Recomeço

8 Capítulo VIII - Mais problemas... Isso é o pior.


(PDV da Gwen)

No outro dia, acordei com o barulho do meu despertador me sentindo um pouco esquisita. Tudo o que tinha acontecido comigo ontem parecia só um sonho no qual, de certa forma, estava sendo mais do que ridículo e sem graça, pelo menos boa parte dele, mas quando coloquei meus pés no chão, vi que não era um sonho.

Várias sacolas de lojas de roupa estavam espalhadas pelo chão, cada uma com mais roupa dentro que a outra. Essa parte do sonho foi boa. Muito boa. Claro que eu não esperava ver Michael no shopping, isso foi outra parte ruim... ou talvez não.

Olhei para o meu criado mudo e vi o pequeno papel com seu telefone, agora todo amassado por eu ficar mexendo tanto. “Ligar pra ele seria uma boa idéia?” perguntei para mim mesma, porém essa frase soou mais como uma afirmação do que como uma pergunta.

Talvez mais tarde.

Olhei para o relógio e tratei de me apressar para ir para a escola. Hoje o professo ia dar os resultados da prova de quinta-feira e eu tinha que ter certeza que não estudei pra nada. Corri para tomar um banho rápido e me vesti. Depois desci as escadas com bolsa e cadernos em mão. Tomei meu café o mais rápido possível e saí correndo de casa.

Enquanto andava até a escola, fiquei pensando se deveria telefonar para Michael, mas do jeito que tudo estava indo, seria mais possível ele aparecer do nada e conversar comigo.

E o pior era que eu ainda estava tentando pensar em como perguntar para Kevin ir ao baile de talentos da escola de Julie. Eu estava com vontade de ir... Não gastei horas andando em várias lojas procurando pelo vestido perfeito para nada. O problema mesmo era como perguntar, e se ele ia aceitar. Eu me lembro bem que da última vez que “quase” fomos ao baile, foi eu quem o forçou a ir, foi eu quem falou pra ele sobre o baile, foi eu quem deu indiretamente a idéia de ele me levar, e foi eu quem falou para ele vir me buscar. Droga. Eu sei que no final das contas o baile tinha sido melhor do que eu esperei, e deu pra ver que Kevin também gostara, pois ele estava empenhado demais em saber se ele comia usando os talheres de fora para dentro ou se era de dentro pra fora. Não sei de onde ele tirou a idéia da existência um “garfo de sopa”, mas acho que o que valia era intenção, certo?

O problema era que Kevin estava agindo de um jeito tão estranho... Foi ai que me lembrei do que eu tinha dito pra ele e do que a Julie tinha me falado.

Garotos são assim mesmo. Enquanto uma garota já sabe recitar o poema de Shakespeare, eles ainda estão aprendendo a ler livros infantis com três palavras em cada página. Mas é um fato. Garotas amadurecem mais rápido que os garotos. O que significa que elas estão prontas para dizer e fazer coisas mais cedo que os garotos. Dá um tempo pro Kevin. Uma hora a ficha vai cair pra ele, você vai ver.

Decidi esperar para ver como ele ia agir na próxima vez que nos encontrássemos. Talvez até lá ele já tenha esfriado a cabeça.

Passei pela entrada da escola e ia seguir diretamente para a sala de Química, meu sofrimento pessoal. Isso era incrivelmente difícil de entender: átomos, moléculas, substâncias puras e compostas. Se misturar com física, uma matéria que eu também tenho dificuldade pra entender, consideraria a mim mesma uma repetente.

No corredor encontrei Peter mexendo em seu armário.

— Oi, Peter! Quer ajuda?

— Não obrigado. – respondeu colocando o livro embaixo do braço. – E aí? Acha que foi bem na prova?

Abri minha boca para falar, mas fui interrompida por um grito frenético de animação misturado com surpresa.

— Não creio! – alguém falou alguns metros à minha frente.

Essa voz. Não pode ser.

Levantei meu rosto.

— Emie? – disse feliz por ouvir a voz dela.

E realmente a alguns metros de distância estava ela, uma menina alguns centímetros mais baixa do que eu, seus olhos eram castanhos claros e suas bochechas eram cercadas por sardas claras. O cabelo dela era loiro e suavemente ondulado nas pontas. Emily. Minha amiga até o final da sétima série. Ela tinha se mudado para outro Estado. Os pais dela trabalhavam em uma empresa que ganhava bastante, e tiveram que se mudar por conta do serviço.

— Gwen! – ela saiu correndo até mim e me abraçou. Retribuí o abraço ainda não acreditando que eu estava vendo ela por aqui. – Ai Meu Deus! Olha pra você! Não acredito que deixou o cabelo crescer, ta enorme! – falou pegando uma das mechas do meu cabelo com os dedos.

