Recomeço
7 Capítulo VII - Problemas
Notas iniciais
- Oi gente. – Kevin falou quando encontrou Gwen e Ben sentados na mesa da lanchonete. Pegou o cardápio de sucos e abanou-o no rosto enquanto se sentava ao lado de Gwen. – Cara, que calor. – e estava certo; há uns dias atrás, o sol não parava mais de aparecer depois de quase um mês de chuva. Isso foi o bastante para fazer com que ele viesse apenas com sua camiseta preta; sem colocar outra por baixo. Ben e Gwen fizeram o mesmo: ela usava apenas sua camiseta branca, enquanto Ben tirou sua jaqueta.
— Toma. – Gwen entregou seu copo de refrigerante para Kevin que deu dois goles grandes antes de encostar a cabeça para trás.
— E então... – Kevin falou enquanto observava os dois com um sorriso enorme – Vocês estão felizes hoje. Posso saber porquê?
Os dois primos de olhos verdes se entreolharam e depois se viraram para Kevin. Ben foi quem explicou: seus tios e primas haviam voltado.
Kevin se inclinou para Ben, surpreso.
— Como assim voltaram?!
— Não sei. Eles apareceram perto da casa da Gwen faz uns cinco dias.
Kevin ficou mudo. Primeiro olhou para Ben, depois para Gwen. Ela olhava a mesa mexendo no canudo do copo, mas não estava sorrindo mais.
Quando percebeu que ele a encarava, ela forçou um sorriso.
Ben explicou os detalhes para Kevin. Ao terminar tomou em três goles seu suco e se encostou ao banco.
— Mas... como?
— Como o quê? – Ben perguntou.
— Como eles apareceram do nada? Eles ficaram esse tempo todo desaparecidos sem chamar ninguém? – Kevin olhou para Gwen.
— Nem a polícia sabe, quando perguntaram para eles, não se lembravam de nada, mas o importante é que eles estão de volta. – Ben parecia não estar se importando muito com a explicação.
Kevin pensava que Ben estava sendo muito descuidado; ele se virou para Gwen e perguntou se ela suspeitava de algo, o que ela respondeu foi:
— Não acho nada de suspeito... – ela deu um gole no refrigerante e virou o rosto para o lado não querendo encontrar o olhar do namorado. Ele ficou mais preocupado; percebeu que o que estava mais estranho nisso tudo era como Gwen agia em torno da situação. Geralmente ela estaria procurando pistas para saber o que acontecera, mas estava diferente...
— Certo. – murmurou sem querer continuar a conversa.
— E então – Ben disse – Alguma pista dos cavaleiros ou algo parecido?
— Nada... – Kevin respondeu desanimado... Nada para bater.
— Ih. Olha lá! – o grupo ouviu vozes e olharam para o lado.
Cash e TJ.
— E aí, Tennyson? – Cash disse.
— Ah, ótimo. Vocês... – Ben murmurou.
— Como vai a cabeça, hein? – perguntou, enquanto TJ ria.
— Do que ele está falando, Ben? – Gwen perguntou, depois de muito tempo em silêncio.
— Nada... Nada. – Ben olhou para os cantos, suas bochechas ficaram vermelhas.
Cash riu mais junto com TJ.
— Nada?! Ele levou uma bolada na cara enquanto jogava futebol e não é nada? Tinha que ver. Ele ficou se debatendo no chão de tanta dor!
— Ai! Meu nariz! Estou abatido! Estou abatido! – TJ começou a copiar Ben, colocando suas mãos sobre o nariz e pulando envolta de Cash.
— Jura que ele fez isso? – Kevin começou a rir colocando as mãos na barriga. – É bem o tipo dele- Ai! – Kevin gritou assustado, ao ver que Gwen lhe dera uma cotovelada. – Ta bem, ta bem, parei.
— Vocês não desistem, né? – Gwen perguntou para eles. – Não têm mais nada para fazer além de infernizar os outros?
Os dois se entreolharam e responderam em um soneto:
— Não.
Ela rolou os olhos. Olhou para Ben que estava tomando seu suco sem graça alguma.
— Nem liga para eles, Ben. Um dia eles vão ganhar o que merecem. – murmurou para o primo.
— Espero estar lá para rir da cara deles quando isso acontecer. – deu mais um gole no suco. Cash e TJ ainda riam de Ben e copiavam-no. Aos poucos as pessoas da lanchonete começavam a encarar os dois, achando que estavam malucos.
— Com licença. – um homem cutucou os dois, era o gerente da lanchonete. – Alguns clientes estão reclamando, então, vou ter que pedir para saírem.
— Ah é? E quem vai me obrigar? – Cash perguntou enquanto TJ ficava atrás dele, amedrontado.
— Seria uma honra ajudar. – Kevin se levantou da cadeira, seu rosto estava com um sorriso.
Cash e TJ olharam para ele, levantando os rostos. Eles olharam para o garoto e compararam seus tamanhos com o dele. Kevin dava dois Cashs e meio de altura. TJ se lembrou do episódio em que ele e Cash empurraram seu carro ladeira abaixo quebrando a parte do capô e como Kevin ficou furioso. Só que sem querer TJ deixou escapar outros episódios em que os dois quebraram o carro dele:
— Ih... Será que ele descobriu que fomos nós que ficamos batendo no carro dele, Cash?
— SH! Cala boca! Ficou maluco?!
— O QUÊ?! – Kevin cerrou os punhos e seu rosto expressava raiva. – VOCÊS quem bateram no meu carro?!
— Hm. Se dissermos que não você vai acreditar? – TJ perguntou recuando junto com Cash.
— Senhor, nada de brigas aqui. – o gerente disse.
— Aí! Cala boca, e fica longe disso! – Kevin respondeu andando em direção aos dois.
— Kevin, briga não vai levar a nada. – Gwen disse se levantando do banco e colocando sua mão sobre o ombro dele.
Ele sacudiu o ombro para tirar a mão dela e continuou a ir em direção aos dois.
Ben apenas observava a situação sem dizer nada.
Cash e TJ olharam novamente para Kevin. Dois caras: um baixinho e rechonchudo de óculos, que sempre se escondia atrás dos outros para não levar pancada; e o outro, alto, magrelo e corajoso apenas para bater em alguém menor que si mesmo; ambos contra um garoto de 1,80 – ou até mais –, grande, musculoso e valentão que dava muito deles...
Os dois saíram correndo para fora da lanchonete e Kevin foi atrás deles, andando.
Gwen foi atrás. Ben pagou a conta para o gerente e foi atrás da prima. Eles encontraram Kevin segurando Cash e TJ pela gola da camiseta pressionando-os contra a pilastra que segurava o outdoor do Mr. Smoothies.
