Red Hood
2 Escola É Uma Droga
Notas iniciais
9,8 *----* Ainda estou feliz...
Boa leitura!
No dia seguinte, Chloe acordou meio tonta. Não se lembrava direito da noite anterior. Ah, sim. Ela fora jantar na casa dos James. Saiu de lá pelas nove, a ponto de por seus irmãos na cama. E foi ela própria para sua cama. Leu até não poder mais, e no dia seguinte, acordou com o livro aberto sobre seu peito.
Era segunda-feira, e segunda-feira era o pior dia da semana. Ela ia para a escola, era jogada contra armários, fazia ótimos poemas que ninguém além do professor ouvia e quando saía da escola, ia direto para a loja da família para trabalhar. Mas quem era ela para reclamar?
Fitou mais um pouco seu quarto, ou melhor, sua cama e cortina. Olhou para os pôsteres que Keegan havia lhe dado na noite anterior e suspirou. Pulou da cama, abriu sua cortina e foi acordar os irmãos do outro lado do quarto. Eles se vestiram, comeram um café da manhã rápido e improvisado (cereal de mel para os meninos e de aveia para Chloe) e saíram para pegar o ônibus.
Estavam caminhando pela estrada de terra que levava à rua, quando um carro preto parou ao lado deles. A janela abriu, revelando o rosto de Keegan James.
- Ei! — ele disse – Vocês querem uma carona?
Michael e Tobias olharam esperançosos para Chloe. A caminhada até o ponto de ônibus era longa, e não era um crime evitá-la.
Chloe sentou-se no banco do passageiro e os gêmeos se acomodaram no banco de trás. Keegan trocou a marcha e acelerou.
- Não sabia que você dirigia – comentou Chloe.
- Eu nunca te disse minha idade – ele respondeu – Nem você, aliás. Eu fiz dezesseis há dois meses. E você?
- Vou fazer dezesseis mês que vem – ela respondeu.
- Legal – Keegan disse – Então você poderá dirigir também!
- Não sei se poderia pagar um carro – ela resmungou.
- Podemos arranjar um quebrado por 200 dólares e consertá-lo – sugeriu Keegan.
- Ou podemos construir nosso próprio carro! — gritou Michael do banco de trás. Chloe e Keegan sorriram.
- Cale a boca, Michael – respondeu Tobias, lançando um olhar de desprezo ao irmão gêmeo – Isso não é possível. Não temos materiais, motores, nada...
- Tobias, quando você vai parar de ser um estraga-prazeres? — reclamou Michael, acertando Tobias com a mochila – Chloe acha legal, não é, Chloe?
- Totalmente – concordou ela.
Embora os gêmeos tivessem 10 anos, Michael parecia ter sete e Tobias parecia ter treze. Eles eram extremos opostos em personalidade, embora tivessem os mesmos cabelos cor de trigo e os mesmos olhos azuis.
Eles entraram na cidade.
- Onde você estuda, aliás? — perguntou Keegan.
- Michael e Tobias estudam na Riverwide Elementary School – respondeu Chloe – E eu vou na Roger Davis High School. Você?
- Na Dalewood Academy – ele respondeu, e não disse mais nada. Os Winters estudavam em escolas públicas e Keegan estudava numa das escolas mais caras de Nova York. Não seria legal ficar se gabando, e nesse momento Chloe se deu conta de que Keegan era legal.
Eles percorreram as ruas do Brooklyn. Tobias e Michael liam um livro e, na frente, Keegan e Chloe permaneciam em silêncio.
Passaram pelo Shopping Liberty e duas quadras depois, estavam na Riverwide. Os gêmeos saíram, gritando “até mais” animados. Pelo menos eles gostam da escola, pensou Chloe. Keegan saiu do acostamento.
- Então – ele puxou assunto – Como é a sua escola?
- Como assim?
- Sei lá. É legal? Você gosta de lá?
Chloe fez um barulhinho de “até parece” com a garganta.
- Minha professora de História tem um noventa anos e dorme de pé quando começa a falar da Guerra Civil – ela contou.
- Isso não é nada – rebateu Keegan – Meu professor de Literatura Inglesa chega bêbado todos os dias, e manda Shakespeare se ferrar.
- Meu professor de Álgebra fala com a gente como se tivéssemos cinco anos – disse Chloe.
- A minha professa de Economia Doméstica não sabe nem fritar um ovo – retrucou Keegan.
- Você faz Economia Doméstica? — perguntou Chloe, incrédula.
- Era isso ou o coral – disse ele – E, convenhamos, eu posso ser incrível em muitas coisas, mas eu não sei cantar.
Chloe riu. Ela riu! Nunca havia rido tanto em menos de 24 horas desde a morte de seu pai. Então Chloe se deu conta de como tinha uma vida deprimente. Calou-se.
Keegan estranhou o silêncio repentino. De novo, ele leu a mente de Chloe:
- Você não costuma rir muito, certo? — Chloe olhou para a janela. Não queria responder àquela pergunta. Não queria perder mais um amigo.
Eles haviam chegado a Roger Davies. Keegan pôs a marcha em ponto morto e olhou bem para Chloe.
- Conte para mim – ele disse – Desabafe. Você não confia em mim?
Chloe olhou atentamente para ele.
- Não, na verdade não.
Keegan fez uma cara pensativa.
