Recomeçar
18 Pesadelo
Notas iniciais
A volta pra casa de Bella foi ansiosa. A partir do momento em que eu sabia da existência de um outro vampiro nas proximidades, eu temi o que pudesse encontrar. E quando me aproximei da casa e senti o medo emanando do quarto dela em ondas, o meu próprio pânico ameaçou tomar a frente da minha consciência.
Eu praticamente me joguei dentro do quarto de Bella, pronto para atacar o que quer que a estivesse pondo em perigo. Meus olhos correram selvagens pelo interior do aposento. Mas felizmente, Bella era a única pessoa ali e seu medo não era nada mais do que fruto de um pesadelo que ela estava tendo. Foi só então que eu deixei, escapar um suspiro de alívio.
O meu primeiro impulso foi tranqüilizá-la, mas depois eu pensei melhor. Talvez, se não interviesse em seu sonho, ela pudesse recolher maiores informações, talvez, de alguma forma, o ataque de hoje tivesse suscitado este seu pesadelo. Tanto quanto eu detestava a idéia de deixá-la lidar sozinha com os seus demônios, eu sabia que precisávamos de informações. Então, me sentindo um pouco traidor, eu me ajoelhei ao lado do seu leito e acariciei o seu cabelo castanho tentando confortá-la um pouco, sem manipular o seu emocional
Bella, murmurava coisas como “não” e “vai embora”, uma e outra vez. Seus dedos estavam firmemente cravados no travesseiro e a sua testa estava porejada de pequenas pérolas de suor. Ela se mexia em agonia e eu lutava contra minha própria vontade de ajudá-la, de a acalmar. Até que com um grito agudo, ela se sentou na cama. Eu escutei a respiração de Charlie acelerar no outro quarto. E barulhos no colchão que pareciam indicar que ele teria virado para o outro lado. Aquilo me chateou um pouco, apesar de que eu agradecia o fato de ele não ter vindo ver a filha. Isso me poupava o trabalho de ter que me esconder, ou sair e voltar em seguida.
Eu soube o exato momento em que Bella percebeu a minha presença ao seu lado, porque as suas emoções deixaram o espectro do puro medo; para alívio e confiança, ainda que o medo não tivesse sido de todo liquidado, ele foi consideravelmente amenizado. Seus braços envolveram o meu pescoço e eu pousei as minhas mãos delicadamente em torno de sua cintura.
- Está tudo bem, querida, você está segura. Está tudo bem... – Depois de um tempo assim, Bella recolheu-se.
- Me desculpe, acho que estou me tornando repetitiva aqui.
- Não, não há do que se desculpar. Na verdade, talvez eu lhe deva desculpas. Eu também preciso lhe contar algumas coisas. Mas falaremos sobre isso mais tarde. Por favor, me conte o seu sonho.
- Eu não era humana.
- Você era uma vampira?
- Não, eu era uma corça.
- Bom, eu acho que esta deve ser uma transformação mais complicada de ser feita.
Ela revirou os olhos pra mim.
- Você realmente quer que eu lhe conte o sonho, ou prefere encher o meu saco?
- Lamento. Por favor, continue.
Ela não prosseguiu de imediato, tomou o seu tempo avaliando-me. Acho que queria saber se eu iria continuar os gracejos. Eu dei-lhe o meu sorriso mais angelical, o que só a fez mais desconfiada. Droga! Eu realmente estava perdendo o meu toque. Eu fiz então um gesto com as mãos pra incentivá-la.
- Bem, como eu dizia, eu era uma corça e tinha alguém, na floresta caçando-me. Eu tentava desesperadamente fugir. Mas então, eu cai em uma armadilha. Sabe essas armadilhas de desenho animado? Em que se tem um laço de corda no chão que é puxado e então a vítima é suspensa? Então... Foi o que aconteceu comigo. Os passos pararam e alguém puxou-me pra trás.
- O que aconteceu depois?
- Eu morri. Quem estava me caçando enterrou a faca na minha garganta e eu morri.
Aquilo fez as minhas entranhas apertarem, como sempre acontecia quando Alice tinha uma visão em que um dos nossos morria; mas dessa vez foi diferente, foi mais doloroso.
