Redenção
8 Capítulo 07
Notas iniciais
CAPÍTULO 07
Olhei para o despertador enquanto esperava que ele tocasse, eu estava acordada há pelo menos meia hora, mas me negava a me mover até que ele resolvesse agir, eu teria que descer após tomar banho e comer algo para cumprir minha promessa de ajudar Sara ficando na academia. Eu honestamente estava assustada com o que poderia me recepcionar quando eu descesse, não a rotina que eu já havia criado desde minha pequena discussão com Ra’s há uma semana, mas o que ele podia ter deixado me esperando quando eu fosse assumir minhas tarefas, era meu aniversário e ele tendia a ser exagerado nesse dia.
Eu não tinha falado a ninguém sobre o meu aniversário, estava tentando evitar grandes alardes, principalmente por que nesse dia eu sentia mais saudades do que raiva da minha mãe, então tendia a me isolar. Suspirei quando finalmente o despertador tocou e levantei minhas cobertas com desânimo e caminhei sem pressa até o banheiro, tomei meu tempo no banho preparando-me mentalmente e quando depois cheguei à cozinha Oliver já estava comendo seu café da manhã. Ele sempre acordava antes e sempre fazia o café da manhã, poucas foram às vezes que acordei antes de Oliver e confesso que sempre procurava enrolar até que ele acordasse e fizesse o café. Não era justo uma pessoa ser tão idiota quanto cozinhar bem.
– Hey. – Sussurrou baixando sua caneca que estava a meio caminho de seus lábios.
– Hey. – Devolvi procurando por uma caneca nos armários. Pude sentir seu olhar atento em minhas costas.
– Você vai ficar na academia hoje? – Perguntou. Ele sempre perguntava, parecia ser sua garantia de uma conversa civilizada, como todas as outras vezes eu apenas assenti em resposta.
– E depois vou para o Boliche. – Acrescentei para preencher o silêncio.
– Bom. – Respondeu logo a atmosfera tensa passou a reinar enquanto comíamos em silêncio, talvez a partir de agora eu devesse esperar que ele já tivesse saído antes de entrar na cozinha, faria tudo menos... Inquietante. Quando terminei de comer ele já levava suas coisas para a pia.
– Deixe isso aí Oliver. – Falei com um suspiro impaciente, ele sempre fazia isso também.
– Eu não me importo, você não precisa lavar os meus. – Deu de ombros.
– Você faz o café, então eu lavo a louça apenas se conforme. – Falei arrancando seu prato e caneca de suas mãos, ele me lançou um olhar exasperado. – Sem carranca. – Murmurei ficando em frente a pia e começando a juntar o resto de comida para jogar no lixo, esperava que ele se afastasse, mas senti sua presença atrás de mim.
– Eu não estava fazendo carranca. – Negou.
– Um dia desses, eu lhe darei um espelho. – O provoquei.
– Eu já sei como sou bonito Felicity, não preciso de espelhos. – Escutei falar atrás de mim, pude sentir o sorriso na voz e não pude evitar sorrir, era uma boa coisa que estivesse de costas.
– Bem talvez seja capaz de mostrar sua arrogância. – Dei de ombros antes de abrir a torneira, franzi o cenho quando não recebi o jato de água. – Oliver.
– Hum? – Virei-me notando que ele tinha se afastado, mas logo voltou a se aproximar. – Estamos sem água.
– Você tem certeza? – Perguntou ficando ao meu lado. – Não tem muito tempo eu a usei.
– Não sai água. – Apontei para a torneira, teimoso como era ele tinha que empurrar minha mão de cima da torneira, ele mesmo abrindo e fechando. – Está vendo? Não surgiu água apenas por que foi você que a girou. – Ele me lançou um olhar aborrecido antes de voltar a girar a torneira apenas para me provocar, no momento que ele fez isso jatos fortes de água começou a sair. – Oh meu Deus! – Exclamei quando com pressa de tornar a fechar a torneira Oliver acabou quebrando. – Oliver, faça parar! – Mandei quando senti minha blusa umedecer devido aos respingos oriundos dos fortes jatos, Oliver assim como eu estava recebendo o castigo, e tentava com desespero tampar de alguma forma. – Oliver!
– É água Felicity, não vai te machucar. – Murmurou rudemente.
– Eu estava pensando no desperdício seu idiota. – Falei tirando minha mão e virando-me para encara-lo, surpreendi-me quando encontrei sua risada, não demorou muito e a minha juntava-se com a sua.
