Red Hood

3 De Volta ao Passado


Notas iniciais
Boa leitura!

O Shopping Liberty era um edifício amplo e excessivamente claro, na opinião de Chloe, graças ao telhado de vidro das praças e passarelas.

Naquela segunda-feira lastimável, o céu através do telhado estava ligeiramente nublado, com algumas nuvens de chuva aqui e acolá. Os pássaros voavam livres, e Michael e Tobias apontavam para eles, rindo e correndo. Chloe ia mais atrás, as mãos enfiadas nos bolsos do jeans, forçando um sorriso cada vez que os gêmeos falavam sobre determinado tipo de pássaro. Keegan ia logo atrás dela, e Chloe tinha a impressão de que ele a observava atentamente, embora não pudesse imaginar o porquê.

Keegan apertou o passo e começou a caminhar ao lado dela. Ele suspirou e disse:

– Você não gosta do trabalho, gosta?

Chloe não olhou para ele, mas murmurou um “não”.

– Por quê?

Imagens passaram voando em frente aos olhos de Chloe. Como sempre, ela se lembrou daquele dia mais claramente do que gostaria.

– O assalto – foi tudo o que disse.

Keegan arregalou os olhos ao se lembrar. Depois, assumiu uma expressão de vergonha por não ter se lembrado de primeiro. Chloe deveria ter aquilo bonito, mas tudo que ela conseguia sentir era uma dor de cabeça horrível, e foi assim que ela soube o que viria a seguir.

– Desculpe – murmurou Keegan, envergonhado – Não vou mais tocar no assunto e...

De repente, tudo veio de uma vez, jorrando pela mente de Chloe e consumindo-a, como acontecera tantas outras vezes. Ela sentiu-se caindo enquanto voltava àquele dia terrível três anos atrás.


Era verão, e quando não estava com seu melhor amigo David, Chloe estava na loja da família, conversando com o pai enquanto ele trabalhava.

Era segunda-feira e naquela época as segundas-feiras eram legais para Chloe. No fim da tarde, a loja se esvaziou. O pai dispensou os demais funcionários e sugeriu que a mãe de Chloe levasse os filhos para tomar sorvete enquanto ele fechava a loja. A mãe e os gêmeos foram, mas Chloe quis ficar com o pai. Mais tarde, descobriu que não se arrependera da sua decisão.

“Se não fosse por você” dissera o pai a ela depois “quem iria ter me salvado naquela hora?”.

As luzes estavam todas apagadas quando o assaltante entrou de fininho. Chloe ria, segurando a mão do pai enquanto ele a guiava pelo escuro até a saída. De repente, o pai parou. Chloe ia perguntar o porquê quando uma voz grossa e rude disse:

– Calmo aí, velho. Só faça o que eu digo e a garota fica bem.

O pai apertou a mão de Chloe um pouco mais forte.

– Chloe – disse ele – Eu quero que você vá para o canto da loja e fique lá, tudo bem?

– Mas, papai... – começou Chloe, mas o pai a cortou:

– Eu cuido disso, querida.

Chloe resolveu obedecer. Soltou a mão do pai e encaminhou-se às cegas para junto da parede da loja. Ela sentou-se no chão e soltou um suspiro apreensivo.

O assaltante provavelmente havia sussurrado no ouvido do pai o que fazer, pois Chloe não ouviu nada pelo que pareceu ser uma eternidade. Finalmente as luzes se acenderam e Chloe pôde ver o bandido. Ele era alto, forte e rude, como ela havia imaginado. Sua pele era parda, seu rosto era cheio de cicatrizes e seu cabelo estava coberto por uma touca preta. Na verdade, ele vestia preto da cabeça aos pés, exceto por uma faixa vermelha no braço, com um grande M preto estampado.

O homem estava de costas para Chloe, apontando uma arma para o pai, que estava atrás do balcão indo lentamente até o caixa.

– Você tem certeza que quer fazer isso? – perguntou o pai enquanto andava – Que quer viver dessa maneira?

