Eu não gostei de deixar Bella tão cedo na escola. Havia poucas pessoas lá e eu temia que alguém pudesse usar a ocasião. Mas a garota não era nada menos do que teimosa. Bom, eu também poderia ser. Se ela não fosse me dar nenhuma outra alternativa, eu poderia muito bem bancar o stalker por mais uma hora. Merda! Eu me sentia como meu irmão! E isso não era algo que eu gostava. A única vantagem de estarmos saindo tão cedo é que o sol não iria ser um problema pra mim. E hoje, a julgar pelo céu e o que disse o boletim meteorológico que eu recebi no meu celular, nós teríamos sol.

Abri a porta da caminhonete e desci me posicionando quase sem um pensamento à sombra de uma pequena árvore. Como eu supunha, pouquíssimas pessoas já estavam ali. Eu verifiquei lançando um pequeno olhar em torno. A minha garganta queimava com loucura, eu estava mais sedento do que de hábito. O que só atestava o quanto as minhas emoções estavam me comendo por dentro. É claro que viajar no caminhão com Bella, e agora o acréscimo de mais humanos, não estava facilitando em nada a minha situação.

As poucas pessoas que estavam no estacionamento e no pátio naquela hora olharam-nos com curiosidade e choque. Eu não invejava a posição de Bella, ela certamente seria motivo de fofocas hoje. Os Cullens sempre intrigaram a todos em Forks Hight, e o fato de terem visto Bella com o irmão do seu antigo namorado iria suscitar questionamentos. Bella pareceu chegar as mesmas conclusões que eu, porque o seu receio e o seu constrangimento eram nítidos, mesmo para quem não tivesse o dom que eu tinha. Ela agarrava os cadernos contra o peito como se eles fossem um escudo. Eu enviei-lhe alguma confiança e ela sorriu em agradecimento. Queria dar-lhe um beijo na testa em despedida, mas além de isso só poder agravar-lhe os problemas, eu não achava que sentir o cheiro concentrado que emanaria de Bella, iria ajudar ao meu já fraco auto-controle. Assim sendo fiquei parado junto ao caminhão.

- Vá caçar, Jasper.

Eu acenei em concordância uma vez.

- Fique segura.

- Vou tentar.

E em dizendo isso, eu fui para a floresta. Corri um perímetro em torno da escola. Tudo parecia tranqüilo. Sentei-me em um galho de árvore e aguardei até que a escola estivesse pululando de atividades. Quando vi que o ambiente estaria tão seguro para Bella como poderia ficar. Eu disparei em direção ao norte. Durante o meu caminho, eu peguei a pista de alces e rebanhos de veados. Mas eu não estava com clima para uma presa dócil, que fosse permitir que eu roubasse o seu sangue sem pôr uma luta. Eu queria um predador, alguém contra quem eu pudesse descarregar um pouco da tensão emocional em que estava. Sorri largo quando detectei o cheiro de um urso. Sim, ele me serviria muito bem.

O animal estava enfiando o focinho em um grande toco de madeira podre, provavelmente, tentando pegar algumas larvas. Eu propositalmente me coloquei de forma que o meu aroma fosse ser facilmente detectável. Deu certo, o bicho levantou o seu focinho e farejou o ar e em seguida a sua cabeça virou em minha direção. Eu sorri. O nível de irritação dele era baixo, mas eu o agravei. O urso veio ao ataque. A grande pata desceu em minha direção tentando me rasgar o peito. Eu desviei e rosnei pra ele, o que o fez arreganhar os dentes pra mim. Nós dançamos aquela dança mortal por alguns instantes, até que eu fiquei cansado e lhe arranquei um pedaço da pele do pescoço e mordi-lhe.

O sangue invadiu a minha boca. Seu calor amenizando a queima em minha garganta. E ainda que o gosto não fosse exatamente doce, eu me congratulei por aquele alívio e suspirei feliz. Quando terminei rasguei ainda mais o corpo do urso, apenas para disfarçar a minha mordida e eliminar qualquer veneno que pudesse ser deixado para um possível guarda florestal, prestimoso, analisar.

Voltei pra casa, pela floresta, afim de que ninguém me fosse ver. Tomei um banho quente o que me ajudou a relaxar mais. Sai de lá e vesti a minha boxer preta, um jeans desbotado e uma camisa básica, branca. Olhei-me no espelho e sorri. Alice odiaria me ver nestas roupas, eu quase podia ouvi-la dizer que elas eram básicas demais. Mesmo para estar apenas em casa. Alice podia ser qualquer coisa, menos básica. Eu, porém gostei. Talvez eu pudesse ter ao menos este ganho com a minha separação: eu poderia voltar a me vestir da maneira como eu quisesse. O benefício não compensava a perda, mas... Ao menos, era algo. E se eu realmente planejava passar por isso, era melhor eu começar a tentar ver as vantagens de se ser solteiro.

Calcei um par e botas velhas que eu tinha escondido no armário, pra que Alice não sumisse com elas. Peguei o meu violão e fui pra varanda. Deitado no chão, com os pés cruzados e apoiados em um dos pilares, eu fiquei dedilhando descompromissadamente alguns acordes. O violão era a minha forma de meditação. Eu sempre apelava para a música quando as minhas emoções, ou as dos outros estavam me dando um tempo difícil.