– Estamos ridículos. – Murmurou ainda com um sorriso desistindo de controlar a saída de água com suas mãos, seu sorriso era terno quando deslizou um dedo por meu rosto afastando uma mecha de cabelo que havia grudado a pele devido à umidade, seus olhos eram mesmo que fogo quando desceram até minha blusa pregada ao meu corpo enquanto eu mesma imitava seu gesto, respirei fundo e dei um passo para trás desejando evitar e fugir do clima que havia mudado drasticamente. – Acho melhor desligarmos o registro, até que eu possa consertar isso. – Sugeriu, não mais sorria, a perda do seu sorriso trouxe uma sensação inquietante para mim.
– Eu vou trocar de blusa. – Murmurei bobamente antes de me afastar deixando-o lidar com a bagunça. Não demorei muito, rapidamente me vesti e desci sem me dá o trabalho de ver como ele estava na cozinha, suspirei quando a primeira pessoa que vi foi meu pai.
– Ai está a... – Começou a dizer com um grande sorriso, mas o interrompi com um olhar rude e movendo um dedo sobre meus lábios o mandando calar. –... A minha querida filha que é um exemplo de delicadeza.
– Você não disse a ninguém... Disse? – Perguntei quando me envolveu em um abraço.
– Não. – Murmurou quando finalmente me soltei de seus braços eu ainda não estava bem com sua última ordem. – Como você me pediu durante toda a semana.
– Eu conheço você, você planeja algo. – Acusei. – Seja o que for pare, se você organizou alguma festa surpresa... Cancele, eu não quero surpresas.
– Nenhum tipo de surpresa? – Perguntou analisando-me. Estreitei os olhos em desconfiança.
– O que você fez? – Ele se afastou com um sorriso me deixando cada vez desconfiada. – Volte aqui, pai! – Ele lançou um rápido olhar ainda zombeteiro e voltou a se afastar. – Pai!
– Ok. Nunca vi você tão desesperada por seu pai. – Sara murmurou atrás de mim. Virei-me encarando-a ainda com os pensamentos voltados no que ele estava tramando. – Eu não me lembro de antes ter escutado você chama-lo de pai. – Provocou-me.
– Eu chamo. – Falei já indo até o balcão, ela me acompanhou sorrindo.
– Você no mínimo evita. – Retrucou. Dei de ombros, não chegava a ser uma mentira, mas a verdade era que eu evitava conversar com ele no geral. – O chama de todo poderoso Ra’s.
– O apelido cai bem. – Respondi. – E ele está aprontando algo. Eu sinto isso.
– Por que ele aprontaria algo? – Perguntou confusa. – Ele já não tem você onde ele queria.
– Por outras razões. – Tentei desconversar. – Precisa de alguma coisa?
– Você pode pedir a Ollie para me ajudar com minha turma? – Murmurou após assentir. – Pretendo fazer um exercício em dupla, e ajudaria se ele estivesse presente.
– Claro. – Concordei. – Eu só não sei se ele vai descer agora, tivemos um problema com a torneira da cozinha, ele disse que ia ver... Por que você não sobre e pergunta você mesmo?
– Você ainda está o evitando? – Perguntou com um suspiro impaciente.
– Sempre que possível. – Assenti.
– Vocês dois um dia vão acabar com minha paciência. – Resmungou antes de se afastar indo em direção as escadas que levariam até o apartamento.
– Com licença. – A voz forte e masculina se fez presente tirando minha atenção de Sara e me concentrando no homem que se aproximava. Era alto e moreno, definitivamente bonito, e chamava atenção por onde passava, principalmente ao entrar em uma academia vestido impecavelmente em seu terno caro. – Bom dia.
– Bom dia. – Sorri soando mais animada, era bom ter um rosto novo, e se esse rosto fosse tão bonito assim, melhor ainda. – Em que posso ajuda-lo?
– Olá. Eu sou Ray Palmer. – Murmurou estendendo sua mão por cima do balcão, seu sorriso era brilhante e contagioso. – Eu estava pensando em começar a frequentar uma nova academia e um amigo me recomendou essa aqui.
– Fico feliz, digo, nós ficamos. – Corrigi-me percebendo minha gafe e soltando sua mão. – Você quer fazer seu cadastro agora?
– Na verdade eu queria conhece-la primeiro. – Ergui uma sobrancelha. – A academia. – Esclareceu. – Eu frequento a minha há um bom tempo e quero ter certeza que estou fazendo uma boa escolha.
– Você procura apenas por musculação e aeróbica ou deseja entrar em alguma aula? – Perguntei curiosa, ele não aprecia ser um lutador.
