Recomeçar

4 Verdades


Sem nunca quebrar o abraço, até porque ela não o permitiria, eu a trouxe pra dentro de casa e a sentei no sofá. Bella estava tão agarrada a mim que eu juro: se eu fosse humano, acho que ela bem poderia ter me deixado com uma ou duas placas roxas. Da forma como era, isso não incomodava. Suas emoções por outro lado, o faziam.

Ela pulava de uma emoção pra outra com uma rapidez impressionante e cada uma era tão intensa que literalmente era uma boa coisa que eu também estivesse sentado, ou seria bem possível que ela me levasse ao chão.

A dor, a saudade, o alívio, o sentimento de traição, o abandono, o desespero; sem contar o baixo apreço por si mesma, e o amor que também se fazia presente. Era quase como se ela estivesse patrocinando um rodízio de sentimentos. Eu fiquei lá, passando a mão pelos seus cabelos, tentando acalmá-la com o melhor de minhas capacidades sem usar o meu dom. Até que depois de uns bons 40 minutos ela pareceu se tranqüilizar um pouco.

Sem jeito, a cor dominou a sua face e ela esfregou as lágrimas pra longe, baixando os olhos pras próprias mãos e se afastando de mim.

- Me desculpa. Eu não queria que você tivesse me visto quebrar assim.

- Você está melhor?

Ela acenou a cabeça uma vez.

- Bom.- Falei relaxando um pouco.

Seus olhos procuraram os meus.

- Por que? Por que você está aqui? Há mais alguém com você? – E nisso, ela varreu a área com o olhar, tentando encontrar alguém da minha família. Eu dei um suspiro, eu não sei porque, mas algo me dizia que eu deveria prosseguir com cautela.

- Estou sozinho.

- Onde está Alice? Porque ela não está com você?

Ótimo! Ela realmente sabe como fazer perguntas, não é? Eu poderia mentir... Seria fácil mentir, eu sou um mentiroso excelente na medida em que, se quiser posso inclusive fazer com que a pessoa sinta uma sinceridade que não existiria, mas... ela nem demonstra medo de mim. Eu podia sentir a sua confiança inerente de que eu não a machucaria. Eu não queria mentir pra ela. Desviar. Desviar pode ser uma boa coisa. Me ajeitei no sofá e tomei-lhe as mãos e prendi seus olhos nos meus. Eu queria que ela visse em meu olhar o meu arrependimento.

- Bella, eu quero que você saiba que eu nunca quis perder o controle da forma como fiz. Este... lapso. Eu não acho que esta palavra cobre, parece excessivamente casual, mas... isto me envergonha profundamente. Olha, eu lamento tanto tudo o que aconteceu... Se eu apenas pudesse voltar no tempo... Mas isso, lógicamente é impossível. Tudo o que eu posso fazer é garantir que eu sinto muito. Eu sei que isso é pouco, no entanto...

- Jasper? Eu não te culpo. Nunca te culpei. Você não têm culpa alguma do que aconteceu. – Ela falou isso e eu juro: ela era absolutamente sincera. Como ela poderia não me culpar? Eu não entendia. Quer dizer, eu quase a matei! Como ela poderia sequer não me culpabilizar pelo meu controle débio? Eu estava tão perplexo com a sua atitude que congelei.

- Posso te perguntar uma coisa?

Eu balancei a cabeça ainda entorpecido e notando que eu estava agindo como um idiota, tratei de chutar um rápido “Claro!”

- Você, pode sentir a sede dos outros?

- Não exatamente.

- Como assim?

- Eu não posso sentir nenhuma sensação física que outras pessoas tenham. Sede, fome, e mesmo a dor, se ela não for emocional, eu não posso sentir. Mas você vê? A sede é a queima ardente da sua garganta, mas ela desencadeia reações emocionais também. Necessidade, desejo desesperado, ânsia... Isto eu sinto.

- Então, você estava recebendo a ânsia, a necessidade e o desejo desesperado de seis outros vampiros, sendo que para um deles eu sou sua cantora. Enquanto lutava com a sua própria sede?

