Red Like Blood
7 Capítulo 6 - Raptada.
Notas iniciais
“É... ela... Acabou... Sua jaqueta...”, foi a primeira coisa que ouvi, acompanhando o riso de Soana. Não havia aberto os olhos, estava semiconsciente.
– Está brincando né Sony? Ah, sério isso?! Babou na minha jaqueta?! Até dormindo consegue ser irritante! – Acordei subitamente com a voz de Hunter. Ouvi o riso de Soana. Minha bochecha estava cheia de baba, assim como a jaqueta dele. Estávamos parados.
– Ah Líkos, vamos, deixe de ser birrento. É só limpar. – Soana exclamou, pousando delicadamente com os dois pés ao nosso lado. Não pude evitar sorrir. Estendi a manga do Capuz Vermelho até poder segurá-la com a ponta dos dedos, e esfreguei o pulso contra sua jaqueta, secando o couro. “É um pecado, e uma ofensa usar o tecido mágico para isso!”, R exclamou indignada. Revirei os olhos. Uma princesinha de 14 anos num mundo... Vermelho?... Podia sentir sua irritação.
– Sabe, estamos parados. Já pode me soltar. – Hunter resmungou com ironia. Só aí percebi que até agora meus braços ainda estavam firmes em seu tórax. Soltei-o, com os músculos rígidos, meio constrangida. Levantei-me da moto, com as pernas doloridas. Espreguicei-me.
– Onde estamos? – Perguntei sonolenta. Hunter também saiu da moto. Paramos os três num círculo, o saco de estopa sacudiu um pouco.
– Paramos para comer. Vamos prosseguir logo. – Soana explicou. Assenti, mas de repente parei para pensar.
– Hm... Onde estamos indo mesmo? – Perguntei curiosa. Hunter pigarreou quando Soana abriu a boca para falar.
– Ela não tem que saber Sony. – Disse, duro. Soana olhou para ele incrédula.
– E por que não? – Perguntou bufando. Olhei de um para o outro, pareciam um casal de velhos discutindo sobre quem comera o último biscoito de aveia.
– É nosso esconderijo. Ela não tem que se meter. – Respondeu teimoso. Soana semicerrou os olhos.
– Claro que não tem. Ela deve! Temos um esconderijo perto daqui. Estamos na Califórnia, Del Norte. – Soana exclamou e Hunter suspirou, revirando os olhos e andando até a conveniência em meio a resmungos.
– Perto daqui quanto? – Perguntei, ignorando Hunter.
– Fica em Trinity. – Disse simplesmente. Quase engasguei.
– Mas isso é outro estado! – Exclamei e ela deu de ombros.
– Não está com pressa, está? – Perguntou, seguindo Hunter. Suspirei. Eu estava viajando com dois doidos.
– Como é que cabe tudo isso em vocês? – Soana perguntou incrédula, enquanto eu e Hunter comíamos nossos quintos X-Tudos triplos. Ela havia comido uma salada básica.
– Lobo. – Dissemos juntos com a boca cheia, e ela teve um calafrio visível.
Após comer voltamos para a moto, e imediatamente percebi algo de errado. O saco de estopa estava largado na calçada. Não havia Sebastian em lugar algum. Hunter correu, praguejando ao alcançar o saco, e chutando-o ao vento.
– Desgraçado! Ele escapou! Sony, não disse que tinha feito um encantamento?! – Ele gritou irado. Soana colocou as mãos na cintura, inconformada.
– Primeiro de tudo, não ouse gritar comigo Hunter! E eu fiz a droga do encanto sim, esse saco deveria segurá-lo! É a prova de magia! – Ela gritou também. Enquanto os dois continuavam sua discussão ridícula e explosiva, recolhi o saco. Os fios estavam cortados. Ouvi o riso de R, escandaloso e desnecessário. “Para um trouxa, ele se vira bem”, disse ainda rindo.
– Hey! Calem a boca! – Gritei, mas foi inútil, eles continuavam gritar, já estavam cara a cara, o cabelo de Soana começava a levitar, e os flashes de vermelho vivo passavam pelos olhos de Hunter. R ainda ria. Bufei irritada. – Porra! Prestem atenção! Heeeey! – Tentei de novo, mas nada. R continuava com sua irritante risada sarcástica ecoando em minha mente. Estava me estressando já. Com toda força de vontade que tinha, gritei a plenos pulmões:
– Calem a boca imbecis trogloditas de QI baixo! – E um rosnado escapou ao final. Em minha mente, R continuava a rir escandalosamente, mas repentinamente, a voz dos dois desapareceu, e eles me olharam pasmos. Soana abriu a boca como se estivesse gritando, mas nenhum som saiu. Hunter olhou para mim furioso, e estaria rosnando, se tivesse voz para isso. Caminharam até mim. Toquei minha garganta, surpreendida e sem entender. Soana sorriu singelamente, mas eu podia ver um pouco de receio em seu olhar. Hunter se exaltava, abrindo e fechando a boca em grandes e cuspidas palavras odiosas, silenciosamente. Sorri confiante, rindo na cara dele, e Soana aparentemente me acompanhava. Me acalmei, erguendo o saco de estopa imundo. Mostrei os fios cortados, e a compreensão passou pelo rosto deles. Soana assentiu, e pôs as mãos na garganta, erguendo as sobrancelhas para mim.