– Por enquanto não procuro por nenhuma aula. – Respondeu rapidamente. – Apenas o básico.
– Ok. – Assenti. – Eu posso te mostrar as instalações agora. – Sugeri.
– Seria ótimo! – Concordou.
– Ela está ocupada. – Franzi o cenho ao escutar a voz de Oliver se erguer atraindo nossa atenção, ele havia trocado de camisa assim como eu, a imagem de Oliver em uma camisa regata branca sempre tinha o poder de me distrair momentaneamente, malditos braços. – Não pode ficar preambulando por ai, alguém pode aparecer.
– Eu não queria tirar sua funcionária...
– Ela não é...
– Eu não sou sua funcionária. – Murmuramos ao mesmo tempo. — Mas eu tenho certeza que posso tirar alguns minutos para apresentar a academia ao Sr. Palmer. – Comentei encarando Oliver com um olhar aborrecido.
– Roy pode fazer isso. – Retrucou, eu ia abrir a boca para protestar, ele estava sendo ridículo, nunca tinha se preocupado se eu perambulava ou não pela academia até agora, mas antes que eu pudesse emitir qualquer sílaba que fosse ele ergueu um braço e chamou Roy que estava mais afastado treinando em um saco de pancadas. Ray apenas nos encarava com interesse e esperou pacientemente que Roy se aproximasse. – Roy mostre ao...
– Ray Palmer. – Ray sorriu erguendo uma mão para cumprimentar primeiramente Oliver e depois a Roy.
– Oliver Queen. – Oliver murmurou antes de apontar para Roy. – Este é Roy, ele vai te mostrar a academia, eu espero que se encaixe em seus padrões. – Sorriu como se não estivesse sendo um idiota completo. Segurei minha reprimenda enquanto forçava um sorriso de despedida para Ray que se afastava com Roy, eu estava pronta para discutir sua atitude ridícula, mas desisti. Para fazer valer minha determinação em evitar Oliver eu precisava fugir de qualquer confronto com ele.
– Onde está Sara? – Perguntei quando ele sentou em um dos bancos a minha frente, tornando impossível o ignorar. – Achei que ela tinha ido atrás de você.
– E foi. – Deu de ombros. – Ela está lá em cima.
– O que ela está fazendo lá em cima, já que você está aqui em baixo? – Perguntei confusa.
– Eu não costumo fazer muitas perguntas sobre o comportamento estranho de Sara. – Encarou-me com um sorriso, desconfiei daquele sorriso.
– Eu vou até ela. – Murmurei cada vez mais desconfiada, sua mão segurou a minha por cima do balcão impedindo-me de sair.
– Você não vai sair de trás desse balcão. – Falou determinado. – Você está trabalhando.
– O que há com você hoje? – Perguntei sem paciência tirando minha mão da sua. – Por que se importa onde eu fico?
– Eu não me importo. – Negou. – Eu só... – Eu podia sentir que ele estava buscando uma saída. – Eu estou tentando.
– Tentando? – Murmurei atônita.
– Sim. Tentando. – Repetiu. – Eu pensei que talvez nós dois não precisássemos ficar fugindo um do outro para evitarmos entrar em uma discussão. Talvez não precisássemos ficar afastados, podemos ficar bem sem isso.
– Oliver eu não consigo acompanhar suas oscilações de humor. – Murmurei após um suspiro. – Manter-me afastada ou próxima de si? Você quer brigar ou me beijar? Decida-se, tome uma atitude, não fique esperando para eu faça isso. – Seus olhos se abriram surpreso. Ele não esperava essa atitude agressiva, estava óbvio.
– Eu só pensei que poderíamos deixar tudo de lado. – Sua voz soava até mesmo um pouco desapontada. – Pensei que talvez possamos chegar a algo perto de amigos.
– Amigos. – Meneei a cabeça soltando um sorriso irônico, com toda certeza que esse era apenas mais um de seus joguinhos, logo eu escutaria novamente que tudo o que teria dele era uma foda e que meu rosto não era bom o suficiente para querer repetir, acaso não foi isso que ele disse na outra vez? – Nunca seremos amigos, você me disse uma vez, só tem amigas de fodas e que eu nunca conseguiria ser isso, e quer saber? Você está certo. Então não, não pense que guardo algum desejo de ser sua amiga, qualquer tipo que seja. Nunca seremos amigos, Oliver. – Murmurei duramente. Seu rosto tinha caído, eu esperava um ataque de sua parte, mas ele encolheu os ombros, parecia até que o que eu havia dito tinha-o ferido, mas foi rápido, ele assentiu e sem dizer qualquer réplica inteligente e mordaz ele se foi passando por Sara no caminho.
