Red
25 25. Eu acho que a perdi... para sempre.
Notas iniciais
Luce engoliu em seco ao perceber a seriedade da situação e, prevendo qual seria o tópico da conversa, decidiu seguir adiante.
— Tudo bem, só... – ela olhou para a porta fechada do quarto onde Justin dormia. – Vamos para outro lugar.
— Como você quiser. – concordou Megan.
As duas, mãe e filha, andaram até o fim do corredor, um hall formado de apenas três paredes para delimitar o espaço, ou seja, nenhuma porta ou janelas que pudessem denunciar o que elas fossem falar.
— Olha, garota, eu não... – começou Megan, mas, imediatamente, foi interrompida pela jovem.
— Meu nome é Luce. – impôs.
— Ok, Luce. – disse num tom sarcástico. – Eu fui uma menina ingênua e tola que se envolveu com o cara errado. Nunca passou pela minha cabeça que eu poderia ser mãe. Você estava certa – disse olhando para ela – eu nunca quis ser mãe, eu não... Eu não tinha condições!
A garota riu, nervosa pela situação e tentando disfarçar o quão triste estava.
— Eu não quero ouvir seu discurso de “eu te mandei para um orfanato para você ter uma vida melhor”. Isso é uma mentira lavada. No fundo, você me quis, sim, caso contrário, teria feito um aborto.
Megan olhou bem para a menina na sua frente; seus olhos cintilavam devido às lágrimas que tentava conter desesperadamente, seu rosto vermelho de raiva e seu nariz franzido por causa da careta resultante de todas essas sentimentos querendo ser expressados. “Eu já fui ela um dia”, pensou a agente. Automaticamente, seu cérebro acessou o momento exato que ela foi Luce: há quase dezesseis anos, no dia em que Edward soube que iria ser pai, mas recusou-se a fazê-lo. Megan sabia que, no fundo, ele queria, sim, ser pai, mas as circunstâncias não permitiram.
— Luce... – foi a primeira vez que ela ouviu Megan falar de uma jeito tão doce. – Eu preciso te falar uma coisa.
O coração da menina disparou e sua respiração ficou pesada, pois sabia que algo sério estava para ser dito.
— Há uns meses, eu fui encarregada de uma missão para impedir a troca de uma encomenda muito específica entre duas quadrilhas... Eu já tinha me posicionado para não ser vista durante a operação e (...) – ao ouvir aquela narrativa, a mente de Luce foi encaminhada para quando encontrou Harry perto da sua antiga escola, Marcus Jacob. – (...) e eu estava pronta para atirar no suspeito...
— Mas ai eu apareci. – disse Luce, com um nó na garganta, começando a entender o que ela queria dizer.
— Sim. – Megan parecia assustada com o que iria falar. – E então, eu te levei para a sala de interrogatório, mas não consegui nenhuma informação sobre o caso.
— Como assim você me levou para um interrogatório?! – seu tom de voz aumentou de volume acentuadamente.
— Você não se lembra de nada, porque eu te dei um remédio, mas, até eu chegar à conclusão de que você era inocente... – lágrimas escorriam pelo seu rosto sem parecer afeta-la. – Eu te dei tortura de choque.
— Você o quê?!! – Luce andou dois passos para trás, porém Megan permaneceu estática.
— Até você desmaiar. – finalizou.
— Você é louca?!! Por que você fez isso comigo?!! – Luce se descontrolou e começou a gritar, cedendo ao choro histérico.
— Era o meu trabalho, mas agora, – ela tentou se aproximar da filha, mas esta recuou na mesma hora. – meu trabalho é proteger você e seu irmão.
— O quê?! – Luce estava em choque mesmo não se lembrando de ter sido torturada por Megan, mas estava assustada e confusa, com vontade de vomitar. – Eu nunca mais quero te ver!! – virou-se e saiu correndo antes que alguém pudesse impedi-la.
No fim do corredor, Ian se aproximava e acabou chocando-se com Luce, correndo. Ele a agarrou pelo braço, mas a menina se contorceu e o arranhou com força. Por mais treinado que fosse, ver aquela menina doce e sensata que ele conhecia relutar como se fosse um animal selvagem o deixou sem reação, permitindo que Luce aproveitasse esse momento de hesitação e fugisse.
— O que aconteceu?! – ele perguntou apreensivo à Megan.
— Eu acho que a perdi... para sempre.
[...]