— E você cortou o seu? – falei enquanto brincava com o cabelo dela. Desde que éramos pequenas, Emie amava seu cabelo o mais comprido possível. A última vez que a vi, tinha o deixado crescer até a cintura. Agora, não passava da altura dos ombros. O estranho mesmo era que quando éramos pequenas, tínhamos um contraste bem grande por causa dos cabelos. Eu sempre deixava o meu o mais curto possível e sempre prendia uma mecha com uma presilha, Emie ao contrário, deixava seus cabelos sempre soltos e raramente colocava alguma coisa para prendê-los. Ela só prendia quando fazia Educação Física e quando fez um papel de teatro. Seria clichê demais falar que a história era Rapunzel e que ela era a Rapunzel?

Nós nos abraçamos novamente.

— Mas eu pensei que você estava em outro Estado – falei, querendo saber o que tinha acontecido.

— Bom. Duas palavras: Pais e trabalho. – explicou levantando dois dedos.

Isso significava que os pais dela mudaram para cá por causa do trabalho... de novo.

— Quando voltamos para cá eles já trataram de me colocar em uma escola. – ela continuou a explicar rolando os olhos – Não ligaram se eu estava no meio do ano ou não. Eles não queriam que eu perdesse matéria entende? Mas no final foi bom eles me colocarem aqui, já que eu encontrei você!

Consenti com a cabeça.

Ela olhou para os lados e percebeu que Peter estava parado um pouco atrás de mim.

— Peter? – ela perguntou surpresa. Peter também era da nossa antiga escola, só que nós é quem não nos falávamos muito. E por alguma razão ele também mudara para mesma escola que a minha. Quer mais coincidência? Então aqui lá vai uma: os pais de Mary tiveram a mesma infeliz idéia de colocar ela aqui.

A causa? Minha mãe e a dela eram um pouco... amigas. Eca. E quando eu estava prestes a mudar de escola, o que era um alivio para mim já que eu ia me livrar dela, minha mãe teve a ótima idéia de recomendar essa escola para a mãe dela. É. Foi um ótimo conselho. Mandar a menina que me infernizava desde que eu tinha dez anos para outra escola junto comigo é uma ótima idéia, de fato!

— Oi, Emily. – ele falou levantando uma sobrancelha.

O mais esquisito nisso tudo, era que Peter e Emie também não se davam muito bem.

Quando Emie foi fazer Rapunzel, a nossa ex-professora de teatro teve a idéia de chamar Peter para ser o príncipe. Por que, segundo ela, Peter tinha uma vocação para ser ator. Com seu ego cheio e alimentado, Peter decidiu fazer a peça. Tudo ia muito bem, quando, na hora de fazer a parte do ensaio onde o príncipe subia nas lindas tranças de Rapunzel, Peter sem querer agarrou os cabelos dela com muita força, isso fez com que Emily caísse do castelo de papelão e parasse bem em cima dele. Ninguém teve duvida ao rir.

— Engordou – ela disse sarcástica, cruzando os braços.

Peter não era o que se podia dizer o garoto mais robusto do mundo. Ao contrário, ele era muito magro desde que eu o vi pela primeira vez. E ele não gostava quando zoavam dele por causa disso. Em meu entendimento, essa era uma das primeiras causas de ele ser considerado esquisito. Seu jeito atrapalhado, meio convencido e tímido seria a segunda causa.

Mas quando ele fazia amizade com você... Essa timidez sumia.

— Hm. – eu tentei expulsar a nuvem negra que pairava no ar. – Vamos pra aula?

— Wow! – Emie me interrompeu. – Não me vai dizer que anda com ele!

Depois do incidente da Rapunzel, Emily colocou Peter em sua lista negra e ele só não perdia para Mary que estava em primeiro plano.

Estou ferrada.

— Qual é o problema nisso? – Peter perguntou indignado.

— Nada. Só acho que a Gwen deveria tomar um pouco mais de cuidado ao andar com você. Vai que decide puxar o cabelo dela fora como quase fez com o meu.

— Eu já pedi desculpas por aquilo! Foi um acidente – ele levantou os braços.

— Diz isso pro meu cabelo. Fiquei com dor de cabeça por uma semana por causa desse “acidente”. – ela fez sinal de aspas com as mãos ao falar a palavra “acidente”.

— Ta bem, já chega! – falei. – Vamos pra aula?

Isso não ia acabar bem.

— E ai? – Emily disse colocando sua bandeja do almoço ao lado da minha. No final das contas não tivemos nenhuma aula juntas, pelo menos até agora. – Posso te perguntar uma coisa?

— Claro. – falei enquanto mordia minha maçã.

