Red Like Blood
8 Capítulo 7 - Ardência e Sangue.
Notas iniciais
Paramos horas exaustivas depois. Estávamos, aparentemente, no meio do nada. Uma estrada de asfalto maltratado, com floresta de um lado, e mais floresta do outro. Sebastian dirigia sem dizer uma palavra. Não olhou para mim uma vez sequer. Mas assim que paramos, ele estranhamente delicado me afastou de seu corpo, antes que eu mesma tirasse os braços de cima dele. Não ousei olhar para seu rosto, mas senti que ele buscava meu olhar. Já não tinha mais a lâmina em meu pescoço, então levantei-me da moto, cogitando a ideia de me transformar e correr para longe. “R, você correria, certo?”, perguntei incerta. “Não. Eu com certeza iria ficar aqui, para ele nos matar! É claro que eu correria, imbecil.”, ela respondeu, com sua delicadeza natural. Suspirei, não seria uma ideia má, mas como se lesse minha mente, o rapaz tocou meu ombro, virando-me para ele, e assim que meu olhar encontrou o seu, tudo escureceu. “Qual é o problema deles com te desmaiar?! É tão divertido assim?!”, R pensou, e foi a última coisa que ouvi.
Acordei com uma dor de cabeça que poderia significar o fim do mundo. Estava em um colchão confortável. Tudo estava escuro, mas eu me levantei mesmo assim. Era um cômodo vazio, havia uma janela, e estava aberta. Encarei-a duvidosa, e quando me aproximei, ficava no máximo a meio metro do chão. Já com um plano em cabeça, passei um pé por ela, mas nesse momento, braços fortes e brutos me puxaram para trás. Me debati.
– Me solte! Sebastian, por que está me prendendo, seu trouxa?! Já escapou, me deixe ir! Me solte! – Gritei, enquanto ele me arrastava e me jogava no colchão, fechou a janela com força, deixando tudo no breu.
– É a pior bruxa que conheço, Kassandra. Aquilo é uma ilusão. Se saltasse por ali, cairia por mais de 10m. – Ele disse, parado em pé, respirando com força. Prendi a respiração, chocada.
– Você não respondeu a minha pergunta. Onde estamos, e por que não me deixa ir? – Questionei-o. A escuridão me deixava alarmada, então concentrei-me na visão lupina, e podia sentir onde ele estava pelo calor de seu corpo. Seu perfume ainda impregnava meu nariz, mas ao menos me deixava mais confiante.
– Seus olhos... Vai me atacar Kassandra? Espero que não. Não lhe fiz mal algum. Apenas não quero que se torne mais uma mancha lá embaixo. Não acha que eu te desmaiaria se fosse para te contar onde estamos, não é mesmo? E não estou te prendendo. Estou cuidando de você. Não quero que ande com as pessoas erradas. Isso pode trazer consequências que eu não desejaria a você nem nos meus piores pesadelos. – Ele disse, suspirando. Pude ouvir seu coração bater mais acelerado, e rosnei.
– Cuidando? Me raptou! Pessoas erradas? Você é o errado! Aquela era a minha irmã! E Hunter pode não ser a melhor pessoa do mundo, mas consegue ser melhor que você! Me deixe ir! – Gritei, me levantando. Ele deu alguns passos calmos para frente, em vez de recuar. Ousou esticar a mão para colocar em meu rosto, mas eu dei-lhe um tapa estralado, e ele colocou-a no bolso da jeans imunda e rasgada. Depois não disse nada. Apenas se encaminhou para uma porta que eu não havia notado. Parou, virou o perfil do rosto, e disse:
– A minha fraqueza, Kass, é que eu me importo demais. – E então continuou a andar, deixando-me parada e boquiaberta. Larguei-me sobre o colchão, os pensamentos a mil. “Não ouse confiar. Não ouse começar com essa estupidez de novo, Kassandra”, ouvi R se pronunciar pela primeira vez. Suspirei. Eu podia atacá-lo e encontrar a saída. Fugir. Mas eu não o mataria. Não propositalmente. E isso causaria a sua transformação para a licantropia. Algo que eu não desejaria ao pior de meus inimigos, então estava fora de cogitação. Levantei-me, seguindo o mesmo caminho que ele. Assim que pisei para fora do quarto, o cheiro de carne fritando invadiu minhas narinas. Percebi que estava morta de fome. Segui o aroma. Havia uma cozinha minúscula, com um fogão, uma geladeira, e uma pia. Sebastian estava diante do fogão, fritando um bife enorme, de aparência deliciosa. Ele se virou.
– Deve estar com fome. – Murmurou, colocando a carne num prato em cima da pia. Observei desconfiada, eu não comeria nada ali. Não importava o quanto estivesse faminta.
