Recomeços
13 O Beijo
A manhã do primeiro dia amanheceu tensa. Todas aquelas pessoas na fila esperando ansiosamente para a abertura dos portões. Milhares de adolescentes e adultos gritando e pulando. Embora pareça o inferno, para mim, aquilo era o paraíso. Carla e Mariana já haviam deixado nosso grupo para encontrarem seus respectivos grupos, e acredite, se importar com isso era tudo que Andy e Artie não faziam. A bebida e as drogas rolavam soltas na fila e muito rapidamente alguns começaram a passar mal.
Os portões seriam abertos às 18:00, então quando eram 17:00 já começamos a guardar as coisas no carro para liberar a fila. Estávamos em pé esperando, e de repente a fila começou a andar. A correria foi tremenda e empurrões e xingamentos eram cortesia para aquelas pessoas. Will me passou o braço por meus ombros e juntos enfrentamos a multidão a nossa frente. Fiquei em cima dos ombros de Will e Ali em cima dos ombros de Leo. Quando alguém empurrava Ali, ela gritava: “HEY CUIDADO, MULHER GRÁVIDA AQUI!”, ela estava adorando isso. Eu olhava para trás e só via pessoas e mais pessoas. Desci um pouco dos ombros de Will para deixá-lo descasar e ficar mais próxima de seus lábios. Algum tempo depois alguém esbarrou em mim com força.
- Me desculpe! – ele se virou para pedir desculpas. Quase tive uma síncope. Vinny, amigo de Melanie, namorado de Anna, estava parado bem em minha frente me encarando. – Mel? – ele perguntou incrédulo.
- Oh meu Deus! – eu falei – Vinny!?
- Não acredito que você está aqui! – ele me abraçou. Vi os meninos me encararem surpresos. – Eu senti tanta sua falta!
- Eu também senti a sua.E a Anna?
- Está logo ali – ele disse apontando para um grupinho próximo.
- Deixe-me te apresentar meus novos amigos, esse é Will, meu namorado, Ali, Leo, Artie e Andy! – eu disse indicando cada um deles.
- Vocês não querem se juntar a nós? – ele ofereceu.
- Acho que não Vinny, obrigada, nós vamos ficar por aqui mesmo.
- Ok então, a gente se esbarra!
- Com certeza – eu disse não querendo que isso realmente acontecesse.
- Foi incrível encontrar com você Melanie! – ele disse. Os olhares caíram sobre mim confusos. Vinny se distanciou de nós e logo as perguntas começaram a ser feitas. Para todo caso, Mel ou Melanie era meu apelido carinhoso, pois eu me parecia muito com minha irmã mais velha, chamada Melanie, que havia morrido no acidente de carro. Will que já sabia da verdade não fez pergunta alguma e me apoiou em todas as minhas respostas.
As pessoas não paravam de chegar e todo aquele movimento começou a deixar o ambiente quente. Quando as luzes se acenderam Will voltou a me colocar em seus ombros, mesmo comigo pedindo para ficar no chão, ele disse que queria que eu visse tudo melhor. As garrafas de smirnoff estavam na mochila de Andy, junto com os cigarros, e em breve iriam ambos, acabar.