Luce saiu da hospedagem com dificuldade para respirar; seu peito estava apertado e sua barriga doía. Ela avistou no fim do estacionamento uma lixeira e foi correndo em sua direção. Chegando lá, inclinou seu corpo para dentro e vomitou. Inicialmente, pensou que o mal estar havia passado, mas, logo em seguida, ele voltou com tudo. Sem saber o que fazer, Luce começou a vagar pela calçada com os braços cruzados, numa tentativa de enganar o frio da madrugada.
De repente, ela se lembrou de algo e colocou a mão no bolso da calça jeans – enquanto voltava vendada na van para ser largada perto do restaurante onde Justin estava, sentiu que alguém tinha tocado nela e isso a deixou desconfortável – e só agora percebeu que haviam colocado uma mensagem num papel dentro de seu bolso. Dizia:
“Venha me encontrar naquele mesmo restaurante”
— H.
Determinada a encontrar Harry, Luce seguiu andando em direção ao restaurante. Estava decidida, depois dos recentes acontecimentos, em aceitar a proposta de Jonas e assumir a liderança da quadrilha, afinal, ela até que entendia um pouco sobre política e tinha uma noção mínima de administração. Achava que seria o suficiente para assumir o posto. Então, ela pensou em Justin, seu irmão e o cara que amava. Luce chegara a essa conclusão quando, ainda deitada na cama de solteiro do motel com ele, observou silenciosamente seu sono profundo e pacífico. Por causa disso, não podia simplesmente abandoná-lo com aqueles dois. Ela iria leva-lo junto para a quadrilha.
Chegando lá, avistou que o restaurante estava fechado, mas isso não foi o suficiente para fazê-la desistir. Luce olhou furtivamente de um lado para o outro para ver se alguém a estava vendo, afinal, era a primeira vez que iria arrombar uma propriedade privada. Porém, ao girar a maçaneta, supreendentemente, a porta se abriu sem nenhum esforço. Impressionada e curiosa, Luce foi adentrando no recinto escuro e vazio que possuía um cheiro forte de gasolina.
Sem poder processar direito o que seu nariz percebeu, Luce foi agarrada pelas costas, ficando imobilizada.
— Surpresa, docinho de coco. – disse Gracy.
— Quem é você?! – perguntou ela, assustada.
— Oh, quem é você? O que quer de mim? — fingiu uma voz de uma menina em apuros. – Por favor, sem perguntas idiotas. Eu sei que você vai conseguir decifrar isso rapidinho. – Gracy levantou sua mão segurando uma faca de caça e pressionou contra às costelas da jovem.
— Você... – Luce engoliu em seco – Foi você que veio atrás de mim em Nova Deli!
— Ah, mais que garota esperta! Deve ter puxado à inteligência do pai. – satirizou.
— O que você sabe sobre meu pai?! – a menina tentou se mexeu, mas se arrependeu imediatamente, pois sentiu a ponta da faca entrando em sua pele.
— Ed era um filho da puta que matou meu Phill!! – explodiu de raiva.
O sangue de Luce gelou ao se relembrar de quando foi capturada e um maluco chamado Phillip tentou explodir ela e seu irmão.
— O que você quer de mim? – choramingou.
— Eu quero que você pague pelos erros de seu pai, sua infeliz! – esbravejou Gracy.
— Solte ela agora! – uma voz masculina ressoou dentro do recinto.
Harry se encontrava com uma arma na mão apontada para Gracy, em frente à porta de entrada do restaurante.
— Olha só se não é o pequeno Harry tentando dar uma de herói! – zombou.
— Harry, por favor, ela é perigosa! – disse Luce numa tentativa falha de alerta-lo.
— É Harry, se fosse você, eu ouviria sua namoradinha.
O rapaz sentiu-se encurralado, deixando-o tenso. Ele não pensara duas vezes antes de tomar uma atitude; assim que viu Luce em perigo, foi seu instinto ajuda-la, porém só agora percebia que sua ação precipitada tinha sido um erro.
Sem mais nem menos, num gesto rápido e ágil, com a mão que segurava a faca, Gracy a substituiu por uma arma de fogo e disparou de forma certeira em direção ao garoto. O estrondo do tiro pegou Luce de surpresa, que soltou um grito de horror ao ver seu melhor amigo com uma bala cravada na testa caindo no chão.
— Agora é sua vez! – com a mesma rapidez que Harry foi atingido, Gracy enfiou a faca de caça na lateral do abdômen de Luce e, logo em seguida, a jogou no chão.
A reação imediata da garota foi cobrir a ferida com as mãos. Ela pôde sentir o sangue quente escorrendo pelos seus dedos, mas nenhuma dor.