– Soana, não sei o que fazer... Não pode desfazer por mim? Eu não sei o que houve, eu só gritei e acabou nisso... – Respondi, dando de ombros. Hunter ergueu as mãos exasperado, revirando os olhos. “Você é uma idiota. Tem que fazer de novo. Ditar de novo, reclame os seus desejos, Amada, e eles serão realizados”, escutei R. Assenti, preocupada. Respirei fundo.
– Voltem a falar! – Gritei novamente, e Soana arquejou assustada com o berro rindo em seguida. Pude ouvir Hunter bufando e reclamando.
– Até que enfim! Nunca mais ouse lançar um feitiço em mim, Pirralha! Posso ficar sem voz, mas ainda tenho dentes e garras que podem te cortar ao meio! – Ele gritou estressado. Revirei os olhos.
– Isso foi ótimo, só tem que praticar sem os berros. Como soube o que fazer? – Disse ela rindo. Um Hunter emburrado farejou o ar, buscando pelo cheiro de Sebastian. Ri com ela, mas coloquei-me na mesma tarefa. Farejei em busca do perfume dele enquanto respondia. Era difícil por causa do vento forte.
– Foi R quem me explicou carinhosamente. – Disse sarcasticamente. “Não pode ousar falar de mim na mesma frase que carinho!”, R exclamou revoltada. Ignorei-a. “Um lobisomem incomoda muita gente, dois lobisomens incomodam muito mais...”, começou ao ser ignorada. Revirei os olhos, minha cabeça já começava a latejar.
– Imagino o quanto. Para alguém que quase me matou duas vezes, até que é prestativa. – Soana resmungou. “Que fique claro, não estou ajudando. Poderiam morrer agora, para mim seria indiferente”, R respondeu mentalmente. Naquele exato momento, capitei algo. Soana estava procurando perto da mata que circundava aquela estrada, e o cheiro estava curiosamente muito próximo a ela. Hunter pareceu perceber, pois virou-se a ela também, mas ele disparou a correr, berrando:
– Sony! Em cima! – Gritou, e ela arregalou os olhos, com excelentes instintos saltando para frente e caindo de bruços no asfalto. Sebastian pousou exatamente onde ela estava, após saltar todo arranhado de um pinheiro. Rolou agilmente, e segurou-a com a lâmina em sua garganta. Hunter parou, estático. O que eu fiz nisso tudo? Olhei boquiaberta.
– Mais um passo e a bruxa morre... – Ameaçou. Hunter rosnou baixinho, e Soana, que respirava com dificuldade, murmurou como podia:
– At-taque... – E então Sebastian apertou a lâmina em seu pescoço, e um filete de sangue ameaçou escorrer. Hunter respirou fundo, os olhos em vermelho vivo. Furiosa, gritei.
– Sebastian! Solte ela seu babaca pretensioso! – Ele olhou para mim, com um sorriso malicioso.
– Também é bom revê-la, Kassandra. Belos olhos. Escutem bem, eu vou soltá-la com algumas condições. A moto é minha, e Kassandra vem comigo. – Exigiu, e Soana arquejou em protesto, mas ele apertou para lembrar-lhe da lâmina. Desgraçado, como ousava... “Parabéns Amada, seu gosto é impressionantemente péssimo”, “Calada!”, R não me deixava pensar. Suspirei cheia de raiva.
– Solte-a. Eu vou. – Disse. Hunter olhou para mim, assentindo, sem qualquer objeção ao meu sacrifício. Ele era um amor de pessoa. Sebastian se levantou devagar com Soana, e seguiu até a moto, colocando contra a minha vontade, a lâmina no meu pescoço e soltando-a. Montou na moto e fiz o mesmo, em frente a ele, mas virada com o rosto para o seu, as pernas em volta de sua cintura para não cair, a lâmina ainda eu me pescoço. Eu podia ver as lágrimas correndo pelo rosto de Soana por cima de seu ombro.
– Você vai me proteger, entendeu Kass? Um feitiço. Agora. – Disse, enquanto Hunter segurava fortemente em seus braços de ferro uma Soana desesperada, que esperneava e gritava coisas inaudíveis pelo timbre, até que uma bola de fogo lançou-se de sua mão em nossa direção. Sebastian apertou a lâmina. – Agora! – Gritou, e eu pensei com toda a força que podia “Proteja-nos!”. A bola de fogo explodiu em volta de nós, num campo de força invisível, e o garoto não girou chave alguma na ignição, mas tocou e murmurou palavras, um brilho azulado rodeou a moto, e ela roncou selvagem como sempre. Ele acelerou, e eu fui obrigada a segurar-me para não me esfolar no asfalto. Ainda podia ouvir os distantes gritos desesperados e chorosos de Soana. Manti a minha concentração no feitiço, esforçando-me para não chorar. “Você é patética! Raptada por um trouxa!”, exclamou R. Eu respirei fundo, pela primeira vez odiando o perfume resistente de Sebastian, e não respondi. Dentro de mim algo se quebrou. Por ódio ou tristeza, eu não sabia. Mas era negro e escorria por todo o meu corpo. Vingança.
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