— Nunca mais mexam no meu carro! – ele jogou os dois no chão e limpou as mãos. Depois ameaçou ir para cima deles, mas os dois se levantaram e saíram correndo.
— Acho que eles ganharam o que mereciam mais cedo do que eu esperava. – Ben murmurou cruzando os braços. – Quem é o abatido agora?
— De nada, Tennyson. – Kevin falou enquanto ia até os dois amigos de olhos verdes. – Agora eu sei por que o meu carro ficava tão detonado!
— Ótima forma de resolver as coisas. – Gwen cruzou os braços, nervosa. Eles não cresciam. Onde estava aquele Ben que dizia o quão imaturos Cash e TJ eram? – Você não pegou muito pesado com eles não? – ela indagou para Kevin.
— Se eu tivesse pegado pesado com eles, eles estariam no hospital agora. – falou em um tom nervoso e convencido.
Ela não falou nada, pois sabia que o que ele dizia era verdade.
Os três entraram no carro e começaram a conversar.
— Ah. – Ben disse parecendo se lembrar de algo, mexendo no bolso da calça, depois mostrou para Kevin e Gwen. Era uma carteira de motorista – Viu? Tirei carteira.
— E o que eu tenho a ver com isso? – Kevin perguntou rolando os olhos olhando para frente.
— Bom... Muita coisa. Significa que eu posso dirigir! Certo, Gwen? – ele virou pra Gwen, parecendo se gabar um pouco. – Você é a única quem precisa tirar carteira.
Ela cruzou os braços:
— Não tem graça... Só porque você completa dezesseis anos algumas semanas antes; não significa nada. Além do mais, eu ainda preciso ter aulas. Acho que vou pedir ajuda pro Ken.
— Eu gostaria de saber se eu podia dirigir o seu carro uma hora dessas, Kevin. – Ben disse
— Pff! Nem morto você vai dirigir meu carro. Eu me lembro da última vez que você o dirigiu... E acabou virando uma lata-velha.
— Não foi minha culpa!
— Não. Não e... Não, Tennyson!
— Droga.
Continuaram conversando até eles ouvirem alguém bater na janela do carro. Viraram o rosto para saber quem havia batido e se assustaram ao verem os olhos arregalados e saltados de Argit. Seus traços de rato estavam escondidos em baixo do capuz de sua jaqueta amarela.
O grupo se surpreendeu ao ver o menino ali parado no meio de todos em um dia ensolarado. Kevin abaixou o vidro do carro para poder ouvir Argit.
— Kevin! Parceiro! – ele colocou suas mãos pequenas na gola da camiseta do menino de cabelos pretos.
— Calma Argit! E tira as suas patas de mim! – Kevin o empurrou para tentar se desprender do abraço desesperado de Argit.
— Eu tenho que te avisar! Eu... tenho que te... avisar. – ele começou a arfar, depois dobrou o dedo para chamar Kevin. Ele saiu do carro, fechando a porta atrás dele, já preocupado.
Gwen e Ben tentaram abrir a porta, mas Kevin voltou-se para os dois e disse:
— Fiquem ai dentro.
— Não manda na gente. – Ben gozou abrindo a porta do carro.
Kevin foi mais rápido, ele pegou o cabo da porta e a empurrou com força para Ben não sair. Só que o jeito que ele empurrara a porta não indicava um gesto de brincadeira ou curtição como ele sempre fazia, indicava raiva.
— O que deu em você?! – Ben perguntou aliviado por não perder o pé durante o ataque de nervosismo de Kevin.
— Eu falei pra vocês ficarem ai dentro! – respondeu; dessa vez quase gritava. O rosto dele estava ficando vermelho. Seus olhos estavam mais do que nervosos. Ele tentou se acalmar dando respiros longos e virou-se para ir até Argit que estava embaixo de uma das marquises do prédio da lanchonete.
Quando soube que seu rosto não podia mais ser visto pelos dois Tennysons, ele voltou a expressar raiva em seus olhos; toda a vez que Argit chegava desesperado atrás dele tentando “contar-lhe alguma coisa” era algo ruim... Extremamente ruim. E sempre acabava em perigo.
Kevin se aproximou do amigo rato e ouviu o que ele tinha a dizer. Gwen e Ben se entreolharam assustados pela reação de Kevin ao ver Argit chegar. Ele nunca agia desse jeito... Nem sempre. As últimas vezes que viram Kevin agir assim foi quando havia se transformado em um monstro (ainda pequeno) ou quando ele havia perdido seu distintivo de Encanador.
Uma coisa os dois primos sabiam: ele ficava desse jeito todas as vezes que a situação envolvia algo realmente importante e de certa forma sentimental para Kevin. E quando você mexia nessa parte sentimental de Kevin... o melhor seria ficar o mais longe possível dele.
Gwen já havia conseguido entender essa parte sentimental dele... ou pelo menos uma parte bem pequena. E ela também sabia que essa parte ele abria apenas pra ela e raramente ele a mencionava. Só que todo o resto ainda era um grande mistério. Às vezes ela se sentia curiosa para saber o que havia acontecido com ele durante todo esse tempo que ele passou preso no Vácuo Nulo, ou até mesmo depois e antes disso. A única coisa que ela sabia dessa parte era que não se podia esperar conto de fadas algum no meio da história.
Os primos esperaram e olhavam apenas as reações e movimentos dos dois. Argit movimentou a boca e parecia muito desesperado. Quando terminou de falar, Kevin colocou as duas mãos na cabeça, andou para os lados como se estivesse tentando acalmar seu desespero e em um movimento rápido e automático pegou Argit pela gola da jaqueta e começou a sacudi-lo.
Gwen tentou se acalmar no carro. Sabia que Kevin não ia machucá-lo... muito.
— Kevin! – ela saiu do carro atrás dele. Gwen não guardava simpatia alguma em relação a Argit, mas também não era uma daquelas que gostava de ver Kevin perdendo a cabeça.
Quando alcançou ele, Argit estava gritando pedindo desculpas a ele.
— Desculpa? Sabe o que fez? Você quer me ferrar?! Você já me fez tantas mancadas que o melhor seria eu... – enquanto falava essas últimas palavras, levantou um dos punhos e estava pronto para socar Argit até desmaiar. Mas duas mãos envolveram a dele. Mais do que nervoso por Gwen fazê-lo parar, Kevin olhou para trás.
— Você está maluco? – ela perguntou assustada. Ela sabia que Kevin sempre agia desse jeito nervoso, era o jeito dele. A prova era que há alguns segundos atrás, ele estava para bater em dois garotos que não tinham metade do que ele tinha de tamanho. Mas de alguma forma, Gwen viu que Kevin estava diferente agora, ele estava mais do que tenso, até mesmo o jeito que ele estava falando mostrava certo... ódio. – Você sabe que não vale à pena bater nele, e muito menos conversar com ele. – Gwen tentou continuar a falar. – Larga ele e vamos-
A expressão de ódio ficou mais evidente no rosto dele; primeiro, ele não disse nada, mas aos poucos começou a explodir.
