Recomeçar
12 Sonho
Eu sai da casa de Bella e fui pra minha, deixar a minha moto lá.
O jantar sem dúvida foi muito diferente do que eu imaginei. Principalmente pela parte em que eu também comi. Definitivamente isso não estava nos meus planos. Secretamente, porém, apesar do desconforto físico, eu apreciei o fato de receber mais uma prova de que Bella não tinha o menor medo de mim. Era difícil as pessoas se sentirem a vontade o bastante pra fazerem brincadeiras como a que ela fez. Teria sido muito simples pra mim, matar a ambos, a ela e ao seu pai. Mas claro, enquanto isto era algo que estava em meu poder fazer. Eu jamais o faria. Se não por eu há muito tempo ter decidido não matar, pelo simples fato de ela ser quem é e eu a valorizar demais.
Tinha acabado de desmontar da minha Ducati, quando o meu celular tocou. Olhei o número e era ela.
- Não acho que eu tenha pedido mais lasanha... Ou pizza. Deve ser engano. – Disse sorrindo e fingi que ia desligar.
- Não, Jasper. Espera.
- O que foi Bella?
- Hum, você disse que passaria por aqui amanhã.
- Sim...
- Você não virá hoje, pra me ajudar a dormir? – Ela me perguntou, parecendo muito insegura. Eu soltei um suspiro e passei a mão no meu cabelo. Um gesto muito típico meu, que eu sempre fazia quando estava confuso.
- Eu gostaria, mas... Eu acho que seria mais prudente, se eu fosse caçar.
- Ah... – Ela parecia tão decepcionada. – Mas você não caçou a dois dias atrás?
- Sim. Só que... Eu não quero arriscar. Eu... – Como eu poderia explicar-lhe que a minha sede de hoje a tarde, quando ela estava socando a porra do saco de areia me assustou pra cacete, sem que com isso parecesse um covarde e um fraco? Eu ainda estava tentando encontrar um jeito quando ela falou:
- Tudo bem. Então, eu acho que eu já vou me deitar.
- Tá. Olha, se você quiser, tão logo eu acabe eu vou até a sua casa. Eu não devo demorar muito.
- Claro! Venha sim. Boa noite Jazz.
- Boa noite Bella.
Eu corri para a floresta e logo peguei o cheiro de um gato do mato à sudeste. O cheiro parecia mais forte nas árvores, e assim, eu subi também. Ele estava caçando, como eu. Havia uma corça jovem, uma fêmea, bebendo água, logo abaixo do galho em que ele estava. Eu esperei que ele fizesse o seu ataque. Isso me garantiria duas presas; sem contar, que era mais divertido desta forma. Todo predador fica particularmente irritado, se a sua refeição é interrompida. O gato estava emitindo uma quantidade grande de violência, e antecipação, bem como de felicidade. Sorri. Ele não fazia idéia do que o aguardava.
O seu salto foi perfeito. Ele caiu bem no lombo da corça e cravou os seus dentes em seu pescoço. Eu escutei o estalo doentio de sua espinha, alguns segundos depois. A corça não teve sequer tempo de sentir medo pelo seu abate iminente. Isso foi bom. No último instante, eu decidi proceder do mesmo modo. Emiti tranqüilidade e satisfação e pulei no gato quebrando o seu pescoço antes que ele soubesse que estava sob ataque. Bebi de ambos os animais com gosto. Aliviado por poder limpar o sabor ruim da lasanha de minha boca.
Satisfeito, quase ao ponto de ser doloroso, eu limpei os meus lábios com a costa da mão e lavei-a no pequeno córrego.
Sai correndo pra casa de Bella. Ainda do lado de fora, eu pude sentir o medo e a solidão irradiando do quarto dela. Outro pesadelo, com certeza. Como da última vez, eu pulei a sua janela e em um instante estava do lado de dentro.
Mas qual não foi a minha surpresa ao entrar e escutá-la murmurar baixinho, o meu nome pedindo-me para não ir, para não a deixar sozinha. Aquilo partiu o meu coração. Não importava o que Carlisle tivesse dito, não era certo. Naquele instante, eu decidi que independente do que o futuro trouxesse pra mim, se eu tivesse ou não que deixar Forks, eu não iria permitir que ela ficasse sem uma via de contato comigo. Ela era minha amiga, depois de tudo! Eu não tinha muitos amigos, mas os que tinha, sempre puderam contar comigo. Ela não seria uma exceção.
- Jasper... Fique. – ela me pediu de novo e eu me ajoelhei ao lado de seu leito e acariciei-lhe o cabelo.
- Eu estou aqui querida.
Seus olhos se abriram, ainda cobertos por uma sombra de terror.
- Eu não vou a lugar nenhum.
Em um movimento rápido ela estava sentada e me abraçando, o corpo pequeno dela ainda tremia contra mim. Eu retribuí, um pouco surpreso. Para tentar confortá-la, desenhei pequenos círculos em suas costas com as minhas mãos.
- Você tinha ido embora; eu estava sozinha de novo.
- Não querida, eu jamais vou deixá-la sozinha.
- Não prometa. Você não poderá ficar aqui indefinidamente; não prometa o que não pode cumprir.
- Não. Eu não vou poder ficar aqui. Mas isso não quer dizer que você não poderá sempre me encontrar. Ou mesmo, você poderia vir comigo. Gostaria de ter um vampiro como vizinho?
Ela se afastou um pouco e vi que os seus olhos estavam cheios de lágrimas.
- Claro que sim. Eles são os melhores! – A garota era corajosa, ela até arriscou um sorriso. Mesmo que este nunca tenha chegado aos seus olhos. Eu admirei a sua tentativa.
- Você fala sério Jasper?
- Eu sempre falo sério. E eu não quebro as minhas promessas.
Eu lhe falei com toda a convicção. Agora, seu sorriso era muito mais luminoso.
- Obrigada.
Eu passei o polegar em seus olhos, enxugando a umidade que se acumulou ali.
- Pronta pra dormir? – Perguntei já me levantando. Ela agarrou a minha mão com força.
- Não vá.
- Eu só vou me sentar na cadeira.
- Por favor?
Eu franzi o cenho e inclinei a cabeça para o lado. Será que ela realmente estava me pedindo... Mas o movimento seguinte dela, calou as minhas dúvidas. Ela se afastou mais para o lado na cama, dando-me espaço para que eu me deitasse junto com ela em um convite mudo. Céus! Edward odiaria isso.
- Ok.
Concordei, ainda que me sentisse terrivelmente constrangido. Quer dizer, quão errado não era ficar assim, com a ex-namorada do seu irmão? Isso, é claro, sem considerar que ele se afastou por conta de eu quase a ter matado. Em última instância portanto, para afastá-la do perigo que eu representava. Tentei o meu melhor pra ocupar a menor porção do seu leito possível. Mas Bella não aceitaria nada disso. Nem bem ela dormiu e o seu corpo enrodilhou no meu, e ela deitou a cabeça no meu peito.
Curiosamente, porém, foi agradável. Nunca tinha estado assim com nenhuma humana. Era bom o calor que seu corpo desprendia, fazia o meu ficar morno, quase como se eu também fosse humano. Sem contar, que era melhor ainda saber que alguém verdadeiramente me queria por perto. Que estranho. Aqui estou eu, o seu predador; e ela, minha presa natural, está dormindo ao meu lado, sem nenhuma preocupação e perfeitamente segura.
E o mais curioso de tudo é que eu sentia que isto era bom e certo. Por um instante, me permiti esquecer todas as dúvidas e apenas fechei os olhos e a abracei, desfrutando daquele momento.
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