Recovery
12 Under The Rain
Notas iniciais
Damon suspirou profundamente e encarou a tela diante de seus olhos. Pegou os pinceis e a aquarela. Dedilhou, com delicadeza, os pinceis e pensou no que poderia pintar.
Passou a tinta azul delicadamente, jogando as pincelas calmas e suaves por sobre a tela. Misturou as cores, criando com as mesmas, formas e imagens que não pertenciam ao mundo real. Tudo se misturava, formando algo único e singular. As cores eram singelas, suaves; mas, ao mesmo tempo, quentes. Diziam quem ele era, do que ele gostava, o que ele sentia.
A mão movia-se com destreza e os formatos ganhavam cada vez mais significado e sentido. Os olhos focavam-se em cada pincelada suave, e Damon sentia-se satisfeito com sua própria obra de arte. Fazia muito tempo que ele não conseguia pintar nada com tanta facilidade... Sentia-se liberto, como se sua criatividade e imaginação fluíssem de seu cérebro para seus dedos.
Não viu o tempo passar. Estava perdido demais em seu próprio mundo para olhar ao redor. Amava pintar. Aquilo o aliviava a mente, fazia-o sentir-se bem. As pinceladas tornaram-se mais consistentes e um pequeno sorriso se fez notar em seus lábios.
Damon estava encostado no armário do colégio. Seus olhos procuraram por algum rosto conhecido, contudo, ele falhou em achá-los. Olhou para seu relógio e suspirou.
Colocou a jaqueta de couro e adentrou na sala de aula. Lá estava uma bela morena de olhos casta. Ela estava tão presa a seus livros que sequer notou a presença de Damon; que a encarava em um misto de surpresa e curiosidade. Era seu primeiro dia naquele colégio e ele já havia sido assediado por cerca de dez meninas diferentes. Olhou-a curioso e tentou adivinhar no que ela pensava, sem nenhum sucesso.
Elena continuava compenetrada em seu livro, admirando a contextualização do mesmo e a força dos personagens criados por Tolstói. Um sorriso entalhou-se em seu rosto e Damon admirou-a, decorando os traços juvenis e delicados do rosto dela.
Damon pousou o pincel no descanso e sorriu. Ele havia terminado. Uma obra de arte cujos traços poderiam ser considerados surrealistas estava parada diante dos olhos do rapaz. Ele sorriu satisfeito e retirou-se do quarto, decido a espairecer um pouco. Olhou para o relógio e arregalou os olhos ao perceber que havia ficado cerca de duas horas no quarto, pintando.
Stefan estava sentado à mesa, usando o computador com um olhar compenetrado. Contudo, ao ver o irmão passar, olhou para ele e sorriu:
— Oi Damon, tudo bom?
— Sim... Eu estava pintando — o moreno respondeu animado. Os olhos brilhavam e ele parecia mais... Alegre. Stefan sorriu ao perceber tal fato e questionou, pousando ambos os cotovelos na mesa.
— Uau! Fico muito feliz em saber disso! — Disse efusivo. Era a mais pura verdade. Nunca pensou que veria Damon voltando a pintar, mas naquele momento se deu conta de que estava enganado. — O que pintou?
— Uma imagem surrealista — o moreno respondeu-se sentando ao lado do irmão: — A Elena me incentivou a voltar a pintar — ele disse encarando o mais novo, que o olhava tentando descobrir o que se passava na mente do moreno. Tentar entender seu irmão era uma missão quase impossível para Stefan, mas ele continuaria tentando.
— É muito bom ver que ela está conseguindo te ajudar — o loiro disse. O olhar dele era como o de um caçador, à espera da caça.
— Eu também! Eu nunca pensei que alguém poderia me ajudar tanto quanto ela — Damon disse como uma espécie de confissão. Estar com Elena fazia-o sentir-se bem. Com ela, ele podia ser ele mesmo. Não haviam máscaras ou mentiras, havia apenas a verdade, tal como era ela. Nua e crua. Com a morena ele não tinha medo de se apresentar como alguém frágil, pois ela o entendia... Ela o compreendia em seu âmago, em sua mais profunda essência. As palavras não se faziam necessárias entre eles, apenas os olhares bastavam...