– Não tente me enrolar, velho! – gritou o assaltante, e atirou. O barulho quase ensurdeceu Chloe. A bala cravou-se na parede atrás do pai, a poucos centímetros de distância de sua cabeça.

Naquele momento, Chloe não quis saber das consequências. Ela só se levantou e correu para ajudar o pai.

– Não! – gritou ela, atraindo a atenção do assaltante para si.

O que aconteceu em seguida foi muito rápido. O homem virou-se para Chloe e atirou. O barulho foi ensurdecedor e a dor foi indescritível. Haviam pontos pretos dançando na frente dos olhos dela, e o mundo estava embaçado, girando. Em meio a essa confusão causada pela dor, Chloe viu o pai acertando o assaltando com uma placa de metal. Ela viu o homem cair. Ela sentiu a si mesma caindo. Ela viu o rosto inconsciente do homem e ouviu vagamente o pai conversando com a polícia. Então, tudo ficou preto e ela desmaiou.


– Ela está acordando, veja, ela está acordando!

– Michael, pare de gritar, por favor.

– Quietos, os dois.

Chloe abriu lentamente os olhos. Estava deitada em um colchonete em uma salinha escura, cujas paredes eram cobertas por prateleiras, exceto por duas portas de metal. Ela estava nos fundos a Winters Eletronics, deitada no colchonete que estava ali desde que ela começara a ter esses blecautes, três anos atrás.

Sua mãe estava sentada no chão ao seu lado, acariciando os cabelos da filha. Ela era bonita. Tinha olhos verdes como os de Chloe, e cabelos castanhos escuros sedosos. Seu rosto ligeiramente enrugado tinha um semblante de puro amor e preocupação. Por mais ausente que ela fosse, Chloe jamais poderia ficar com raiva de sua mãe.

– Tudo bem, querida? – perguntou a mãe.

Chloe esforçou-se para se sentar. Os gêmeos, que estavam sentados ao lado da mãe, correram para ajuda-la. Ela conseguiu sentar-se de pernas cruzadas em frente à família.

– Sim, eu estou bem – disse. Os três rostos à sua frente ainda demonstravam preocupação.

Agora que estava sentada, Chloe pôde avistar uma figura solitária do fundo da sala: Keegan. Seu rosto expressava mais preocupação do que todos os outros juntos. Você está bem?, seus olhos perguntavam. Chloe deu um pequeno sorriso para demonstrar que sim. Keegan pareceu relaxar.

– Você quer ir para casa, Chloe? – perguntou a mãe. Chloe voltou sua atenção para ela – Eu posso pedir para a Lynn ficar cuidando daqui e eu te levo lá...

– Não, mãe, sério – respondeu Chloe – Eu estou bem. Juro. Pode ir trabalhar.

A mãe retorceu o rosto em um sinal de dúvida.

– Mãe, não foi nada demais – Chloe levantou-se. Cambaleou um pouco, mas conseguiu ficar de pé – Eu estou ótima. Pode ir. Eu fico aqui e cuido da loja – ela tentou demonstrar confiança.

Chloe na verdade não cuidava de nada. Ela sabia o básico sobre os eletrônicos domésticos que as pessoas levavam lá para serem consertados e tentava ficar o mais longe possível dos clientes. A mãe simplesmente confiava em Chloe, e por isso que de segunda a sexta ela trabalhava na Winters Eletronics.

A mãe sorriu e se levantou.

– Tudo bem, Chloe – disse ela, e beijou a testa da filha – Cuide dos seus irmãos – e saiu pela porta de ferro da salinha, rumo ao segundo trabalho como garçonete.

Chloe deu um sorrisinho e observou enquanto a mãe ia embora. Os gêmeos estavam ajudando um dos funcionários a consertar uma torradeira. Se eles sabem fazer isso, pensou Chloe, não precisam de ninguém para cuidar deles.

– Ei – disse alguém, e Chloe se sobressaltou. Era Keegan. Não tinha visto ele se aproximando.

– Ei – respondeu ela, virando-se para ficar de frente para ele.

– Você está mesmo bem? – perguntou ele – Quer dizer, aquilo foi assustador. Sem ofensa.

