Recomeçar
15 Papéis
Cheguei em casa, ainda sob um manto de confusão. Eu sabia que teria que conversar com Jacob em algum momento, deixar claro que nós não iríamos ficar juntos, nunca. Que não era assim que eu me sentia em relação a ele. Ele era um bom amigo, talvez um dos melhores. Mas isto era tudo. Infelizmente, tanto quanto seria difícil pra mim, eu teria que machucá-lo e acabar com as suas esperanças. Eu não gostei de ter que fazer isso. Eu sabia muito bem o que se sentia quando alguém arrancava o coração do seu peito e pisava em cima. Ao mesmo tempo, eu sabia que se não fizesse isso, eu o feriria ainda mais.
Estacionei o caminhão, mas não sai. Charlie veio logo em seguida e abriu a porta pra mim. Eu olhei pra casa, pensando se deveria ou não entrar.
- Bella?
- Eu tenho que pensar pai. O que aconteceu hoje, não deveria jamais ter acontecido. Jacob está iludido. Eu não o quero. Não desta forma. Eu sou apenas sua amiga. E eu vou ter que destruir as suas esperanças.
Ele suspirou.
- Por que? Por que você tem que fazer isso? Dê-lhe uma chance. Eu sei que hoje não foi o melhor exemplo, mas Jake é um bom menino.
- Pai, eu não gosto dele desse jeito. Você quer que eu o engane? Que eu minta? Eu não vou fazer isso!
- Não o engane, ele sabe o quanto você gostava de Edward, mas ele foi embora. Por que não dar a Jake e a você mesma uma chance?
- Porque eu sei que ele jamais passara de um amigo ou um irmão.
- Se você diz... – Disse Charlie afastando-se da porta da caminhonete derrotado.
- Eu acho que vou pra casa de algum amigo, Angela, ou Jasper... Eu não sei. Eu volto depois, ok?
“Carro 246, Carro 246. Responda.”
- Um momento Bells – Pediu Charlie sacando o seu rádio. — Carro 246 na escuta, Central. O que houve?
- Parece que temos um novo caso de ataque de animal. Aparentemente, ele está agora na divisa de Forks.
- Quantas vítimas Central?
- Duas. Um casal. Chamei a perícia de Hoquain, mas pensei que você poderia querer dar uma olhada. Pelo que me foi dito, porém não será uma vista agradável.
- Um momento Central. – Ele fez uma pausa e soltou um suspiro antes de virar-se pra mim. – Eu vou precisar cuidar disso. Vá para a casa dos seus amigos então, fique segura e me chame se precisar de qualquer coisa, tudo bem?
- Claro! Você também, tenha cuidado, por favor.
- Sempre! – E com isso dito, ele já seguiu em direção a sua viatura – Central, na escuta, passe as coordenadas.
- Final da rodovia 201. 20 milhas a Sudoeste.
- Já estou a caminho.
Nem bem o meu pai tinha saído e eu saquei o celular de dentro da bolsa para ligar para o Jasper. Mas ninguém atendeu. Liguei de novo, e ainda o mesmo. Ele tinha caçado ontem. Eu sabia que ele não iria hoje, portanto. Não havia como ele não ter escutado o meu telefonema. E muito menos, razão pra ele ter ido para áreas selvagens onde o seu telefone pudesse perder o sinal. Então, o que aconteceu? Será... Será que ele foi embora?
O medo, me atingiu de modo intenso e eu na mesma hora girei a chave na ignição e segui para a casa dos Cullens. Eu acho que eu devo ter corrido mais do que eu pensei, porque logo em seguida eu estava estacionando na frente da mansão. Eu respirei fundo. E tentei me acalmar o bastante pra conseguir sair do carro sem dar a Jasper, na hipótese de ele estar lá, o maior susto de sua vida, com as minhas emoções. Mas a antecipação da sensação de abandono era quase como um fantasma, abraçando-me pelas costas. Eu simplesmente não conseguia me livrar dela.
Pé ante pé, eu fiz o meu caminho até a porta e girei a maçaneta. Não precisou de mais do que um segundo para eu o ver, sentado no sofá. Os cotovelos apoiados nos joelhos, e as mãos segurando a sua cabeça. Seus cabelos escondendo completamente o seu rosto. Eu senti alívio por vê-lo ali, mas isso durou apenas o tempo de ele virar em minha direção e me olhar. Seu rosto, que ainda naquela manhã tinha rido e me provocado, agora guardava uma expressão vazia e desesperada. A impressão que tive, foi de que toda a vida que existia em seus olhos tinha sido dragada. Eu engoli em seco. E o meu coração que até tinha começado a se acalmar, acelerou de novo.
