Redenção

19 Capítulo 18


Notas iniciais
Boa leitura.

POV FELICITY

Observei com exagerada concentração a bola roxa e brilhante acertar os pinos.

O pino.

Um.

Apenas um.

Por que eu não era um fracasso apenas no amor no fim de tudo.

— Esse foi bem perto. – Tommy murmurou ao meu lado. – Eu vi os outros tremerem.

— Vá se ferrar Tommy Merlyn. – Cuspi antes de pegar minha cerveja de volta e dar longos goles. Ele ergueu uma sobrancelha entre divertido e aborrecido com minha pequena explosão.

— Você poderia ser mais gentil. – Murmurou tomando a cerveja da minha mão, tentei pega-la sem muito sucesso. – Foi você quem interrompeu meu encontro. – Falou enquanto voltava-se para Sara que estava sentada me analisando. – Sua vez. — Ele estendeu uma mão que ela prontamente ignorou, mas se levantou ficando ao seu lado e aceitando a bola que ele foi buscar para ela.

— Oh, por favor. – Debochei. – Ela te trouxe para o Boliche, claramente ela já chegou nesse encontro determinada a que dê tudo errado. – Observei admirada ele cerrar os dentes. – Ela queria dizer não, mas não sabia como, ela aceitou apenas para acabar com isso de uma vez. Isso não é um encontro, isso é uma versão tosca de “Não é você, sou eu.” – Terminei antes de me sentar e estender minhas pernas. E voltei a observar Sara. – Ela está calada, o que significa que ela concorda, mas não quer fazer você se sentir mal, então ela fica em silêncio. – Apontei para ela que apenas me observava, quando Tommy a encarou ela apenas meneou a cabeça em negativa, um pedido que me ignorasse. – Não minta Sara, basta seu amigo, que segundo ele, estava com você por que você precisava de ajuda. Nós brigamos, e ele sequer termina o jantar comigo, ele me deixa sozinha com meus pais quando me prometeu estaria por perto e quando eu chego ao apartamento ele não está lá. Pelo amor de Deus, eu disse ao meu pai que o amava! – Murmurei envergonhada. — Eu quero minha cerveja Merlyn. – Voltei a exigi. Ele suspirou e me devolveu a garrafa.

— Eu não vou pagar por isso. – Advertiu.

— Você devia ter chamado Ray. – Falei encarando Sara que corou ao sentir novamente o olhar de Tommy. – Ray não parece ser pão duro. Talvez outro tipo de duro, mas não pão duro. – Ri antes de voltar a beber.

— Você fica má quando bebe. – Sara falou finalmente. – Ouça eu fiquei preocupada quando ligou dizendo que havia brigado com Ollie e não o achava, eu te disse onde eu estava apenas para tranquiliza-la, eu não achei que você ia vir para cá, que comeria nossa comida, e encheria a cara. E o pior de tudo? Você ainda não me contou o que aconteceu. E pare de brigar com Tommy, eu brigo Tommy. – Completou séria. — Você... – Murmurou apontando para ele. – Ela está chateada, você vai pagar todas as bebidas dela. E as minhas. Por que eu não sei se aguento vocês dois fazendo birra sem também encher a cara.

— Desde que ela chegou não para de dizer o quanto eu não sou bom o suficiente para você. – Argumentou. – Que eu não sou o cara certo. Não é exatamente o encontro que imaginei.

— Eu disse. – Concordei.

— Ela nem tenta negar. – Apontou.

— Eu negaria. – Dei de ombros. – Se tivesse me arrependido.

— Você é inacreditável. – Murmurou descrente. – Eu achei que você havia gostado de mim quando os visitei.

— Eu estou bêbada. – Voltei a dar de ombros. – Eu não gosto das pessoas quando estou bêbada, e você me lembra de Oliver. – Falei de repente.

— Como?- Perguntou confuso. – Somos completamente diferentes.

— São totalmente iguais.

— Não somos.

— São sim.

— Não somos.

— São.

— Não.

— Parem vocês dois! – Sara faliu chamando nossa atenção, Tommy a encarou com um sorriso e me encarou de volta, sua atenção voltando ao que importava, que era provar que eu estava errada. Exceto que eu não estava.

— Eu sou moreno.

— E dai?

— Ele é loiro.

— E dai?

— Como somos iguais?

— Ambos são irritantes. – Apontei. Comecei a contar nos dedos. – Ambos são lutadores, ambos gostam de loiras.

— Gostamos de qualquer tipo. – Retrucou.

