Recomeçar
3 Despedida
Francamente, eu não tinha muita vontade de me despedir da família. Mas o constrangimento era apenas uma das razões. Eu só podia imaginar o drama que seria quando Esme e Carlisle soubessem que eu e Alice tínhamos nos separado e que eu não iria acompanhá-los. Juro que eu poderia entregar as minhas bolas pra um maçarico, se não iria ser presenteado com uma boa cena quando voltasse. E eu, simplesmente não me sentia com ânimo no momento pra agüentar isso.
Por outro lado, porra! Eu era um vampiro que até hoje contava com um certo renome, devido a minha participação nas guerras do sul. Isso não era algo de que eu me orgulhasse, mas ainda assim... Sendo tão temido, era simplesmente ridículo e além da covardia eu me esconder na mata, com medo de enfrentar a família e principalmente Esme. Que vamos combinar: é a vampira mais doce que já passou pela face da terra. E eu simplesmente me recusava a ser um covarde.
Sendo assim, suspirei desanimado e me levantei. Derrubei umas duas corças e fiz o meu caminho de volta pra casa.
Nem bem cruzei o rio e fui envolvido nos braços de Esme. Carlisle veio logo em seguida, em um passo mais lento e com um olhar cuidadoso.
- Oh, filho. Alice nos contou. Eu sinto tanto! Você está bem?
Puta merda! Como é que eu respondo a isso? Claro que não! Minha mulher acabou de dizer que não consegue mais viver comigo, eu praticamente bebi a namorada do meu irmão, fudi com a alegria de todo mundo e destruí a festa de aniversário de Bella e era suposto que eu estivesse bem?
- Ficarei. Por favor, não se preocupem. – Pedi-lhes dando dois tapinhas em seu ombro.
- Eu não posso deixar de me preocupar com você. Você é meu filho! Prometa-me que vai cuidar bem de si mesmo! E que vai caçar com regularidade. Que não vai fazer nenhuma tolice.
- Prometo – E em pensar que eu tenho mais de 184 anos e sou 72 anos mais velho que ela, ainda que ela tenha sido transformada na idade de 26 e eu na idade de 19. Era suposto que ela soubesse que eu sou capaz de cuidar de mim mesmo, e que tenho um cérebro bom o bastante pra não me meter em nenhuma merda muito grande, correto? Eu dei um pequeno sorrisinho quando Carlisle colocou a mão sobre o ombro de Esme. Mas ela o ignorou.
- Vou sentir tanto a sua falta! – Esme falou em um tom choroso e me abraçou de novo.
Cacete! Tudo bem que eu não preciso respirar, mas realmente é necessário extrair todo o ar dos meus pulmões? Puta merda!
Mesmo assim eu devolvi-lhe o abraço. Afinal de contas, eu podia estar mal humorado, e Deus sabe que eu tinha motivos de sobra para estar assim hoje, mas ela ainda é minha mãe e eu sou louco por ela.
- Esme, deixe o menino no chão, querida! Você está interagindo demais com Emmett.
- Eu sou inocente! – Gritou o meu irmão grandalhão de dentro da casa. Seguido de um estalo mais baixo, um gemido e um “Cala a boca Emmett” no melhor estilo "bitch" de Rosália. Eu tive que balançar a cabeça. Sentiria falta desses malucos.
Esme me pôs no chão e recuou um pouquinho. Carlisle tomou a frente e colocou uma mão sobre o meu ombro. O humor rapidamente sendo drenado.
- Eu lamento o ocorrido. Eu gostaria de ter uma oportunidade de conversar com Edward, se isso estiver bem, e pedir desculpas a ele; gostaria de poder fazer o mesmo com Isabella, mas já me foi dita a decisão tomada. Então, eu vou respeitar; ainda que não concorde que este seja o caminho mais acertado para lidar com a situação.
- Eu também não gosto disso Jasper. – Esme fungou um pouquinho e deitou a cabeça no ombro de Carlisle. A saudade e a dor pelos filhos que ficariam pra trás já bastante fortes. Carlisle afagou o lado de sua cabeça em uma tentativa óbvia de a consolar. Antes de ele prosseguir:
- Mas Edward é o companheiro de Bella. E um companheiro têm preponderância sobre qualquer outro relacionamento. Esta é a razão pela qual eu concordei com isso. E o fato de que não creio que ele seja capaz de ficar muito tempo longe dela. Quanto ao pedido de desculpas, Edward está velando o sono de Bella, mas ele deverá passar por aqui pela parte da manhã. Haverá tempo.
- Fico feliz em saber disso. Não quero que ele vá embora ressentido comigo.
- Ele não está ressentido com você; aliás, nem Bella está. Ela me disse que não o culpa.
Eu estreitei os olhos um pouco e baixei a cabeça pensando.
- Eu não entendo esta menina.
Carlisle riu e deu de ombros.
- Suspeito que nenhum de nós a entenda.
- Provavelmente... Você acha que ele vai voltar?
- Bom, eu não sou dado a apostas, você sabe. Mas se fosse fazer um chute, eu diria que em um mês.