— Ela está te ajudando a superar? — Stefan hesitou. Não sabia se devia perguntar. Mas algo dentro dele exigia que o rapaz questionasse o irmão mais velho. Damon suspirou e disse:
— Sim, de certa forma... — O olhar soou perdido por alguns segundos. Ele havia perdido April há quase um ano. No início, ele afundou-se em uma depressão da qual ninguém fora capaz de arrancá-lo. Os meses passaram, e a dor dele pareceu não cessar, foi então que ele adentrou no mundo dos entorpecentes. Desde então, ele anestesiou-se para o mundo. Até Stefan dar um basta na situação. — Mas é tão difícil... Não sei o que fazer, Stefan — admitiu, com um suspiro sôfrego. — Eu não acho que serei capaz de esquecê-la... Contudo, eu apenas queria poder voltar a amar alguém, sabe? Queria ser feliz... E não sei se consigo.
— Damon, todos nós merecemos uma segunda chance... E você, irmão, merece ser feliz... E para isso, precisa parar de olhar para trás a cada passo que dá... Sei que a morte dela lhe doeu, e eu não posso imaginar o quanto, mas se você realmente quer ser feliz, precisa ir atrás da sua felicidade...
Damon olhou-o resignado. Seu irmão estava completamente certo. Ele precisava reconstruir sua vida! Não podia mais viver daquela maneira. Ele sabia que seria difícil, mas com certeza conseguiria com a ajuda de Elena e de Stefan.
...
Elena ajeitou uma mecha de seu cabelo atrás da orelha e suspirou. Mordeu o lábio inferior e pensou no que Rebekah a dissera na noite passada. No fundo, ela sabia que a amiga tinha razão. Ela realmente precisava esquecê-lo, mas não conseguia saber como fazê-lo.
Ela o amava. O amava com uma força assustadoramente grande. Aquele sentimento parecia crescer a cada dia que passava, e Elena já não sabia mais como controlá-lo. Como ela conseguiria simplesmente esquecê-lo assim? Damon estava sob sua pele, em cada pequeno pedaço de seu coração... Era como um vício extremamente perigoso, que ela insistia em manter.
Elena nunca conseguira compreender a força que ele tinha sobre ela. Apenas queria libertar-se; contudo, caia cada vez mais na teia que ele inconscientemente tecia. Ele era como o magnetismo, que sempre a puxava em sua direção. A morena suspirou e fechou os olhos. Aquela chama queimava, ardia, crescia, consumia-a, roubando-lhe todo o oxigênio.
— Lena? — Os pensamentos da morena foram interrompidos por Rebekah, que observava Elena confusa. A loira sentou-se ao lado da amiga e perguntou:
— Está tudo bem?
— Não — a morena respondeu arfando. Abraçou os próprios joelhos com força e disse: — Como eu faço para esquecê-lo Bekah? — Elena questionou mordendo o lábio inferior. Rebekah suspirou profundamente e fez um carinho nas costas da amiga. Nem ela mesma sabia qual era a resposta certa para aquela pergunta. Afinal, ela também não havia esquecido Matt.
— Você tem que começar a sair mais, amiga — a loira disse, satisfeita com a própria resposta: — Nunca se sabe quem você pode conhecer — disse com uma expressão safada. A morena revirou os olhos e disse, rindo:
— Você sabe que eu não gosto de sair — disse olhando para a melhor amiga. Rebekah revirou os olhos e falou, incomodada:
— Eu nunca te vi sair muito desde que viramos amigas! Eu só te via sair com o Tyler e olhe lá — falou reclamando. Elena nunca foi uma pessoa muito sociável, ela sempre preferiu os livros. — Amiga, essa é a única forma de superar Damon — a loira disse revirando os olhos.
Elena deu de ombros. Ela sabia que Rebekah não sossegaria enquanto ela não concordasse em sair com a outra.
— Okay! Você venceu — Elena disse levantando as mãos, em forma de rendição. Rebekah comemorou batendo palminhas e levantou-se. Elena riu da reação da amiga e foi para seu quarto, em uma tentativa de descobrir o que deveria usar. Escolheu um vestido que acabava um pouco antes de seus joelhos. Ele era azul marinho e acinturado, o que realçava as curvas do corpo da morena. A morena passou uma maquiagem básica e colocou um par de sapatilhas bege.
— Estou pronta — disse saindo do quarto.
— Já estou terminando de me arrumar — Rebekah gritou de seu quarto. Elena suspirou e ajeitou seus cabelos. Não acreditava que estava realmente saindo apenas para atender os desejos de sua amiga. Ela não estava acostumada com aquele tipo de coisa.
Rebekah surgiu de seu quarto simplesmente linda. Ela usava um vestido rendado preto que caía sobre suas coxas e delineava seu corpo. Os cabelos estavam presos em uma trança lateral e um par de brinco fazia-se presente em suas orelhas.