– Por que Ollie parece algo que foi chutado? – Sara perguntou parando em minha frente. – O que você disse?
– Nada que seja novidade. – Dei de ombros. – Oliver estava estranho e talvez eu tenha sido um pouco dura. – Confessei.
– Estranho? – Perguntou com um olhar que me deixou inquieta.
– Sim. Começou me afastando de talvez um frequentador em potencial da academia. – Expliquei. – E quando o questionei por que estava tão em cima de mim ele disse que poderíamos ser amigos, Oliver falou que poderíamos ser amigos. Acredita?
– Lis. –Suspirou meu nome em tom agoniado. – Ok, não era para eu contar, mas desde que tudo deu errado...
– O quê? – Perguntei alerta.
– Ollie estava me fazendo um favor. – Começou. – Eu escutei uma conversa de Ra’s no celular e descobri que hoje era seu aniversário, só descobri ontem e era tarde para eu ir atrás, eu realmente queria te dar algo em especial, então pedi a Ollie para te manter aqui enquanto eu bisbilhotava suas coisas para ter alguma pista do que podia te dar. – Confessou em tom envergonhado.
– Oh. – Pisquei surpresa. – Então Oliver só estava...
– Sendo um doce. – Murmurou. – Ele ia me ajudar a comprar algo para você, eu sei que ele é um estúpido 70% das vezes, mas confie em mim, os 30% fazem tudo valer a pena.
– Então ele não estava apenas sendo o Oliver idiota. – Murmurei arrependida.
– Tenha em mente algo. – Falou séria. – Eu pedi apenas que ele a distraísse, ele poderia ser um idiota completo enquanto o fazia, mas tudo o que ele fez foi tentar convence-la de que vocês poderiam se entender.
– Então você descobriu que hoje é meu aniversário. – Comentei procurando ignorar o rosto de Oliver após eu ter sido tão dura com ele. Sara sorriu.
– Sim. – Murmurou e me abraçou ficando por cima da bancada. – Parabéns! Eu tentei achar qualquer pista do que você gostaria, mas você não trouxe nada pessoal...
– Eu não achei que ficaria tempo o suficiente. – A lembrei. – Obrigada. Mas eu não quero presentes Sara, sério. – Seu rosto mostrava que não estava feliz, mas olhou em volta procurando alo, ou alguém e assentiu.
– Mais tarde precisamos combinar algo, agora eu preciso encontrar Ollie. – Murmurou. Então com um último parabéns se afastou com pressa.
– Sara! – A chamei. Ela se virou me encarando com curiosidade. – Você precisa dar uma olhada no cara novo.
– Se ele ficar na academia... Por que não? – Piscou antes de voltar a se virar e se afastar. No exato momento em que ela sumiu me surpreendendo ao entrar no banheiro masculino Ray apareceu junto a Roy e se aproximou.
– Olá. – Sorri. – O que acha?
– A estrutura me impressionou. – Concordou. – Os equipamentos, a organização...
– Mas... – O interrompi.
– Eu estava pensando se todos os funcionários são como o Sr. Queen. – Confessou.
– Oliver não é exatamente um funcionário. – O corrigi.
– Ele frequenta?
– Pode-se dizer que sim. – Assenti. – Ele luta para a academia. Al Sahim? – Perguntei considerando que talvez ele já tivesse ouvido falar. Ao que parecia sim, seu semblante se tornou empolgado.
– Ele é Al Sahim? – Seu tom admirado me fazia querer revirar os olhos, apenas eu que não ficava nem um pouco impressionada? Assenti novamente apenas para compartilhar de sua empolgação. – Nossa! Bem sua arrogância estraga um pouco sua imagem, mas todo mundo na minha academia fala sobre ele, talvez você saiba quando ele lutará novamente? Eu nunca o vi em uma luta. – Comecei a balançar a cabeça em negativa, depois da minha experiência na luta de Oliver eu preferia estar por fora de sua agenda de lutas, mas Roy tomou voz.
– Oliver irá lutar em um mês aqui mesmo na academia. – O informou. – Na verdade nossa academia está convidando uma rival para algumas pequenas lutas, nada sério, uma espécie de “amistoso” entende?
– Sim. – Ray assentiu. – Ouça eu não posso ficar para o cadastro agora, já estou atrasado, mas na volta eu definitivamente passo por aqui, ok?