- Jasper? O que houve? – Perguntei-lhe indo me sentar ao seu lado.
- Acabou.
- O que acabou Jazz?
- Alice assinou os papéis. Eles estavam aqui hoje, quando cheguei em casa. – Disse-me ele indicando um envelope grande bem a sua frente sobre a mesinha de centro – Eu também assinei. Acabou.
Eu senti a sua dor. Eu sabia o que era sentir a pessoa que você ama se afastando de você, e tudo que eu queria era abraçá-lo. Protegê-lo, não deixar que ele jamais tivesse que passar por isso. Mas eu não tinha como fazer isso, e eu não sabia se ele quereria o meu toque. Mas eu não consegui ficar indiferente, ele parecia tão quebrado! Eu pús a mão em seu ombro e ele deitou a cabeça no meu. Imediatamente, eu fechei os meus braços em seu redor. Ele chorou sem lágrimas durante mais de três horas. E logo no início, ele perdeu o controle do seu dom. Então eu literalmente podia sentir o que ele sentia. Era horrível! Como no dia em que Edward me deixou. Era uma mistura de choque, mágoa, solidão, culpa, tristeza infinita, dor... Tanta dor! Eu lhe acariciei os cabelos, e murmurei coisas sem sentido. Disse-lhe que estava ali pra ele, que ele não estava sozinho. Que ele não iria ficar sozinho. Eu beijei o alto de sua cabeça e aos poucos o seu choro foi passando e eu senti a sua vergonha.
Eu me ajoelhei a sua frente e segurei os seu rosto entre as minhas mãos obrigando-o a olhar pra mim.
- Você não tem que se envergonhar. Não é vergonha chorar pelas pessoas a quem se ama.
- Eu não deveria ter me permitido perder o controle na sua frente assim, eu não queria que você tivesse que sentir isso. Eu lamento muito. Você já sofreu muito mais do que merecia e eu não deveria agravar o seu sofrimento, com o meu.
- Eu não. Não lamento, quer dizer. Na verdade, me sinto honrada, por você confiar em mim o bastante pra me permitir compartilhar aquilo que lhe machuca. Eu lhe disse, que você não está sozinho. E eu quis dizer isso.
- Obrigada. É só que, no fundo, eu acho que eu tinha esperança de que a demora na chegada dos papéis quisesse dizer que ela teria mudado de idéia, desistido... – Ele passou a mão nos cabelos – Deus, eu sou tão patético!
Eu peguei a sua mão na minha e o estapeei com a sua própria mão de mármore, na perna. Afinal de contas, pensei, não é porque ele é vampiro e eu sou humana, que ele não vai apanhar de mim.
- Nunca mais, ouse falar assim a respeito de si mesmo. Ouviu bem? Nunca mais!
Ele acenou uma única vez em concordância.
- Posso lhe fazer uma pergunta?
- Claro! — Eu falei com um dar de ombros.
- Por que você cheira a cachorro molhado?
- Cachorro molhado? Eu não faço idéia. Eu não vi nenhum cachorro hoje. Você quer que eu tome um banho, ou alguma coisa assim?
- Não. Fique.
Foi então a minha vez de acenar em confirmação. Sentei-me ao seu lado e ele deitou a cabeça em meu colo. Eu fiquei mexendo em seus cabelos e esfregando pequenos círculos no seu couro cabeludo.
- Isso é tão bom. – Jasper comentou de olhos fechados. – É muito relaxante.
Eu sorri e aproveitei o momento para observá-lo. Ele era tão bonito! E deitado assim, de olhos fechados, parecia quase como um inocente menino. E naquele instante, fragilizado como ele estava, talvez ele fosse um pouco assim.
- Minha mãe também gostava. — Comentei um pouco pra mudar o rumo dos meus próprios pensamentos — Quando ela estava muito chateada, nós tínhamos uma espécie de ritual, sabe?
Ele se virou e olhou pra mim
- Como era?