— Ambos são galinhas. – Acrescentei.

— Vocês ainda estão namorando, não estão?

— Ambos são burros.

— Ei!

— Mas são gostosos. – Acrescentei.

— Eu não gosto de você. – Falou com cenho franzido.

— É ele também não gosta muito de mim no momento. – Murmurei com um suspiro. – Ambos são irritantes. – Comecei a contar.

— Você já fez isso. – Falou segurando minhas mãos e ajoelhando-se em minha frente. Seu olhar se transformando em solidário.

— Sério, Felicity. – Sara falou parando atrás dele, seus olhos cada vez mais preocupados. – O que aconteceu?

— Eu vou voltar para New York. – Falei por fim. – Eu não falei em um bom momento, e não de um jeito certo, e ele foi burro, não entendeu que eu também tinha planos para fazer dar certo, conhecendo Oliver ele dever estar naquele estúpido mirante, olhando para o nada e pensando que eu sou uma estúpida que não dou valor ao que começamos. Que é mais ou menos como eu me sinto.

— Quanto drama. – Tommy meneou a cabeça e ergueu-se apenas para sentar a minha frente.

— Pegue Ray. – Voltei a encarar Sara. – A essa altura ele estaria me estendendo um lenço e dizendo que tudo ficaria bem.

— Felicity. – Escutei a voz de Barry livrando-me de uma resposta ácida de Tommy.

— Ei, você. – Sorri abertamente. – Você é o garoto certo, eu deveria ter pegado você. Digo, escolhido você.

— Eu não tenho ideia do que você está falando. – Murmurou franzindo o cenho.

— Mas não, eu peguei o Tommy Merlyn. Cabeça dura. – Meneei a cabeça. – Que nem ao menos sabe brigar, diz as coisas e vai embora, eu deveria ter o direito a algumas frases certo?

— Só para constar ela não me pegou. – Tommy apressou-se a dizer. – Ela está falando de Oliver.

— Você não devia está jogando suas bolas naquele pino? – Perguntei fazendo com que ele abrisse a boca em choque.

— Não essas bolas, Merlyn. – Sara murmurou ao seu lado.

— Ela é irritante. – Retrucou.

— Você também. – Deu de ombros.

— Esse era para ser nosso encontro. – Argumentou.

— Está sendo nosso encontro. – Respondeu.

— Com uma bêbada. – Murmurou a encarando sem humor.

— Poderia ser eu. – Murmurou com um suspiro saudoso.

— Você queria estar bêbada? – Perguntou descrente. Ri. O que chamou sua atenção imediata. – O quê? – Perguntou me encarando.

— Ela gosta de você. – Falei fazendo com que ele franzisse o cenho.

— Você disse que ela queria sabotar o encontro. – Falou.

— Exato. – Assenti.

— Não faz sentido. – Murmurou.

— Ela sabe que gosta de você, e teme isso, então ela sabota isso. – Curvei-me sobre a mesa e murmurei em tom conspiratório. – Aposto que o próximo passo é sair com Ray Palmer, ela sabe que ele é o garoto certo, eu fiz isso com o Barry.

— Estamos bem aqui. – Sara falou em tom impaciente.

— Hum. – Barry pigarreou. – Na verdade eu só vim dizer que você está demitida.

— O quê? – Perguntei me erguendo, mas uma ligeira tontura me fez sentar novamente.

— Eu não acredito que você está despedindo ela assim. – Tommy veio em minha defesa. – Olha o estado em que ela está.

— Que besteira é essa? – Sara também tomou meu partido.

— Desculpe pessoal. – Barry faliu sem graça. – Eu não queria, realmente não queria fazer isso, mas Felicity...

— Hum? – Perguntei distraída.

— Você tem faltado muito. –Argumentou. – Eu te cubro, e escondo isso do dono, tudo bem. Mas você disse que não vinha hoje, então eu disse que você estava doente. E Joe... – Murmurou apontando para trás de si, Joe me fuzilou com o olhar. – Veio checar o estabelecimento hoje, e viu você aqui, completamente saudável, e bebendo, bebendo mais do que essa casa permite a um cliente.

— Eu estou doente. – Argumentei.

— Sim. – Tommy assentiu.

— Pessoal...

— Ela está com o coração partido. – Sara falou.

— Está doendo. – Assenti.

— Você vai mesmo demiti-la hoje? – Tommy o questionou.

— Não vai. – Neguei. – Você não pode me demitir Barry, por que eu me demito. – Falei me erguendo novamente. – Diga a Joe que estou pedindo minhas contas, não quero mais trabalhar aqui.