– Tudo bem – disse Chloe.

Eles ficaram em um silêncio constrangedor por alguns minutos.

– Então – começou Keegan – Acontece muito?

– O que, os blecautes? – falou Chloe. Ela suspirou de leve – Eram mais frequentes quando eu tinha 12 anos. Depois que aconteceu.

Keegan assentiu, e o silêncio voltou. Chloe ficou com medo de tê-lo assustado demais. De ter perdido mais um amigo. Então, Keegan voltou-se para ela, deu um de seus sorrisinhos misteriosos e disse:

– Acha que tudo bem se dermos uma escapadinha?


– Isso parece tão errado – comentou Chloe, enquanto ela e Keegan passeavam pelo Shopping Liberty.

– Bem, você mesma disse que sua presença na loja não faz muita diferença – respondeu Keegan com um dar de ombros – Tarde demais para voltar atrás.

Chloe soprou uma mecha de cabelo de seu rosto. Ele tinha razão.

– Vem – Keegan agarrou o pulso de Chloe – Quero te mostrar uma coisa.

Ele a puxou pelos corredores e passarelas, desviando das outras pessoas. Finalmente, os dois pararam na frente de uma loja cujas vitrines expunham discos de vinil raríssimos que deviam valer os olhos da cara.

Keegan entrou, e Chloe foi atrás dele.

– Ei, Brian – chamou Keegan. Um homem forte e tatuado no balcão virou-se para ele.

– Keegan! – exclamou o homem, Brian – Quanto tempo!

– Sim – concordou Keegan – Foi a semana mais longa da minha vida – os dois riram. Pareciam se conhecer havia um bom tempo.

Keegan sorriu para Chloe.

– Brian, essa é a Chloe – disse ele. Chloe acenou para Brian – Somos vizinhos agora.

– É um prazer – disse Brian – Qualquer amiga do Keegan também é minha amiga.

Chloe deu um sorrisinho.

– Ela é meio tímida – disse Keegan para Brian – Então, tem coisa nova por aqui?

– Ah, sim – disse Brian – Essa semana faturei uns discos do Led, você vai adorar. Consegui uns pôsteres do Pink Floyd e umas camisas do Bon Jovi também.

– Legal – comentou Keegan – Vamos dar uma olhada.

Chloe seguiu ele pela loja. Ele parou e começou a dar uma olhada em uns vinis. Chloe fez o mesmo.

– Então – começou Keegan – O que acha?

Chloe ergueu uma sobrancelha.

– O que acho do quê? – disse.

– Daqui – respondeu ele – Do meu lugar preferido em toda a Terra.

Ela sorriu e puxou um Abbey Road meio velho.

– Legal, eu acho – disse, admirando a capa do vinil.

– Gosta desse disco? – perguntou Keegan, e Chloe assentiu. Ele pegou o disco dela e sorriu – Vem comigo.

Ele a guiou até um tocador de vinil todo empoeirado. Ele tirou a poeira e colocou o disco. A música começou a tocar pela loja. Chloe fechou os olhos e ouviu por um tempo. A voz de Keegan a tirou do transe.

– Ei, Chloe – chamou ele. Ela abriu os olhos.

– Sim?

– Somos amigos agora? – ele perguntou, levantando as sobrancelhas.

Ela olhou para ele e sorriu.

– Sim – disse – Acho que somos sim.

Keegan sorriu e disse:

– Vamos, vou comprar esse disco para você.

– O quê? – exclamou Chloe, arregalando os olhos – Não, você não precisa. Além do mais, eu nem tenho um tocador de vinil.

– Bom, eu tenho – replicou Keegan – Seria uma desculpa ótima para você me visitar sempre que quiser ouvir The Beatles. Além do mais, isso vai ficar lindo na sua parede – acrescentou ele, estendendo a capa do disco a sua frente.

Chloe riu. Keegan olhou para ela.

– Vou tomar isso como um “sim”.

Ele se encaminhou até o caixa a passos largos. Chloe foi atrás dele, ainda rindo. Ela não tinha se dado conta antes do quanto precisava de um amigo.