– Ótimo. – Concordei. Ele exibiu mais um de seus sorrisos radiantes e logo se retirou. – O que há com vocês grandes homens que só ao falar em Al Sahim esquecem o idiota que é Oliver Queen? – Encarei Roy.
– Ele luta muito bem. – Roy deu de ombros e saiu.
POV OLIVER
Procurei a caixa de ferramentas guardada em um dos armários desocupados e a peguei depositando em um dos bancos compridos que ficavam no centro, abri procurando as ferramentas que precisava, mas as joguei de lado voltando a fechar com força em um movimento explosivo, sentei pesadamente no banco e tentei controlar meu humor. Nada que Felicity havia dito era sua culpa, tudo o que ela havia feito era repetir palavras minhas. Desde que ela havia chegado eu havia agido como um pedaço de merda, tentar ser algo que eu não sou não mudaria nada.
– O que você está fazendo aqui? – Escutei Sara perguntar, a encarei há apenas dois passos da porta do banheiro, tinha fechado e me encarava com receio.
– Felicity reclamou a alguns dias que esse armário estava com a porta pendendo. – Dei de ombros. – Eu vou ajeita-lo e então vou subir para ajeitar nossa pia. – Ela inclinou a cabeça me analisando.
– “Nossa”? – Perguntou se aproximando e sentando-se a minha frente.
– Sara, esse é o banheiro masculino. – A lembrei já que não queria cair na armadilha que era sua pergunta.
– Eu tranquei a porta. – Deu de ombros.
– Poderia ter alguém. – Retruquei. – E vão pensar que estamos fazendo outra coisa.
– Você realmente não se importa com isso. – Bufou. – Você não quer fazer o que eu queria quando entrei nesse banheiro.
– Que é? – Perguntei voltando apegar nas ferramentas e indo até o armário quebrado.
– Conversar. – Respondeu sem paciência.
– E você vai atrapalhar os lutadores de usar a ducha só para trocarmos algumas palavras? – Perguntei concentrado no que fazia.
– Felicity me contou que você falou algo sobre serem amigos... – Murmurou ignorando meu claro desejo de estar sozinho.
– Ela também falou que nunca seria minha amiga? – Perguntei sem humor.
– Por que você sugeriu isso? – Voltou a me ignorar.
– Por que eu sou idiota. – Respondi. – Eu não gostei de ter a magoado com o que disse semana passada, e percebi que apesar de tudo ela estava tentando fazer nossa convivência mais fácil durante toda a semana, eu pensei que poderia tentar ser apenas seu amigo, foi algo idiota, eu não sirvo para ser amigo de alguém.
– Você é meu amigo. – Lembrou-me.
– Exato. Mas antes transamos, tivemos nosso momento com benefícios e então paramos. – Falei me virando para ela. – Você sempre foi uma constante em minha vida, praticamente crescemos juntos e passamos por muita merda juntos, você me ajudou quando precisei, não acho que acabaríamos sendo outra coisa senão amigos, mas com Felicity é diferente. Eu fui estúpido por imaginar que poderia ser algo que não sou.
– É o que você não é Ollie?
– Eu não sou uma boa pessoa. – Respondi. – Ela é nova, de certa forma é pura, ela não precisa de mim a manchando. Mesmo como amigo. – Concluí fechando a porta com impacto e retornando a pegar a caixa, passei por ela que me encarava com pesar.
– Você não pode desistir. – Ergueu sua voz interrompendo minha ação justo quando eu estava prestes a abrir a porta. – Eu sei que falei que tudo o que vocês fariam agora era machucar um ao outro e depois de mais cedo eu mantenho minha palavra, mas você não pode desistir, não seja tolo Oliver, você não conseguirá se manter longe, então faça como estava decidido mais cedo, tente ser seu amigo, eu acho que os dois merecem, ou ao menos se esforce a ser a pessoa que você acha que ela mereça, sem no entanto deixar de ser você. – Não a respondi, voltei a girar o trinco e que como havia prometido subi para avaliar como estava a torneira.
POV FELICITY
Sorri cumprimentando alguns dos rapazes enquanto subia as escadas e procurava por Sara, eu precisava sair da academia o quanto antes, porém ates de ir ao Boliche eu estava pensando em convidar Sara para almoçarmos juntas, eu queria evitar qualquer que fosse a “surpresa” que meu pai houvesse armado para mim, eu pouco o tinha visto depois de sua deixa misteriosa, o vi treinando Roy que estava exultante por ter atenção Ra’s Al Ghul, já que Oliver ainda não havia cedido aos pedidos de Diggle e só, este passava menos tempo na academia já que a gravidez da sua esposa não estava sendo fácil. Eu havia passado a manhã em meio a atualizações e novos cadastros, eu estava tentando implantar um sistema de organização melhor, e instalando alguns programas para isso e agora eu estava ansiosa por apenas por ir embora, no momento que pisei no último degrau me encontrei com Sara que estava prestes a descer.