— O que a trouxa da Mary Montgomery está fazendo aqui? – perguntou dando um gole em seu suco.

— Minha mãe teve a infelicidade de recomendar essa escola para a mãe dela. – respondi rolando os olhos. – É. Eu sei... – falei quando olhei para sua expressão de espanto – Eu também não gostei muito.

— Quer dizer que ela está aqui te atazanando desde o primeiro ano? – ela perguntou. Concordei. – Sozinha? – concordei novamente.

Como a escola que eu estudo é particular, eu posso dizer que a maioria do pessoal daqui era meio... antipático e convencido. E fica meio difícil de fazer amizade com gente assim. Mary ao contrário se familiarizou com o pessoal muito fácil. Porque será?

— Amiga. Graças a Deus eu estou aqui pra te socorrer. – ela colocou a mão sobre meu ombro.

Dei um sorriso.

— Oi. – Peter colocou a bandeja sobre a mesa do meu outro lado. Ele soltou a alça da mochila de seu ombro fazendo com que sua mochila caísse sobre o banco.

— Com licença – Emie disse levantando uma sobrancelha. – Papo de menina.

— Não vou incomodar. – disse dando uma garfada em sua comida e colocando-a na boca.

Emily rolou os olhos e voltou a falar comigo.

— E então... Alguma novidade? Você deve ter já que ficamos quase dois anos sem nos falar.

Se “novidades” significasse: salvar o mundo diversas vezes de alienígenas que querem destruir o universo, promover tratados de paz entre um planeta e o outro, descobrir que você é descendente de uma linhagem de alienígenas feitos de energia pura, namorar um cara que é descendente de Osmosiano, ser prima de um dos super-heróis mais conhecidos da galáxia e se tornar uma Encanadora – no sentido de ser policial intergaláctica e não aquela pessoa que concerta canos da cozinha – por tempo quase integral. Então sim, eu tinha várias novidades para contar pra ela.

Eu não tinha falado para ela sobre tudo o que estava acontecendo, muito menos sobre o Ben e o Omnitrix... ainda. Eu já considerei contar para ela, só não sabia como.

— Não muitas – murmurei.

— Não muitas?! Como assim “não muitas”?! – perguntou indignada. – Nenhum namorado?

Engasguei. “Nenhum namorado”... eu devia saber que ela queria saber esse tipo de assunto. Bom... namorado eu tenho. Mas um namorado, como eu disse antes, um pouco diferente dos outros, não só no requisito de aparência, mas também no requisito de descendência.

— Eu deveria ter suspeitado que você quisesse saber isso. – entortei a boca depois de me recompor do engasgo.

— Sou eu, não sou? – indagou. – E ai?

— Bom... – olhei para os cantos sem graça. – Sim.

— Jura? Como ele é? O que faz? Onde estuda?

Quando você está com alguém como a Emily... nenhum detalhe se passa despercebido.

— Bom... Ele é alto, cabelos pretos, olhos castanhos.

— Aham. – o tipo de preferência dela era loiro dos olhos azuis. Eu também tinha uma preferência parecida. Mas acho que minha opinião mudou completamente depois de eu conhecer Kevin.

— Quantos anos ele tem?

— Dezessete.

— Onde ele estuda?

Boa pergunta.

Abri a boca para falar onde, mas foi ai que percebi... eu não sabia onde ele estudava. Na verdade, eu nem sabia se ele estudava em algum lugar.

— Opa! Peraí! – ela percebeu o que estava se passando em minha mente. – Você está querendo me dizer que não sabe onde ele estuda?

— Pra falar a verdade – comentei – eu nem sei se ele estuda em algum lugar – murmurei. Isso foi um tipo de detalhe que nunca perguntei ao Kevin. Agora que eu pensei, ele fazia completamente o tipo de cara que cabula aula. Mas aí a fixa caiu... Se Kevin cabula aulas, como é que ele pode ser uma das pessoas mais inteligentes quando o assunto é Física Avançada, Química, e Robótica? Fiz um lembrete mental para mim mesma pedir aulas de Química para ele.

— Espera! Ele é aquele tipo de cara que cabula aula?! É isso que você está me dizendo? – o que ela quis dizer com isso era: “Você está namorando um arruaceiro?” – Wow. – suspirou. – Nunca pensei que você seria o tipo de garota que namoraria um bad-boy que cabula aula.

Olhando para minhas preferências, era isso ou um lindo garoto educado e rico que queria sugar todo o meu ser até eu me transformar em um zumbi que obedecia aos seus comandos. Decidi ficar com o bad-boy que cabula aula.

— Qual o nome dele? – ela perguntou.

— Kevin Ethan Levin – me arrependi de falar o nome inteiro dele.