—Mas eu acabei de te...

— Ela se demitiu Barry. – Tommy murmurou. – Agora, minha cerveja acabou.

— Se for para Felicity, não posso permitir outra bebida alcoólica. – Avisou.

— É claro que não vou deixa-la consumir uma gota sequer. – Meneou a cabeça descrente. – Que tipo de cara você acha que sou?

— Ok. – Assentiu ainda desconfiado. Observei Barry fazer um gesto para uma das garçonetes trazer uma nova cerveja, Tommy a pegou de imediato, e levou aos seus lábios, quando Barry e a garçonete se afastaram ele me entregou rapidamente.

— Esqueça Ray. – Falei encarando Sara que meneava a cabeça com repreensão. – Eu gosto de Tommy.

— Sim, esqueça Ray. –Tommy sorriu. – Eu sou melhor.

— Você está subornando minha amiga, com cerveja. – Apontou.

— Eu estou aguentando sua amiga por quase duas horas. – Argumentou. – Tem que contar pontos.

— Você é um palhaço. – Retrucou.

— O que fará dos seus dias mais divertidos. – Contrapôs.

— Ou assustadores. – Murmurei tão baixo que nenhum dos dois chegaram a escutar.

— Você é irritante. – Salientou.

— É não é? – Perguntei.

— E às vezes parece uma criança. – Continuou. – Você é impossível, e acaba com o juízo de uma mulher.

— Você poderia me ensinar a comportar. – Deu um sorriso atrevido. – O que vai fazer das noites mais interessantes.

— Você é uma verdadeira dor no traseiro Merlyn. – Soltou. Ela parou dando conta do que disse.

— Oh você não disse isso. – Ri. – Você está em sérios problemas Sara Lace.

— O quê? – Tommy murmurou confuso. – O que eu perdi?

— Eu acho que está na hora de levarmos Felicity para casa. – Desconversou.

— Eu não quero ir para casa. – Neguei. – Eu não quero dormir sozinha. – Eu realmente não queria, e considerando as últimas horas, eu provavelmente dormiria sozinha.

— Você não vai. – Eu poderia ter virado meu rosto graciosamente e com rapidez para encarar Oliver que havia dito a frase a minha direita. Mas eu estava bêbada, então demorou quase meio século para eu perceber que se tratava de Oliver e mais meio para acertar a direção de onde veio. Pisquei incrédula o encarando. – Eu vou leva-la para casa.

— Você procurou por mim? – Perguntei com esperanças.

— Barry me ligou. – Esclareceu. – Segundo ele você estava consumindo todo o estoque de cerveja do estabelecimento.

— Então, você pode atender a um telefonema de Barry. – Murmurei chateada. – Mas não pode responder uma das minhas 15 mensagens de pedidos de desculpas. – Ele franziu o cenho me encarando.

— Você só me enviou duas. – Argumentou. – Uma dizia “Ei” e a outra dizia “Idiota...”.

— Hum... Para quem será que foram as 13 primeiras? – Murmurei para mim mesma.

— Vamos. – Chamou-me estendendo sua mão.

— Não. – Neguei.

— Não? – Encarou-me como se perguntasse se eu realmente havia sido tola a esse ponto.

— Não. – Balancei minha cabeça em negativa. – Eu estou com meus amigos, bem, com minha amiga e Tommy.

— Por favor, leve-a. – Tommy implorou. – Eu pago.

— Humm... – Sorri. – Sr. Merlyn não é mais pão duro. Mas será que também é o outro tipo de duro? – Ergui minhas sobrancelhas de forma sugestiva. Então para a surpresa de Oliver eu acrescentei. — Oliver está sempre duro.

— Muita informação. – Tommy fez careta.

— Ollie. – Sara murmurou o encarando. – Leve-a.

— Traidora. – Soltei.

— Acredite, é o melhor para você. – Ela falou ajeitando meu cabelo, alisando as mechas ao fazê-lo. De alguma forma me senti como uma criança recebendo o carinho de uma mãe.

— Vamos. – Oliver voltou a estender sua mão.

— Em outros tempos, você já teria me jogado por sobre os ombros. – Observei encarando sua mão.

— Eu estou tentando melhorar. – Falou alcançando minha mão por si só. – E eu não quero que você vomite em mim.

— Eu...

