

—Vamos montar esse sistema aqui e sincronizar com o restante.

—Tony, qual será a abrangência dele?

—Alta, Bruce. Temos os satélites para nos ajudar.

Banner observava os supercomputadores instalados no 65º. andar. Jarvis coordenava todas as ações e ajustava os algoritmos a cada instabilidade. Uma equipe de pesquisa participava do projeto, e ela continha os maiores especialistas na área.

—Bom, pessoal, — chamou Tony. – Como já disse, temos o objetivo de mapear, traduzir e medir o alcance dessas ondas eletromagnéticas. Há um palpite que seja uma transmissão alienígena, e nem preciso dizer a urgência de desvendar esses eventos. Nosso mundo depende de nossa rapidez.

Uma moça da equipe ergue o braço. – Senhor Stark, há possibilidade que esse evento esteja ligado a batalha contra os alienígenas?

—Sim, há, senhora...? — Seus olhos percorreram toda sua silhueta.

Senhorita Sarah Thomas, — e ela deu um belo sorriso para o engenheiro.

—Senhorita Thomas, muito bem! Agora todos ao trabalho, precisamos ser rápidos!

—Para quando Fury quer os resultados? – perguntou Bruce em particular para Stark.

—Ele quer para ontem, isso é incrível. Aposto que tudo para ele é rapidinha. Tenho pena de suas namoradas.

—É compreensível, Tony, temos aqui uma bomba relógio em potencial!

—Eu sei, Bruce, eu sei. Só não gosto de me alarmar. Coisas precisas e bem feitas tem seu tempo. Ele sabe disso.

O cientista suspirou. – Tudo bem, eu vou lá para cima ver Loki. Talvez ele possa falar algo sobre essas ondas, já que as retirava.

—Já perguntei, ele disse que a magia dele não é compatível com a nossa tecnologia. São campos diferentes e, se o libertássemos, ele resolveria rapidamente esse problema.

—Esse é a questão. Ele bem que poderia ter a magia dele de volta! Não há nada contra ele aqui, e Asgard que se dane!

Tony bufou. -Concordo, mas como tiraremos? Deve ser uma porra de uma magia que só os asgardianos conseguem tirar. Aliás, eu já disse que odeio magia?

—Você já me disse que odeia palhaços mágicos em festa infantil.

—E não são assustadores?

Bruce sorriu. – Irei até lá. Qualquer coisa mande Jarvis me chamar.

—Qualquer coisa tipo o Thor? Sim, senhor!

Loki tinha tomado seu desjejum e agora lia seu quarto livro desde que estava na Torre. Estava relativamente tranquilo, visto que Thor havia partido com Volstagg após a briga com os vingadores. E era um Thor muito raivoso que partia. Sif e Fandral haviam ficado como parte de um acordo, e Loki os evitava sempre que podia.

Devido a destruição de parte do seu andar do dia anterior, agora Loki estava instalado em outro.

—Loki, posso interromper? – pediu o cientista ao chegar ao quarto dele.

O asgardiano fechou o livro e sorriu levemente. – Claro, Banner. Tem minha atenção. — O cientista ainda não conseguira fazer com que ele o chamasse de Bruce.

— Iniciamos as investigações dos rastros deixados por Thanos. Creio que em pouco tempo conseguiremos decifrar o significado daquilo.

—Fico feliz. Nada que Thanos deixe é por acaso. Ele tem propósitos em todas as suas ações.

—Você saberia alguns desses propósitos?

Loki suspirou. – Dominação de Midgard é o principal. Escravizar os mortais, obter todas as riquezas possíveis e depois extermínio total.

— O quê? – Banner engasgou.

Loki rolou os olhos. –É o que querem todos os invasores. Motivações clássicas. Vocês não tem isso aqui?

—Sim, mas...

—Thanos não é diferente. Mas não lembro detalhes dos planos. Ou ele não me compartilhou, realmente não sei. – E ergueu os punhos, mostrando as pulseiras. – Se eu tivesse minha magia, eliminaria todo o foco desses rastros e Midgard poderia ficar em paz por um tempo.

—Também gostaria, Loki. Mas Asgard...

— Eles nunca me libertarão. – Cortou ele, olhando triste para o cientista. – Não é a primeira vez que tenho a magia restrita. Aliás, foram muitas vezes.

—Muitas?