– O que eu estou fazendo aqui? Você conseguiu fugir. Não precisa mais de mim. – Perguntei, enquanto ele me encarava. Seu olhar baixou. Ainda estava magro e surrado, Hunter fizera um excelente serviço. Ele se aproximou de mim, estendendo novamente a mão, e parando-a no meio do caminho.
– Posso tocá-la? – Perguntou. Suspirei. Eu precisava de respostas.
– Pode. Mas não garanto que me solte com todos os dedos. – Resmunguei, e sua mão repousou em meu rosto. Estava gelada, gelada com um cadáver. Levantei as sobrancelhas, esperando uma resposta. Ele olhou no fundo de meus olhos, e estranhas lembranças – não eram minhas – passaram por minha mente.
Um garotinho de talvez 4 anos de idade corria por um salão branco de mármore enorme, com um altar dourado no fundo. Ele era loiro como o sol. E ria como se soubesse uma piada que ninguém mais sabia. Atrás dele vinha uma mulher baixinha, de cabelos castanhos e sorriso singelo. Mas de repente, a cor sumiu de seu rosto, e uma voz retumbante soou pela sala.
– Vim buscá-lo. Já passou da hora. Não pode mais escondê-lo. – Disse, e a criança foi puxada por um braço três vezes maior que o seu, enquanto a mãe a ponto de lágrimas dizia que ficaria tudo bem. A lembrança ficou disforme, e voltou a se mostrar quando o mesmo garoto, talvez mais velho, com 6 ou 7 anos, tinha uma espada de esgrima em mãos. Ele era sútil, e treinava em frente a um boneco. A imagem foi mudando, e o garoto foi crescendo, pude assistir seu treinamento em várias coisas. Até mesmo quando meditava, e inclusive em magia. Ele se tornou o Sebastian que eu conhecia. E um homem vestido de batina levava-o por um salão diferente, mas igualmente grande. Fez uma reverência, e se aproximou de um homem que estranhamente se parecia com o Papa. Talvez fosse o Papa. O homem sussurrou algo em seu ouvido. E depois dispensou-o. Ele foi solto. E então tudo ficou negro, e eu me vi encarando o próprio Sebastian na minúscula cozinha.
– O que foi isso?! – Perguntei, abismada, enquanto sua mão se afastava. Ele deu de ombros.
– Um feitiço simples de compartilhamento. Lhe mostrei minhas lembranças. Eu sou treinado para te matar. Treinado para defender apenas os de minha raça, e aqueles que se apresentam no Vaticano. Eu ganhei o presente de saber do segredo dias antes de o Papa morrer por algum motivo. E não vou revelá-lo em fidelidade ao seu nome. – Disse, sério. Suspirei, aflita. Não me interessava. Eu queria ir embora.
– Certo. Então sabe o porquê não pode revelá-lo, não é mesmo? Acha certo? Sabe como é ser um monstro?! – Eu já estava gritando, enquanto ele apenas olhava. Ele suspirou.
– Eu vou ajudá-los. – Disse.
– Você nem tem noção! Matar pessoas! Se descontrolar! É horrível, a pior existência do mun.. O que? – Parei, estática ao ouvir suas palavras. “O que?”, R fez coro comigo. Ele suspirou, parecia irritado.
– Eu vou ajudá-los! Não contarei onde se encontra. De jeito algum. Mas vou ajudá-los. – Disse, e eu tive certeza de que estava irritado.
– Por que? O que você quer? – Perguntei, desconfiada. Ele soltou uma risada sarcástica e sofrida, me deixando sem entender. Apoiou as mãos na cabeça, esfregando-as no rosto e suspirando.
– Você, Kassandra. Eu quero você. – Disse, soando cansado. Franzi a testa, sem entender suas palavras. “Desculpa, eu ouvi direito?”, R questionou incrédula.
– Oi? Eu? Sempre rapta as garotas de que está afim? Está falando sério? Não vai me enganar, se é o que acha que vai fazer. – Disse, séria, e um rosnado escapou por meus dentes. Ele só podia estar brincando. Ele suspirou de novo.
– Nunca falei mais sério antes. Não estou te enganando, ou estaria morta agora. Eu tive que raptá-la, eles não me deixariam falar com você. Guardo isso há muito tempo. Eu sou proibido de me envolver. Sou fruto do amor proibido de uma freira e um bispo. Escondido dentro de um casarão, treinado apenas porque a outra opção era a morte. O Vaticano tem seus podres. Mas ninguém pode saber disso. Então, a minha maior proibição é essa, me apaixonar. E então eu conheci você. Desleixada, ridícula e patética. Mas curiosamente importante. E cá estou eu. Traindo tudo o que eu aprendi, para te ajudar com a sua gangue sobrenatural. – Disse exasperado. Suspirei, incrédula com o que estava ouvindo. Era ridículo! Parecia coisa de novela! Minha cabeça ia explodir. “Não caia nessa. É idiotice”, R me alertou de novo, mas eu não sabia quem era pior escutar, ele ou ela.