— Amanhã. – Falou me interrompendo. – Amanhã, princesa. – E foi assim que ele me desarmou. Seu tom era tão humilde, um pedido por trás da sentença, seus olhos me examinavam aguardando minha resposta. Com um aceno leve eu me levantei, mas em vez de sair imediatamente ao seu lado eu o surpreendi ao abraça-lo, sumindo em seus braços inalei seu cheiro, absorvei seu calor e guardei todas as sensações em minha mente, memorizando, prolongando. Apegando-me. – Vamos para casa. – Sussurrou contra meu ouvido, voltei a assentir e me despedi de Sara e Tommy com um novo pequeno aceno. Quando por fim chegamos ao apartamento o silêncio parecia ser incapaz de ser quebrado. Por ele ou por mim.

Todo o tempo que passei com Tommy e Sara eu desejava estar em sua frente para então conversarmos. Queria seguir a conversa como ela deveria ter acontecido antes dele sair do jantar tão chateado, eu planejava dizer que o amava, assim como não hesitei dizer ao meu pai. Planejava falar com ele sobre como poderia ser as coisas e como poderíamos fazer dar certo. Eu planejava várias coisas. Mas agora meus lábios estavam selados, e permaneceram assim quando ele me levou até seu quarto, quando me ajudou a tirar minhas roupas e quando entrou comigo na cama.

Eu permaneci em silêncio.

Por que mesmo sob o efeito da bebida eu sabia que se eu abrisse a boca agora, eu estragaria tudo. Então virando-me de frente para ele e aconchegando-me contra seu corpo eu fechei meus olhos e aproveitei o silêncio.

Quando acordei me dei conta que estava sendo observada.

Oliver estava sentando ao lado das minhas pernas. Suas roupas me diziam que ele já havia feito uma série de exercícios. A marca de suor em sua camisa me dizia que havia sido muitos. Minha cabeça estava um caos, e até mesmo o brilho suave da luz da manhã faziam meus olhos ficarem doloridos, eu presumia que poderia ter deixado Tommy e suas bebidas em paz. Pisquei voltando a focar no rosto de Oliver que me analisava com calma.

— Sua mãe está aí. – Murmurou fazendo com que eu fizesse uma careta, não podia ser verdade, era sua vingança por eu ter bebido em vez de tê-lo esperado para uma conversa de adultos, certo?

— O quê? – Perguntei com esperanças de que quando ele respondesse a frase fosse completamente diferente.

— Sua mãe. – Repetiu ainda mantendo o tom demasiado calmo. – Ela está na sala, aguardando você. Ela quer conversar.

— Essa é sua vingança por eu ter bebido? – Deixei escapar enquanto resistia à vontade de lhe dar as costas e voltar a dormir. Ele me surpreendeu ao sorrir, se curvou colocando um braço ao lado da minha cintura e me cercou, seus lábios tocando minha bochecha direita foi uma deliciosa surpresa.

— Eu deveria ter pensado em algo tão genial assim. – Murmurou. Seu rosto pairando sobre o meu, seus lábios tocaram docemente os meus. Eu estava confusa. Esperava a fúria a qual meu pai havia me alertado tantas vezes, ou mágoa que eu imaginei ainda seria presente após eu não ter mais o escudo da bebedeira para me proteger. Eu não esperava o carinho, ou a serenidade em seus olhos quando esses voltaram a encarar os meus. – Estamos bem Felicity. – Murmurou notando a confusão nos meus. – Ainda somos novos nisso, desentendimentos vão acontecer, mal entendidos, algumas manhas, quando isso acontecer cada um irá precisar de seu tempo, ainda que pequeno, para nós mesmos, então depois vamos esclarecer tudo.

— Eu não sei se gosto de você sendo o maduro da relação. – Reclamei.

— Era de se esperar que eu fosse quem encheria a cara, não é mesmo? – Sorriu divertido. – Vá tomar um banho, eu vou fazer café para as duas. – Falou começando a se afastar o interrompi abraçando seu pescoço.

— Não me deixe sozinha com ela. – Murmurei contra sua pele.

— Você ficará bem. – Murmurou antes de finalmente se afastar. – E eu estarei por perto. Dessa vez a sério. – Acrescentou. – Há algo interessante no criado mudo, água e algumas aspirinas. – Apontou, meu olhar foi de imediato para o local. – Tome seu banho e venha tomar seu café, não a deixe esperando por muito tempo, ela pode acabar entrando aqui. – Advertiu.

— Oliver... – O chamei antes que ele pudesse fechar a porta, sua cabeça apareceu, seu olhar preocupado encontrando os meus.

— Obrigada. – Murmurei.