—Sim. Por exemplo, eu tenho um impedimento permanente em relação ao povo de Asgard. Minha magia não funciona contra eles.

Bruce estava incrédulo. – Por que isso?

—Digamos que eu me divertia muito em pregar peças nos outros. E também, agora eu sei, que Odin tinha medo que eu me virasse contra eles após saber da minha verdadeira origem.

—Então... Por isso que matou todos aqueles soldados sem usar magia...?

—Sim, eu não tinha como matá-los de outra forma. Tive que sujar minhas mãos de sangue. – O olhar dele ficou vago. – O cheiro do sangue demorou em sair...

—E também contra seu irmão. Não pôde contra ele.

Loki desviou o olhar, muito pálido. – Sim. Eu não pude. – A voz dele ficou mínima. — Eu sei que vocês me acham fraco por isso. É vergonhoso...

—Fraco? – Cortou o cientista. — Loki, Thor é imenso! Você viu, ele consegue combater o Hulk somente com o martelo. Poucas pessoas são páreos contra seu irmão.

Loki assentiu e Bruce continuou. – Gostaria de perguntar algo um tanto particular, se quiser não me responder fique à vontade. – O rapaz aguardou e ele prosseguiu. – Thor sempre foi assim com você? Quer dizer, te assediando...?

O asgardiano ficou um bom tempo em silêncio, tanto que Bruce pensou em se retirar, quando Loki respondeu: — Não, ele não era assim. Eu sabia que ele me amava de forma indevida desde criança, mas... Thor sempre me respeitou. Dormíamos juntos na mesma cama várias vezes, ele vinha na minha ou eu na dele. Em geral era na minha cama. Ficávamos abraçados, mas como bons irmãos. – Bruce viu os olhos de Loki marejarem. – Depois tudo mudou. Ele ficou... selvagem. Acho que é esse o melhor termo para descrever. Eu perdi meu irmão, doutor Banner. Esse que está agora eu não reconheço mais.

—Eu sinto muito. – E Banner não soube mais o que dizer.

O outro ficou em silêncio por um tempo e depois deu um riso fraco. – Eu gostei de ver aquela luta. Confesso que torci pelo Hulk, é claro.

—Pelo Hulk? Não teve medo dele?

Loki arregalou os olhos. – Medo? Banner, eu adoro as feras, e elas gostam de mim. Foi a Thanos que ele quis atingir quando me deteve aquela outra vez. Quando ele realmente me viu, não tinha como me fazer mal algum.

Bruce franziu a testa. –Eu vi... Nunca Hulk se comportou com alguém assim antes. Na batalha, ele participou com a gente, aceitou comandos, mas é um cara esquentado.

Loki sacudiu a cabeça sorridente. – É normal para mim. Possuo diversas feras que são muito dóceis comigo. Tenho um dragão que é adorável, dois lobos gigantes que roubei do palácio de Odin, dois cavalos alados que me deixam cavalgá-los e uma serpente gigantesca que mora no meu lago igualmente gigante. Entre outras.

Bruce assobiou espantado. – Bom, eu acredito em você.

—Se quiser, Hulk poderia falar comigo agora.

—Como?

—Confie em mim. Não é por magia, é por dom. Eu amo as feras. E elas confiam em mim.

—Loki, seria muito perigoso. – disse Bruce sério. – Hulk pode destruir essa Torre e muitas pessoas morreriam. Talvez o que tenha acontecido ontem foi sorte...

O mago olhava fixamente para Bruce. – Ele não fará isso. No máximo esse andar, como da outra vez. – disse olhando a sua volta animado. – E não será grande perda. Tente...

O ruído metálico soou naquele momento. – Senhor Banner, senhor Stark o chama no 65º. andar.

—Obrigado, Jarvis, já estou indo. – Ele se virou para Loki. – Vou lá. Depois terminamos nossa conversa.

Loki mostrou um radiante sorriso. – Sim, depois.

Quando Bruce saiu, ele se ergueu animado e foi até a janela. Está tão perto, pensou olhando suas pulseiras. Espere mais um pouco, Sigyn. Em breve voltarei.

~o ~

À noite, todos foram para o andar de Loki, na sala de TV. Tony tinha conseguido um filme para fazer uma sessão de cinema.

—Ah, vamos lá, Lokes, é um ótimo filme! Você vai até chorar, — disse Tony sorridente.

—E por que você diz isso como algo bom? – Loki estava pasmo.

