Recomeçar

11 Charlie


Antes de irmos pra casa, Jasper me empurrou um coco, uma salada de frutas devidamente encharcada de chantilly e uma barrinha de granola. Eu tentei recusar. Realmente tentei. Mas ele falou que eu não tinha me nutrido direito, que eu suei muito, que ele não queria arriscar uma baixa de glicose e um subseqüente desmaio enquanto eu estava no volante, até porque ele teria que me acompanhar em sua Ducati, pra dar veracidade a história que contaríamos... Enfim, pra simplificar o conto; eu comi. E me senti completamente cheia depois.

A viagem até em casa pareceu ter durado um único segundo, tão imersa em meus próprios pensamentos eu estava. Será que era por isso, por medo de me perder que Edward era... Tão controlador? Sempre dizendo-me o que fazer. Diminuindo as minhas opiniões dizendo-me que eram absurdas, tolas ou qualquer outro adjetivo equivalente? Possivelmente.

Isto me fez olhar Edward de uma perspectiva bem diferente. Eu sempre soube que era insegura. Mas ao que parecia, apesar de sua beleza, seus poderes e seu dinheiro, ele poderia ser ainda mais. Com o agravante de que ele sentia necessidade de me diminuir, pra que ele ficasse mais a vontade. Não que ele alguma vez tenha falado isso. Claro que não. Ele me elogiava, dizendo que eu era bonita e coisas assim. Mas quando a coisa fugia das palavras e ia para o plano das ações, eu não passava de uma criança boba pra ele. Incapaz de decidir o que quer. Incapaz de escolher o seu próprio caminho. Eu nunca tinha pensado em Edward como alguém mesquinho, até agora.

Engraçado, como com Jasper, eu não me sentia assim: aquém, abaixo dele. Eu me sentia a vontade o bastante pra falar palavrões, pra fazer tolices, pra ser eu mesma, sem todo aquele formalismo que Edward praticamente exigia. E mesmo assim, eu sei que Jasper não iria pensar menos de mim por isso. Mesmo ele também sendo um vampiro. As nossas conversas também eram muito mais francas e muito mais profundas, ainda que vez ou outra trocássemos pequenas provocações entre nós. Talvez fosse apenas o momento que ambos estávamos atravessando. Ou talvez Edward não acreditasse que eu poderia conversar neste nível com ele, eu não sei. Mas era diferente.

Eu suspirei e olhei a minha casa, podia ver a luz da televisão ligada através da janela da sala. O que queria dizer que Charlie já tinha chegado. Pelo espelho retrovisor, vi Jasper estacionar a sua moto logo atrás do meu caminhão. E logo estávamos lado a lado em frente a minha casa.

- Diga a ele que nós nos encontramos em Port Angeles em uma livraria.

- Nós não temos nenhum livro.

- Isso porque você nunca chegou a entrar nela. Eu estava lá e você quando me viu através do vidro da porta, ficou parada e eu sai pra cumprimentá-la. Nós então ficamos conversando.

- Acho que ele pode acreditar.

Ele arqueou a sobrancelha pra mim e deu aquele sorrisinho que eu já começava a identificar que sempre vinha acompanhado de alguma provocação.

- Bom, se você quiser, eu posso explicar pra ele. Sou bom ator, diferente de algumas pessoas.

Eu revirei os olhos.

- Você sabe? Você não deveria me torrar a paciência. Você ainda tem que me pagar pelo que você me aprontou ontem.

Ele deu de ombros. Nem um pouco preocupado com a minha ameaça. Pobre vampiro, não perdia por esperar.

- Oi Pai.

- Filha. Eu estava preocupado. Onde você andou?

- Fui a Port Angeles, ver se comprava um livro pra me distrair. Olha só quem encontrei por lá. – Disse-lhe dando-lhe um rápido abraço e um beijo na bochecha que muito surpreendeu Charlie. Ele me segurou por um momento e me olhou nos olhos como se procurasse algo. Eu não sei o que ele achou, mas o fez dar um sorrisinho satisfeito.

Neste momento, Jasper entra e os olhos de Charlie perdem de imediato a leveza. Era visível que meu pai agora estava em guarda.

- Chefe Swan. – Cumprimentou Jasper. A mão estendida em direção ao meu pai. Charlie ainda me abraçando pela cintura, apertou a mão dele de maneira cautelosa e puxou-me mais para perto da lateral do seu corpo, como se quisesse me proteger.

- Você não é um Cullen? – Charlie perguntou como se o nome da minha antiga família fosse uma espécie xingamento. Estremeci. Isso não estava indo bem.

- Na verdade, meu sobrenome é Hale, mas sim, eu sou um dos filhos adotivos de Carlisle.

- Eu pensei que todos vocês tinham ido embora...

- Sim, mas as contas da casa, de água, parecem indicar que deve haver um vazamento em algum lugar. Ademais, ainda há algumas coisas que não foram transferidas para a nova casa. Então, como eu estou aguardando a vaga na universidade da Califórnia, pra ficar perto dos demais, o senhor sabe. Papai pediu-me que cuidasse disso.

- Mas você está aqui sozinho?

- Sim senhor. – E essa foi a dica pra Charlie relaxar ao meu lado e eu soltar a respiração que nem sabia estar prendendo.

- E depois você irá seguir os demais.

- Este é o plano.

Escutá-lo dizer que a sua permanência em Forks era apenas temporária, trouxe um aperto ao meu peito. E imediatamente os olhos de Jasper desviaram em minha direção. Mesmo sabendo que ele já sabia o quão perturbada as suas palavras me fizeram, eu ainda tentei disfarçar, ao menos pra Charlie.