– Isso é ridículo! Houve um tempo em que talvez eu correspondesse, agora eu acho que isso nunca aconteceria! Nunca. – Respondi-o, furiosa. Ele suspirou, e quando abriu a boca para falar, alguma coisa entrou pela parede, fazendo voar escombros para todo lado e causando um barulho ensurdecedor.
– Se afaste dela. Agora. – Uma voz conhecida se fez ouvir pelo cômodo destruído. Olhos vermelhos brilharam em meio à poeira levantada, e eu não precisava esperar para saber quem era. Hunter. Parecia um armário, apenas os olhos visíveis com as roupas pretas e a sombra enorme. Sebastian bufou, totalmente irado.
– Como nos encontrou?! Este lugar é protegido por magia! – Ele gritou, soando firme. Hunter riu de escárnio, e pela primeira vez, esse som me soou bom.
– Magia? Magia de um bruxo fraco e surrado? Temos uma bruxa forte e habilidosa. – Ele disse, e seu sorriso mostrava os caninos enormes. Olhou para mim. – Está esperando o que? Venha, Pirralha. Antes que a sua irmã resolva vir te buscar também. – Disse, revirando os olhos com teimosia. Hesitei a princípio, pensando nas palavras de Sebastian, e olhei para o garoto ao meu lado.
– Como posso ter certeza de que vai ajudar? – Perguntei, apressada, e Hunter bufou. O outro me encarou.
– Tem que confiar. – Disse, e antes que eu pudesse reagir, puxou-me pelo braço e sua boca já se encontrava na minha, movendo-se com sutileza, mas com ardência. Gosto de algo ardido, e de sangue. “Demorou demais. É o primeiro né Kassandra? Que adorável. Muito bonitinho mesmo”, ouvi R debochar. Estava um pouco ocupada para responder. Quase que imediatamente senti braços fortes separando-nos, e vi Sebastian voar, batendo na parede e caindo inconsciente no chão.
– Eu mandei se afastar! – Hunter gritou, furioso, e me puxou brutamente, pude ver que se aproximava do buraco enorme na parede, que dava ao nada, ao céu escuro e estrelado, e uma queda de talvez 15m. Era uma torre. Comecei a puxar para trás, desesperada. “Isso é sério? Medo de altura? Amada, cada dia me parece mais patética, como consegue se superar?”, “Cale a boca, olha a altura daquilo!”, discuti com R.
– Hunter! Está doido?! Olha essa queda! Me solte! Enlouqueceu de vez?! – Berrei, tentando me soltar de seu aperto de ferro. Ainda sentia o gosto ardente dos lábios de Sebastian. Ele virou-se para mim, os olhos rubros ardendo em chamas.
– Alguma vez na vida, você poderia pensar direito e confiar em mim?! – Disse, irado. Fiquei calada, mas tremia ao ser arrastada para o precipício. Ele parou na ponta, e eu me agarrei à parede, nervosa. Assoviou, e algo cortou o ar zunindo. Uma vassoura. Parou na nossa frente, e ele pulou sem medo, pousando em cima dela. – Você vem ou não? – Perguntou irritado. Olhei bem, e antes que pudesse responder, ele puxou meu braço e eu tive a sensação de queda por alguns segundos, antes de me agarrar em suas costas, sentindo o cabo da vassoura abaixo de mim.
– Soana tinha dito que essa coisa só aguenta um! – Gritei sobre o vento, enquanto ele disparava pelo ar, ainda agarrada fortemente, sem olhar para baixo. Ele respirou fundo antes de responder.
– E só aguenta um. – Nesse momento, fomos perdendo altitude aos poucos, e com uma queda feia, rolando e fazendo voar terra, chegamos ao chão. Estávamos bem ao lado da Harley, aos pés da torre. Olhando dali, era enorme. Pensei em Sebastian, provavelmente ainda desmaiado lá em cima. Toquei os lábios, franzindo a testa. Hunter revirou os olhos.
– Depois você tem seus sonhos de Pirralha e se desintoxica daquele trouxa. Vamos embora. – Disse ainda irritado. Segui atrás dele. O mau-humor dele era contagiante, então bufei, mas subi na moto atrás dele, e disparamos por entre as árvores, chegando a estrada, sem parar.
Olhei para trás, vendo a torre desaparecer aos poucos acima das árvores. Parecia saído de um conto de fadas. Pena que contos de fadas nunca são como nos contam. “Somos...”, “A prova viva...”, “Disso.”, R completou meus pensamentos e eu os dela. Suspirei. Eu tinha que esquecer. Mas por que parecia difícil tirar de minha mente a combinação perfeita de ardência e sangue?
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