- Isso não vai acontecer! – exclamei ficando de pé em um salto.
- Jasper?
- Não Bella. Você não vai morrer, eu não vou deixar!
- Jasper, eu vou morrer.
- Não. Você não vai! E não ouse falar como se isso fosse inevitável. – Disse-lhe entre dentes.
- Mas é. Talvez não amanhã, mas eventualmente. Morrer é o que os humanos fazem. Eu sou só humana, Jasper.
Ela estava certa. E aquilo me entristeceu terrivelmente. Ela iria morrer. Mas eu não queria perdê-la, ela era minha amiga! Mais que isso, era minha irmã, minha confidente. A pessoa que me segurava junto e confiava em mim.Talvez...
- Eu posso mudar isso...
Eu não tinha tido intenção de dar voz aos meus pensamentos; mas agora, que eles já foram ditos, eu olhei pra ela e me abri para as suas emoções, tentando discernir que impacto o que eu disse teria sobre ela. A primeira emoção foi choque, depois alegria e esperança, e finalmente, desilusão e tristeza. Ela sorriu, mas este sorriso não tinha luz. Sua mão se ergueu e acariciou a minha face, eu me movi de modo a deitar minha cabeça sobre sua palma.
- Jasper, eu agradeço que você pense em mim como alguém a quem você quer manter. Isso é muito lisonjeiro. Mas eu não gostaria de uma eternidade sozinha. E eu certamente não gostaria de me impor a você e a sua família. Então, não.
Eu abaixei a cabeça quando ela terminou de falar. Ela estava ali, na minha frente, saudável e segura. Mas eu sabia que isto seria apenas um intervalo. Um dia, eu iria ao seu enterro. E eu teria a mesma aparência que tenho agora, seria apenas um rapazinho. E eu colocaria flores em seu túmulo. Eu fechei os olhos, tentando travar a pontada de dor que eu senti em meu peito. Ela me segurou e puxou a minha cabeça para cima, até que nossos olhos encontrassem um ao outro.
- Você não estaria se impondo – Eu sussurrei, mas tenho certeza de que ela me escutou e só preferiu ignorar.
- Por agora, porém eu estou viva. Por agora, nós ainda podemos ser amigos. Tudo bem?
Eu dei-lhe um sorriso quebrado.
- Claro, Bella. O tempo que você quiser, pelo tempo que puder. – Fiz uma pausa, apenas para reunir os meus próprios sentimentos e pensamentos. — E eu vou me certificar de que o nosso tempo não seja encurtado por ninguém. – disse-lhe com determinação.
- Parece um bom plano. E então, o que você queria falar comigo?
Eu lhe contei a respeito do casal assassinado, sobre o cheiro, bem como sobre os lobisomens e a nossa aposta que redundou no acordo que fizemos de que eu iria treiná-los.
- Deixe-me ver se entendi: você apostou que iria embora se eles o derrotassem.
- Sim.
- Você poderia ter se machucado! Como você pôde fazer uma estupidez dessas? Dois contra um Jasper? No que você estava pensado? E se eles o derrotassem? Você disse-me que não iria embora!
- Por favor! Isso foi só uma isca. Eles nunca tiveram chance contra mim, Bella. E a propósito: eu disse que não ia deixá-la, não que não iria embora. Se eu tivesse que sair, poderíamos ainda manter o contato da forma como você quisesse, ou eu a chamaria para vir comigo. – eu dei um sorriso mau e acrescentei – Sem contar, que eu nunca prometi aos lobos que não voltaria.
Ela baixou a cabeça e começou a rir baixinho, eu sorri também porque, afinal, depois da conversa pesada que tivemos era bom vê-la mais descontraída.
- Deus! Eu tenho pena da sua mãe humana e da Esme, você não passa de um capetinha!
- Ora, não venha reduzir a minha importância. Eu sou o professor do capetinha.
Ela ainda deu um sorriso e depois pareceu ficar bastante reflexiva.
- Então, Sam...
