Recomeçar
17 Lobos
Eu segui o rastro através das árvores. Gostaria de observar, se possível, sem que o portador do cheiro me visse. Eu não tinha sequer idéia de porque estava sendo tão cauteloso. Apenas, algo no próprio odor nauseabundo parecia exigir que eu agisse assim; e eu já sobrevivi muitos anos pra não levar em conta o que os meus instintos me diziam. Não demorou muito pra que eu visse dois enormes lobos, um negro e o outro cinza escuro correndo. Pra minha infelicidade porém, houve uma mudança no vento e eles me farejaram.
O cinza girou e rosnou pra mim, mostrando os dentes, da forma como supostamente um vira-lata raivoso o faria, e começou a avançar. O negro, porém não se mexeu. Eu emiti uma quantidade grande de calma e o cinzento parou o seu avanço e sacudiu a cabeça como se estivesse tentando se livrar da minha influência. Desculpa, cara, mas isso apenas não vai acontecer. Com facilidade firmei o meu domínio sobre as suas emoções.
No fundo da minha mente, porém xinguei a má sorte de Bella. Realmente, como se não lhe bastasse andar com vampiros, pelo jeito ela também confraternizava com lobisomens que supostamente deveriam estar extintos! Quando ela me falou que se julgava amaldiçoada, eu descartei isto como sendo apenas um exagero. Agora, eu já não tinha tanta certeza.
- Meu nome é Jasper Cullen, filho de Carlisle Cullen. Soube que alguns andarilhos foram atacados e desconfiei disso. Vim checar. Não lhes pretendo nenhum mal. Temos um tratado com vocês e eu sempre o honrei e não tenho intenção de mudar este fato. Gostaria de conversar com um de vocês, se isto fosse possível.
O lobo negro olhou para o cinza que pareceu bufar, como se reprovasse a sua atitude. Em seguida, o negro se afastou para trás de algumas árvores verdadeiramente grossas. O cinza ocasionalmente ainda me mostrava os dentes. Mas com as suas emoções sob o meu controle, ele de fato não tinha motivação para me atacar. Era só uma ameaça vazia. Pouco depois, um homem alto de pele cor de bronze e vestindo apenas uma bermuda, saiu do meio das árvores, onde o lobo negro tinha sumido. Assumi que aquele era o lobo em sua versão humana.
- Meu nome é Sam, alpha do bando Quileute. Sabemos a respeito dos Cullens. Mas não que algum de vocês ainda estaria aqui. Pensávamos que todos tinham ido embora.
- Sam, eu vou descer agora para que conversemos melhor, tudo bem?
- Claro.
Ante a sua concordância, saltei da árvore para o chão. Mas ainda guardei uns bons 3 metros de distância deles.
- O restante da família saiu de Forks já, eu fiquei por uma questão pessoal.
- Seu cheiro está impregnado pelo cheiro de Bella.
- Estive com ela recentemente.
- Ela está bem?
Tive que controlar a mim mesmo para não revirar os olhos.
- Se perguntas se eu bebi dela, penso que a mera visão dos meus olhos pode lhe dar a resposta. Se tivesse feito, eles seriam vermelhos; e não cor de caramelo, como você deve bem saber. Eu a escoltei até a sua casa. Esta é a razão para ter o cheiro dela sobre mim.
Ele estreitou os olhos e em um tom malicioso comentou.
- Uma mera caminhada não deixaria um cheiro tão forte.
Eu sorri pra ele sem humor. Definitivamente, eu não lhe contaria que eu chorei como uma criança nos braços dela, por conta da minha recente separação.
- Esta é toda a informação que você terá de mim com respeito à Bella, lamento que pareça não ser o bastante pra você.
O lobo cinzendo voltou a rosnar, mas o homem olhou feio pra ele, e o outro abaixou a cabeça em submissão. Ainda que eu pudesse sentir o desgosto que ele estava emitindo em ter que fazer isso.
- Sobre o que desejas conversar?
- Vocês por um acaso, souberam de algum outro ataque como este?
- Sim. Tivemos outros dois, mas não em Forks, nas circunvizinhanças.
- O cheiro aqui estava muito fraco. Não consegui identificar a quem pertence. Mas havia algum traço que soava familiar. Há uma possibilidade mínima, mas ainda uma possibilidade, de que Bella possa ser o alvo.
- Porque você diz isso, sanguessuga?
- Bem, vira-lata...