Jesus Cristo! Quem é esta garota? Nunca, nenhum dos meus irmãos ou pais me fizeram perguntas como estas. Mesmo Edward que podia acompanhar todo o processo lendo a minha mente, jamais se deu ao trabalho de refletir a respeito disso. Como justamente uma humana, estava percebendo tanto?

- Você sabe? Uma vez eu estava no balé, e nós íamos fazer uma apresentação no teatro. Nós estávamos vestidas de camponesas, e por isso, estávamos descalças. Havia uma escadaria que levava ao palco. Eu não vi que alguém tinha quebrado um vidro ali. E claro, sendo eu quem sou, eu me cortei. Mas eu não senti nada, até que me disseram que o meu pé estava sangrando. Agora, mesmo que você não sinta a sede dos outros diretamente, eu imagino que pegando todos estes sentimentos deles, você vai com certeza ser obrigado a focar na sua sede e ela vai se aguçar. Por outro lado, os sentimentos irão diminuir a sua capacidade de resistir.

Ok. Eu assumo, eu estava pasmo! Sim, é claro que sim... Isso fazia todo sentido!

- E ainda há a questão do reflexo condicionado. – Comentei pensando alto

- O que? – Bella me perguntou e eu pisquei algumas tantas vezes, tentando refocar a minha mente sobre ela

- É... Bom, isso se aprende em faculdade de psicologia; eu a cursei algumas vezes. Enfim, eles fizeram uma experiência com cães. Eles tocavam uma sineta e lhe davam o alimento. Depois de um certo número de vezes que repetiram este procedimento, os animais começavam a salivar só com o som da sineta; não precisava mais nem lhes dar a comida pra que seus corpos agissem como se estivessem diante da comida. Estes sentimentos são todos meus conhecidos; eu os sinto quando estou com sede. Mesmo que na ocasião eu não estivesse pensando a respeito de beber sangue, ao sentir tudo isso, eu tenderia a ficar com sede.

- Como um humano que nem está com fome, mas mostre-lhe o prato ou mesmo apenas o cheiro de sua comida predileta e ele logo se recorda que ele tem estômago. – Disse ela.

- Bella, você é absolutamente incrível!

- Dificilmente.

Foi a resposta dela, que não passava de um mero sussurro. Subitamente a tristeza, a dor e o sentimento de insignificância dela eram dilacerantes.

- Bella, não! Não vá lá. Acredite em mim: algumas das considerações que você fez, nunca ninguém tinha feito; ninguém se deu ao trabalho possivelmente. Talvez seja mais fácil pra eles assim: sem saber que eles contribuem com a sua própria sede, para que seja mais difícil pra mim manter a minha na baia. Por outro lado, eu não quero culpá-los, porque em última instância, eu sou o que sou. Um empata e um vampiro. Por tudo o que conversamos, talvez seja realmente uma boa idéia eu ficar sozinho. Pelo menos por enquanto. Mas Bella, eu decidi a muitos anos atrás que eu queria ser um vegetariano. Eu tenho dificuldades, mas a minha decisão jamais vacilou. Aliás, mais do que qualquer outro, eu preciso ser vegetariano. Pra minha própria sanidade mental e paz de espírito. Aparentemente, no entanto, eu vou precisar pagar um preço bem mais alto pra atingir o nível de controle que eu preciso ter. Mas você me ajudou a entender melhor o que acontece comigo. Bella, eu sou um vampiro a mais de 160 anos. No entanto, precisou que você viesse e apontasse o dedo e me mostrasse o que está errado. Se isso não é ser incrível, eu não sei o que é. Obrigada!

Ela voltou a chorar. Merda! O que aconteceu agora?

- Bella?

- Se eu sou tão incrível Jasper, porque eu não sou boa o suficiente pra ele? – Ela me perguntou quase gritando, as faces afogueadas e as mãos tremendo — Se eu sou tão incrível, porque todos me abandonaram e foram cuidar das suas outras distrações?

Eu passei as mãos pelo meu cabelo, por pura frustração.

- Quem lhe disse que você não é boa o suficiente pra Edward?