– Hey. – Sorri a cumprimentando. – Eu estava pensando em irmos almoçar juntas? Você pode?
– Claro! – Concordou sem hesitar. – Você não vai fazer nada com o Ra’s? – Perguntou curiosa, passei a descer as escadas dessa vez acompanhada por ela.
– Geralmente ele me encurrala em alguma festa surpresa ou jantar. – Dei de ombros. – E como ele não fez nenhuma menção a querer almoçar comigo eu assumo que o que estiver me esperando não será agora.
– Você parece desesperada. – Comentou.
– Bem, ele apareceu em minha vida como uma “surpresa”, então não sou muito fã. – Confessei.
– Você só espera eu dizer algumas palavras a Oliver? – Pediu olhando para o ringue, segui seu olhar encontrando Oliver avançando em seu adversário de forma implacável, eu o tinha visto em luta, ele tinha sido cuidadoso, agora ele apenas era agressivo, não parecia pensar em suas ações, apenas agia, apenas atacava. – Eu sinto que preciso pedir que ele vá com calma.
– Você conversou com ele no banheiro não foi? – Perguntei já sabendo sua resposta. Ela assentiu concordando. – Imagino que não ajudou muito.
– Ollie nunca assimila algo que eu diga na hora, ele age no automático, joga sua energia para fora e depois reflete. – Explicou.
– Ele está imaginando que sou eu ali? – Perguntei fazendo uma careta quando Oliver atingiu a mandíbula de seu adversário com força.
– Ele jamais a machucaria Felicity, não fisicamente. – Deu de ombros. – É da outra maneira que ele precisa aprender a agir.
– Vá ser sua consciência. – Sorri. – Você é boa nisso. – Ela sorriu de volta e caminhou até o ringue, tão logo ela se aproximou e subiu no canto Oliver ergueu a mão parando a luta para alívio de seu adversário e foi ao seu encontro, ao que parece sua concentração não estava totalmente na luta, ela murmurou algumas palavras que o fez assentir e responder com uma frase curta, ela voltou a murmurar algo que o fez desviar seu olhar em minha direção fazendo com que eu piscasse com receio, mas ainda assim fui incapaz de desviar meu olhar do seu, a intensidade presente nele fez com que eu não pudesse fazê-lo. Quando eu seria capaz de não reagir dessa forma a um mero olhar seu? Eu sequer estava concentrada em seu corpo dessa vez e eu sabia que usava apenas um short e estava sem camisa.
– Você parece uma criança vendo uma arvore de natal pela primeira vez. – Pisquei incrédula diante a voz feminina que interrompeu meus pensamentos. Virei meu rosto ao encontro de Nyssa ao meu lado e fui incapaz de esboçar uma reação imediata. – Agora parece que viu o papai Noel e não acredita que é real. – Debochou.
– Nyssa! – Exclamei bobamente antes de envolvê-la em um abraço, ela não era o tipo que abraçava, mas apesar dos primeiros meses de desconfiança e um ano de intrigas ela se tornou uma autêntica irmã para mim, ela havia assumido o papel de irmã mais velha em tudo, chegando a ser insuportável e protetora. Ela é minha irmã. – O que? Como?!
– Eu sou sua surpresa. – Brincou. – Acho que dessa vez nosso pai acertou. Parabéns!
– Sim. – Sussurrei a soltando. – Esta é uma das boas, você veio para...
– Vou ficar apenas um dia. – Interrompeu-me. – Amanhã parto. – Murmurou me deixando triste. — Então o que vamos fazer?
– Eu estava indo almoçar com uma amiga. – Apontei com o queixo Sara que se aproximava hesitante.
– Você e Sara são amigas. – Murmurou não deixando de analisar Sara com ar inconfundível de interesse mesclado a saudades e pesar. Eu sabia que Sara e Nyssa tinham um passado, não por que Sara houvesse me dito algo, mas por que Nyssa me falou de uma garota uma vez, ela não era muito aberta a conversar sobre seus relacionamentos, principalmente quando havia sido decepcionante, mas ela soltou o nome de Sara Lance, eu não a conhecia na época e mesmo após conhecê-la demorou alguns dias para eu me lembrar.