— Vamos? — A loira questionou sorrindo. Elena assentiu, tentando ficar animada, e pegou suas coisas. As duas saíram do apartamento e adentraram no carro de Rebekah.
— Para onde estamos indo? — Elena questionou curiosa. Olhou para a rua e percebeu que as duas estavam virando à esquerda. Mordeu o lábio inferior e respirou fundo.
— Para o Susie's Bar — a loira respondeu animada. A morena encolheu-se no banco e olhou para fora. Não gostava muito de sair, mas sabia que precisava daquele tempo para si mesma. Ao chegarem ao bar, as duas sentaram-se em uma mesa afastada e começaram a conversar sobre assuntos corriqueiros.
— Com licença — ouviram uma voz masculina pedir. Elena virou-se e deparou-se com um belo rapaz loiro de olhos azuis. Ele sorria para ela, que o encarava confusa. — Oi, Rebekah, tudo bom? — O rapaz questionou, abraçando a loira, que sorria para ela. Elena observou a cena confusa, tentando compreender o que estava acontecendo ali.
— Lena, esse é meu amigo, Lucas... Lucas, essa é Elena — Rebekah disse fazendo as apresentações. O rapaz sorriu para a morena, que o encarou franzindo o cenho e o cumprimentando. — Fiquem ai conversando, eu tenho que resolver algumas coisas — a loira disse levantando-se. Foi então que a morena entendeu. Fuzilou a amiga com o olhar e desejou pular no pescoço dela no mesmo instante. Como ela pôde fazer aquilo?
Rebekah saiu do bar, deixando os dois sozinhos. Elena pigarreou, tentando limpar a garganta. Não acreditava que sua amiga tivera a audácia de arranjar um encontro entre ela e o rapaz cujo nome ela sequer lembrava mais.
— E então... A Rebekah me disse que é psicóloga — Lucas disse, tentando puxar assunto. Havia achado a morena linda. Talvez ele tivesse sorte, no final das contas.
— Sim... Eu me formei há algum tempo — ela respondeu brincando com o canudo de seu martíni. Não tinha o hábito de beber, mas não pôde recusar a bebida naquele momento. — E você, o que faz?
— Eu sou advogado — ele respondeu sorrindo. Nada de artístico no meio. Elena automaticamente comparou o rapaz-sem-nome com Damon. Franziu o cenho e respirou fundo. Tente esquecê-lo, Elena! Sua consciência exigiu nervosa. Como se fosse fácil. Retorquiu mentalmente.
— O que você gosta de fazer? — Ele perguntou curioso. A morena o olhou cansada e disse:
— Gosto de ler, assistir televisão e de viajar... E você?
— Eu gosto de jogar futebol e viajar — ele respondeu sorridente. E a morena passou a ouvi-lo, sem responder ou dizer mais nada sequer...
...
Damon colocou ambas as mãos no bolso e disse:
— Vou sair um pouco, eu já volto — disse ao olhar para o relógio e perceber que já eram sete da noite. Stefan o olhou e disse:
— Okay, mas me ligue — pediu o olhando cuidadosamente. Damon assentiu e saiu de casa apressado. Pegou sua moto e começou a andar pelas ruas de Atlanta. Não estava muito trânsito, e logo Damon conseguiu chegar ao Piedmont Park. Ele amava aquele lugar, e ficava aliviado sempre que podia ir para lá.
Logo, um odor estranhamente familiar lhe atingiu as narinas e ele arfou. Era maconha. Deu meia volta, tentando controlar seu ímpeto. Porém, todo seu corpo exigia, clamava pela droga, cujo cheiro parecia ter impregnado nele. Damon sentiu o coração acelerar. Sua mente exigia que ele fosse até lá. Damon tentou combater aquela necessidade visceral que parecia atingi-lo, mas a mesma o consumia por dentro. Não conseguiu mais resistir. Caminhou até os rapazes que usavam a droga e comprou parte da mesma. Aproveitou e também comprou um isqueiro.
Adentrou no parque e sentou-se no mesmo banco onde sentara-se no dia anterior com Elena. Observou o narcótico em suas mãos e suspirou. Aquele definitivamente não era o melhor local para aquilo. Sentiu como se estivesse traindo Elena. Ela iria ficar tão decepcionada se soubesse... Foi com aquele pensamento que Damon não colocou o maço nos lábios. Encarou as estrelas no céu e suspirou. Precisava daquilo, mas sabia que não devia.
...
Elena havia entrado no modo automático. Apenas ouvia, fingindo interesse, tudo que o rapaz-sem-nome tinha a dizer. A morena assustou-se com o som de seu celular tocando e franziu o cenho ao ver o número de Stefan no visor:
— Alô? — Perguntou interrompendo o monólogo de Lucas.