Novamente o cinzento rosnou. Mas desta vez, o homem não tentou pará-lo; ao contrário, ele deu alguns bons passos em minha direção e começou a tremer levemente. Eu sorri com apenas um canto dos meus lábios e ergui uma sobrancelha.
- Minha mãe educou-me pra retribuir ao tratamento que receber. Se não gostam de serem chamados por alcunhas, não me chamem assim. Podemos ser inimigos, mas temos um tratado em vigor. Respeito é o pressuposto para que ele funcione.
- Você está em desvantagem aqui, sanguessuga.
- Só se for numérica, mas asseguro que se necessário dou conta de ambos.
- Você é muito arrogante!
- Ou consciente das minhas habilidades. Porque você não me testa? Eu aposto uma coisa com vocês: se vocês conseguirem me derrotar, eu saio da cidade até amanhã à noite. No entanto, se eu os vencer, primeiro: vocês vão todos me tratar e a minha família com o devido respeito. Em troca receberão, evidentemente, o mesmo tratamento. E vocês vão aprender comigo a lutar. Se isso entrar no nível em que vocês venham a ter que proteger Bella, eu quero ter absoluta certeza de que vocês sejam verdadeiramente capazes de fazê-lo. Particularmente, eu não acho que vocês tenham nada a perder. O que me dizem?
- Vamos fazer.
- Eu não tenho intenção de machucá-los de verdade, eu quero que vocês estejam inteiros pra efetuar a proteção de que Bella possa necessitar. Assim sendo, se um de vocês encostar o torso no chão, seja por conta de uma queda de costas, ou de peito ou se eu lhes agarrar a garganta, podemos considerar que vocês estão fora, tudo bem? É evidente que o mesmo é válido pra vocês.
- Certo. Mas não se preocupe sanguessuga, você não terá a oportunidade de fazer nenhuma das duas coisas.
- Isso é o que vamos ver, não é? Podem vir.
- Os dois juntos?
- Pelo jeito, é desta forma que vocês fazem ronda, ou eu estou enganado? O meu interesse é retratar a realidade e avaliar se vocês são capazes de realmente lhe dar proteção. Então, podem vir.
Disse-lhes retirando subitamente o meu controle sobre o cinzento. Ao mesmo tempo o homem estourou a sua própria pele. E em seu lugar, agora havia um lobo negro. Ele estava mais perto de mim, e nem bem as suas patas tocaram o chão, ele correu em minha direção com a boca aberta e direto pra garganta. Deus! Eles lutavam como recém nascidos! Nenhum preparo. Nenhuma finesse. E este era o alpha? Eu temia agora o quão fracos os outros membros do bando não seriam como lutadores. Merda, eles realmente precisariam de muito treinamento.
Com facilidade esquivei-me para o lado. Pensei em fazer um jogo de esquiva por algum tempo, apenas para humilhá-los um pouco e dar-lhes algum respeito; mas agora que sabia que tinha outro vampiro nas proximidades da cidade, eu não queria deixar Bella sozinha por mais tempo do que o estritamente necessário. Assim sendo, lhe acertei um chute na altura das costelas. Um estalo mostrou que pelo menos uma tinha sido quebrada, ou no mínimo trincada. Ups... Não queria que saísse tão forte. Mas ele caiu no chão ao lado de uma árvore e por tanto, já estava fora.
O cinza, já tinha encurtado a distância e estava vindo pelas minhas costas tentar um ataque, achando que me pegaria desprevenido. Pulei e dei um rolamento no ar caindo bem atrás dele que girou e se pôs mais uma vez de frente pra mim. Agarrei-lhe pelo pescoço e o levantei do chão.
- Fim do jogo. Vocês perderam.
Larguei a traquéia do cinzento e o negro ganiu em frustração.
- Bom, agora que temos isso resolvido, você está bem?
O lobo acenou uma vez com a cabeça em concordância. Bom.
- Será que você pode voltar a forma humana pra que possamos conversar?
Ele voltou, mas o homem estava pelado! Como é que se fala sobre assuntos sérios com o sujeito pelado?
- Nenhuma roupa?
- Desculpa cara, mas as minhas calças estouraram quando me transformei.
Eu passei a mão pelos meus cabelos.
- Que foi sang... – Eu arqueei uma sobrancelha. Será que ele já iria quebrar a promessa feita? – Jasper, a minha nudez o incomoda?
Eu sorri.