– Você vai se juntar a nós não é mesmo? – Perguntei com receio, eu havia convidado Sara e não queria ter que mudar isso, e Nyssa havia vindo para me visitar.
– Claro, é seu dia. – Concordou com um sorriso pequeno que não chegou aos lábios.
– Olá Nyssa. – Sara a cumprimentou ainda hesitante.
– Sara. – A cumprimentou cortês.
– Ela é minha surpresa. – Falei para Sara. – E vai almoçar conosco. Você ainda vai certo?
– Talvez vocês duas queiram passar um tempo sozinhas... – Começou.
– Sara... – Protestei.
– Ela vai. – Nyssa murmurou em tom que não admitia ser contrariada. – Vamos. – Chamou-a amenizando a ordem com um sorriso. – Então você poderá me dizer por que Felicity estava olhando tão intensamente para Al Sahim. – Corei instantaneamente quando ela falou isso, Sara sorriu feliz com a informação e assentiu.
– Vamos. – Murmurei andando na frente fugindo do olhar atento de Nyssa. – Eu não pretendo ser o objeto de graça de vocês, estou fome. – Escutei as risadas femininas soar as minhas costas, pelo menos para algo meu desconcerto servia, o clima parecia mais ameno.
Comemos e um local mais perto e o clima entre as duas realmente estava mais descontraído, felizmente Sara não tocou mais no assunto de Oliver e Nyssa não voltou a perguntar sobre, suas perguntas eram mais para como eu estava e as novidades, claro que ela já sabia de algumas coisas por que nosso pai a matinha atualizada, mas ela definitivamente ficou surpresa ao saber que eu trabalhava no Boliche. Ela contou como estavam as coisas por NY, mas não eram muitas novidades, eu realmente não tinha muitos amigos, apenas colegas, então não havia ninguém dizendo que sentia minha falta e estava louco por minha volta, ficou um pouco decepcionada quando comentei que teria que ir para o Boliche, se eu soubesse de sua presença teria conversado com Barry, mas agora em cima da hora seria desleal eu faltar. Pedi licença as duas, pois precisa ir ao banheiro e vi o olhar apreensivo que Sara me lançou, eu não estava armando isso, eu realmente precisava ir, eu não era fã de impor situações constrangedoras as pessoas. Quando voltei peguei algo de sua conversa, Nyssa estava tão concentrada que não me viu aproximar.
– Apenas tome conta dela. – Murmurou em tom preocupado. – Felicity nunca antes teve seu coração quebrado. – Trinquei meus dentes ao perceber que provavelmente o tema Oliver surgiu quando me afastei. Mas a frase seguinte de Nyssa me fez pensar menos em mim e mais nela. – Eu sei, e doí como o inferno. – Percebi os ombros de Sara ficar tensos e resolvi optar por interromper antes que tudo desandasse.
– Alguém está a fim de sobremesa? – Perguntei com um sorriso forçado, Nyssa e Sara negaram e eu olhei para o meu relógio de pulso. – Suponho que vou ter que pedir para levar, eu vou chegar atrasada ao Boliche.
– Eu posso te levar. – Nyssa se ofereceu, ela nos trouxe em seu carro luxuoso e bonito.
– Mas Sara...
– Eu posso ir a pé Felicity. – Interrompeu-me. – É bem perto, e eu preciso voltar logo.
– Além disso, quero conhecer esse Barry que você falou tão bem. – Suspirei com sua insinuação e me dei por vencida, Nyssa me levou e só foi embora após lançar olhares carrancudos a Barry e lhe fazer um questionário, quando ele se afastou chegou a comentar que eu trabalhava para uma criança, antes que eu pudesse protestar ela se despediu dizendo que voltaríamos a nos ver antes que partisse e que passaria a noite na nossa casa, com nosso pai, pude sentir seu tom de repreensão que dizia claramente que eu deveria fazer o mesmo.
O resto do dia seguiu como qualquer outro, exceto que Barry ficou chateado quando soltei que era meu aniversário, ele disse que se soubesse teria preparado algo especial, e não teria deixado que eu trabalhasse. Eu pensei que em algum momento ele iria sugerir que fizéssemos algo após dar o dia por encerrado e pude sentir que ele estava com vontade disso, mas quando o encarava ele voltava a se concentrar em qualquer coisa que estivesse fazendo e quando não estava fazendo nada, criava. Eu já estava arrumando minhas coisas quando ele voltou a se aproximar.