— Nós vamos queimar juntas, assim como seu pai e Phill fizeram. – disse a mulher em suas últimas palavras antes de ascender um isqueiro. Um milissegundo depois, seu corpo tombou para trás como consequência do tiro que levou bem na mira do seu coração. Infelizmente, o isqueiro continuou aceso e caiu no chão cheio de gasolina.
Luce observou uma trilha de chamas se formar e ir em direção à cozinha do restaurante que, em poucas horas atrás, estava em pleno funcionamento. O balcão que servia de bar foi o primeiro a ser engolido pelo incêndio. As garrafas de bebidas começaram a explodir cacos de vidro por tudo quanto é lado enquanto os bancos de couro queimavam e liberavam uma fumaça sufocante. A jovem virou-se, desesperadamente, para trás para tentar ver quem tinha disparado aquele tiro, mas não conseguiu ver nada nítido. Mesmo com a fuligem prejudicando sua visão, ela conseguiu ver o corpo de Harry sendo arrastado para fora do lugar.
De repente, começou a tossir de forma convulsiva e, por causa disso, mais sangue jorrava de seu abdômen. Ela tentou se levantar, mas uma dor insuportável a atingiu, fazendo seus pés vacilarem. Se não fosse pelos braços que a envolveram naquele exato instante, Luce teria caído no chão e, provavelmente, não levantaria mais dali.
— Eu te peguei. – disse Justin.
Nesse momento, pôde ser ouvido de longe uma intensa troca de tiros vinda de fora do restaurante.
— Temos que sair daqui! – exclamou Justin, mas Luce não o escutou direito. Estava perdendo a consciência aos poucos.
Num gesto rápido e ágil, Justin carregou sua irmã no colo e a levou para fora. Foi um alívio por um momento ter saído daquela fumaça e calor insuportáveis. Delicadamente, ele a pôs no chão e, pela primeira vez, viu que a situação dela não estava nada boa.
— Lucie! Lucie! – ela se mostrava desacordada, pálida e frágil.
Vagarosamente, abriu os olhos.
— Justin... – sussurrou.
— Vamos! Nós precisamos sair daqui! – ao fundo, o cenário parecia de guerra: o restaurante em chamas servia como uma enorme fogueira que iluminava metade do quarteirão, pessoas escondidas no arredores trocavam tiros para todos os lados, deixando o caos tomar conta. Justin sabia que uma dessas pessoas era Ian e Megan, que os aguardavam a poucos metros dali.
Quando Luce sumiu novamente, os agentes e o garoto saíram à sua procura, porém, quando chegaram no local, Harry já havia sido baleado e a menina acabara de ter sido esfaqueada. Não restava muito o que fazer senão matar Gracy, mas o que eles não perceberam fora o isqueiro aceso em sua mão.
— Vamos, Luce! Ian e Megan estão nos esperando! – ele colocou os braços dela ao redor de seus ombros, tentando ajudá-la a levantar-se, porém parou, imediatamente, o que estava fazendo ao ouvi-la soltar um grito de dor.
— Justin... – ela o chamou. – Vá agora antes que seja tarde demais!
— O quê?! – o menino parecia atônito. Ele aproximou seu rosto contra o dela. – Por favor...
— Eu te amo – ela disse, interrompendo-o. Justin ficou sem reação. – Salve-se!
— Não! Não, eu não vou te deixar! – ele protestou enquanto se engasgava em meio as lágrimas.
Luce se esforçou para contestar, porém suas forças estavam se esvaindo mais rápido do que ela gostaria.
— Luce! Luce! Fique acordada! – ele a sacudia desesperadamente – Luce! Luce! – mas a garota não reagia. Em meio ao seu pranto, Justin sentiu uma mão pousar em seu ombro.
— É agora ou nunca! – anunciou Megan.
— Eu não vou abandona-la! – gritou.
— Aqui, beba isso. – sem pensar duas vezes, Megan o deu a melhor saída para todos os três.
— O que é isso? – perguntou desconfiado segurando um frasco pequeno de vidro.
— Beba! – mandou enraivada.
Sem saber o que era o líquido e sem muitas considerações, Justin bebeu o conteúdo por completo e, em menos de dois segundos, ele desmaiou, caindo por cima do cadáver de Luce.
— Você o matou?! – exclamou Ian, horrorizado com a cena que assistira de longe.
Megan caminhava em direção a ele, carregando o corpo de Justin desacordado.
— Não temos tempo para explicações! Vamos sair logo desse inferno!
Concordando com sua companheira, os dois agente saíram escondidos nas sombras das ruas de Londres para bem longe da confusão que acontecia naquela mais longa madrugada de suas vidas.
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