—Não ligue para ele, — disse Nat colocando o blu-ray. – Você também vai rir.

—Vocês chamarão Sif e Fandral? – perguntou o asgardiano.

—Não... – disse Tony malicioso. – Eles estão bem onde estão. Jarvis, o que eles fazem agora?

—Estão sentados na sala deles em silêncio, senhor.

—E te pediram alguma coisa?

—Pediram alguma distração.

—E o que você disse?

—O que o senhor me instruiu: disse para dançarem conga.

—Muito bem. Lembre-me de lhe dar um aumento.

Bruce conteve o riso. — Qual é o filme que veremos? – perguntou trazendo pipocas com Steve.

—O Senhor dos Anéis, — informou o engenheiro com reverência. – Um clássico eterno.

Steve tinha uma expressão interrogativa. – Estava na minha lista de filmes para assistir.

—Está vendo? Enquanto você era um picolé, muitas coisas aconteceram.

—Ele já estava descongelado quando esse filme passava no cinema, — corrigiu Natasha.

—Mas ainda tinha gelo nos cabelos, Nat. – E se voltou para Loki. – Ele era quase um fóssil.

A tela da TV se iluminou naquela hora e todos tomaram seus lugares. Steve entregou um pote com pipoca para Loki e ficou ao lado dele. – Se quiser mais, eu faço para você.

Natasha estava sentada do lado contrário e colocou discretamente a mão na boca para não rir.

—Ganhou 15 Oscars, — disse Tony. – É só o que tenho a dizer.

—Shh, — pediu Natasha. – Ouçam bem, senão depois não vão entender.

—E não vou ficar explicando, — disse Stark mastigando pipoca. Ela rolou os olhos.

No decorrer do filme, vez ou outra Natasha ficava analisando a expressão de Loki. O rapaz diversas vezes franzia a testa, mordia os lábios ou mesmo ficava com os olhos brilhando de lágrimas não derramadas. Em certa altura, ele começou a rir, assustando todo mundo.

—Desculpe-me. – Corou. — É que... Elfos não são assim!

—São elfos da imaginação de Tolkien, — explicou Tony. – Não leve tão a sério.

—Sim, claro. Creio que o príncipe Nuada iria achar muito interessante essa representação deles.

—Quem é esse? – perguntou Steve.

—Um príncipe élfico. Um amigo. – E não disse mais nada.

Quando a sessão terminou, Loki retornou ao seu quarto e Tony o acompanhou. – Sabe, Loki, Bruce me contou a conversa que vocês tiveram hoje.

—Qual delas? – disfarçou o rapaz.

—Sobre Hulk. – Tony colocou as mãos no bolso analisando o jovem a sua frente. – Eu posso fazer isso acontecer.

Loki franziu a testa. – Como assim?

—Eu gostaria mesmo de ver Hulk interagir mais com você. E por quê? Eu acredito que consiga de novo. A não ser que sua intenção seja morrer.

—Garanto, Stark, que pretendo viver e muito. Aqui, nessa Torre, o que não falta são instrumentos eficazes para a morte. Facas, vidros, choques... – E deu uma olhada em sua tornozeleira. – Eu sou um curioso em relação a feras e monstros.

Stark sacudia a cabeça em aprovação. – Eu entendo, elas são fascinantes! Eu queria muito um dia ter um dragão como você tem. Mas sem a parte de cuspir fogo...

—Hum...?

—É, eu sei, impossível. Talvez borrifando água na boca dele todo dia?

—Stark, eles não queimam quem eles gostam, obviamente.

—E se tiverem soluços? Ah, ok. Vamos ver o Hulk para você. Quem sabe se fôssemos a um lugar distante, mais seguro, fora da cidade, talvez? Um ambiente sem perigo do nosso amigo verde quebrar metade da cidade?

Loki assentiu. – Seria adequado.

Tony sorria. – Então arranjarei isso.

Ao ficar sozinho, Loki foi ao banheiro e tomou seu banho cantarolando canções de sua infância.

~o ~

No dia seguinte, Loki subiu para o andar da cozinha e a encontrou deserta. Como sempre Tony e o restante estavam atrasados para o desjejum. Hum... Em vez de esperá-los, ele poderia fazer algumas panquecas como surpresa. Loki riu de si mesmo, ele nunca cozinhou em sua vida. Era um príncipe, afinal.