- Lobisomem. E pelo que você me descreveu, acho que não era o único, Jacob também deve ser. E um lobisomem novo, eu diria, já que ele não mostrou nenhum comedimento.
- Eu juro que me sinto dentro de um livro de Anne Rice, às vezes.
Ela exclamou e logo voltou ao semblante pensativo.
- Você sabe? Esta história de a pessoa só matar quando chove, isso soa suspeito. A menos que o vampiro em questão seja extremamente cauteloso, mas... Pelo pouco que pude ver, vocês parecem bastante confiantes em si mesmos, de um modo geral. – Ela fez uma careta, e eu revirei os olhos. Acho que alguém ainda estava chateada por eu propor a competição aos lobos. – Mas mesmo assim, se fosse alguém que não conhecesse o território aqui, deveria provavelmente supor que não tinha ninguém, não é? Pra que tanto cuidado? Então, deve ser mesmo alguém com algo a esconder.
- Sim, isso é bastante provável.
- Espere um instante:
E em dizendo isso, ela pulou da cama e quase caiu no chão tropeçando nos lençóis que ainda estavam entrelaçados às suas pernas. Eu a segurei e ela me agradeceu rapidamente antes de se sentar na escrivaninha, pegar um papel e começar a escrever. De súbito, as suas emoções saíram do espectro positivo em que estavam, para um desespero crescente. Céus! Sendo eu um vampiro, ou não, essa mulher ia conseguir dar um jeito de me dar uma puta dor de cabeça.
- Bella?
- Um momento.
Um momento o cacete! O que diabos ela poderia estar escrevendo que a fizesse ficar assim? Eu me levantei silenciosamente e olhei por sobre os seus ombros. E fiquei chocado com o que li: era uma carta de suicídio! Eu rosnei. Em um movimento rápido, eu arranquei o papel do bloco e o pus para longe do seu alcance.
- Ei! Devolve isso aqui!
Pela segunda vez naquela noite, eu falei com ela entre dentes:
- Eu já disse, Bella. Seu tempo não será abreviado.
- Merdas acontecem.
- Não sob a minha vigilância!
- Claro que não! Porque você é onisciente, onipotente e oniabrangente, não é? Nossa! Estou tendo uma experiência religiosa aqui! Estou falando com Deus!
- Eu posso não ser Deus, mas...
- Mas nada, Jasper. Uma única palavra pra você: Phoenix.
Eu fiz uma careta de desgosto; esse meu fracasso iria me perseguir por muito tempo, pelo jeito. Primeiro os lobos e agora Bella.
- Você fugiu de mim. Você deveria ter sabido melhor do que fazer uma coisa dessas. Merda! Eu até hoje não entendo o que deu em sua cabeça, pra fazer uma coisa dessas! – Disse-lhe, passando a mão pelos meus cabelos.
Seus olhos pareceram amolecer, ante o meu evidente desconforto. Ela pegou a minha mão e me conduziu até que eu me sentasse a sua frente, em sua cama.
- Jasper, eu sei que você fará todo o possível pra me proteger. Eu sei disso. E eu não tenho nem palavras pra lhe dizer o quanto lhe agradeço. O quanto é bom saber que eu sou valiosa o bastante pra você, pra que você despenda todo este esforço pra cuidar de mim. Eu também juro que não tenho a menor intenção de fazer o que fiz em Phoenix, mas isso não muda o ponto de que coisas ruins acontecem; e que eu posso não sobreviver. Sendo muito franca, eu acho que era pra eu ter morrido com a van de Tyler, ou pelos dentes de Edward; como ele me disse, uma vez. Ao que parece, a morte não gosta de ser passada pra trás, porque ela continua vindo a mim. Até aqui eu escapei. Mas a sorte um dia acaba. E se a minha sorte acabar, eu não quero que você se culpe, eu não quero que você seja prejudicado e nem que nenhuma suspeita recaia sobre você. Isto – ela me falou, apontando a carta – é apenas uma precaução. Eu ainda tenho a intenção de viver. Mas se eu morrer, eu quero que você fique bem.
- Este é todo o ponto, Bella: eu não vou ficar bem se você morrer.
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