Levando todos que ali estavam ao delírio, Ozzy Osbourne, o rei, o dono do Ozzfest subiu no palco principal e logo começou a cantar “I Don’t Wanna Stop” começamos a pular e a gritar loucamente. A música estava incrivelmente alta e eu sentia meu coração bater ao ritmo da bateria. Sentia o suor escorrendo em minhas costas e pescoço, senti duas lágrimas inesperadas descerem pelo meu rosto. Eu estava corando, chorando de emoção, chorando de felicidade. Apenas chorando. Assim que a música acabou, Ozzy veio até o microfone e gritou a frase: “Agora é tarde, as malas estão sendo feitas, guitarras estão sendo plugadas e é hoje a noite em que o inferno chega a Terra!”. Os gritos foram ensurdecedores dessa vez. Ozzy e sua banda desceram do palco e foi a vez do Angra, banda brasileira marcando presença no palco principal, subir no palco. André Matos laçou um agudo incrível e mais uma vez o público foi a loucura. As músicas começavam a acabavam, mas os fãs continuariam pulando e dançando. Sai Angra e entra Bullet for my Valentine. Os shows estavam sendo impressionantes. Matt Tuck gritava e tocava guitarra com uma facilidade incrível. As pessoas, já bêbadas, começaram a passar mal e logo eu e Will estávamos prensados na grade. Eu desci de seus ombros, pois agora nada mais atrapalhava minha visão. Papa Roach fez um dos melhores shows. A essa altura, eu já tinha fumado ao menos cinco cigarros e bebido duas garrafas. Meus cabelos estavam grudados em minhas costas e em minha testa. Ali e os outros já não faziam mais parte do meu campo de visão, mas não fiquei preocupada, sabia que estavam se divertindo muito assim como eu. Já haviam se passado mais de duas horas de show, e a banda que eu mais esperava ver apareceu. Avenged Sevenfold. De longe, vi os braços tatuados de M. Shadows aparecerem na entrada do palco. A música começou explosiva e mais lágrimas escorriam pelo meu rosto, Will ao meu lado, pulava e gritava como nunca. Minha voz não saia mais, mas eu ainda assim tentava gritar. Em um intervalo de uma música e outra M. desceu do palco e veio andando em nossa direção.
Parei de gritar no exato momento em que vi aqueles grandes olhos verdes me encarando. Ele se aproximava cada vez mais e os seguranças começaram a ficar apreensivos com a proximidade dele com o público. Will não parecia se importar com o olhar de Matt em mim e nem eu. Estava sob o efeito do álcool, das drogas e da adrenalina. Os seguranças estavam em sua volta e quase me minha também, seus braços me separavam do resto das pessoas. Fui puxada para o outro lado da grade, e logo senti os lábios de Matt colados nos meus. Era uma sensação incrível. O cara por quem fui apaixonada estava agora me beijando com vontade. Não me julgue, eu não estava em minha sã consciência. O beijo foi rápido, mas foi ótimo. Ele separou nossos lábios e deu mais um selinho. Correu para subir no palco novamente, eu encarava Will que me encarava de volta. Não me repreendia ou julgava, apenas me encarava. Os seguranças me deixaram permanecer deste lado e pedi para que passassem Will para esse lado também. Eles hesitaram no começo, mas ao ver os garotos da banda nos encarando, deixaram que ele passasse.
Não tive tempo de pensar muito no que estava acontecendo, senti os lábios de Will nos meus. Foi de longe, o melhor beijo que recebi em toda a minha vida.
- Obrigada pelo beijo MsShadows! – ele disse no meu ouvido alto suficiente para que eu conseguisse escutar. Nós continuamos pulando e gritando até o final.
O show acabou e nós andamos em direção ao carro. Quando chegamos lá, Ali e os outros já haviam chegado.
- V, o que foi aquilo? – Ali gritou quase sem voz.
- Aquilo o quê?
- O M. Shadows beijou você!
- Sim! – eu disse incrédula.
- Me beija! – ela pediu.
- Não Alison, deixa de se gay!
- Ahh, mas o Shads te beijou, eu quero a saliva dele na minha boca também! – ela disse e Leo entortou a boca.
- Nem vem, esquece, e além do mais, o Will já me beijou varias vezes depois do Shadows.
Armamos nossa barraca o mais perto que conseguimos, afinal, no dia seguinte havia mais shows. As bebidas e as drogas já tinham acabado, mas mesmo assim, nós já estávamos bêbados o suficiente.
Will e eu nos retiramos para nossa própria barraca, e não é preciso ser um gênio para saber o que aconteceu... nós dormimos, dormimos não, apagamos de vez. Estar descansados para o dia seguinte era essencial, aquele festival prometia.
Notas finais
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