- Então pai. Jasper me disse que estava morrendo de fome, e eu resolvi trazê-lo para casa, pra jantar. Espero que esteja tudo bem.

- Claro. Sente-se menino, gosta de baseball?

- Quem não?

- De fato. E então, aceita uma cerveja?

Minha dica pra fugir pra cozinha. Sem surpresas escutei a recusa de Jasper a bebida.

- Não posso senhor. Estou dirigindo.

- Bom, é bom ver que você é responsável. Não gostaria de ter que o multar por vê-lo dirigindo embriagado.

- Não senhor. Eu estou muito certo de que isso jamais irá acontecer.

Claro que não, pensei revirando os olhos. Estúpidos vampiros. Mas eles me pagam. Ele me paga. Sai de lá, muito sorridente. Com uma latinha de coca já aberta pra não lhe dar chance de recusa.

- Nós temos refrigerantes Jasper, esses você pode beber sem medo de ofender as leis de trânsito. Beba. Está gelado do jeito que você gosta. E não se preocupe, temos mais uma lata para acompanhar a janta.

Ele rosnou, sabendo muito bem que eu o estava encurralando.

- Isso foi o seu estômago?

- A- acho que sim. – Disse ele, bebendo um gole da bebida e tentando, não muito bem, disfarçar o desconforto.

- Que bom. Adoro quando as pessoas raspam o prato. Em sua homenagem, vamos ter o seu predileto: Lasanha ao molho a bolonhesa.

Os olhos cor de wisky brilharam com uma expressão que parecia me implorar por piedade. Mas eu não estava me sentindo nem um pouco piedosa hoje, na verdade, toda a situação era muito divertida ao meu ver. Assim sendo, virei as costas como se não tivesse pego o seu olhar e disse:

- Em 5 minutos estará tudo pronto.

- Ah, Jasper. Você vai adorar a lasanha da Bells, é uma delícia! Jacob quando vêm aqui, eu tenho que segurar o prato ou ele come o tabuleiro sozinho!

- O Jasper é idêntico. – Eu disse da cozinha, observando que os ombros dele estavam caídos em derrota. – Também, sendo desta altura, tem mesmo que comer bem.

- Verdade. Saco vazio não fica de pé. Essa é uma lição que você deveria guardar também Bells – Disse-me, Charlie.

- Ah, eu guardo. – Eu assegurei e olhei de maneira significativa pra Jasper, que engoliu em seco.

- Oh Bells, Billy e Jacob estão nos chamando pra visitá-los amanhã; o que você acha?

- Por mim, tudo bem papai.

- Bom. Vou deixá-los saber então que nós estamos chegando.

- O jantar está pronto. Venham rapazes!

Meia hora depois eu ainda estava sentada a mesa acrescentando mais comida no prato de Jasper, que estava realmente tomando uma aparência esverdeada. E eu que pensei que eram só os seus olhos dos vampiros que mudavam de cor. Eu juro que a todo momento eu tinha que me controlar pra não dar uma risada, só de olhá-lo.

- Bella, a comida está... excelente, mas eu realmente preciso ir.

Acho que este era o seu código pra “preciso vomitar”.

- Não quer ficar mais um pouco? – Perguntou Charlie querendo ser educado.

- Isso Jasper, fique mais, ainda está cedo. – Confirmei rindo maldosamente.

- Não eu... realmente preciso ir. Tenho que ligar pra minha mãe. Ela sempre me pede que lhe ligue na mesma hora pra ela saber que está tudo bem comigo.

- Ah, sendo assim...

- Ok. Eu te acompanho até a porta.

Eu disse pensando em dar uma última risada do vampiro com má digestão. Porém, nem bem sai de casa e ele me agarrou pelo braço e me levou até a linha das árvores. Pega de surpresa, eu nem reagi.

- Você se divertiu muito me fazendo comer, não é? Quero ver se aprecia a visão de como a comida sai.

E com isso dito, ele espalmou a mão no meu colo e me prendeu junto a uma árvore. Eu arregalei os olhos. Ele não estava pensando em fazer isso comigo ao seu lado, não é? Mas bastou um olhar pra sua expressão e eu soube. Sim, ele está sim. Imediatamente eu tentei sair da minha prisão. Sem sorte. No segundo seguinte eu tinha a visão de Jasper vomitando bem ao meu lado. Só o cheiro fez o meu estômago embrulhar. Eu virei o rosto em desgosto, tentando poupar-me da visão. Quando ele se levantou. Eu disse a única coisa que me ocorria no momento.

- Arght! Isso foi nojento!

- Você achou? Bom. Da próxima vez então você não vai me obrigar a comer comida humana, não é?

- Tudo depende de você parar de agir como você agiu ontem.

- Tá, tudo bem. Quites?

- Quites.

- Deixe-me saber quando você estará em casa. Se der, a noite, podemos ir a um barzinho que eu conheço em Port Angeles. Acho que irás gostar, é temático.

Temático? Isso soava... muito perigoso. Milhares de temas constrangedores passaram pela minha cabeça: mil e uma noites, noites trash...

- Qual o tema? – Perguntei cautelosamente.

- Cowboy.

- Ok.

Eu parei ao lado da sua moto enquanto ele a montava sem dificuldades.

- Eu lhe daria um beijo em sua bochecha, de despedida, mas...

- Arght, sem beijo. – Falei já recuando. A imagem muito nojenta, ainda estava fresca em minha memória.

- Até amanhã então.

- Até.