— Eu falei pra você ficar no carro!
A mão que Gwen segurava se soltou em questão de segundos e no mesmo instante segurou o pulso magro dela para puxar Gwen para mais perto.
— Kevin, me larga! – ela gritou.
— Vai. Pro. Carro.
Ele soltou o pulso dela e voltou a dar atenção para Argit.
— Você vai tentar consertar essa merda que você fez, está me ouvindo?
— Hm. Se eu pudesse, eu faria; juro que eu faria! Mas... ele já sabe disso...
Dessa vez Kevin ficou parado sem dizer coisa alguma. Os olhos dele se arregalavam cada vez mais. Isso já passou dos limites.
— Gwen – ele virou-se para ela depois que largou Argit no chão. Gwen estava olhando para ele silenciosamente. Seus olhos vermelhos. Ela sentia sua garganta apertar, enquanto segurava o pulso que Kevin havia segurado há alguns momentos atrás. O que deu nele? Isso era ridículo! Começar a chorar por uma besteira dessas não ia ajudar em nada, mas por alguma razão ela queria fazer isso.
Kevin olhou para ela alguns segundos e falou:
— Entra no carro, agora. – ele caminhou para o carro sem olhar para ela. Ao lado de seu Dodge ((Nota do Autor: eu errei o modelo do carro dele, mancada, eu sei)), Ben estava de pé; seus olhos estavam arregalados e sua boca aberta. Quando viu que Gwen gritava para Kevin soltá-la, não teve dúvida em sair para ajudá-la, mas quando viu que Kevin já o havia feito, ficou paralisado.
— Ficou maluco?! – ele perguntou olhando para Kevin que estava tentando entrar no carro. Ben entrara em sua frente apenas para ouvir o que ele tinha para dizer.
— Já me perguntaram isso demais – respondeu empurrando Ben para o lado. – Você também. – apontou para ele. – Entra no carro! Isso é sério.
Ben esperou Gwen chegar perto dele para entrar.
Ele se sentou no banco de trás nervoso, mas sabia que se Kevin estava muito mais do que nervoso por alguma burrada, era perigoso.
Kevin fechou a porta do carro, dando partida. Olhando rápido para os lados, parou suas mãos no volante antes que pudesse ir embora.
Os olhos verdes de Gwen o encaravam por fora do carro, ela estava com os braços cruzados e parecia não querer entrar no carro.
— Você quer entrar logo nesse carro?
— Eu posso ir a pé pra casa – ela respondeu achando que Kevin queria se livrar dos dois. Se for para ele agir desse jeito, ela queria ficar mais do que longe.
— Gwen, isso é coisa séria. Você não sabe como isso é perigoso.
— Se é perigoso, me conta. Por que eu quero saber a razão de tudo isso que você fez!
Um silêncio irritante ecoou entre os três. Kevin grunhiu. Gwen queria se fazer de difícil? Ele tinha que deixar os dois em algum lugar que ele sabia que não iam atrapalhar. Mas Gwen tinha que ficar desse jeito agora?
Ele abriu a porta do carro e ficou de pé para encará-la.
— Eu não posso falar isso agora para vocês, por isso vão ter que confiar em mim.
— Tenho que dizer que confiar em você está ficando cada vez mais difícil. – ao dizer isso, saiu andando para se sentar no banco do passageiro.
Kevin se sentou, ligou o carro e foram embora.
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Ben saiu do carro e antes de abrir a porta de casa, deu uma pequena olhada para o Dodge verde. Durante o percurso todo para a casa dele, o carro ficou em completo silêncio.
Kevin estava mais do que estressado, e todas as vezes que abria a boca era para reclamar de alguma coisa e gritar vários palavrões. Gwen estava apenas olhando pela janela do carro. Seus olhos estavam encharcados de lágrimas que ameaçavam cair a cada momento, fazendo o máximo para não deixar Kevin ver, muito menos Ben. Ela realmente se importava com o primo, e sabia que se fizesse um escândalo no carro causaria uma briga entre ele e Kevin.
O que estava acontecendo com Kevin? Não sabia o que era, mas não ia deixar ficar assim.
O menino de baixa estatura sumiu para dentro da casa. Na mesma hora, o carro verde saiu pela rua em alta velocidade. Kevin fez o máximo para passar pelos faróis antes que ficassem vermelhos, mas não estava com muita sorte. Ele teve a idéia de passar pelo semáforo. A rua estava completamente vazia. Infelizmente, na hora em que ele estava prestes a atravessar o sinal, um caminhão passou em alta velocidade, e ele mudou de idéia.
- O que deu em você? – Gwen gritou — Primeiro; ameaça bater no Argit até ele desmaiar! Depois age que nem um idiota! E agora, quase mata a gente! E por que você não me conta logo o que está acontecendo?
— Eu não posso, não agora. É perigoso demais.
— Mas eu acho que nesse ramo, estamos muito bem acostumados.
— Não é isso que você acha. É pior... Muito pior. Por isso eu quero que você confie em mim.
— Ajudaria mais se você me contasse! – falou; suas lágrimas finalmente escorrendo pelas suas bochechas. Ela enxugou o rosto com as palmas das mãos e tentou parar, mas até a sua voz saia com dificuldade.
Kevin não disse nada.
– Eu quero muito que você confie em mim, do mesmo jeito que eu confio em você. – ela disse – Kevin, eu amo você.
Ao ouvir essa frase, seus punhos apertaram o volante com força. Seu rosto começou a soar frio e ele parou o carro na frente da casa dela.
Eles ficaram em silêncio por alguns instantes. Gwen colocou sua mão sobre a dele que ainda estava segurando com força o volante. Kevin não sabia mais o que falar; de alguma forma, aquelas palavras o deixavam confuso e ele, como sempre, reagia de um jeito agressivo. Ele tentou segurar isso, não queria mais vê-la triste.
Gwen tentou falar mais alguma coisa.
— Eu...
— É melhor você ir. – foi o que respondeu.
As mãos dela deslizaram das mãos geladas de Kevin e caíram no seu colo. Gwen ficou olhando para seus joelhos e em segundos abriu a porta do carro, querendo ir para casa o mais rápido possível.
Sua reação foi bater a porta do carro com força e sair andando até sua casa. Quando chegou a frente à entrada de sua casa, ficou parada por um momento e de certa forma esperou que Kevin a tivesse seguido para abraçá-la e pedir desculpas por ter falado tudo aquilo. Seu rosto virou-se apenas para ver que Kevin já havia ido embora. O ponto verde ficava cada vez menor na rua, e desapareceu quando virou a esquina.
Então era isso...