— De nada. – Respondeu com um sorriso antes de se retirar. Encarei a porta por alguns momentos e me apressei a fazer uso dos pequenos comprimidos e da água, meu olhar foi de imediato para o que ele havia chamado de “algo interessante”, tratava-se de uma lista.

O que você fez ontem à noite e precisa se lembrar:

1 — Você foi má com Tommy.

*Peça desculpas.

2 — Você foi má com Barry.

*Peça desculpas.

3 — Existe alguém na sua discagem rápida que recebeu a maioria de suas mensagens obscenas que você mandou para Oliver quando estava bêbada.

*Implore por desculpas.

4 — Você foi demitida.

*Peça desculpas.

5 – Você magoou Ollie.

*Peça desculpas.

6 — Você me fez passar vergonha.

*As desculpas terão que ser épicas.

S.L

— São muitas desculpas. – Murmurei esfregando a lateral da minha cabeça. Com um suspiro me ergui e fui tomar meu banho. Já enxugando meus cabelos eu saí do quarto, tão logo entrei na sala meu olhar encontrou o de Oliver que estava sentado em frente a minha mãe, estando assim ela de costas para mim. Ele acenou com um olhar encorajador e se levantou indo para cozinha, dei mais alguns passos entrando no campo de visão da minha mãe.

— Finalmente. – Murmurou com um suspiro. – Eu pensei que você ia esperar até que eu desistisse.

— Desculpe. – Murmurei automaticamente, ela piscou surpresa com isso. Eu dei de ombros. – Estou seguindo um roteiro.

— Eu vou deixar vocês a sós. – Oliver murmurou passando por mim e entregando uma caneca.

— Obrigada. – Murmurei a pegando. Ele inclinou-se para me beijar rápida e suavemente nos lábios.

— Eu estou lá em baixo. Longe e perto o bastante. – Lembrou-me. – Donna. – Murmurou inclinando a cabeça em uma despedida. Ela sorriu levemente o observando se afastar. Tão logo ele fechou a porta atrás de si ela voltou seu olhar para mim.

— Eu não sabia que você morava com seu namorado. – Falou me analisando. – Parece sério, eu pensei que a coisa toda era recente. – Observou.

— Nós já morávamos juntos. – Expliquei. – Antes de começarmos a namorar. – Ela franziu o cenho. – Culpa de meu pai.

— Eu não consigo imagina-lo sendo o motivo de você dividir o apartamento com um homem como Oliver. – Falou. – Quero dizer, olhe para ele, estava claro que em algum momento vocês cairiam em cima um do outro.

— É uma longa história. – Falei me sentado no lugar que antes Oliver estava. – Eu pensei que você estava indo...

— Você poderia fingir não está tão ansiosa por minha partida. – Resmungou. – É pedir muito tentarmos ter uma relação mais amena? Eu não estou pedindo para voltarmos ao que era antes, eu queria que ao menos chegássemos a algo próximo.

— Eu não estava ansiosa. – A corrigi. – Confusa. – Expliquei. – Você tem um trabalho...

— E você uma faculdade. – Interrompeu-me.

— Mãe...

— Apenas escute. – Pediu. – Eu não estou dizendo que Oliver não é um bom rapaz. Deus ele é lindo, tem seu encanto, e a trata bem, e eu a conheço bem o suficiente para saber que você vê mais do que beleza neste homem, eu entendo. Você está apaixonada, e acho isso maravilhoso, por que eu sempre quis isso para você. Amar e ser amada? Definitivamente está na lista de desejo de toda mãe. Mas eu também não quero que você tenha que se virar em duas para atender as necessidades de sua filha. Eu quero um futuro melhor para você do que eu já tive. Eu consegui, eu levei tudo enquanto pude, isso não quer dizer que você tenha que fazer o mesmo.

— Você está transferindo todos os seus erros para mim. – Murmurei irritada e colocando a caneca em cima da mesinha com um baque. – Erros que eu ainda nem cometi, que nem tenho certeza se vou cometer. Sim, você foi uma ótima mãe apesar de tudo, você se virou em duas, em três, eu sei disso, mas fez por orgulho, eu tinha um pai e você decidiu ignorar isso por 15 anos. Ele estaria por mim antes, eu sei que sim, e você também. Podia não saber na época, mas tinha a dúvida e inferno nós dois tínhamos direito a essa dúvida. Eu não estou chateada apenas com você, estou chateada comigo, por que por você por muito tempo eu fiquei chateada com ele. Mesmo sabendo que ele não tinha ideia eu fiquei chateada com ele por isso, quando na verdade apenas você podia ter mudado isso. Eu estou chateada com você por muitos motivos, por tê-lo chamado e ter aberto mão de mim, e por não tê-lo chamado antes e saber lidar melhor com isso, estou chateada por você achar que é simples eu deixar isso de lado e por chegar aqui opinando não só em minha vida, mas como também em meu namoro. Estou chateada comigo mesma por que eu sei que você está certa e por não querer que você esteja certa. Eu estou confusa. Eu só estou confusa.