Não só Emie riu como Peter, que até agora estava quieto em seu canto comendo seu almoço, deu a gargalhada mais chamativa que eu já ouvi na minha vida. Ela só perdia para os gritos que Ben e Kevin davam quando o time deles fazia um touchdown.

— O nome dele é Kevin Levin? – ele perguntou. – O que os pais dele estavam pensando quando deram esse nome pra ele? Um nome que rima com o sobrenome? Piada.

— Kevin E. Levin! – Emie riu junto com Peter e inesperadamente colocou sua mão sobre o ombro dele. – Eu me pergunto o que você estava pensando quando decidiu namorar ele. – ela só dizia isso porque não tinha visto ele.

Droga.

Eu era a única que não estava rindo. Pelo menos não agora. Quando eu descobri que o nome dele era Kevin Ethan Levin, não tive dúvida em rir também. Mas agora parecia tudo meio esquisito. Rir do nome do próprio namorado, eu digo. E o pior era que eu entendia Kevin. Já que o nome de Ben, do meu irmão juntamente com o meu rimavam.

Ben, Gwen e Ken.

Eu me pergunto o que os nossos pais estavam pensando ao dar esses nomes para nós. Isso é meio constrangedor. Tinha que admitir.

Quando Peter viu que Emily tinha colocado sua mão sobre o ombro dele, os dois pararam de rir na mesma hora e Emily tirou sua mão do ombro dele.

Os dois pigarrearam.

Peter voltou a olhar para seu prato e Emily continuou a conversar comigo:

— Bom. Mas se você gosta de namorar um tipo de cara é um bad-boy arruaceiro que cabula aula, que não vai para escola e que tem o nome que rima... eu totalmente apoio você.

— Er... Obrigada. – olhei para ela desconfiada.

O sinal tocou.

Felizmente eu e Emie tínhamos as duas últimas aulas juntas. Educação Física era uma delas e a parte triste era que Mary tinha essa aula conosco.

De certa forma, eu era boa em Educação Física. Pelo menos o bastante para não levar bolada na cara. Agradeço muito às minhas aulas de Karatê por isso. Aprendi a ter reflexos mais rápidos e isso ajudava bastante. Não só nas aulas de Educação Física como também na hora de lutar contra alienígenas.

Emily não era nem um pouco boa. Seus reflexos não eram apurados e ela fazia o máximo para ficar longe de atividades físicas.

Por sorte caímos no mesmo time na hora de jogar queimada, uma das piores aulas para ela. Fui até ela bem no canto da quadra; ela estava pronta para sair correndo na hora que o professor apitasse.

— Não fica nervosa. – eu disse.

— Nervosa? Como não ficar nervosa? Eu odeio EF! – respondeu desesperada enquanto girava o rosto para os lados. Seus cabelos curtos que, agora estavam presos em um rabo-de-cavalo, batiam nas bochechas.

— Tudo bem, mas pra você não levar bolada na cara, tenta segurar a bola. Entendeu? Só isso. – saí correndo fazendo barulho com os tênis pelo piso de madeira da quadra.

— Falar é fácil! – ela respondeu gritando para mim.

Mostrei a língua para ela de brincadeira e nessa hora o professor apitou para o jogo começar. Assustada, Emily saiu andando pelos cantos com medo de levar boladas.

Olhei para o outro lado da quadra e encontrei Mary que estava amedrontada atrás de um dos meninos da escola. Alguém tentou jogar a bola em mim, mas na hora eu a peguei com as duas mãos. A pessoa que jogara a bola foi até o banco sentar-se. Ao ver que Mary estava distraída demais tentando fugir das boladas do pessoal do meu time, eu tive a excelente chance de mirar e jogar a bola em seu belo cabelo loiro.

Depois que ela soltou um grito desesperado e se virou para ver quem a acertara, eu saí correndo para o outro lado da quadra e me escondi entre o pessoal do meu time.

Meu olhar se encontrou com o de Emie e ela riu da arquibancada me dando um sinal de “jóia”. Eu ri e voltei a jogar.

Quando as aulas acabaram, eu e Emily fomos para fora da escola e um pouco antes de sairmos, encontrei com Mary.

— Eu vi o que você fez. – ela disse se direcionando para mim. – Acertou a bola na minha cabeça!

Quem respondeu foi a Emily:

— É por isso que o jogo se chama “Queimada”. – ela levantou o dedo como se estivesse explicando para uma criança de três anos.

Mary olhou para ela com seus olhos azuis e entortando a boca respondeu:

— Olha quem temos aqui. Emily Gray. – ela colocou suas mãos na cintura. – Agora o time de CDFs está completo. – comentou ao olhar para Emily e depois para mim. E aposto que Peter estava incluído, já que estava do nosso lado.

Emily, Peter e eu sempre fomos preocupados com os estudos, isso era um fato.