Eu tinha aprendido quando ainda era humano a tocar violão, com o meu pai e depois, já no exército confederado, eu aprendi a tocar também gaita. Vagamente me recordo agora, das festas que dávamos no acampamento, à luz da fogueira. Bebida ruim, baralho e a gaita eram as atrações. Claro que depois de transformado eu não me lembrava mais disso. A memória só retornou depois de eu vir para os Cullens. Os Cullens me deram a minha música de volta. E Alice me tinha dado os Cullens . Os dois conseguiram restaurar em mim a minha humanidade e as minhas esperanças. Eu sentia falta deles.

Escutei o caminhão da Bella entrando na estradinha que levava à casa. O que ela estava fazendo aqui tão cedo? Ainda faltavam duas horas pro término do seu horário escolar. Mais alguns metros e eu pude sentir o clima emocional de Bella,, não era bom. Mágoa e raiva guerreavam dentro dela . Franzi o cenho em preocupação. Alguma coisa ruim devia ter acontecido pra ela sentir-se assim. Eu me levantei enquanto ela bateu a porta do caminhão com força e foi até mim.

- Bella? O que houve?

- Lauren Mallory, um projeto maldito de ciências e um pseudo trio.

- Como é?

- O Sr. Barnnes, mandou a gente cuidar de um ovo – Quando ela começou eu já tinha idéia de como terminaria, e eu estava me segurando pra não rir. – você sabe, o tipo projeto pras adolescentes imaturas não terem idéias erradas e ... bem, ficarem grávidas.

- E você está com seu filhinho no carro?

- Não me provoca!

Eu espalmei a minha mão livre no ar, como a me mostrar desarmado.

- Eu só estou perguntando .

- Está – Ela respondeu entre dentes.

- Por favor, prossiga.

- Bom, como eu ia dizendo, quando eu sai da sala e fui ao armário pra pegar os livros pra próxima aula, Lauren me acompanhou. Disse que ela via a semelhança entre o meu filho e eu, e que o difícil seria provar a paternidade, já que nem eu saberia se o pai do ovo era você ou Edward.

Eu agora estava entre a raiva e a diversão. Raiva por alguém ter atacado Bella desta forma; diversão porque eu nunca cogitei que alguém fosse achar que eu pudesse ser pai de um ovo.

- Justo eu, Jazz, que nunca nem sequer consegui um beijo de língua!

-Opa! Como é que é?

- Lauren me chamou de galinha e...

- Não, a parte do beijo de língua. Edward nunca a beijou assim?

Agora a vergonha dela era absoluta. A sua face estava da cor exata de uma pimenta dedo-de-moça.

- Ele dizia... Ele dizia que era perigoso pra mim.

- Se você metesse a língua na boca dele, sim. Porque era perfeitamente possível que você se cortasse em seus dentes e como você é sua cantora, ele poderia acabar drenando-a. Mas o inverso não. Quer dizer, não é como se os seus dentes pudessem feri-lo!

Deus! Meu irmão era mais idiota do que eu jamais pensei!

- Eu nunca pensei nisso.

Ótimo, agora Bella se sentia rejeitada e insignificante. Que maravilha! Tentando desviá-la desta linha de pensamentos, eu perguntei:

- Isto ainda não explica a questão de você estar aqui tão cedo.

- Eu dei um tapa na cara dela. Com tanta força que a cabeça da garota bateu no armário. Foi uma boa coisa que não houvesse mais vampiros na escola, porque ela começou a sangrar. Enfim, fui levada a diretoria, contei a situação, peguei uma suspensão de três dias e Lauren vai ter que vir acompanhada dos pais amanhã a escola pra que o diretor discuta com eles o comportamento da filha.

- Seu pai precisará ir também?

- Não, acho que não. Mas a diretora disse que se isso acontecesse mais uma vez, ele teria.

- Bom, eu lamento o ocorrido, mas veja pelo lado positivo: teremos mais tempo pra gastar juntos. Venha, vamos entrar e eu vou lhe dar o seu presente. — Disse-lhe pondo o braço sobre os seus ombros. – Mais se isso lhe servir de consolo, seus problemas não foram piores do que os que Rose arrumou quando um professor lhe deu este mesmo trabalho. Pra que você tenha uma idéia, tivemos que nos mudar.

- Por que?

- Bem, Rose é frustrada por jamais poder ter filhos. Então, esse projeto bateu muito próximo de casa, para ela. Que começou a defender que as pessoas não deveriam esperar pelo amanhã, porque ele poderia nunca chegar e alguma coisa como carpe dien. Pra completar, Emmett estava na mesma classe que ela, e ela pediu-lhe pra validá-la. Agora, isso é um resumo doce. Você pode imaginar uma Rose irritada dentro de uma sala de aula, dando respostas muito meigas (pra não dizer o contrário) a um professor, muito espantado e um Emmett que não sabia se segurava a esposa ou se brigava com o professor quando ele agia de modo um pouco mais rude com ela, como quando ele pediu pra ela “fechar a matraca”. Depois disso, todos nos olhavam mais do que nunca e não era só na escola, em qualquer lugar. Cidade pequena, sabe como é. Mesmo o papai foi chamado pelo seu chefe, pra conversar sobre a educação sexual dos seus filhos. Foi o jeito nós nos mudarmos.

Bella ria tentando imaginar a cena.

- Eu não pensei que Rose, de todas as pessoas, tivesse essa veia maternal. E você? Onde você estava?

- Na sala ao lado, escutando tudo. E fazendo o meu melhor pra não gargalhar e espalhar diversão, como um gás do riso, pra todos os meus outros colegas de turma.

- Vida longa, pelo jeito, lhe garante muitas aventuras, não?

- Você não têm idéia!