— Felicity...

— Com isso, com nós. – Continuei abrindo meus braços. – Eu quero te abraçar, mas eu não sei como, eu não sei mais como agir com você. Você costumava ser minha melhor amiga, eu contava sobre minhas pequenas paixões, e eu agora tenho essa enorme paixão que está levando tudo de mim. E eu não sei como falar sobre isso. Eu quero falar sobre ele, sobre Oliver. Quero me empolgar com você, falar como ele é maravilhoso, que contra tudo o que ele foi antes, ele é maravilhoso comigo, mas você não é mais minha melhor amiga. Você é minha mãe. – Meneei minha cabeça, notei minha voz embargada e a necessidade de respirar fundo. — A que está pronta para me julgar por que por alguns segundos eu me deixei ser uma garotinha apaixonada e imaginei um futuro em que não estejamos por longo tempo separados, sujeitos a um namoro a distância.

— Oh querida. – Murmurou deixando se levar pela emoção. – Eu ainda sou sua melhor amiga, você pode me contar qualquer coisa. – Ela se levantou e parou em minha frente se ajoelhando, seus olhos entrando em contato com os meus sua mão acariciando meus cabelos. – Eu te amo, e eu sempre vou te amar. Oliver é maravilhoso com você aqui, e ele pode continuar sendo maravilhoso com você lá. Eu não posso prever o futuro e não posso afirmar tão corretamente sobre o caráter de uma pessoa baseada apenas em alguns poucos momentos de contatos e algumas palavras trocadas, mas eu sou uma boa observadora, e pelo o que eu pude ver nos breves momentos em que os vi junto, a maneira que ele te olha... Esse homem é louco por você. Ele anseia sua aprovação, se preocupa com seu bem estar, do meu ponto de vista não há motivos para vocês dois não resistirem bem a um relacionamento à distância.

— Eu inda tenho muito do meu curso pela frente. – Argumentei.

— Vocês vão saber levar isso adiante. – Sorriu suas mãos segurando meu rosto. – E se não... Você é forte, ele pode ser seu primeiro amor, agora soa como o último, isso não significa que tenha que ser. Você tem apenas 23 anos. Ainda há muitas idas e vindas no relacionamento de vocês. Este é apenas a primeira, ainda haverá muitas outras. E tenho certeza que vocês irão superar todas as outras.

— Eu realmente espero que sim. – Confessei.

— Confie em mim. – Pediu. Após o que pareceu longos segundos, eu assenti em resposta, ela suspirou em alívio e me abraçou, e pela primeira vez desde que ela chegou abraça-la de volta foi um ato natural. – Desculpe. – Pediu.

— Desculpe. – Repeti seu pedido, não mais automaticamente, mas por que eu sabia que era necessário ser feito.

POV OLIVER

Fechei a academia sentindo meus ombros cansados protestarem, desliguei as luzes e subi as escadas já imaginando que agora seria a conversa que ambos adiávamos tanto. Felicity passou o dia com a mãe que foi embora apenas alguns pares de horas antes, as duas pareciam estar em um clima mais ameno e Felicity finalmente parecia mais a vontade perto dela. Não de todo, mas definitivamente estava melhor. O almoço foi no nosso apartamento, foi feito em um clima leve, com Sara provocando Felicity sobre sua bebedeira e Donna tentando assimilar a imagem da filha bêbada, Ra’s também estava lá, com sua carranca, assim como Roy que encantou Donna com seu jeito de garoto tímido. Donna falou mais sobre si e confessou estar em um relacionamento sério, Ra’s a encarou curioso e fez inúmeras perguntas o que a deixou sem graça, quando Felicity a questionou sobre, ela confessou está considerando um noivado em breve. Felicity parecia um pouco chateada em estar sabendo sobrei isso agora, mas ela sabia também não poder protestar, por que havia sido ela a maior responsável por essa distância.

