Recomeçar

10 De volta pra casa


O dia de hoje foi mais pesado do que eu imaginei que seria. Mesmo tendo tão recentemente caçado, quando Bella começou a falar sobre Alice, eu senti a raiva me dominar e então, as batidas de seu coração começaram a ser atraentes. Não ajudou muito que ela tivesse se posicionado bem a favor do vento e que seu cheiro ficasse rodando em torno de mim como o chamado de uma sereia. Eu acho que foi só a sua dor emocional que me garantiu manter o controle.

Como empata era algo instintivo da minha parte, aproximar-me de quem estava se sentindo feliz e me afastar de quem estivesse sofrendo. E quando eu terminei de explicar as diferenças que havia entre a sua separação e a minha, a dor dela era tão intensa que calou toda e qualquer sede que eu pudesse ter. Tudo quanto eu queria era ajudá-la.

Quando ela começou a socar o saco de areia com a foto do Edward, no início eu estava bastante satisfeito com isso. Depois eu comecei a ficar preocupado. Deveríamos ter tido tempo de fazê-la calçar as luvas que comprei. Mas a nossa pequena discussão acabou não dando oportunidade para isso. Agora, os nós dos seus dedos estavam ficando muito vermelhos. Se a pele rompesse, será que eu conseguiria manter o controle? Na dúvida eu parei de respirar e calei todo incentivo que estava dando a ela. Eu precisaria manter o meu fôlego na hipótese de realmente necessitar falar algo.

Apesar de tudo isso, eu não creio que ela tenha notado o quão perto eu estive de refazer o pior erro de toda a minha existência. Ela estava perdida demais exorcizando os seus próprios demônios, pra notar os meus. O que eu só poderia agradecer. Ah, as pequenas graças. O que seríamos sem elas?

Depois de tudo acabado Bella ficou por um bom tempo apenas sentada na entrada da garagem observando o dia virar noite. Eu sentei-me ao lado dela, em silêncio, com o braço sobre os seus ombros, tentando apenas lhe dar algum conforto. Quebrou o meu coração quando ela me disse o quanto ela acreditou que Edward fosse perfeito. A decepção dela era maciça. Mas doeu ainda mais ter que dar a resposta que dei. Ali, eu já não me referia a Edward.

Sim, é claro. Ele não era perfeito. Mas estava longe de ser tão danificado quanto eu era. A minha separação de Alice era a prova cabal disso. Nem mesmo ela, que era sempre tão otimista conseguiu suportar viver comigo.

A minha tristeza se intensificou ainda mais quando me lembrei de uma coisa: Não tardaria muito mais para que os papeis de nossa separação chegassem. Uma assinatura ali e já não seríamos marido e mulher. Parecia tão... estranho, que um casamento de 60 anos como o nosso pudesse ser tão facilmente dissolvido... Mas assim era a vida, não é? Eu apenas ainda não sabia como iria levar isto.

Mas era melhor eu não pensar nisso. A última coisa que Bella precisaria agora era de alguém depressivo ao seu lado. Principalmente, se eu começasse a projetar. Ela já estava ruim o suficiente carregando o peso de seu próprio sofrimento.

Tentando me distrair eu tomei as suas mãos delicadas nas minhas. Os nós de seus dedos ainda eram carmesin e a pele da área estava nitidamente esfolada. Mas felizmente, não havia sangue.

- Vou ver se encontro uma pomada pra isso aqui. – Disse-lhe enquanto me levantava. Ela pareceu despertar de suas próprias reflexões.

- O que vampiros fazem com pomadas?

Nem bem ela terminou de falar e o seu rosto ficou rubro de vergonha.

- Tendo pensamentos divertidos? – Eu perguntei apenas pra provocá-la. E garantir que ela ficasse de um tom ainda mais carregado. Emmett adoraria vê-la assim – Na verdade, como médico, Carlisle recebe algumas amostras grátis de vários medicamentos. Pomadas estão entre eles. Mas o uso que você imaginou também pode ser feito. Mas então, óleos de banho são muito mais convenientes. O cheiro é sem dúvida mais agradável.

Bella abriu e fechou a boca um par de vezes, o constrangimento ainda se derramando dela em ondas poderosas. Achei que era hora de dar uma folga pra coitada.

- Eu vou pegar a pomada pras suas mãos.

Fui até o escritório de Carlisle em um ritmo muito humano, afim de dar-lhe tempo para se recompor. Peguei o medicamento e voltei. Ela tinha deitado no chão da garagem, as mãos agora cobriam seu rosto.

Me sentei ao seu lado e ela afastou as mãos dos olhos pra me olhar. Era estranho estar sob seu olhar assim. Ela parecia estar pesquisando-me cuidadosamente. Achei mais conveniente desviar o olhar. Peguei um pouco do creme e esfreguei em sua mão.

- Me desculpe. Eu não tinha o direito de falar do seu relacionamento com Alice, da forma como fiz. Eu apenas... Não sei, estava me sentindo atacada e tentei me defender. Mas isso não foi justo.

- Está tudo bem. Eu entendo – Disse-lhe tentando tranqüilizá-la e também encerrar o assunto, confesso. Vendo que uma das mãos já estava com uma camada grossa do remédio, eu a deixei e peguei a outra mão dando-lhe o mesmo tratamento.

- Eu ainda não entendo. Você disse que ele me ama? Como alguém que ame outra pessoa faz o que ele fez pra mim?

Eu suspirei.

- Bella, veja mesmo sendo um empata, o nome dos sentimentos é uma questão de interpretação. Imagine um degrade de cores. Imagine do vermelho ao rosa. Os extremos, você não terá dificuldade em nomear. Isso é vermelho, isso é rosa. O ponto em que uma cor se torna outra, pode ser mais complexo. Uma pessoa, pode chamar àquele tom de vermelho. Outra de rosa. Consegue entender? Sentimentos são assim também. Acho que em boa parte, no caso dos sentimentos do Edward por você, essa dicotomia é devida ao fato da própria maneira como ele se sente com respeito a ele mesmo.