Olhei para Mary, depois para as suas duas amigas ao lado. Não podem nos deixar mesmo em paz.

— Como vai o Kevin? – ela me disse, encarando-me com seus olhos azuis.

Eu, que até agora estava olhando para o chão, voltei meu rosto para encarar Mary.

Não. Ela não seria tão idiota para me perguntar uma coisa dessas... Seria?

Conclui que sim. Ela seria. Se era capaz de me surrar demais...

Meu rosto ficou vermelho.

— Faz tempo que eu não vejo ele por aqui. – disse encarando suas unhas cuidadosamente pintadas. – Será que ele se cansou de você?

Certo. Isso já passou dos limites. Ela já tinha me batido, me humilhado publicamente de formas cada vez mais ridículas, já tinha me machucado... e muito. Eu agüentei tudo isso, pacientemente. Mas agora essa foi a gota d’água. Por um momento, meus punhos ficaram cerrados e eu fiz o máximo para não atirar um raio de energia nela.

Eu já usei isso em vários DNAliens, em vários Cavaleiros Eternos e em outros alienígenas. O máximo que eles faziam era deixá-los inconscientes com um simples tiro. Mas se eu acertasse isso em Mary, uma garota irritantemente normal, eu não sabia o que poderia acontecer.

Então tive que me contentar com um simples soco em seu rosto.

Meu punho acertou em cheio seu nariz. O rosto de Mary, instantaneamente, foi para trás e por pouco ela não caiu.

A última coisa que eu me lembro foi ver uma pequena gota de sangue escorrer em seu nariz.

Opa.

Ela virou para mim e disse com os olhos lacrimejando:

— O que você fez?!

Suas mãos cobriram o seu nariz.

Olhei para Emily e Peter que estavam assistindo tudo em silêncio.

Percebi que Emily queria muito rir, mas estava surpresa demais. A boca de Peter estava aberta mostrando o mesmo sinal de surpresa que Emily mostrava.

Os alunos todos viraram para ver o que estava acontecendo e poucos viram a hora que eu soquei Mary.

Depois que minha raiva passou, eu percebi a besteira que eu fiz e na hora tentei me desculpar:

— Mary. Eu não quis... eu...

— Calaboca! Meu nariz! – vi como seus olhos lacrimejavam. Lizzy e Jane estavam tentando acalmá-la.

— Calma amiga. Está doendo? – Lizzy perguntou.

Mary virou-se para ela, indignada com a pergunta.

— O que você acha?!

— Vem – Jane interrompeu – Vamos pra enfermaria – as três foram aos poucos para dentro da escola.

Fiquei ali parada, e me arrependi amargamente de ter feito isso. Não me arrependi de ter socado Mary, me arrependi de ter socado ela na frente da escola.

Senti a mão de Emily em meu ombro.

— Se você não tivesse feito... Eu faria – sorriu. – Ela merecia isso faz muito tempo.

— Concordo. – Peter disse sorrindo para nós duas enquanto colocava sua mão no meu outro ombro, enquanto empurrava a armação do óculos para perto dos olhos.

— Não é isso. – falei murmurando. – Ela vai me dedurar. E eu vou pegar uma semana de detenção. Esse é o problema.

— Bom... Do jeito que a Mary e as três são... Elas vão falar que eu também entrei na briga. – deu de ombros, ela não parecia ligar muito. – Pelo menos você não vai ficar sozinha na detenção.

Falar é fácil.

Abri a porta para encarar uma sala sem ninguém. Minha mãe disse que ia visitar meus tios-avós hoje, então chegaria só de noite. Por sorte eu não fui... Não que eu não gostasse deles, era só que minha tia-avó tinha o péssimo hábito de reclamar demais. Certa vez fui obrigada a usar um vestido rosa que mais parecia um vestido de boneca de porcelana porque ela achava que minhas roupas eram vulgares demais.

Coloquei minha bolsa no chão e me joguei no sofá. Quando joguei o bilhete de detenção em cima da mesa, lembrei-me que havia uma grande quantidade de roupas prontas para serem guardadas.

Subi as escadas e entrei no quarto. Guardei os sapatos primeiro e depois as calças e camisetas. Na última sacola estava o meu vestido. Peguei-o e o estendi com as mãos.

Fiquei com uma vontade de vestir ele. Então tirei minhas roupas e coloquei-o. Depois peguei as sandálias prateadas e as calcei.

Olhei-me no espelho e comecei a dar pequenas voltas com ele para ver como ele ficava em meu corpo em vários ângulos. Levantei meu cabelo e o segurei com as mãos em um tipo de coque para ver se ficava bom.

— Bonito. – ouvi alguém falar. Virei meu rosto para ver quem havia falado.

