Recomeçar

13 La Push


Acordei na manhã seguinte com um cheiro delicioso vindo do meu travesseiro. Eu não sabia o que era. Parecia sândalo e relva recém cortada; tinha também um acento picante no final, como se fosse canela ou cravos. Eu adorei. Acho que teria que pedir a Charlie pra fazer estoque deste amaciante. Era tão bom!

Pensei esfregando o nariz no tecido. Mas então, eu notei que o meu suposto “travesseiro” tinha gominhos, era frio e duro e...

- Ei querida, isso faz cócegas. – Disse Jasper remexendo-se desconfortavelmente.

Oh meu Deus! Eu apenas estava esfregando o nariz no tanquinho de Jasper! Imediatamente a vergonha me cobriu e eu me afastei. Com as minhas faces afogueadas e os olhos arregalados, eu me virei na direção dele.

Ele tinha um braço sob a sua cabeça e uma mecha dos seus cabelos loiros estava caindo na lateral do seu rosto, quase bloqueando a visão do seu olho esquerdo. Com as pernas cruzadas ele era a imagem de alguém displicentemente relaxado.

- Me desculpa!

- Está tudo certo. Dormiu bem?

Eu acenei em confirmação, ainda muito envergonhada pra poder falar. Me lembrei naquele instante de como Jasper foi parar na minha cama. Eu apenas lhe pedi para deitar-se comigo! Oh bem, eu realmente estava com medo de que ele fosse embora enquanto eu dormia. Desde o jantar com Charlie, quando Jasper confirmou que a sua estadia em Forks seria apenas temporária, o meu medo de perdê-lo da mesma forma como eu perdi a todos os outros Cullens me superou. Ainda assim... O que ele não estaria pensando de mim agora? Quer dizer, eu “apenas” chamei o irmão do meu ex-namorado e o quase ex-marido da minha melhor amiga, pra se deitar comigo!

Bella má; muito, muito, má! — Pensei e logo tentei me levantar da cama. Ele, porém me segurou pelo ombro.

- Querida, não precisa ficar com vergonha. Não fizemos nada de errado. Não fizemos nada.

- Eu sei, é só...

- Estranho? – Ele ofereceu.

- Sim. – Eu confirmei.

Ele deu de ombros.

- Não tem que ser. Você estava assustada, queria a minha companhia. Ficamos juntos. Amigos, certo?

- Amigos. – E agora, eu consegui sorrir um pouco aliviada.

Ele me deu um beijo na testa. Eu dei um pulo para trás e cobri a minha boca.

- Bella?

O cenho dele muito franzido em preocupação. Eu também franzi o meu pensando em porque ele estava assim... O meu Deus, será que ele pensou que eu achasse que ele fosse me beijar na boca? Mais uma vez, as minhas faces se esquentaram e eu não precisei de nenhum espelho pra me dizer que eu devia estar parecendo um tomate.

- Me desculpe. É só que eu não escovei os dentes. E vocês têm um olfato bom demais pra ficarem muito próximo de quem ainda não fez a sua higiene bucal.

Ele revirou os olhos pra mim.

- Certo. Bom, é melhor você começar a se vestir, ou então você vai chegar atrasada à escola.

- E o meu pai?

- Saiu meia hora atrás. Acho que ele lhe deixou um café da manhã.

- Ah, não!

- O que foi?

- Charlie é completamente inepto na cozinha. Além de a sua comida ter um gosto horrível, ele deixa tudo sujo.

Expliquei já me perguntando quantos dias eu teria que gastar pra limpar os azulejos. Da última vez que meu pai, foi querer ser gentil comigo e me adular, nem o teto escapou. Tinha massa de panqueca até lá! Homens!

- Bom, eu não sei como diferenciar. Pra mim, todas as comidas humanas têm cheiro de porcaria.

- Ah, não adianta mentir pra mim, eu sei que você tem loucura por lasanha a bolonhesa. Aquele molhinho vermelho... Hum...

- Bella, mulher, pelo amor de Deus: entre no banheiro e faça o que os humanos fazem lá dentro, por favor!

- Sim. Senhor! – Brinquei batendo continência. Mas foi curioso, os seus olhos brilharam divertidos, mas a sua postura, de alguma forma mudou.

- Rápido soldado! 1, 2... Vamos logo com isso! – E no segundo seguinte um tapa estalou no meu traseiro.

- Ai! Humana aqui, lembra? – Reclamei já dando o fora do quarto, mas antes de sair me virei para olhá-lo, embora seus olhos continuassem a ser brincalhões, ele porra rosnou pra mim!

- Você não me assusta.

Ele saiu correndo atrás de mim, e eu também corri para o banheiro trancando a porta. Não tenho duvidas que ele apenas me deixou ganhar a corrida, mesmo assim, foi divertido.

Quando sai do banheiro, eu já estava de banho tomado, vestida e com o cabelo penteado.

Ele ainda estava sentado na minha cama, parecendo bem à vontade. Lendo a minha dissertação de história que eu teria que entregar amanhã.

- Bom, eu já vou indo. Estude bastante e divirta-se lá com seus amigos. A noite a gente se vê.

E com isso dito, ele me deu um beijo na bochecha de despedida, pulou a janela e foi embora.