Ninguém questionou sobre sua volta a NY, o que eu agradeci, não era algo que eu queria falar no momento. Eu tinha estado tão chateado ontem. Não por saber que ela iria embora, isso sempre esteve ali, mas pela forma que ela falou, como se eu não importasse nem um pouco sobre sua decisão, como se eu não importasse em nada. Então eu me afastei, porque eu não podia ser o antigo Oliver que gritava e quebrava as coisas, não com ela, não perto dela. Eu precisei de algumas horas sozinho, para me acalmar, para admitir a mim mesmo que já esperava por isso, para me lembrar que eu já vinha planejando sobre como seria. Para me lembrar de que quando eu contemplava essa opção, terminarmos nunca estava incluída nela.

— Hey. – A cumprimentei entrando em seu quarto e me encostando ao batente, ela estava sentada no chão, dobrava suas roupas limpas e as colocava dentro de uma das gavetas do guarda roupas, felizmente ainda era no guarda roupas.

— Hey você. – Sorriu. Ela me encarou por um tempo antes de inclinar a cabeça indicando que eu me aproximasse, sem hesitar fiz exatamente isso, sentei ao seu lado, ficando em posição oposta a sua, minhas costas encostada a uma das portas fechadas, meus braços envolvendo meus joelhos, meu queixo apoiado ao meu ombro.

— Então... – Murmurei hesitante. – Você está voltando para New York.

— Eu estou voltando para NY. – Assentiu.

— Em...

— Duas semanas. – Respondeu com um suspiro. – Eu recebi uma ligação da faculdade. Trancar o período é uma opção, mas não uma boa opção para mim. Para meu futuro acadêmico. Então eles me “Aconselharam“ a voltar a tempo para o começo do período. O período começa em uma semana.

— Mas você está indo em duas semanas. – Falei.

— Sim. – Assentiu. – Eu imagino que perder uma semana não me fará tanto mal. – Confessou com um pequeno sorriso.

— Por que você está me dizendo isso apenas agora Felicity? – Perguntei um pouco decepcionado. – Eu não merecia saber um pouco antes?

— Isso me pegou de surpresa Oliver. – Respondeu. – Eu planejava trancar o período, já havia ligado informando. Então houve isso, eu acho que planejava contar quando eu aceitasse que realmente havia me decidido voltar. Eu pensei... – Parou de repente. Como se pensasse bem no que ia dizer.

— O quê? – Perguntei confuso. – O que você pensou Felicity?

— Eu pensei... – Recomeçou. – Eu temi que você acharia melhor a gente terminar. – Deu de ombros. – Eu sei que este é seu primeiro relacionamento sério, você não dava nada por relacionamentos antes Oliver, não quando envolvia você, você me disse isso. E então eu chego e já exijo um relacionamento a distância?

— Você pensou que eu correria. – Deduzi. – Por que eu era um pedaço de merda antes de você.

— Oliver...

— Isso foi antes de você Felicity. – Esclareci. – Não é que agora eu decidi que quero namorar, que quero um relacionamento, não é assim. É você. Eu quero um relacionamento com você. Eu quero você. É uma merda que tenha que ser à distância? É uma merda. Eu queria que fosse diferente? Eu queria. Eu quero. Mas não pode ser diferente. Eu moro aqui. E você tem que terminar suas coisas lá, isso não quer dizer que precisamos perder o que há no meio disso, que somos nós, eu e você. Pode dar certo.

— Nunca dá certo. – Murmurou me surpreendendo. – Lá eu divido um apartamento com minha amiga e colega de sala, Caitlin. Ela tinha esse namorado, se conheciam por anos e cada um foi para uma faculdade em cidades diferentes. Ronnie seu namorado, acabou com ela. Ele disse que não podia prometer mais fidelidade a ela, não quando ela estava tão longe e ele estava tão sozinho, não com tantas garotas tão legais que até o momento eram apenas amigas, mas que com o passar do tempo poderiam ser mais do que isso, ele disse que não queria chegar o momento em que ele a trairia.

— São casos isolados. – Argumentei. – Você não é Caitlin, e eu não sou Ronnie. Podemos não nos conhecer por tanto tempo quanto eles se conheciam, mas não significa que o que sentimos pode ser diminuído quando comparado ao deles. Eu estive sozinho por muito tempo Felicity, por toda uma vida. Não foi isso que me fez transar com garotas aleatórias, eu não estava apenas sozinho. Eu não tinha ninguém a chamar de minha, eu não pertencia a ninguém. Não é o mesmo. Você estar em outra cidade não muda o fato de que você é minha. Não muda que eu sou seu. E qualquer coisa diferente disso eu não aceito. Não vou aceitar.