Ela apoiou suas costas na porta de sua casa e tentou descansar de tudo. Tentou descansar do que disse para ele, tentou esquecer o que ele disse para ela e tentou esquecer-se de tudo o que aconteceu. Ela enxugou as lágrimas com as costas de suas mãos. Porque isso estava acontecendo? Porque ele estava agindo de um jeito tão estranho?
Gwen queria muito poder entender o que se passava em sua a cabeça... E principalmente: o que se passou na cabeça dele quando ela disse que o amava. Ela o ama. Mas ele a ama? Isso era o que ela queria tanto saber. Por alguns segundos, ela queria nunca ter falado aquilo... Talvez tenha sido por causa disso que ele agiu de um jeito estranho. Ou talvez não. Gwen sabia que Kevin se preocupava com ela, e sabia que ele gostava dela, já que, como prova, ele havia pedido para ela tomar cuidado e ficar em casa.
A menina ruiva entrou em casa dando “oi” para sua mãe que estava na cozinha lavando os pratos.
O que ela queria fazer agora? Se deitar na cama e ficar chorando o resto do dia até dormir. Foi ai que ela parou. Ela parou um pouco para pensar em sua ação... Era isso mesmo? Ela ia ficar deitada na sua cama sofrendo por causa dele? Da última vez que ele a machucou, foi a mesma coisa. Gwen o ama; isso ela tinha cem por cento de certeza. Mas não ia ficar choramingando por aí. Não era o jeito dela.
Gwen desceu as escadas novamente.
— Mãe! Vou sair de novo!
— Pra onde você vai? – Lily gritou da cozinha.
— Pra casa da Julie – respondeu pegando as chaves e correndo para fora de casa.
“Que Kevin se danasse.”
--
— Kevin. – Argit falou andando para trás com medo de levar o soco que Kevin estava com vontade de dar.
Depois que ele havia ido embora com Ben e Gwen, Argit decidiu ficar parado ali, já que Kevin havia murmurado para ele ficar no mesmo lugar sem se mexer.
O garoto de cabelos negros andou em direção ao menino roedor e o puxou para dentro do carro.
— O que ele quer? – Kevin perguntou depois de entrar no Dodge verde e colocar Argit no banco de passageiro.
— O que você acha? Vingança. Seu pai derrotou o cara milhares de vezes; você sabe disso.
— Droga! – ele socou o banco que estava sentado. – Seu idiota! – as mãos do menino seguraram novamente a gola do casaco de Argit. – Por que contou pra ele sobre mim? Por que não mentiu?
— Ele estava ameaçando me matar! Eu fiquei desesperado. – Kevin soltou a gola de Argit e se recostou no banco, tentando se acalmar. Isso estava ficando cada vez mais fora do controle. Não era bom.
Kevin já tinha lutado com ele... Há muito tempo. Um pouco depois de fugir do Vácuo Nulo ele começou seus “negócios” e geralmente viajava para outros planetas pra fechar acordos e contratos. Em uma dessas vezes conheceu um “homem”. Esse homem vinha do planeta que de certa forma era descendente da linha sanguínea de Kevin. Ele era um Osmosiano também. Um Osmosiano muito perigoso que durante muitos anos brigou com Devin Levin.
— Só que... Não era isso que ele queria saber de mim. – o menino roedor murmurou enquanto suas mãos suavam frias, querendo que aquele momento passasse o mais rápido que pudesse.
— Como assim? – Kevin perguntou com medo do que viria a seguir.
— Bom... Ele já sabia onde você estava... Ele queria saber... Bom.
— QUERIA SABER O QUÊ?! – Kevin aproximou seu rosto e ouviu Argit murmurar a causa de Agregor tê-lo capturado. À medida que o menino-rato falava, mais o rosto de Kevin mostrava pavor.
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Julie abriu a porta de casa e deu um sorriso ao ver que Gwen estava parada em frente a sua porta.
— Gwen! O veio fazer aqui?
— Queria saber se você quer ir fazer algumas compras no shopping comigo. – respondeu tirando um cartão de crédito do bolso – Peguei o cartão emprestado do meu pai.
Julie sumiu dentro de sua casa dizendo que ia perguntar aos pais e ela apareceu fechando a porta de casa alguns segundos depois segurando outro cartão de crédito.
— Cadê o Kevin? – perguntou; quando não achou o Dodge verde. Geralmente, era ele quem dava carona para as duas e Ben, de vez em quando, fazia companhia para elas.
— Ele teve que fazer outras coisas. – Gwen falou rapidamente. – Não tem problema de irmos andando? – o problema era que o shopping ficava um pouco longe, por isso elas sempre pediam carona para Kevin.
- Não muito. Mas que tal irmos de lambreta? – perguntou pegando as chaves do bolso.
— Acho que a sua idéia é melhor. – Gwen riu indo em direção a lambreta de Julie.
Quando chegaram ao shopping, a primeira coisa que as duas fizeram foi entrar nas lojas em que havia maior liquidação. Compraram várias roupas e até sapatos de marcas variadas, o problema seria: como carregar tudo isso para casa de volta? Não pensaram muito sobre isso, pois estavam mais do que ocupadas vendo vestidos.
Julie disse que ia ter um concurso de talentos em sua escola e na de Ben e era geralmente acompanhado de um baile, então estava mais do que animada para procurar um vestido perfeito para a festa. Ela já havia avisado Ben e ele já tinha alugado um terno.
Nos primeiros quatro vestidos, sempre havia algum problema: curto demais, ou decotado demais ou até mesmo decorado demais.
Julie abriu as cortinas do provador e mostrou o vestido que tinha achado depois de ver que os outros não lhe serviam muito bem. Gwen, que estava sentada em frente ao provador ansiosa para conseguir encontrar um bom vestido para ela, se surpreendeu ao ver que talvez Julie encontrasse o vestido certo.
As alças dele eram finas e delicadas. O vestido em si tinha um efeito de dégradé: na parte de cima era branco e à mediada que chegava à bainha ficava de uma cor rosada bem clara. O comprimento dele era perfeito, ele chegava um pouco acima dos joelhos e sua bainha era solta com várias camadas de um tecido fino por baixo.
Para combinar com o vestido, Julie colocou uma sandália branca de salto alto, mas parecia um pouco desconfortável.
— O que você acha? – ela perguntou enquanto ia até o espelho para ver melhor como estava no vestido. Ela girou para os lados fazendo com que as camadas do vestido girassem juntamente com ela deixando-as mais visíveis.
Gwen foi até o lado dela, mostrando que nem usando salto Julie conseguia ficar de seu tamanho.
— Você está linda! – falou dando uma olhada melhor. A cor do vestido combinava de uma forma harmoniosa com sua cor de pele e até cabelo. Ao dar uma olhada melhor nos pés da amiga discordou com algo. – Você devia usar um sapato mais confortável.
