Recomeçar

19 Lutando


Aquela foi a primeira noite que eu passei ao lado de Bella, não para beneficio dela, mas para o meu próprio. Havia coisas demais acontecendo... Dentro de mim e eu me sentia... Sobrecarregado. Sim, acho que esta palavra se encaixava bem. Eu estava sobrecarregado.

Entre o luto pela perda de Alice em minha vida, a existência de um outro vampiro na área. E toda a conversa que tive com Bella e que desencadeou em mim o medo de a perder também, só que desta vez, de uma forma muito mais definitiva do que a forma como eu perdi Alice. Separação é sensivelmente diferente de morte, afinal de contas.

Eu tomei a sua mão, apenas pelo prazer de sentir que ela ainda estava aqui. A mão dela parecia tão pequena dentro da minha. E as diferenças não acabavam ai, enquanto a minha mão era perene, dura, bruta, fria e deformada por cicatrizes que em alguns pontos se justapunham. A dela, ao contrário, era frágil, mortal, morna, macia, delicada e limpa. Nenhuma marca a deformava. Eu observei enquanto acariciava os dedos miúdos. Ela se mexeu um pouco e eu deixei a sua mão cair sobre o colchão. Não querendo lhe perturbar o sono.

- Jasper...

- Estou aqui, querida.

Ela sorriu. E dessa vez, foi ela quem puxou a minha mão, segurando com ambas as suas e a puxando para baixo de sua cabeça, como uma criancinha poderia ter feito com o seu ursinho de pelúcia. Eu tive vontade de rir azedo pela idéia absurda de eu ser o urso de pelúcia de alguém. Apesar disso, me sentei no chão, ao lado da cama dela e joguei a cabeça para trás até que ela se apoiou no pequeno criado mudo. Com os joelhos dobrados junto ao corpo eu me permitir olhar o espaço vazio a minha frente e que parecia uma metáfora tão perfeita pra merda que era a minha vida.

Embora meu corpo não pudesse se cansar. Eu me sentia cansado. Cansado de tentar ser alguém melhor e acabar sempre destruindo tudo que tão desesperadamente tentara construir, antes mesmo de ser capaz de me dar conta do que estava fazendo; cansado da minha vida. Cansado de mim. Eu deixei escapar um gemido e deitei a cabeça na ponta da sua cama.

- Eu não sei o que fazer.

Uma mãozinha começou fazer carinho na minha nuca, brincando com os fios do meu cabelo e acariciando de leve o meu couro cabeludo. Eu levantei a cabeça e vi o rosto de Bella, ainda havia alguns vestígios de sono em sua face, e eu me senti mal por tê-la acordado. Mas as emoções que ela emanava agora eram um intenso carinho, admiração e preocupação.

- Dizem que as coisas parecem mais fáceis durante o dia.

- Me desculpe , eu não tive intenção de acordá-la.

- Não precisa se desculpar. Venha, deite-se aqui.

Ela me pediu afastando-se para o lado. Desta vez, eu não hesitei, eu precisava de contato. Sentia-me sozinho demais e triste demais pra poder recusar isso. Tão logo eu deitei, o cheiro de Bella fez a minha garganta arder, mas eu ignorei. Eu preferia a dor da sede à opressão que sentia em meu peito. Ela aconchegou-se a mim, continuando a brincar com os meus cabelos. Eu apoiei o meu queixo acima de sua cabeça e a envolvi pela cintura em meus braços.

Ela estava se sentindo frustrada, talvez eu devesse me afastar, eu não queria ser fonte de nenhum incomodo pra ela. Mas antes que pudesse fazer qualquer coisa, Bella disse:

- Eu gostaria de ser uma empata, como você. – Eu franzi o cenho e recuei um pouco, apenas para ser capaz de lhe ver o rosto.

- Porque você diz isso?

- Assim eu poderia tranqüilizá-lo, fazê-lo se sentir melhor. Parece tão injusto que você possa fazer isso por mim, e eu não seja capaz de retribuir...

Eu sorri e a apertei um pouco mais, enternecido com a preocupação dela comigo.

- Mas você me faz sentir melhor.

- Certo, vou fingir que acredito.

Um bocejo quase lhe cortou a frase.

- Durma, Bella. – E em dizendo isso, eu comecei a minar o seu corpo com uma dose crescente de letargia.

- Tá bom.

A mão dela ainda estava pousada sobre a lateral do meu rosto quando ela adormeceu novamente. No início, a sede era algo perfeitamente administrável, depois começou a se tornar mais e mais difícil conforme o tempo passava e o seu cheiro se acumulava em meu redor.

Eu escutava o seu coração, eu sentia o pulsar do seu sangue em sua mão bem junto ao meu rosto. Fantasias de como seria fácil apenas pegar-lhe a mão e morder a sua pele fina começaram a dançar em minha mente. Ela sequer sentiria dor. Uma leve pressão em sua nuca e a espinha quebraria e como eu já estava com a mão em suas costas, bastaria apenas um movimento ascendente e... Droga! Eu precisava sair daqui.

Eu enviei-lhe mais um tiro de letargia apenas para garantir que ela permanecesse dormindo e com cuidado para não a incomodar mais do que o necessário, eu desvencilhei meu corpo do dela. Imediatamente, senti a perda dos seus braços em meu redor. Sem seu corpo aquecido, o meu parecia mais e mais frio.

Eu fui até a janela e fiquei lá, respirando o ar limpo, tentando libertar-me da ânsia que seu sangue despertava em mim. Eu gostaria de ter saído e caçado alguma coisa, mas receava que apesar da minha sede, eu não fosse o vampiro mais perigoso pra ela. Então, eu me obriguei a esperar ali, até que fosse a hora de ela ir pra escola. Com tantas pessoas, aquele lugar, embora não oferecesse segurança absoluta, seria o mais seguro para eu a deixar enquanto ia caçar algo pra eu beber. Talvez eu pudesse ao menos ficar sentado na árvore.

E nem bem o pensamento apareceu em minha mente, meu corpo fez os movimentos necessários para chegar até lá. Dali, vendo-a dormir eu ainda me sentia como um stalker doentio. Mas ao menos, ela estava segura. E eu podia voltar a respirar sem que a queima em minha garganta me levasse ao limite da minha sanidade mental.

Finalmente, o céu foi tingido pelo rosa, púrpura e ouro do amanhecer. Eu escutei o chefe Swan se levantar e ir ao banheiro pra tomar banho e fazer a barba, como ele costumava fazer todas as manhãs. Antes de verificar a sua filha, tomar o café e sair. Eu aguardei a sua visita diária ao quarto de Bella. Tão logo ele bateu a porta após checá-la, eu entrei de novo no seu quarto. Afinal, não seria muito bem visto se ele me visse pendurado à árvore que levava à janela do quarto de sua filha.

Bella acordou pouco depois de ele sair. Eu ainda estava parado ao lado da janela.

- Jasper? – Eu me virei e senti a surpresa e depois a compreensão lavarem-na quando ela olhou os meus olhos. – Você não deveria ir caçar?

Eu suspirei.

- Agora está controlável.

- Você está se machucando. Vá. Vá caçar alguma coisa; coelho, urso, não sei. Vá.

- Eu não sou o único vampiro de Forks mais, Bella. E eu irei, quando você estiver na escola; até lá, eu posso agüentar.

- Você não vai mudar de idéia?

- Não.

- Neste caso eu vou me aprontar.

- Ainda é um pouco cedo.

- Não importa, ao menos eu estando lá, você irá caçar e não ficará com dor por minha causa. Eu já volto.

E em dizendo isso, ela foi embora.