Michael. Ótimo, mais problemas.

— Como entrou aqui? – falei soltando meus cabelos e encostando meu corpo contra o espelho.

— Pela janela – ele me respondeu. Em segundos, examinou o vestido que eu estava usando com seus olhos azuis.

— Há quanto tempo você está parado ai? – perguntei meu rosto ficando quente.

— Acabei de chegar. – fiquei aliviada por saber que ele não tinha visto mais do que o necessário.

— O que você quer Michael?

— Nada. Só vim fazer uma visita. – ele andou para perto da minha cama. – Já que você não me ligou.

— E quem disse que eu considerei ligar pra você?

Michael olhou para meu criado-mudo e viu o papelzinho com seu telefone.

Droga.

— Deve ter alguma razão para você não jogar meu telefone fora.

— Eu esqueci aí. – retruquei.

— Vou fingir que acredito.

Ele andou até mim, e me cercou, apoiando suas mãos na parede de meu quarto, minha cabeça a alguns centímetros da dele.

— Por que não vai embora? – perguntei. – Já conseguiu o que você quer.

— Nem tudo. – disse colocando sua mão na minha.

Entendi por que ele veio. Porque ele sabia que meu pai ia trabalhar, porque ele sabia que a minha mãe ia sair, porque ele sabia que ia ficar sozinha.

Era isso... Eu fechei meus olhos, esperei para ele sugar o resto da minha energia, o resto da minha força. Não podia fazer mais nada. Perguntei-me porque ele não pegou todo o resto dos meus poderes antes. Talvez porque o cristal o deixasse sem poderes por um tempo. Será?

Não sabia. Mas agora era tarde demais pra pensar nisso. Esperei. E o que senti foi algo quente tocar meus lábios. Levei um tempo para entender o que estava acontecendo. Abri meus olhos.

Não! Ele não estava...? Ele estava me beijando. Era isso que ele queria dizer com “Nem tudo”?

Na mesma hora coloquei minhas mãos contra o peito dele e o empurrei com toda a força que eu tinha.

Encarei-o por alguns minutos e depois eu disse arregalando meus olhos:

— O que você fez?! – passei as costas da minha mão sobre meus lábios. Abaixei para passar pelos braços de Michael e comecei a andar pelos cantos do quarto. – Você ficou maluco?

Mike sorriu.

— Do que está rindo? – perguntei brava.

— Você fica engraçada quando fica nervosa.

— O quê?! Você me beija e ainda acha graça? – senti meu rosto ficar vermelho de raiva. – Seu idiota! – comecei a falar mal dele. Nunca fiquei tão nervosa por causa de um beijo, mas essa era uma exceção. Percebi o porquê de estar tão incomodada com isso, e uma só palavra explicava tudo: Kevin.

O que ele vai dizer se descobrir que eu estava conversando com Michel Morningstar? O que ele vai fazer quando descobrir que o ajudei? O que ele vai fazer quando descobrir que Michael Morningstar me... beijou?

— Michael, vai embora! – apontei para a janela. Ele não se mexeu. – Vai embora! – tentei empurrá-lo, mas dessa vez eu não consegui nem fazê-lo se mover do lugar de onde estava. Senti que estava ficando fraca. Talvez por causa de todo o sentimento de frustração que eu estava sentindo dentro de mim.

— Tudo bem. – ele foi até a janela e sumiu.

Fiquei encarando a janela de meu quarto por um tempo, depois despenquei na cama, cansada.

Mais isso agora...

Já não bastava a detenção... Morningstar tinha que aparecer e me beijar!

(fim de PDV da Gwen)

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— Olha, eu sei que você é um dos melhores garotos que sabe mexer com tecnologia avançada e tudo mais... Mas será que você podia ser mais rápido com isso? – o garoto metade Osmosiano disse enquanto mexia com um parafuso nas mãos.

— Isso leva tempo, Kevin. – Cooper respondeu sem parar de arrumar as peças. – E aí? A Gwen retornou alguma chamada sua? – perguntou depois de um silêncio

Kevin suspirou enquanto colocava o queixo sobre os braços que estavam apoiados sobre as costas da cadeira. Ele olhou para a tela de seu celular, desanimado. Nenhuma chamada recebida. Em compensação, ele tinha ligado mais de seis vezes para ela e nenhuma foi retornada.

— Não. – ele respondeu.

— Não acha que ela está em perigo?

— Não. – Kevin disse pegando o distintivo de Encanadores. Se ela estivesse em perigo, o distintivo dela estaria, com certeza, apitando.

— Certo. — Cooper murmurou.

Kevin observou o pontinho verde que representava Gwen. Ela estava em casa. Ele desligou o distintivo e colocou-o no bolso.