— É. Eu sei. Esse é um dos problemas de ser baixa demais.
Gwen olhou para os lados procurando por algo melhor. Ela olhou para um pequeno balcão onde havia pequenas amostras de sapatos. A garota foi até os sapatos e encontrou um par perfeito.
— Que tal usar esses? – perguntou mostrando duas sapatilhas brancas bem simples com um salto nem tão alto, nem tão baixo. O único detalhe que tinham era um pequeno laço na frente.
— Parecem bem melhor. — Julie respondeu aliviada ao ver que encontrara uma opção melhor.
Ao colocar as sapatilhas, soube que não precisava mexer em mais nada.
Gwen ficou feliz ao ver que a missão estava cumprida e voltou a mexer nas araras da loja procurando por alguma camiseta para provar, quando Julie disse para ela:
— Por que não vai pro baile também?
— O quê? – Gwen perguntou assustada, virando-se para Julie. – Não posso. Você sabe que não sou da mesma escola que você e o Ben. – justificou. Depois que Gwen se formou para o Colegial, seus pais decidiram colocá-la em uma escola melhor, deixando-a longe de Ben.
Julie entortou a boca enquanto segurava suas sapatilhas e seu vestido nos braços para pagar.
— E daí? Você e o Kevin já foram ao campeonato de futebol na nossa escola, sem contar o meu campeonato de tênis. É só comprar os convites que vocês podem ir. Se quiser eu compro, como retribuição por me ajudar a encontrar o vestido perfeito. – respondeu apontando para o vestido com os olhos.
— Não sei... – Gwen olhou para o chão enquanto pegava uma camiseta regata branca para experimentar.
— Mas eu sei. Você vai e pronto. – ela pegou Gwen pelo pulso e a puxou para a arara dos vestidos.
Gwen deu um sorriso e procurou por um vestido.
Diferente de Julie, ela não teve a sorte de encontrar o vestido certo. Quando viram que a loja não tinha o vestido que queriam, elas foram para a próxima, depois de Julie pagar pelas suas roupas.
— Esse? – Gwen perguntou ao abrir a porta de madeira do provador. Ela estava usando um vestido preto sem alças que caia até seus pés em uma linha reta.
— Hm. – Julie analisou o vestido por alguns momentos. Ele era certamente bonito, mas não combinava com o tipo de beleza de Gwen. – Não. Eu gostei do vestido. Mas ele não tem nada a ver com você.
— Como assim não tem? – ela perguntou indo até o espelho dando uma volta. – Eu gostei dele.
— Eu também, mas não em você. Eu acho que seria melhor você tentar experimentar um vestido mais curto. Até agora você só pegou vestidos compridos.
— Tudo bem. – falou andando para de volta do provador.
Julie procurou nas araras um vestido melhor. Seus olhos brilharam ao encontrar um que achava ter sido feito para Gwen.
— Olha esse. – a garota japonesa disse passando o vestido por cima da porta do provador.
— Tem certeza? – Gwen perguntou.
— Tenho.
Alguns minutos depois, a porta se abriu e Julie abriu sua boca em um espanto. Era mais do que perfeito.
O vestido que Gwen usava não tinha alças e caia suavemente até os seus joelhos. Diferente do de Julie, não possuía muitas camadas, mas o tecido era leve. Uma fita dava uma volta pelo vestido um pouco abaixo de seus seios. A cor era verde clara e realçava os olhos dela.
— Perfeito. – Julie falou em um suspiro.
Gwen olhou para o espelho e mais do que feliz disse:
— Você estava certa... – Gwen ficou de costas. A parte de trás do vestido tinha um laço feito pela fita que o prendia. Suas costas estavam metade aparecendo, metade coberta pelo tecido.
— Sempre estou. – Julie gabou.
Combinando com o vestido, Gwen colocou uma sandália prateada com salto pequeno.
— Você deve comprar, agora mesmo! – Julie disse.
— É o que vou fazer. – Gwen respondeu indo ao provador para comprar o vestido.
Depois que terminaram de comprar o que queriam Gwen e Julie se sentaram em uma das mesas da praça de alimentação e compraram um refrigerante. Ambas estavam aliviadas por Ben não estar ao lado delas, ou na certa, ele as forçaria a comprar suco.
— Então – Julie começou a falar dando pequenos goles em seu refrigerante – Eu vou comprar os seus convites. Um pra você e outro para o Kevin certo?
— Hm. Certo... Bom. Na verdade eu não sei se ele vai querer ir para o baile.
— Porque não?
— Bom... A última vez que tentamos ir ao baile da minha escola... tudo acabou num desastre. – ela disse, se referindo ao baile de sua escola e a suposta “gravidez” de Cala-Frio.
— E daí? Foi até divertido. E você me disse que no final das contas foi melhor do que você pensava.
Gwen olhou para os cantos, um pouco indecisa. Ela queria ir ao baile, mas depois do que aconteceu com ela e Kevin, não tinha muita certeza se ele iria aceitar ir ao baile com ela.
— Acho que você está escondendo alguma coisa. – Julie disse dando outro gole em seu refrigerante.
— Bom. – ela não sabia como dizer. – Eu e o Kevin brigamos.
Julie parou de beber o refrigerante na mesma hora em que ouviu o verbo “brigar”. Ela se inclinou para Gwen e perguntou:
— O que aconteceu?
Gwen não sabia como começar. Não queria contar tudo a ela, pois nem ela sabia o que estava acontecendo com ele.
— Hoje de manhã. Ele começou a agir de um jeito estranho e quando eu estava sozinha com ele... – seu rosto começou a ficar vermelho – Eu disse pra ele que eu o amava.
— Você disse o quê?
— Foi o que você ouviu.
— E o que ele falou?
— “É melhor você ir.” – Gwen respondeu rolando os olhos depois de copiar Kevin falando do mesmo jeito que ela havia copiado ele quando estava o pressionado para chamá-la para sair.
— Garotos são assim mesmo. – murmurou Julie – Enquanto uma garota já sabe recitar o poema de Shakespeare, eles ainda estão aprendendo a ler livros infantis com três palavras em cada página. – deu de ombros.
— Que comparação mais humilhante – Gwen falou bebendo seu refrigerante.
— Mas é um fato. Garotas amadurecem mais rápido que os garotos. O que significa que elas estão prontas para dizer e fazer coisas mais cedo que os garotos.
— Certo; Senhorita Psicóloga. Eu já entendi o recado.
— Dá um tempo pro Kevin. Uma hora a ficha vai cair pra ele, você vai ver.
Gwen olhou para os cantos e dando mais um gole no refrigerante disse:
— Acho que você está certa.
— Bom. Acho melhor a gente ir agora, ou então nossos pais vão nos matar por chegarmos atrasadas em casa. – Julie se levantou e pegou as sacolas com suas compras, Gwen fez o mesmo e as duas caminharam para o estacionamento.