Ele caminhou por entre a bancada, a ilha, e se aproximou dos armários. Seria tão fácil, ele observou como Steve fazia, ou mesmo Bruce. Alguns ingredientes, cozimento rápido. O que poderia dar errado?

A primeira saiu bem ruim, e ele ajustou a quantidade de açúcar e leite, e as restantes saíram bem melhores. – Sabia que era fácil, tão óbvio...

Retirou da geladeira alguns itens para cobertura e deixou tudo sobre o balcão. As panquecas estavam sendo empilhadas em um prato com açúcar ao lado. – Acho que está bom, — pensou orgulhoso.

O som do elevador soou e ele começou a sorrir. Deveria ser Steve, ele sempre acordava cedo.

—Ora, ora, pensei que iria morrer e nunca veria o príncipe fazendo algo tão... servil.

O sorriso de Loki caiu quando viu Sif se aproximando rapidamente. – Oh, a guerreira... Não temos batalhas aqui, Lady Sif. Eu sinto por você. Vai se atrofiar.

Ela pegou uma das panquecas e experimentou. – Está boa. Já poderá servir no palácio, nas cozinhas. Serei benevolente e poderá ser nosso servo.

—Está certa disso? – perguntou ele com um sorriso mau. – Serão envenenados antes do sol nascer.

—Claro que é uma brincadeira, você será enforcado e todos nos esqueceremos da sua existência.

Loki depositou mais panquecas na pilha e ficou em silêncio. Sif tornou a falar. – Eles não sabem quem é você, não é, Loki? Do que é capaz...

—Os vingadores estão cientes das minhas atividades, graças ao seu futuro marido.

Sif estreitou os olhos. – Thor nunca foi discreto... E o que eles acharam? – Ela riu, de repente. – Esqueci que Midgard tem muitos costumes diferentes. Eles permitem muita coisa. Por isso é um reino tão fraco!

—É um reino fraco em magia, por certo, mas eles são bastante inteligentes e se adaptam rápido.

Ela deu de ombros. – Não se apegue, Loki, eles logo morrerão. Vivem apenas pelo tempo de nossa piscada.

—Não sou sentimental, — retrucou apertando o cabo da espátula.

Ela riu. – Não finge tão bem quanto antes. Eles não lutarão por você pra sempre. Uma hora voltará para Asgard.

Naquele momento ouviram vozes se aproximando e Tony, Bruce e Natasha chegavam para o café da manhã. – Bom dia, senhora Sif, Loki! – Cumprimentou Tony de bom humor. Fandral e Steve vieram logo atrás.

Loki resmungou qualquer coisa e terminou suas panquecas. Natasha ergueu a sobrancelha, observando os asgardianos a sua frente. – Hum... vejo que fez panquecas, Loki. Gostaria de ter filmado isso.

—E ter passado no noticiário de vocês? Seria uma ótima ideia... – disse sarcástico e de mau humor.

Tony também observava o ambiente a sua volta. – Vamos lá, vamos experimentar o que você fez... – e tocou no braço dele dando apoio. Loki, automaticamente, se recolheu assustado. O engenheiro ergueu as mãos. – Desculpe! Que imbecil que sou...

Sif deu uma risadinha. – Loki não gosta que o toquem. Mas isso era tão diferente antes, não era?

Fandral franziu a testa. – Do que fala, Sif? Loki sempre foi arredio. E devemos respeitar isso.

Ela fez uma careta. – Nunca desrespeitaria um príncipe, caro Fandral. Loki tem meu apreço, ele sabe disso.

Steve foi retirando alguns ingredientes da geladeira e fritando alguns bacons e ovos. – Gosto também de coisas salgadas pela manhã, — explicou-se.

—E de um ataque cardíaco também, — observou Stark. – Ficarei com meu suco de soja.

—Soja mexe com os hormônios, Tony, — informou Bruce. – Também não é bom.

Tony bufou. – O que comerei, então? Capim?

—Se não tiver pesticidas... — disse Natasha sorrindo.

—Em Asgard, — disse Sif, — tudo é muito natural. Aqui eu sinto gosto muito estranho em tudo.

—Engraçado, a mesma coisa que Loki disse, — falou Bruce experimentando umas torradas. – Ele disse que também vê a sujeira do ar nitidamente.

Sif franziu a testa. – Sim, mas é óbvio! Vocês não percebem?