– Você já está indo? – Perguntou levando uma mão a parte de trás da cabeça. Franzi o cenho em confusão por que sempre saiamos juntos, mas Barry parecia ligeiramente atrapalhado. – Então, eu estava pensando... – Não pude mais me concentrar no que dizia, meu olhar se deslocou para a figura masculina atrás dele, Oliver se aproximava com seu costumeiro ar confiante, sua camisa branca e jaqueta de couro preta me lembrando a paixões adolescentes pelo bad boy da escola, ele já era a própria imagem sem todo o auxilio de roupas, cada aspecto seu gritava perigo, perigo para minha sanidade, perigo para meu corpo que era completamente tentado pelo dele e perigo para meu coração que como Nyssa havia dito parecia estar prestes a ser quebrado. – Felicity? – Pisquei diante ao tom insistente de Barry. – Você me escutou?
– Desculpe Barry. – Murmurei segundos antes que Oliver tivesse parado em minha frente.
– Vamos? – Oliver perguntou me surpreendendo, não só por que ele tinha aparecido do nada e ignorado Barry, mas por ter feito parecer que eu o estava o esperando, Oliver não me deu a oportunidade de resposta, eu estava tão aturdida que ele se aproveitou disso para me puxar levando-me consigo, isso fez com que eu agisse ainda mais bobamente, confusa apenas acenei brevemente para Barry que nos encarava boquiaberto enquanto ajustava minha bolsa no ombro. Apenas quando Oliver parou na calçada que me vi capacitada de lhe dar uma resposta mais inteligente.
– Você não pode fazer isso. – O repreendi. Ele me lançou um olhar divertido, seu humor era totalmente o oposto da última vez que havíamos conversado.
– Isso o quê? – Perguntou afastando-se ainda de costas, o sorriso dominado seu rosto.
– Não pode apenas dizer “Vamos” e me puxar. – Continuei. Ele voltou a se aproximar enquanto eu prosseguia falando. – Eu não sei se isso é uma resposta ao que disse hoje, sinto muito se fui rude, mas você não vem sendo outra coisa se não rude comigo e dada a nossa tendência de começarmos algo que sempre termina em briga eu estou constantemente na defensiva e... – Parei quando senti o peso que colocou em minhas mãos, sua fisionomia não havia se alterado, baixei meus olhos para o capacete e só então notei a moto parada a poucos metros, ele havia se afastado até ela e voltado, em meio a minha ladainha eu perdi o momento em que tinha pegado o capacete, agora eu fitava o objeto com confusão. – Mas o quê...
– Suba. – Ordenou, ergui minha cabeça notando que ele mesmo já havia subido na moto e que me aguardava.
– Você não pode esperar que eu suba nessa coisa apenas por que você “pediu”. – Ele me lançou um olhar zombeteiro, ele sabia tão bem quanto eu que havia sido uma ordem. – Isso é sobre sermos amigos?
– Não. – Negou com firmeza. – Você está certa, nunca seremos amigos.
– Então...
– Mas hoje é seu aniversário. – Deu de ombros.
– E você se acha meu presente? – Perguntei incrédula.
– Não. – Voltou a negar categoricamente. – E eu quero passar com você. – O observei surpresa. – Ao menos o resto dele.
– Por quê? – Não pude deixar de perguntar.
– Não vamos perder tempo procurando um por quê. – Murmurou. – Mesmo que achássemos, nós não conseguiríamos entender, então apenas agora vamos deixar um espaço em aberto, não é preciso haver explicações, não há certo ou errado, sim ou não, não precisamos ser opostos agora. – Pisquei diante suas palavras. – Eu prometo não te tocar hoje. Amanhã poderemos voltar a nos odiar.
– Oliver...
– Apenas cale a boca e suba na moto princesa. – Murmurou com menos paciência. Eu deveria ter protestado, principalmente após o idiota ter me mandado calar a boca, mas foi o maldito apelido que me convenceu. Como eu havia pedido ele não tinha me chamado de princesa novamente, não até agora, não durante toda uma semana, e por mais que eu gostasse de sair declarando que não gostava do apelido ele me desarmou, em um piscar de olhos vi-me colocando o capacete e subindo na garupa da moto, eu não podia ver o sorriso presunçoso que certamente estaria lá, mas podia afirmar que estava, ele tomou seu tempo colocando o próprio capacete e após um momento senti suas mãos alcançarem as minhas e envolverem sua cintura, entrelacei meu dedos mantendo meu corpo firmemente contra o seu enquanto escutava sua voz rouca murmurar.
– Segure firme princesa.
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