— Ora, quem eu vejo aqui. – uma voz falou calmamente atrás delas.
Julie e Gwen viraram ao perceberem que a voz estava falando com elas. Gwen já sabia de quem era essa voz, e não estava gostando muito por saber.
Apoiado com as costas na parede de uma das lojas do shopping com os braços cruzados estava um garoto alto, seus olhos eram azuis claros, sua pele tinha um tom bronzeado e seus cabelos eram loiros claros puxados para trás de uma forma elegante. Ele estava usando uma camiseta preta de gola alta com um blazer marrom e um cachecol laranja por cima. Suas calças sociais eram de cor bege seguradas por um cinto preto. Os sapatos eram sociais de cor marrom escuro.
Julie não tinha muita certeza se conhecia de onde ele vinha, mas alguma coisa nele era extremamente familiar. Talvez fosse a voz.
Gwen quem arregalou seus olhos. E andando até ele com as sacolas de compras ainda em mão o empurrou pelo peito, murmurando:
— Mas o que você está fazendo aqui?
Michael sorriu maliciosamente e respondeu com sua voz suave:
— Vim dar uma passeada pelo shopping e de repente me encontrei com minha amiga... Ou por que não dizer ex-namorada?
Ela grunhiu ao ouvir a palavra “namorada”.
— Hm. Você o conhece? – Julie perguntou, ainda sem entender muito bem quem ele era.
— Ah! – Gwen virou-se para Julie.
— Prazer. – Michael sorriu para Julie, interrompendo Gwen. Ele já havia visto Julie e sabia quem era. Mas talvez Julie quem não se lembrasse dele, já que a aparência dele estava muito mais diferente. – Meu nome é Michael Morningstar. – ele esticou a mão para cumprimentá-la. – Mas pode me chamar de Mike.
— Prazer. – ela disse esticando a mão para ele, também. – Julie Yamamoto. De onde vocês se conhecem? – ela perguntou com um sorriso.
— Eu sou um ex-namo- Uf! – Gwen bateu sua mão no peito de Michael para fazê-lo parar de falar.
— É um antigo amigo meu! – ela disse; uma gota de suor escorrendo em seu rosto. – Éramos amigos desde que éramos pequenos e...
— Uh... – Michael tentou ajudar na desculpa. – E eu mudei de casa, então perdemos contato.
— Certo... – Julie desconfiou da desculpa dos dois, mas ignorou.
— Bom... Vamos embora? – Gwen perguntou.
— Hm. Achei que vocês não se viam há muito tempo. – ela comentou, ao ver que Gwen não parecia querer conversar com alguém que, pelo que ela mesma disse, não se viam há muito tempo.
— É. Hm. – dessa vez Gwen não tinha uma boa desculpa para inventar.
— Por isso... – Mike surpreendentemente pegou uma caneta e papel de seu bolso e escreveu um número de telefone — Eu estou dando o meu telefone para você, Gwendolyn. – sorriu, enfiando o papelzinho com seu telefone em um dos bolsos de sua saia.
Por uns instantes, Gwen se perguntou se Mike tinha levado um papel e uma caneta por coincidência ou de propósito.
— Bom. Muito obrigada, e eu te ligo assim que chegar em casa. – mentiu, grunhindo para ele. – Vamos, Julie. – ela falou empurrando Julie para o estacionamento.
Depois que passaram pela porta de vidro, Gwen olhou para trás e viu Michael fazendo um pequeno sinal de “Me liga!”. Ela virou o rosto que agora estava vermelho rubro.
As duas amigas ficaram em silêncio por alguns minutos e Julie então falou:
— Eu não sei você. Mas ele é muito bonito.
Em um movimento inesperado, Gwen soltou as compras no chão e pegou a mão que Julie havia usado para cumprimentar Michael.
— Hm. Gwen, o que você está fazendo?
Nenhuma marca; nenhum sinal de que Michael tenha usado seu “poder atrativo”.
— Nada, nada. – ela respondeu, enquanto se sentava na lambreta e segurava as compras. — E sim. Ele é bonito mesmo.
Ao chegar a casa e tomar banho, Gwen deitou em sua cama cansada demais para arrumar as roupas em seu armário. Ela repetiu para si mesma, várias vezes, que iria fazer isso amanhã depois da escola.
Seus olhos se abriram ao ouvir seu celular tocar. Sua boca abriu-se em sinal de surpresa ao ver quem estava ligando para ela e o pior era que havia três chamadas perdidas do mesmo número. Kevin. Ela cancelou a ligação. Não queria saber o que ele tinha pra falar e nem queria falar com ele.
Na hora ela se lembrou de outro número que estava em seu bolso. Ela mexeu no bolso da saia e encontrou o número de Mike escrito à mão. Será que ela podia ligar pra ele?
Não! No que ela estava pensando? Foi ele quem causou tantos problemas pra ela e foi ele quem capturou seus tios. Nessa hora, se lembrou do que tinha acontecido na semana passada.
Ela estava suando. Já não via ele há muito tempo, mas não mudara nada. A mesma roupa, o mesmo capacete e os mesmos calafrios que indicavam quando ele estava presente.
Mike se aproximou dela enquanto ela andava para trás, ainda em posição de luta.
— O que você quer? – ela disse; agora nervosa lembrando-se de tudo o que ele fizera Kevin passar na última vez que se encontraram.
— Bom... – Michael colocou o dedo sobre a parte da máscara de ferro que cobria o queixo; mostrando que se divertia com o que estava fazendo – Estou aqui, no seu quarto. Esperando-a aparecer... Acho que o que eu quero é falar com você, Gwendolyn.
Gwen estava próxima da porta, e pretendia sair correndo para fora da casa para não machucar seus pais. A sombra de Michael foi rápida demais, parecendo um grande vulto se movendo. Ele foi até a porta e a fechou antes que Gwen pudesse sair correndo.
— Não precisa sair correndo. – disse olhando para ela através de sua máscara. – Como eu disse, só quero conversar.
— Por que eu não acredito nisso? – ela respondeu sarcástica, olhando para cima para encontrar seus olhos azuis. A única coisa que não mudara nele foi a cor de seus olhos. Mesmo assim eles agora tinham um sentimento sombrio escondido.
— Não posso culpá-la se não acredita em mim. – parecia estar sorrindo – Mas estou falando a verdade. E além do mais, você não tem mesmo escolha, já que seus pais estão em outro cômodo e acho que você não vai querer que nada de ruim aconteça com eles, vai?
Na mesma hora, ela abaixou seus braços e seus olhos e mãos se apagaram.
— Bom – Mike continuou – Agora posso lhe dizer por que estou aqui.
— Você tem cinco minutos.