- Bem, ela me pedia pra eu comprar um monte de comidas porcaria, do tipo extremamente calóricas, como sorvetes, tortas e bolos. A gente comia isto enquanto ela me contava o que tinha acontecido. Quando ela sentia vontade, ela chorava e eu a confortava. Ela se deitava, bem assim como você está, e eu lhe faria cafuné. Às vezes, quando era algo que a gente sabia que iria ter momentos em que fatalmente ela ficaria triste de novo, nós escolhíamos uma música. Algo que combinasse com a razão da tristeza dela, como quando a mãe dela morreu, ela escolheu “A Rose in December”. Bom, ela teria permissão pra escutar a música no máximo três vezes ao dia, e sentir toda a auto-piedade e tristeza que ela quisesse. Mas depois, ela teria que tentar seguir em frente e ser feliz.
- Você sempre cuidou muito bem dela. E este parece ser um bom ritual. Vocês se permitem sofrer, mas se exigem superar, é uma boa fórmula.
- Você gostaria de adotar?
- Sim.
- Qual seria a sua música então?
Ele pensou por um momento novamente de olhos fechados.
- Acho que teria que ser uma do Keith Urban, Tonight I wanna cry. Conhece?
- Sim, combina com os seus sentimentos, eu acho.
- E a sua? Que música você escolheria?
Como ele, eu me dei alguns momentos para pensar, e então, me ocorreu uma e eu sorri.
- Acho que vou manter o seu cantor. Keith Urban também, Stupid boy.
- Combina também. E você sabe? A música está certa. Ele vai se arrepender pelo que fez, e não vai demorar muito. Na verdade, eu acredito que uma parte dele, já se arrependa.
Tentei parecer indiferente.
- Talvez você tenha razão, talvez não. Mas isso não muda nada. Mesmo querendo, eu não acho que poderia voltar com ele; não depois de tudo o que eu percebi. Não é só raiva. Quem dera fosse isso; porque raiva passa. Basta que se dê um pouco de tempo e ela passa. Isto é pior, é como se algo dentro de mim tivesse se quebrado com o que ele fez. E o que quer que seja, eu sei que não pode mais ser recuperado. Eu me decepcionei muito com Edward.
- Eu entendo. — Ele fez uma pausa enquanto olhava de maneira muito pensativa para nada em específico, quando eu já ia perguntar-lhe a respeito ele prosseguiu — É estranho, não é? Como você constrói uma relação com alguém por tanto tempo, e um momento, a põe abaixo. Uma assinatura, minha e dela ali naqueles papéis e eu não sou mais o esposo de Alice, e ela já não é a minha mulher.
- Acho, que nenhuma das nossas relações era realmente tão saudável quanto nós supúnhamos.
- Não, eu acho que não.
- Jazz? Eu preciso ir. Meu pai tinha sido chamado com urgência na estação de polícia, mas ele já deve estar de volta. E ficará preocupado comigo.
- O que houve?
- Um casal de andarilhos, parece que foram morto por conta de um animal selvagem.
Ele se levantou do meu colo e pareceu muito... Eu não sei, focado? Talvez esta fosse a palavra.
- Onde foi isso?
- Eu... Acho que foi a 20 milhas a sudoeste da 201? Eu não estou bem certa.
- Eu vou lhe levar até a sua casa.
- Não precisa.
- Ei agora, que tipo de homem eu seria se lhe deixasse ir sozinha pra casa uma hora dessas?
- Não é tão tarde. E eu não lhe quero causar problemas.
- São quase dez. E isso não seria um problema, eu ficaria preocupado se não fizesse isso.
- Vai adiantar se eu argumentar?
- Não – Disse ele estalando os lábios.
- Bom, então vamos lá.
Notas finais
Tonight I wanna cry
http://www.youtube.com/watch?v=pwRs-jek6rI
Stupid boy
http://www.youtube.com/watch?v=lpLD674ZHXc&feature=related
Assistam e me digam o que vocês acharam das músicas, se vocês concordam que elas são a cara dos dois.
Ah, e quem se perguntou por que o Jazz não falou sobre os lobos, a resposta é que ele não tem pleno conhecimento. Se vocês bem se lembram, quando o tratado foi feito pelo Carlisle, o Jasper e a Alice não eram ainda parte da família Cullen, eles chegaram depois. E os Cullens pensavam que os metamorfos estavam a muito extintos. Quem lhes conta que eles não estão, é a Bella pra Alice, quando ela vai visitá-la após o salto do penhasco. Então, o Jazz nunca sentiu o cheiro dos metamorfos. E ele não sabe ainda que eles existem.
Beijos.
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