- Sam, não querendo menosprezar os seus atributos – comentei olhando para os seus genitais. O cinzento pareceu gargalhar, mas o seu alpha lhe deu um olhar que o fez encerrar o seu riso dentro do seu focinho. Apesar disto, eu ainda podia sentir-lhe a diversão. – Mas você não faz o meu tipo.
- Minha esposa gosta.
Dei de ombros.
- Fazer o que? Tem gosto pra tudo nesta vida.
O outro lobo começou a mudar de forma e se tornou humano. Logo em seguida ele sacou um short jeans que estava amarrado a sua perna e o vestiu. Obrigado Deus, pelas pequenas graças!
- Paul, por que merdas que você voltou a ser humano?
- Ei Sam, desculpa ai; mas os outros caras estavam dizendo que concordam com o Jasper, e que era pra eu mudar logo, antes que a visão prolongada de você peladão lhes garantisse pesadelos.
Sam bufou e olhou temeroso pra mim.
Hum, então o bando podia ver através dos olhos um do outro e se comunicar mentalmente? Isto é interessante de saber. Arquivei a informação e tirei a minha segunda blusa.
- Toma. Amarra isto a sua cintura.
- Eu não vou amarrar a sua blusa sang... vampiro. Você fede!
- Olha, eu não queria falar assim, mas... Você têm alguma razão específica pra querer ficar pelado na minha frente? Porque eu posso repetir, Sam: você não faz o meu tipo.
Paul começou a rir enquanto Sam rosnava pra ele, mas felizmente, decidiu amarrar a minha camisa a sua cintura. Era uma pena que eu jamais iria vê-la de novo. Eu gostava daquela blusa. Mas não tinha uma chance no inferno que eu fosse tocar uma roupa que ficou em contato com os genitais de um lobisomem. Arght, que nojo!
- Pô, é uma pena que você seja um vampiro, você parece ser um cara legal.
- Obrigado..., eu acho. Enfim, será que podemos conversar agora?
Ambos acenaram em concordância e eu lhes expliquei o que aconteceu com James, e toda a corrida que eu e minha família fizemos pra proteger Bella. De como James a enganou dizendo-lhe que estava com a mãe dela como refém, e de como Bella nos enganou no aeroporto e fugiu de nós. Além de tudo o mais que aconteceu em seguida (morte de James, mordida de Bella, Edward sugando-lhe o veneno... yada, yada, yada).
- Então, deixe-me ver se entendi – Começou Paul, rindo-se qual uma hiena – Você foi detonado por uma garotinha humana.
Eu sorri meigamente.
- E vocês por mim. Em que lugar isso lhes põe?
Ele parou de rir.
- Não a subestimem. – Aconselhei muito seriamente — Bella é extremamente inteligente, ela só não tem a força, a rapidez e os sentidos que nós temos. Mas ela é incrível!
- Cara, você tá caído por ela!
- Não seja idiota. Ela é minha amiga! E eu amo outra pessoa.
- Certo... Amiga. Ok. Se você diz... – Continuou Paul, ainda bancando o imbecil. Revirei os olhos. Nesta hora, acho que Sam se lembrou do seu cargo porque resolveu entrar na conversa.
- Então, resumindo, você desconfia que possa ser esse tal de Laurent ou Victoria que estejam matando as pessoas?
- Esta, sem dúvida, é uma possibilidade. Mas não posso confirmar nada, até que pegue algo que tenha o cheiro um pouco mais forte, do vampiro que esta fazendo estas coisas.
- Isto será problemático, aparentemente, quem quer que seja, tem deixado para se alimentar quando está chovendo, o que garante que seu cheiro se dissipe muito rapidamente.
- Eu gostaria de poder entrar no necrotério... Talvez os corpos ainda guardem o cheiro. – Pensou alto Paul.
- Isto é muito pouco provável. Eles serão certamente encaminhados para autópsia. E a primeira coisa que farão lá é lavar os cadáveres.
- Eu não gosto disso. – Disse Sam.
- Nem eu – Concordei com ele.
- O que? O que é que vocês não gostam?
- Teremos que esperar que o vampiro ataque de novo, pra gente tentar pegar alguma pista. – Expliquei pra Paul que imediatamente ficou com o semblante carregado.
- Treinamento amanhã às 1 da manhã, pode ser? — Perguntei.
- Estaremos lá – confirmou Sam com um aceno de cabeça.
Fale com o autor