— Você se sente assim agora. – Meneou a cabeça. – Você tinha uma vida antes que eu chegasse, uma rotina, eu a quebrei, mas estando fora... É fácil demais cair na velha rotina.

— Você está me diminuindo. – Murmurei magoado. – Tudo o que eu disse até agora não importa? O que tivemos? Diga-me ontem quando eu a deixei sozinha, quando eu saí sem lhe dizer para onde, quando eu estava magoado. Você cogitou que eu a estivesse traindo?

— É claro que não. – Negou soando até mesmo indignada com minha pergunta.

— Eu estava chateado, magoado e até mesmo irritado com você. – Dei de ombros. – Se vamos falar de rotina, era assim que eu devia agir, procurar uma garota qualquer, uma sem nome e transar com ela. Era o que eu teria feito antes.

— Eu sei que você jamais faria isso. – Falou convicta.

— Por quê? O que te dar tanta certeza? – A questionei.

— Por que você sabe que eu me magoaria. – Respondeu. – Você me machucaria, e você jamais me machucaria assim de propósito.

— Então por que você estando longe eu simplesmente ignoraria isso? – Perguntei por fim. – Eu quero que isso dê certo Felicity, eu quero que haja um nós, não apenas um eu e você separados. – Ela ficou em silêncio por um longo tempo, um tempo que me deixou aflito, então um pequeno sorriso cedeu em seus lábios. Encantando-me.

— Você vai ter que mandar mensagens. – Falou por fim. – Todos os dias. – Alertou-me.

— Mensagens sacanas. – Mais para fazer com que seu sorriso, esse sorriso não se apagasse.

— Talvez eu cobre alguns e-mails. – Continuou.

— Com fotos sacanas. – Acrescentei.

— E ligações...

— Sacanas? – Sugeri. – Podemos tentar sexo por telefone.

— Vai ter que me visitar nos feriados. – Falou vindo até me colo e sentando-se de frente para mim, seu rosto próximo ao meu. Assenti concordando. – Eu vou vir quando você não puder, tentarei pegar alguma luta sua. – Prometeu.

— Você odeia lutas. – Lembrei.

— Mas não odeio você. – Deu de ombros. – Na verdade, eu tenho muita certeza de que amo você. – Ofeguei com o que disse, ela literalmente tirou meu ar, deixou-me sem palavras. – Não diga nada. Nem surte com isso. – Pediu. – Eu só precisava deixar isso claro, eu amo você Oliver Queen, independente de seus defeitos, dos erros cometidos no passado. Eu o amo pelo o que foi e pelo o que você é, e eu sei que não tivemos o melhor começo de relacionamento, sequer nos aturávamos, mas a verdade é que eu não posso imaginar um futuro em que eu não o ame. Eu quero que isso dê certo, por nós dois. Por que eu também quero desesperadamente que exista um nós.

— Felicity...

— Eu te amo. – Repetiu, sua cabeça encostando a minha. Mantive meus olhos abertos, absorvendo sua imagem, sua beleza. Deus, ela era tão linda. – Sem a necessidade de um retorno, eu simplesmente amo. – Concluiu antes de entrelaçar seus dedos atrás da minha nuca. E me beijar com urgência. Meu corpo reagiu de imediato ao seu beijo, como sempre seria, sem tentar dizer mais nenhuma palavra minhas mãos entraram em sua blusa, em segundos ela havia ido embora, separando meus lábios do seu apenas para tira-la, sem perder tempo a ergui e levei para sua cama, meu corpo cobrindo o seu, meu coração tão próximo ao seu, corpos unidos. Eu nunca pensei que estaria tão ligado a alguém, que fosse tão além de algo físico, mas era assim que eu me sentia por ela, com ela. Eu queria colocar em palavras esses sentimentos, mas eu não tinha certeza se esse era o momento.

Então enquanto terminava de despi-la eu escutava a frase ressoar em meus ouvidos, e quando mais tarde, nossos corpos ainda entrelaçados, ofegantes após atingir o ápice do prazer, elas ainda estavam lá.

“Eu te amo” Ela havia dito.

Apenas uma frase.

Tão pequena, mas tão profunda.

Tão pequena, mas tão bonita.

E igualmente recíproca.

Foda-se, essa garota não havia apenas roubado meu coração, mas também havia me transformado em um poeta de quinta.

Notas finais
Será que vejo vocês nos comentários? Sempre no aguardo. Xoxo, LelahBallu.