— Certo; senhorita exigente. Mas antes, sente-se. – ele apontou para a cama dela. Gwen foi até ela e sentou-se enquanto Mike ficou em sua frente de pé, com os braços para trás.
— Como sabe... Há certo tempo vocês perderam alguns parentes muito queridos. – ela arregalou os olhos.
— Não! – Gwen se levantou nervosa – Você não...? – ela entendeu agora o porquê de tê-los perdido.
— Acho que você não está em uma boa condição para argumentar. – respondeu Mike sem se mexer do lugar onde estava. Gwen se sentou na cama novamente, mas agora estava ansiosa demais. – Como eu ia dizendo. Vocês perderam parentes muito queridos em um acidente de carro. E gostaria muito de lhe avisar, minha adorável Gwendolyn, que eles estão bem.
— Defina bem. – ela disse entre dentes. Seus punhos semicerrados.
— Bem da minha maneira.
— Foi você que causou o acidente!
— Bravo. E gostaria de saber por que eu estou com eles, também? – tudo isso sova em um tom sarcástico e aproveitador. Como se ele soubesse tudo o que ela ia dizer e tudo o que ia fazer. – Eu quero você.
— Não me parece uma surpresa – cruzou os braços. Mesmo assim, ela estava muito preocupada com o que ele poderia ter feito com seus tios e primas.
— E não é. Bom, estou aqui para oferecer uma proposta muito tentadora que se você aceitar, o que eu tenho certeza de que vai, proporcionará aos seus tios e primas um melhor estado.
— Você está me chantageando. – ela traduziu o que ele disse.
— Essa é uma forma mais grossa de se falar, mas sim, estou te chantageando. Quero dizer com tudo isso que... Gostaria muito de voltar à minha forma original – Gwen se lembrou de como ele era antes: cabelos loiros, um belo rosto, pele bronzeada e rosada. – E sabe muito bem que preciso muito mais do que uma simples energia humana para voltar ao normal.
— Precisa da minha.
— Exatamente. Se você aceitar a minha “chantagem”, seus parentes vão ficar sãos e salvos, e eu prometo a você que quando eu estiver de volta ao normal, os soltarei o mais rápido possível – ele a encarou e acrescentou – em bom estado.
— O que acontece se eu recusar?
— Então terei que me contentar apenas com a energia deles. E sei muito bem que nem mesmo juntando tudo o que os quatro têm, vou conseguir voltar ao normal.
Gwen emudeceu.
— Acha que vai escapar dessa? – indagou.
— E o que vai fazer? Chamar seu querido namorado? – ele pareceu incomodado com a última frase – Ou chamar os Encanadores? Esqueceu-se que se eu raptei quatro familiares seus sem fazer muito esforço, posso raptar mais deles quando menos espera? Você não tem nada a perder se concordar comigo.
— A não ser perder meus poderes e se eu não estiver enganada, parte de mim mesma.
— É por isso que eu tenho isto – ele mostrou o rubi que segurava até agora.
— O que isso tem a ver com a história toda?
— Você é muito curiosa. Pois bem, isso tem tudo a ver com a história. Como já deve ter descoberto, isso é uma fonte de energia, e poderosa. É como se ela sugasse certa quantidade de energia, e quando alguém fosse pegar essa energia de volta, receberia ela triplicada. Aposto que está se perguntando como sei tudo isso?
“Sei muito sobre artefatos alienígenas, e como sabe, meu pai foi um Encanador muito conhecido e inteligente. Ele sempre me falava muito sobre esse rubi antes de falecer e o quanto ele era raro. Há um tempo descobri que havia um aqui na Terra e que estava nas mãos dos Cavaleiros Eternos. Então bolei um plano. Raptei seus parentes e espalhei pistas tão óbvias sobre as plantas e senhas do lugar onde o rubi estava guardado que até um retardado como Kevin Levin poderia descobrir.
“ Apenas para não levantar nenhuma suspeita, fiz com que você e seu time fossem atrás do rubi. Sabia que seria você quem ficaria com o rubi. Já que os outros dois não se importam em descobrir e muito menos bolar um plano, sozinhos.”
— Por que está me contando tudo isso? – perguntou.
— Porque uma hora ou outra você descobriria. Então estou te ajudando a juntar as pistas.
— Você quer que eu jogue minha energia nisso? – ela apontou para o rubi.
— Sim.
— Antes... Quero que me mostre onde eles estão.
— Sinto muito, mas isso não é possível. Só vou “devolvê-los” quando eu voltar ao normal.
— Mas eu quero vê-los.
— Pois bem. – ele pegou um aparelho no bolso. Era um disco de hologramas, muito parecido com aquele que ela dera para Kevin de aniversário. Mike entregou o aparelho para ela e disse enquanto Gwen olhava para o disco – Aperte o botão vermelho no canto do aparelho.
Gwen suspeitou, mas apertou. Uma imagem apareceu. Quatro pessoas sentadas e amarradas no chão apareceram. Todos estavam com os olhos vendados e bocas cobertas.
— Não – ela murmurou quando viu que os quatro eram seu tio, Tanya, Madalane e Rachel. – Rachel? Madalane? – tentou chamá-los, mas não respondiam, mesmo ela vendo que ambos se mexiam. – Porque não respondem? – desesperou-se olhando para Mike.
— Porque não podem te ouvir. Agora, — continuou pegando o disco da mão de Gwen e guardando-o de volta no bolso. – aceita minha proposta?
Gwen demorou a dizer, pois ainda estava pensando neles. Mas com um tom baixo respondeu:
— Sim.
— Ótimo. Agora o que você precisa fazer – Michael se aproximou dela, pegando sua mão sobre a dele e colocando o rubi em cima. – É concentrar sua energia para isso.
Gwen olhou para o rubi, com medo de algo ruim acontecer. E se ela perdesse seus poderes? E se ela ficasse do mesmo jeito que Mike?
— Não vai machucar. – afirmou.
Gwen suspirou... “Por eles” pensou.
Suas mãos ficaram rosadas e o rubi brilhou junto com ela. Gwen sentiu um pequeno formigamento passando pelo seu corpo, como se fosse isso que a deixasse fraca; parecendo que ela havia perdido uma pequena quantidade de sua energia.
Alguns minutos depois, o quarto estava todo iluminado pela luz que Gwen e a pedra emitiam. Gwen sentiu suas pernas ficarem bambas sem conseguir se agüentar mais em pé, então Mike tirou a pedra de sua mão o mais rápido que pôde. O quarto voltou a ficar escuro. Quando ela estava prestes a cair para trás, Michael colocou uma de suas mãos geladas nas costas da garota para não deixá-la cair. Ele viu que ela ainda estava acordada então a colocou em sua cama.
Depois foi para o centro do quarto olhando intrigado para o rubi. Ele agora estava brilhando e parecia que estava cheio de um líquido rosado por dentro.