A escola foi normal. Mas Ângela que já tinha desistido de tentar se aproximar de mim, após a saída de Edward e o meu subseqüente isolamento, me chamou para sentar na mesa junto com Mike, Jessica, Lauren, ela e Ben, durante o almoço. No início, toda a conversa foi muito sem jeito. Eles não pareciam saber o que falar comigo, e eu igualmente não sabia mais como conversar com eles. Mas ao cabo de algumas tentativas desajeitadas, nós conseguimos firmar uma conversa agradável. A campainha tocou e todos fomos para as nossas salas.

No final do dia, eu passei no banheiro para lavar o rosto e me surpreendi com a minha imagem no espelho. Após apenas duas noites de sono, as minhas olheiras estava muito melhores e até o meu olhar parecia ter ganho uma luz que há dois dias atrás com certeza não havia.

Sai da escola sob uma garoa fina, típica de Forks. Eu elevei o meu rosto para a chuva, como se desta forma ela pudesse me purificar. Verdade seja dita, eu me sentia mais leve agora, do que em qualquer outro dia após o meu término com Edward. A três dias atrás, se alguém me dissesse que eu voltaria a sorrir como eu fiz hoje pela manhã, quando troquei pequenos gracejos com Jasper, eu jamais teria acreditado

Na verdade, era engraçado pensar o quão fácil nós nos tornamos amigos. E em pensar que todo este tempo em que estive com Edward eu perdi a companhia de Jasper e a sua amizade, meramente porque o “senhor sabe-tudo” temia que Jasper me sugasse. Ele se esquecia de que ele mesmo, no início da nossa relação, tinha uma incrível dificuldade em resistir ao meu sangue. E que só conseguiu ultrapassá-la, em grande parte, porque eu acreditei nele e lhe dei oportunidade de se habituar ao meu cheiro.

Não posso deixar de me perguntar: será que a merda que aconteceu em minha festa de aniversário, teria acontecido caso tivessem dado a Jasper a mesma oportunidade e a mesma confiança? É claro que esta era uma pergunta que ninguém, nem mesmo Alice provavelmente poderia responder. Ainda assim, eu achava que não.

Neste instante, eu cheguei a casa de Billy. Meu pai já estava na varanda com Billy fofocando como duas comadres. Jacob estava sentado na pequena escadaria, com um canivete e um pedaço de madeira escura em suas mãos, os quais ele largou tão logo me viu.

- Bella! Graças a Deus você chegou, esses dois estão me deixando louco!

Ele disse abraçando-me. Me espantei com sua altura. Ele parecia ter crescido uns bons quatro centímetros desde a última vez em que o vi. Isso sem contar o tronco que tinha sem duvida ficado muito mais largo. Mas foi a sua temperatura que me deixou preocupada.

- Ei Jacob, você está bem?

Ele riu.

- Sim, porque não estaria?

- Você parece estar com febre.

Nesse momento, Billy olhou de modo estranho pra Jacob, quase como se o passasse por um microscópico.

- Nha! Eu tô bem.

- Sai pra lá moleque. Deixa eu abraçar a minha filha. – Falou Charlie empurrando o ombro de Jacob para o lado.

O garoto não pareceu gostar nem um pouco da atitude e fechou o rosto em uma expressão enfezada que Charlie jamais viu. Eu franzi o cenho, sem entender o que acontecia com Jacob. Se ele fosse mulher, eu diria que ele estava na TPM; como não era, eu ficava sem nenhuma dica do que diabos acontecia.

Vendo a situação, Billy pediu;

- Ei Jacob? Porque não vai até a casa dos Clearwater pra dizer que já estamos chegando e que não é pra eles acabarem com a comida?

- Isto é realmente necessário pai?

- É claro! Você está afim de ficar sem peixe? Porque o meu estômago é velho e não gosta de ficar sem almoço.

- Isso é uma idiotice! Todo mundo sabe que hoje é aniversário do Seth, e portanto, todos nós vamos passar por lá. Eles estão contando com as nossas bocas.

- Sim... Mas não nos custa muito sermos educados. Vá lá, por favor.

- Tá bom, eu vou! Droga!

Eu olhava tudo aquilo meio assustada.

- O que é que deu nele?

- Adolescência. Sabe como é... – Disse Billy com um dar de ombros. – Charlie, porque você não pega as cervejas com a Bell, no meu refrigerador enquanto eu dou um telefonema?

- Ok. Venha Bell.

Segui Charlie e cada um de nós pegou um pacote de seis cervejas. Ergui uma sobrancelha com divertimento pro meu pai.

- Isso por um acaso quer dizer que eu vou ter passageiro no meu caminhão?

- Bom, certamente você não iria negar uma carona pro seu velho, se ele estivesse bêbado, não é?

- Ah, então, esta foi a razão pra você me chamar hoje aqui? Ser a sua motorista?

- Não. Eu apenas queria que você saísse um pouco e espairecesse. Achei que a garotada da reserva poderia lhe trazer alguma alegria.

- Obrigada pela preocupação papai. – Disse, deitando a cabeça por um segundo em seu ombro.

- Bom, é pra isso que eu estou aqui, não?

Quando saímos da cozinha, Billy ainda parecia entretido em seu telefonema.

- Isso Sam. Acho que já é a hora... Sim, isso seria muito bom... Estaremos então aguardando por você... Até mais.

- Tá convidando penetra Billy? Sue pode não gostar. – Falou Charlie.

- Não. Sue adora ver a casa cheia. Bem, vamos lá?

Eu olhei pro meu pai com um último dar de ombros.

- Vamos, né?