Com um bocejo, ele se levantou e tomou um pouco do café que tinha feito para tentar ficar acordado.

Desde a noite passada, ele ficou sem dormir e já estava cansado demais. O pior é que ele estava ficando cada vez mais preocupado com Ben e Gwen. Mais com Gwen.

Ben era forte e conseguia se virar sozinho. Mas Gwen... ele não sabia se ela ia conseguir. Ela é forte, claro. Mas não era invencível.

Kevin sabia que Cooper podia ajudá-lo. Só que não quando demorava tanto.

O garoto de camiseta preta se sentou na cadeira e bebeu o café até o último gole.

— Então... – Cooper disse. – Você e a Gwen...?

Ele não respondeu, sabia que Cooper gostava de Gwen e por um tempo ele se aproveitava disso para brincar um pouco. Mas de alguma forma Cooper descobriu que os dois começaram a namorar sério e isso não foi uma das melhores notícias para ele.

— Não é muito da sua conta o que acontece entre mim e a Gwen. – respondeu. Sua boca em uma linha reta.

Cooper não gostou muito da resposta. Entendeu que Gwen e Kevin estavam se envolvendo mais do que amigos se envolveriam. Só não sabia o quão longe foram.

— Bom. Já que estou me envolvendo com a segurança dela. Acho que poderia saber mais.

— Só que isso não tem nada a ver com a segurança dela.

Cooper virou seu rosto para encará-lo e encontrou-se com o olhar de Kevin.

Tinha sim. E ele sabia muito bem disso.

Kevin abaixou a cabeça e seus olhos mostravam preocupação. Era culpa dele que isso estava acontecendo...

— Você gosta mesmo dela? – Cooper perguntou, mas isso soava mais como uma afirmação.

Kevin brincou com a caneca vazia em suas mãos. Depois de um tempo em silêncio iria responder, mas quando abriu a boca para responder, seu distintivo tocou.

Kevin tirou-o do bolso e o holograma de um Encanador apareceu.

— Grão-Mestre Primus? – Kevin assustou-se ao ver que o Encanador que o recrutara juntamente com Ben e Gwen estava chamando-o.

— Kevin Levin. – disse ele, pelo holograma.

— O que quer?

— Nós queremos falar com você.

— Nós?

— Isso, nós, os Encanadores. Estamos querendo falar com você sobre sua primeira missão como Encanador. Benjamin e Gwendolyn Tennyson já estão sendo notificados sobre isso.

--

Gwen olhou pelo vidro da nave. A Terra ficava aos poucos cada vez mais distante até se tornar um pequeno ponto entre os outros diversos pontos brancos. Ela observava enquanto se aproximava de outros planetas. Marte. Júpiter. Saturno. Urano. Netuno... até sair do Sistema Solar e se aproximar aos poucos de um tipo de Estação Espacial. Era como se fosse uma nave muito maior do que a que ela e Ben estavam.

Era incrível.

Estação de Treinamento dos Encanadores do setor 5, a estação mais perto que tem da Terra, e a principal dentre outras.

— O que você acha? – Ben perguntou. Ele apareceu de uma das portas da nave utilizando o traje de Encanadores. Ele virou-se de costas – Não acha que essa roupa fica marcando a minha bunda?

— Eca. – Gwen rolou os olhos. – Não.

— Obrigado. – ele a examinou com os olhos – Porque não se vestiu ainda, Grã-Mestre Gwendolyn? – ele perguntou se animando por chamar Gwen com seu nível. Ben, Gwen e Kevin já estavam em um nível avançado por conta de sempre lutarem contra alienígenas para proteger a Terra.

— Eu já vou. – ela pegou seu traje e foi para outra sala para se vestir. Quando ficou pronta, já haviam entrado na estação espacial. Eles saíram da nave, e avistaram milhares de alienígenas de diversos tipos de origens. De massas-cinzentas a quatro-braços. De bolas-de-canhão a aquáticos. Todos utilizando trajes de encanadores.

Ao descerem as escadas da nave, Gwen e Ben encontraram Max Tennyson. Ambos correram para abraçá-lo.

- Gwen! Ben! – Max disse examinando ambos. – Não sabem como estou feliz em vê-los. Ainda mais como Encanadores.

Os dois primos sorriram. Essa seria a primeira missão oficial dos dois como Encanadores para fora da Terra e eles estavam mais do que ansiosos.

Atrás de Max estava Kevin. Gwen foi a primeira a notar. Ele, como os dois, já usava o traje de Encanador, mas parecia cansado.

Gwen andou até ele, enquanto Ben ainda conversava com o avô.

— Você já chegou aqui faz tempo? – ela perguntou.

Seus olhares se encontraram por um momento.