— Entendo – murmurou para si. Gwen moveu seu rosto com um pouco de esforço para observar Michael. Seu corpo todo formigava e estava fraca. Mas por que Mike tinha tirado a pedra de sua mão? Ela achou que ele ia forçá-la a colocar tudo dentro daquele rubi. – A pedra toma a forma do tipo de energia que tem dentro.
Ele envolveu o rubi com suas mãos fechando os olhos, toda a energia que estava dentro da pedra, emanou do rubi para ele. E aos poucos o mana que antes era rosa começou ficar amarelado. Fumaça saiu das mãos dele, e na mesma hora ele soltou o rubi que agora parecia como carvão no chão.
— Pena que o rubi só tenha efeito apenas uma vez. – ele se virou para Gwen. Ela olhou para as mãos dele pelo canto do olho. As luvas estavam rasgadas nas palmas da mão, mas por baixo ela podia ver uma pele, que agora estava sangrando como se estivesse queimada. Ele não se importou e tirou o capacete, jogando-o para o canto do quarto.
Mike foi até o espelho do quarto de Gwen e sorriu. Estava curado. Seus olhos não tinham mais aquele ar sombrio de antes; a pele estava bronzeada, com tons rosados novamente; o cabelo dele tinha voltado a ter aquela cor amarela viva com brilho; seu rosto agora não parecia mais o de um zumbi sem vida com olheiras e magro chegando a ser até esquelético, estava completamente o oposto.
— Finalmente – ele tocou em seu rosto com a parte da mão que não sangrava. Depois olhou para as próprias mãos. – Um efeito colateral – riu.
Virou-se para Gwen que agora o encarava. Aos poucos sua força voltava e ela já conseguia se sentar na cama.
— Muito obrigado – ele falou com um sorriso. Pegou sua máscara e foi até ela. Agachou-se em frente a ela e colocou o capacete em seu colo. – Espero que fique com isto.
— Pra quê?
— Como agradecimento.
— Uma forma de me agradecer é libertando minha família.
Ele deu outro sorriso.
— Vou soltá-los e trazê-los sãos e salvos para sua casa.
— É o que espero – cruzou os braços. Depois olhou para as mãos dele e levantou-se indo para o armário. Sentiu que suas pernas ainda estavam bambas, mas foi-se apoiando no que encontrava pelo caminho. Puxou uma das gavetas que tinha no armário e tirou um pequeno kit de primeiros-socorros. Depois voltou a ele que duvidava do que ela estava fazendo. Ela se sentou na cama novamente e disse – Dê-me suas mãos.
Ele esticou-as. Gwen tirou as duas luvas que agora estavam rasgadas e colocou-as sobre o criado-mudo ao lado da cama. Ela passou um pouco de algodão para tirar o que havia de sangue, mostrando queimaduras que ocupavam quase todas as palmas de suas mãos. Depois começou a engessá-las. Mike olhava para ela. Gwen estava ajudando ele? Por quê?
— Gostaria muito de lhe perguntar por que você está fazendo isso.
— Acho que você nem deveria perguntar, já que estou fazendo um favor, ou melhor, outro favor. – ela olhava apenas para as mãos dele. Mike observava seus olhos verdes e viu a preocupação que ela estava sentindo por causa de sua família.
— Parece que você gosta mesmo deles.
— Não tinha que gostar para o seu plano dar certo? – respondeu friamente.
Ele olhou para o canto. No resto do tempo, ficaram em silêncio.
— Pronto – ela disse quando terminou de engessá-lo. Pegou os algodões e os gessos que tinham ficado cheios de sangue, embrulhou-os e jogou no lixo perto da cama.
— Obrigado, novamente. – Mike disse, levantando-se. Gwen também tentou se levantar, suas pernas ainda estavam bambas, então Mike a ajudou.
— De nada — ela respondeu.
Mike seguiu em direção à janela e se foi.
Gwen olhou pela janela, esperando que Michael mantivesse mesmo a palavra.
Ela deitou na cama depois de colocar o capacete de ferro no canto do armário e dormiu.
A vontade que ela tinha era de pegar o papelzinho com o telefone de Michael e rasgá-lo em mil pedacinhos, depois jogar janela a fora, junto com seu capacete. Mas por que ela não fazia isso? Essa pergunta emanou em sua cabeça até ela dormir.
--
— Cooper? – seus dedos bateram contra a porta do porão da casa.
— Só um minuto! – uma voz saiu através da porta de madeira.
O corpo do garoto de olhos castanhos se moveu um pouco para longe da porta e esperou para o filho de Encanador abri-la.
Ele ouviu um barulho de várias trancas sendo abertas e então os olhos azuis de Cooper puderam ser vistos pela fresta estreita da porta.
— Ah! – ele abriu a porta por inteiro com uma expressão de decepcionado. – É você. – Isso podia ser traduzido a algo semelhante à: “O que você está fazendo aqui?”.
— É bom vê-lo também. – o que significa “Estou tão infeliz por estar aqui quanto você por me ver, acredite.”
— Como entrou em casa? Meus pais saíram e deixaram tudo trancado. – perguntou.
— Do meu jeito. – ele mostrou a mão que havia absorvido o metal da maçaneta da casa.
— Você arrombou a minha porta?! – ele olhou para Kevin com uma expressão de indignado – Isso é um absurdo! Você não pode chegar arrombando a casa de qualquer um desse jeito.
— Acontece que eu posso sim. – falou colocando as mãos no bolso enquanto descia as escadas do porão.
— A Gwen não veio com você? – ele perguntou irritado enquanto fechava a porta e também descia.
Kevin avistou uma caixa de pizza e, ao ver que ela havia acabado de ser encomendada, pegou uma fatia. Depois que terminou de engolir o pedaço que mordera da pizza de peperoni, finalmente respondeu:
— Não.
Cooper se sentiu triste e ao mesmo tempo aliviado. Triste porque não iria ver Gwen, aliviado porque sabia que ela não estava perdendo seu tempo andando com Kevin.
— O que você quer? – indagou tirando a caixa de pizza da mão de Kevin.
— Quero que você me faça um favor. – falou terminando de comer a fatia de pizza.
— Bom... Considerando que você sempre me pede favores, e, nem ao menos, me diz “obrigado”. Por que eu deveria te ajudar? – colocou a caixa de pizza sobre a mesa ao lado de seu computador e começou a digitar no teclado.
Ele murmurou seriamente no ouvido do garoto loiro.
Os dedos de Cooper se paralisaram ao ouvir o que ele tinha para dizer.
— Pode falar. – respondeu virando-se para Kevin pronto para ouvir o que ele tinha a dizer com a maior atenção que podia dar.
Kevin puxou uma cadeira e sentou-se nela pronto para contar tudo o que estava acontecendo.
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