— Elena, o Damon está com você? — Stefan perguntou preocupado. Já eram nove e meia e o mais velho ainda não havia dado sinais de vida. O loiro tinha medo de que ele pudesse fazer alguma besteira.
— Não, por que? — Elena questionou agitada.
— Ele saiu de casa às sete horas e não voltou ainda... Ele disse que ia me ligar, só que eu estou ligando para ele e cai na caixa postar — Stefan disse juntando as duas mãos. A morena levantou da mesa sem pensar duas vezes e perguntou, temerosa:
— Você acha que ele pode ter voltado a usar drogas? — Sua garganta fechou. Não queria sequer pensar na possibilidade.
— Eu temo que sim — Stefan respondeu apertando as têmporas. Elena fechou os olhos ao ouvir aquilo e perguntou:
— Ele disse para onde ia?
— Não... Ele não me disse absolutamente nada — Stefan respondeu suspirando. A morena mordeu o lábio inferior enquanto ele questionava: — Você tem alguma ideia de onde ele possa estar?
— Não... Eu não — a morena parou de falar ao lembrar da conversa que tivera com Damon na noite passada. Ele a dissera que o Piedmont Park era seu lugar preferido... Talvez ele estivesse lá! — Eu acho que sei onde ele está, depois te ligo! Beijos! — Disse afobada. Jogou alguns dólares sobre a mesa e saiu correndo, deixando um Lucas atordoado e confuso para trás.
...
Damon respirou fundo. Ainda não havia tomado coragem para fumar a maconha. Sabia que não deveria fazer aquilo, mas grande parte de seu corpo exigia que ele fizesse. O rapaz; contudo, sabia que aquilo iria decepcionar Elena, e aquilo era a coisa que ele menos queria no mundo...
Damon sentiu o odor da terra molhada e logo percebeu que iria chover. Olhou para o Céu e as nuvens tomavam forma, omitindo grande parte das estrelas. A lua, porém, brilhava em toda sua magnificência.
Elena adentrou no parque correndo. Demorou vinte minutos para chegar ali de táxi. Olhou para o relógio e viu que eram dez e meia da noite. Ainda tinha algum tempo antes do parque fechar. Correu em direção ao local onde ambos haviam ficado na noite passada. Lá, ela o viu. Damon estava sentado, encarando o Céu acima dele.
Elena assustou-se ao sentir as gotas grossas de água caindo por seu corpo e respirou fundo, aproximando-se dele. Seu coração palpitou, e ela não soube se conseguiria...
— Damon — pronunciou o nome dele com carinho, enquanto a chuva gélida caia sobre seu corpo. O rapaz olhou-a confuso e respirou fundo.
— O que faz aqui?
— Stefan me ligou... Ele estava preocupado com você — ela respondeu delicadamente. — E então eu lembrei que esse era seu lugar predileto.
— Eu não mereço isso, sabe? — Ele perguntou levantando. A chuva já havia deixado a ambos encharcados. Elena o observou e aproximou-se mais. — Eu não mereço que você me ajude tanto — disse fechando os olhos.
— É óbvio que você merece, Damon!
— Eu quase trai sua confiança, Elena! — Ele berrou, fazendo-a arregalar os olhos. — Eu não pensei duas vezes antes de comprar isso! — Ele disse, mostrando o cigarro de maconha. — E mesmo assim, você insiste em me ajudar!
— Você não usou Damon... E é isso o que importa — a morena disse sorrindo carinhosamente para ele. Estava orgulhosa dele. Damon não havia usado e aquilo significava muito. — E eu tenho certeza de que conseguirá fazer isso!
— Por que você se importa comigo, Elena? — Damon perguntou impaciente, sem dar mais rodeios. A morena ficou muda. Não soube o que responder. Ela o amava, e por isso se importava tanto... Por isso queria vê-lo bem e feliz.
A chuva ainda caia sobre os dois, encharcando os corpos. Ele ficou próximo dela, os olhos clamando por uma resposta. Elena não soube o que responder. Não podia dizer nada.
— Por que se importa comigo, Elena? — Dessa vez ele gritou, fazendo-a se assustar.
— Porque eu te amo! — Ela berrou de volta, sem nem pensar no que acabara de revelar. Seu coração batia desesperadamente. E naquele momento, tudo o que ela queria era tê-lo mais perto. Sem hesitar mais, sem sequer pensar, uniu seus lábios aos dele...
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