- Boa escolha – disse, e Chloe não pôde evitar um sorriso.
- Ótimo – Keegan disse, e cutucou Chloe no ombro – Agora vá lá.
Chloe saiu do carro com um sorrisinho misterioso.
Quando Chloe terminou sua redação sobre a Guerra Civil, a Sra. Kahill estava se esforçando arduamente para não cair no sono em cima da mesa. Alguns alunos apontavam para a professora e davam risadinhas. Chloe, porém, não estava bem com vontade de rir. Como sempre.
O sinal bateu, um barulho espalhafatoso entre uma buzina e uma campainha, alta a ponto de estourar os tímpanos. A Sra. Kahill acordou assustada. Havia baba em seu suéter de lã, seus óculos estavam tortos e ela gritou involuntariamente que não era a sua vez de ir à padaria.
Os alunos soltaram gargalhadas sonoras. Chloe se permitiu a um sorrisinho imperceptível.
Era hora do almoço, e então mais dois horários e ela iria embora. Não fosse pelo trabalho depois da aula, Chloe daria graças a Deus.
Os corredores de uma escola eram cruéis. O truque era ir rápido e de cabeça baixa até o seu armário, guardar as coisas rápido e de cabeça baixa e ir rápido e de cabeça baixa para o refeitório.
As duas primeiras partes correram bem, mas, enquanto Chloe ia para o refeitório, foi empurrada brutalmente para o lado, para dar passagem a David Keller e seus capangas.
- Desculpe, louca – David disse com desdém para Chloe.
Keller era, ironicamente, um amigo de infância de Chloe. Os pais deles eram amigos, e Chloe e David costumavam brincar nos fundos da loja enquanto os pais conversavam. Na escola, não desgrudavam e aturavam todas as provocações de que eram namorados. Mas, depois que o pai de Chloe morreu (e, consequentemente, Chloe ficou deprimida), o Sr. Keller se afastou dos Winters e mandou David não falar mais com Chloe. Não queria que o filho andasse com uma doente mental. Na sétima série, eles se comportavam como se não se conhecessem. Agora, no ensino médio, David era capitão do time de futebol, e alguém parece ter feito-lhe uma completa lavagem cerebral, e ele começou a tratar Chloe como uma aberração. Desde a primeira vez que ele a empurrou e a chamou de louca, Chloe vêm esperando seus poderes psíquicos aparecerem para ela matar David Keller.
Mas, os poderes não haviam se desenvolvido naquele dia, então ela ignorou e seguiu seu caminho – rápido e de cabeça baixa, é claro.
As panelinhas no refeitório eram previsíveis, mas ao menos tolerantes. Chloe sempre conseguia se espremer entre um nerd e um punk na mesa dos excluídos e comer uma maçã enquanto lia um livro, sem precisar se esforçar para não ser notada.
O resto do dia passou normalmente, e quando o sinal tocou às três horas e quinze minutos, anunciando o fim da última aula, Chloe se sentiu ainda mais deprimida. Era hora do trabalho.
Chloe ainda passou na cafeteria da escola antes de sair e pegou um cappuccino para se animar um pouco e também enrolar um pouco mais antes de ir trabalhar. Quando ela chegou perto da saída, um grupinho de líderes de torcida estava fazendo um burburinho por lá. Ela ouviu as palavras “garoto”, “gato” e “carro”. Não estavam falando dela, então Chloe passou direto.
Quando saiu, percebeu que o “garoto gato com um carro” tinha tudo a ver com ela sim.
Keegan e seu carro caro estavam junto ao meio fio. Keegan acenou para Chloe, e ela sentiu todos os olhos das garotas, cobertos com maquiagem Maybelline, se cravarem nela. Chloe congelou e lançou um olhar significante para ele.
Keegan, porém, não entendeu o recado. Ele correu até Chloe e, como se não fosse nada, disse:
- Ei – ele estendeu um copo da Starbucks para Chloe – Trouxe cappuccino. Você gosta, não é?
Chloe sentiu seu rosto queimar. Keegan tinha comprado café para ela? Ela tentou relaxar. Não era nada. Chloe se sentiu realmente como uma louca paranoica. Ela suspirou e deu um sorriso minúsculo. Envergonhada, ela levantou o seu copo de papel da cafeteria da escola. Keegan torceu o nariz.
- Hum – disse ele, e largou o copo de café em cima do muro da escola – Vou deixar esse aí para um mendigo ou algo assim.
Chloe alargou o sorriso, e então tomou coragem para falar:
- Que diabos você está fazendo aqui?
Keegan levantou uma sobrancelha.
- Achei que ia querer uma carona de volta para casa – disse ele – Olhe, já peguei os gêmeos na escola – ele apontou para seu carro. A janela abaixou e Chloe viu Tobias e Michael acenando para ela e mexendo no porta-luvas do carro de Keegan.
Chloe estava tão atordoada que nem se deu ao trabalho de repreendê-los. Ela virou-se para Keegan e explicou calmamente que tinha que trabalhar na loja da família depois da escola. Keegan insistiu:
- Eu te levo lá – e sem esperar respostas, ele pegou o pulso de Chloe e praticamente a arrastou até o carro. As garotas da escola ainda os encaravam ferozmente.
De má vontade, Chloe sentou-se no banco de passageiro do carro de Keegan.
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