Eu levantei a cabeça neste momento pra ver como ela estava recebendo as minhas palavras. Bella tinha o cenho franzido e o olhar confuso. Suas palavras seguintes apenas serviram pra confirmar que eu não estava sendo tão claro quanto eu achei que estivesse.

- Eu não entendo. – Ela falou. E eu me senti constrangido. Não queria realmente entrar em tantos detalhes, parecia um tanto indiscreto da minha parte, expor tanto a forma como eu percebia os sentimentos de Edward. Por outro lado, depois do que ele tinha feito a Bella, eu achava que ela deveria ter o direito de pelo menos, entender melhor a sua situação com ele, uma vez que ele tinha lhe dito tantas mentiras. Engoli em seco e prossegui.

- Lembra do que disse quanto a Edward odiar demais a si mesmo? Por mais que ele goste de você, ele ainda fica preso entre aceitar viver isso, ou afastá-la; por não acreditar que mereça ser feliz ao seu lado. Mas ai é que está: cada vez que surge o sentimento de querer afastá-la, eu acho que ele fica com medo de lhe perder. O que o leva a querer prende-la a ele. Não é lógico. Mas são impulsos divergentes que convivem dentro dele. Por isso, ele tem a necessidade de saber o tempo todo onde você está. Ele diz que é pra sua segurança. Eu não acredito totalmente nele. Não estou falando que ele não a queira segura, apenas não acho que esta seja a única razão. O amor dele tem uma boa margem de possessividade, digamos assim. E eu não me espantaria se ele sentisse alguma raiva de você também.

- De mim? Por que?

Eu sorri.

- Isso tudo pra ele é confuso, você o confunde terrivelmente. Eu não acho que Edward goste de sentir-se assim. Lendo a mente de todos, ele está excessivamente habituado a ter certezas. Acho que é enervante pra ele não ser mais capaz de estar certo, não apenas daquilo que se passa em sua mente, já que ele não a pode escutar. Mas nem mesmo na mente dele. Pra ser absolutamente justo com o meu irmão, entretanto, eu devo dizer que esta raiva, é bastante inconsciente. E que não é só a ele a quem você confunde; você minha cara, nos confunde a todos.

- Até a você?

- Principalmente a mim. – Disse-lhe com toda a sinceridade e com alguma diversão também — Eu ainda não entendo como você pode confiar em mim da forma como o faz. Como pode não sentir medo de mim.

- Você tem raiva de mim? Por eu o confundir?

- Não. Raiva de você é o último sentimento que poderia ter. É um alívio pra mim, não ter o medo como pano de fundo nas emoções que alguém dirige a mim. Ainda assim é estranho. Eu me habituei a isso.

Ela voltou a sentar-se e tocou o meu rosto com leveza na altura do maxilar. Seus olhos de chocolate mergulharam nos meus.

- Eu lamento. Agora eu posso entender porque, mesmo quando você estava em meio a sua família eu sempre o senti tão sozinho. Ninguém deveria sentir-se assim.

Se eu pudesse ter corado, eu acredito que eu teria. Eu estava envergonhado pelo seu comentário. Na verdade, eu me sentia terrivelmente nu e vulnerável. Tentando disfarçar o meu desconforto, eu dei um sorriso trêmulo pra ela.

- As coisas são como são. É perda de tempo e de energia lamentar que elas não sejam diferentes.

- Ainda assim, é humano.

- Eu não sou humano.

- Você já foi. E acho que você ainda têm muita humanidade dentro de si.

- Eu não sei.

Eu tinha? Pensei comigo mesmo. Não me perguntava isso meramente por ser um vampiro. Não. Carlisle era tão vampiro quanto eu. No entanto, da humanidade dele eu não tinha dúvidas. Já a minha... Depois de tudo o que já fiz, será que ainda tinha humanidade em mim?

- Porque os Cullens têm medo de você?

- Quem disse que eles têm?

- Você. Você disse que estava habituado a ser temido. As pessoas com quem você convive são os Cullens.

- Eu interajo com humanos. – Eu lhe disse dando uma pequena cotovelada.

- Por favor! A exceção de mim, vocês mal olham para os demais!

- O que posso dizer? Era difícil perdê-la, você estava sempre pendurada no meu irmão ou ele em você... Isso sem contar o seu aroma, é claro!

Eu ainda estava tentando me esquivar, talvez o humor funcionasse.

- Jasper! Se você está tentando me jogar pra fora dos trilhos, não vai funcionar.

Definitivamente, a garota era perceptiva. Até demais.

- Tem haver com o meu passado e também com os meus problemas de controle. – Expliquei-lhe finalmente.

- Gostaria que você me falasse logo sobre o seu passado. Eu não quero que você se sinta sozinho. Mas acho que isso não vai mudar até que você me conte sobre ele.

Ela estava certa. De novo. Eu apenas dei um suspiro. E voltei o meu olhar para a casa, lembrando-me do vídeo game e dos jogos que lhe tinha comprado.

- Uma pena que já seja tão tarde. Ou eu poderia lhe dar o seu presente. Mas isso, requereria um pouco de tempo pra que você o pudesse aproveitar.

- Sim, suponho que seja hora de eu ir. Ainda tenho que descongelar o jantar de Charlie.

- Eu a acompanho.

- Você vai deixar meu pai saber que estas por aqui?

- Por que não? – Disse com um dar de ombros – Uma vez que ele precisará saber, por que não lhe contar agora? Vamos lá. Vamos encarar o chefe Swan.