Fandral concordou. – Esse reino é muito sujo.

Loki desligou o fogo e pegou um prato para ele. – Vou comer no meu quarto.

—Não, Loki, fique! – disse Steve chateado. – Gostaria de sua presença.

O rapaz hesitou por um momento e Sif deu risada. – Ele não gosta das pessoas. O que vocês veem não é o verdadeiro Loki.

—Cale-se, — sussurrou Fandral assustado. – O que deu em você?

Tony bufou e se virou para Loki sorrindo. – Ou iremos todos até seu andar. Não vai escapar da gente.

O rapaz olhou para o restante e assentiu. – Tudo bem. Vamos comer à mesa, o que é mais civilizado.

—No balcão é tão bom...! – queixou-se Nat carregando seu prato.

Ficaram conversando diversas banalidades durante o café. Sif e Fandral conversavam entre si e diversas vezes o guerreiro a repreendia de alguma coisa que falavam. Loki os observava de canto do olho e ficava alerta para qualquer ataque.

—Eu posso ler o futuro, — afirmou o mago em certo momento da conversa. – Mesmo sem minha magia, posso fazer algumas previsões.

—Sério? – Natasha ficou entusiasmada. – E como faz? Lê as mãos?

—Meu futuro já sei, — resmungou Bruce de mau humor. – Não quero saber dele.

—Eu gostaria! – disse Tony estendendo as mãos. – Gostaria de saber em quais ações devo investir.

—Ah, Tony! – reclamaram todos. Steve disse: — Pense em algo como “Com quem me casarei”.

—Isso, — incentivou Nat. – Coisas clássicas.

Loki pegou a mão de Tony com cuidado e começou a observá-la. – Na verdade, eu faço uma análise nas mãos e nos olhos. – Agora ele depositou a sua mão na têmpora do engenheiro e olhava fixamente nos olhos dele. – Fique calmo e em silêncio.

Todos ficaram em silêncio, inclusive os guerreiros, curiosos pelo que viria. O mago suspirou. – Vejo que se casará sim. É uma mulher muito bonita. Terá dois filhos bem saudáveis. Será feliz, Stark.

Tony respirou fundo. – Eu vou me casar? Isso é péssimo! – E pôs as mãos no rosto. – Você consegue ver se eu fiz acordo pré-nupcial?

Natasha rolou os olhos. – Não ligue para ele, Loki. Foi uma ótima previsão.

Sif estreitou os olhos. – Eu acho curiosa essa arte da previsão.

—Não acredita nela, senhora Sif? – perguntou Steve já aborrecido.

—Não muito. Acho curioso é que o vidente não possa prever seu próprio destino.

Loki se mexeu, desconfortável. – Na verdade, isso é bem comum. Videntes não conseguem vislumbrar seu destino e precisam de outros que o façam.

—Sim, — tornou ela. – Não viu que o próprio filho iria morrer. Morrer pelo desleixo de uma mãe louca.

E tudo aconteceu muito rápido: o mago se ergueu rapidamente com uma faca na mão e se lançou contra a guerreira. – RETIRE O QUE DISSE!

Fandral se pôs entre eles e segurou a mão de Loki. – Largue, Loki, não faça isso!

Sif se afastou e disse séria: – Aliás, era seu filho mesmo? Pela reputação de Sigyn, podia ser de qualquer um.

Loki fechou os olhos e o ambiente começou a vibrar. Alguns copos foram se partindo, vidros se estilhaçando. Ele torcia suas mãos e as pulseiras começaram a trabalhar o impedimento, deixando seu pulso em carne viva.

—Pare, Loki! Você está se machucando! – gritou Fandral.

Natasha foi até ele e pôs as mãos em seu rosto. – Pare, Loki! Agora!

Ele abriu os olhos e olhou confuso para a espiã. – Lady Natasha? – E tudo em volta parou de balançar.

Fandral o largou e foi até Sif. – Vamos retornar até o nosso andar. – E agarrou seu braço e foram em direção ao elevador.

Bruce pegou a mão de Loki e analisou as feridas. – Precisa tratar isso logo. Vamos até a enfermaria.

Tony concordou. – Jarvis, veja se tem alguém naquele andar. Se tiver, peça para se retirar.

—Sim, senhor.

Steve olhou consternado. – Vamos leva-lo até lá.

Droga, ele teve um filho?