- Eu acho que não. Se há alguém que é teimoso ao ponto de ser meio estúpido, é Edward.
- Eu só posso torcer pra que você esteja errado.
Ele fez uma longa pausa, mas pelas emoções que estava liberando, eu podia dizer que Carlisle ainda não tinha acabado. Eu ergui uma sobrancelha, como a perguntar-lhe o que estava acontecendo. O constrangimento veio rápido e a minha curiosidade teve o seu pico. Carlisle limpou a garganta em preparação:
- Filho, esta separação, será que terá alguma influência sobre a sua dieta? Quer dizer, você não pensa em mudar os seus hábitos alimentares, não é?
A irritação e a mágoa me capturaram e sem querer eu comecei a projetar. Porra! Tudo bem que eu era uma bosta de um vegetariano. Mas eu ainda era um vegetariano! Eu me esforçava para permanecer na dieta. Ainda que não tivesse o sucesso que eu gostaria. Porque ele sentia necessidade de me perguntar isso? Ah, sim. Claro! Porque eu sou uma porra de uma nitroglicerina instável, uma mistura de monstro, vampiro e demônio de merda. Pelo menos disso, vai ser bom me livrar por uns tempos.
Em uma voz fria eu disse o meu “é claro” e subi para o meu quarto começando a empacotar.
Quando Edward chegou eu lhe pedi perdão pelo ocorrido, e ele graciosamente aceitou. Logo em seguida, todos foram embora. A família partiu em direção ao Alasca, pelo menos por ora. Edward foi levar Bella à escola e de lá já seguiria o rastro dos demais. Eu, como fui um dos último a começar a empacotar, fiquei.
Eu juro que realmente tinha intenção de deixar a casa. Arrumei as malas e mesmo as coloquei no meu caminhão. Mas não consegui. Tão idiota quanto isso era, eu sentia que se deixasse aquela casa eu ficaria sempre sozinho. Que eu e Alice, jamais reataríamos. Então eu fiquei.
No início, eu apenas meio que me enrolei em mim mesmo e me deixei sentir toda a tristeza que a perda da minha duendezinha predileta trouxe; só saindo para caçar. E logo que a sede era saciada, eu me dedicava a imergir nas lembranças de nós dois juntos.
Eu recordava do nosso encontro no café, do quão desconfiado eu fui dela, achando que ela poderia querer me atacar. Me lembrei dos nossos anos procurando pelos Cullen, da primeira vez que fizemos amor. De como ela mandou Maria voltar pro “México, puta que pariu, ou o inferno de onde você tenha vindo!”.
Sim, a minha Alice, tão chique quanto ela é, pode realmente encarnar Rosália, se ela sentir que alguém esteja tentando prejudicar uma pessoa que ela ame. E ela me ama. Puxa vida, como amando-a tanto quanto eu a amo, eu pude estragar as coisas desta forma? Como eu pude destruir o que tínhamos? Eu me perguntava chorando lágrimas que jamais iriam cair. E todos os dias eu considerava que eu precisava seguir em frente; e todos os dias eu desistia desse propósito e apenas me sentava no sofá lembrando da minha pequena fada.
Passaram-se quase dois meses, assim.
Um dia, eu tinha acabado de caçar quando escutei um rugido que eu não imaginava jamais voltar a ouvir. Intrigado, eu retornei para casa apenas para ver o caminhão de Bella estacionando a frente.
- Bella?
Eu perguntei, porque aquele esqueleto com profundas olheiras não poderias ser ela, certo? Mas era. Deus! O que fizemos com ela? Pra dizer que eu estava chocado era pouco. Ela sem dúvida tinha perdido pelo menos uns dez quilos, se calhar quinze. Bella sempre foi uma menina magra, mas ela tinha um certo viço: a pele era cremosa e rosada e os cabelos eram brilhantes. Agora, a sua pele era pálida e seus cabelos estavam tão opácos que nem precisava ter vivido 50 anos com uma garota que era tão ligada em todas as questões relativas à moda e à beleza, quanto Alice era; pra ver que algo realmente ia muito mal. Qualquer pessoa com olhos na face veria isso. E com as olheiras...., eu ouso dizer que ela parecia mais um vampiro do que eu! E um vampiro mal alimentado, ainda por cima.
- Bella, é você mesma querida?
Perguntei de novo, ainda sem acreditar no que estava na minha frente. A surpresa dela me acertou como um tiro. Eu esperei o medo, que era a reação lógica que um humano teria estando nas proximidades de um predador como eu, e que tinha ainda há pouco tempo tentado bebê-la. Mas ao invés disso, tudo o que senti foi amor. Em seguida, ela correu e se jogou em meus braços. Foi puro instinto que me fez envolvê-la.
- Você está aqui, você não foi embora. Você está aqui...Graças a Deus você está aqui!
E então ela começou a chorar. Eu a tomei nos braços e a levei pra dentro. Pensei realmente em usar o meu dom para acalmá-la, mas parecia que ela precisava colocar as emoções pra fora. Assim, eu apenas a embalei e esfreguei as suas costas dizendo-lhe uma e outra vez que estava tudo bem, que eu estava aqui.
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