— Faz uma hora. – respondeu com um sorriso forçado. Ele olhou para o corpo de Gwen – Você fica bem com essa roupa.

Ela sorriu.

— O mesmo pra você.

Era verdade. Cada parte do traje parecia ter sido feita apenas para deixá-lo com uma aparência melhor.

— Você está bem? – ele perguntou, preocupado.

— Estou. – ela respondeu desconfiada. Não foi ontem mesmo que ele havia visto ela pela última vez? – Só meio cansada – acrescentou – Viajar em uma nave com o Ben como acompanhante não é muito bom.

— Você diz isso... – ele comentou. – Porque não viu o meu acompanhante. – ele apontou para trás. Junto com Grão-Mestre Primus estava um menino de cabelos loiros e olhos azuis.

— Cooper?! – Gwen chamou-o assustada. Diferente dos outros milhares Encanadores da Estação, Cooper usava suas roupas normais.

Cooper sorriu e correu até Gwen.

— Gwen! – ele a abraçou. – Que prazer em vê-la! Você fica esplêndida com traje de Encanadora.

— Er... O que está fazendo aqui? – ela disse tentando soltar-se do abraço. Mas não era isso que a deixava assusta. Cooper estava... Diferente demais. Em geral, ele estava mais alto, mais robusto... Mais velho.

Antes que ela pudesses perguntar algo, Kevin pegou a gola do garoto e o puxou para longe de Gwen.

— O senhor apaixonado se voluntariou pra missão.

— Desculpe, não entendi.

— Quando eu soube que você ia para essa missão, eu não podia deixar você exposta ao perigo – ele disse.

Kevin cruzou os braços.

— Acho que se esqueceu que eu estou aqui pra cuidar dela. – ele murmurou.

— Exposta ao perigo... Com Kevin Levin. É tudo a mesma coisa. – respondeu Cooper. – Bom. – ele virou-se para Primus – Onde é que eu pego meu traje de Encanador?

— Sinto muito, Cooper. – Primus disse. – Mas você ainda é um Encanador em treinamento.

- O quê?!

Kevin colocou a mão sobre a boca para abafar o riso.

— Sinto muito, mas essas são as normas. – Primus se desculpou.

— Então porque me trouxeram aqui? – ele perguntou indignado.

— Você se voluntariou, e pode ficar aqui para ajudar a equipe de Ben, monitorando.

— Quer dizer que eu não vou poder ajudar a Gwen?

Primus negou com a cabeça.

— Não se preocupe Cooper. – Gwen colocou a mão sobre o ombro do menino. – Eu vou ficar bem.

— Isso mesmo! – Kevin colocou o braço sobre os ombros de Gwen. – Ela vai ficar bem segura “com Kevin Levin”. – riu.

— Só porcausa dessas normas, eu vou ter que ficar aqui monitorando. – murmurou.

— Com licença. – alguém cutucou o ombro de Gwen.

Kevin e Gwen se viraram.

— Professor Paradoxo? – Ben perguntou assustado depois de conversar com o avô. – Azimute? – viu o criador do relógio sobre os ombros de Paradoxo.

— Benjamin Tennyson, Gwendolyn Tennyson e Kevin Levin. – Paradoxo disse. – Há quanto tempo! – ele disse – Ou será “há quantos anos?” – colocou o dedo sobre o queixo.

Gwen, Ben e Kevin se entreolharam.

— Isso não importa agora. – Azimute disse com os pequenos braços atrás das costas. – Precisamos conversar com você.

— Estamos ouvindo. – Ben disse andando para frente de Kevin e Gwen.

— É algo extremamente urgente. Como já devem saber, temos um prisioneiro a solta.

— Sim, já sabemos. – Gwen respondeu, cruzando os braços.

— Se chama Agregor. E recebemos vários relatórios sobre ele querer dominar seu planeta natal. – Azimute disse.

— Osmozian. – Paradoxo respondeu.

Gwen e Ben olharam para Kevin que estava ouvindo a conversa de braços cruzados.

— Ele é um Osmosiano? – Gwen perguntou, voltando-se para Paradoxo e Azimute.

— Sim. E é um Osmosiano muito perigoso.

— Eu já ouvi falar dele. – Kevin disse – Ele foi preso no Vácuo Nulo.

— Por Devin Levin. – Primus disse. – Pesquisei sobre Agregor nas fichas dos Encanadores. Devin Levin era seu pai, não era? – perguntou virando-se para ele.

— Era. – Kevin respondeu.

Gwen e Ben olharam para Kevin novamente. Falar sobre o pai de Kevin não era um dos melhores assuntos para se conversar.

Paradoxo pigarreou.

— Bom... Voltando ao que interessa. Agregor está procurando por algo. Já ouviram falar no Mapa do Infinito?