- Ele! Quando me deixou, na floresta. Ele disse que não me amava, que estava cansado de fingir ser o que não era. Que eu não era boa pra ele. Que iria procurar outras distrações.

Floresta... Não é boa o suficiente... Outras distrações? Cara eu vou matar o Edward. Como ele pôde fazer uma canalhice dessas com ela? E na floresta? No que ele estava pensando? O episódio com James e a própria morte do Emmett, não lhe ensinaram nada?

Eu estava com tanta raiva do bastardozinho que realmente era uma boa coisa que ele não estivesse nem no mesmo estado que eu; ou eu poderia muito bem ser tentado a arrancar uma perna e esconder. Mas eu precisava me controlar, a garota estava se desfazendo na minha frente. E ela era a prioridade aqui.

Dessa vez, eu enviei-lhe alguma calma. Não o bastante pra calar os seus próprios sentimentos, mas o suficiente para lhe dar a chance de me escutar. Eu a envolvi em meus braços e novamente, tentei tranqüilizá-la. Quando senti que ela estava pronta para me escutar, eu me afastei.

- Querida, eu não sei como dizer isso de modo ameno. Esme é a profissional na hora de dizer as verdades duras de forma amigável. Eu não. Eu vou direto ao ponto. Então eu peço desculpas por isso. Esta pronta?

Ela acenou.

- Edward mentiu pra você. Ele não saiu porque ele não te amava. Ele saiu porque ele queria protegê-la. Ele sente, que o nosso mundo é perigoso demais pra você estar nele. A minha perda de controle o fez acreditar que é uma questão de tempo até que um vampiro a mate. Seja por querer ou por acidente.

Eu dei uma pausa, tanto porque o que eu falaria em seguida era um tanto pessoal, como também porque queria ter uma apreensão sobre como Bella estava tomando tudo aquilo que eu estava lhe dizendo. Os olhos dela estavam arregalados, fixos em mim. Surpresa era a sua emoção de frente. Por baixo dela, havia uma espécie de caldo emocional tão complexo, que ficava difícil, até mesmo pra mim, descobrir os componentes. Mas esperança e decepção estavam entre eles.

- Bella, as pessoas costumam dizer que não é possível amar outra pessoa, se você odeia a si mesmo. Isso é besteira. Quando eu comecei a amar Alice, eu me odiava. De fato, eu queria morrer. Eu achava que a única maneira de eu fazer algum bem ao mundo era se eu sumisse dele. Ela apareceu e eu me apaixonei por ela. Mas ai é que está, chega um ponto em que você tem duas opções: ou você deixa o ódio a si mesmo ir embora (ao menos o bastante pra aceitar a felicidade e o amor da outra pessoa). Ou você vai empurrar a pessoa para longe de você. Eu nunca entendi o porque de Alice me amar e em um dado momento, eu decidi que isso não importava mais. Qualquer que fosse a razão para ela me amar, tudo o que poderia fazer era ficar grato. Edward esta tomando o outro caminho. Bella, Edward se odeia. Ele vê a si mesmo como alguém desprezível e monstruoso. Não importa o que ele tenha lhe dito, a verdade é que na cabeça dele, ele é que não merece você. Ele é que não é bom o bastante pra você. Bella, Edward te ama, mas ele se odeia mais.

Eu parei para ver de novo a reação dela às minhas palavras, mas ela estava aturdida demais, aparentemente, pra fazer qualquer julgamento a respeito. Então, eu continuei:

- Outra coisa, que você precisa entender e acreditar sem a menor sombra de dúvida: você é alguém especial e você, vale a pena!

Ela deitou a cabeça sobre as minhas mãos e chorou mais um pouco, mas agora, havia uma certa leveza em seu choro, um certo alívio.

- Obrigada!



Notas finais
Poxa gente, eu tô muito feliz com os reviews do outro capítulo e eu só posso torcer pra que voces gostem deste tanto quanto gostaram do outro; com sorte, um pouquinho mais. Me digam o que acharam de toda esta conversa. Beijos pra todas