Recomeços

2 Nova casa, novos vizinhos


Tive mais um daqueles sonhos com meu irmão, parecia que ele estava mais próximo de mim nesses últimos meses. Mas isso seria impossível, ele estava morto, assim como minha mãe. Desci as escadas e quase caí quando cheguei à sala, as caixas ainda estavam espalhadas me fazendo tropeçar em todas. Fui até a cozinha e encontrei um bilhete do meu pai.

”Sophie, fui ao mercado comprar comida. Não se preocupe voltarei logo. Tome o café da manhã e arrume suas coisas. Xx John”

Tomei o meu café da manhã, mas não arrumei as coisas. Ao contrário, me vesti e fui da uma volta na vila. Conhecer pessoas novas e lugares novos.

Saí de casa e fui andando em direção ao início da rua. No meio do caminho ouvi alguém chamando o meu nome, não reconheci a voz.

- Sophia? – ele perguntou.

- Sim, Baker não é?

- Sim, Leonard Baker. Tudo bem?

- Tudo sim e você?

- Também, o Will me disse que vocês ficaram conversando ontem à noite.

- É. Nossas sacadas são uma de frente para outra. – eu disse sorrindo. Ele também sorriu.

- Posso te chamar de V também? – ele perguntou.

- Claro Baker.

- Ok V, mas me chame de Leo. Qual a sua música favorita do A7X? – nossa, fiquei impressionada com a velocidade em que a informação corria ali. Will deve ter conversando com Baker, quero dizer, Leo depois que eu fechei a cortina.

- Eu não sei, é tão difícil escolher. Acredito que seja Unholy Confessions, ou Scream, ohh, eu não sei. – disse e comecei a rir. Sempre que me faziam essa pergunta eu ficava nesse impasse.

- Scream. – ele escolheu por mim. Acho que me encontrava em um clã de fãs de música boa aqui!

- Vai conhecer a vila?

- Pretendo.

- Bom, eu posso te mostrar as casas mais estranhas daqui.

- Eu adoraria.

- Bem, você já mora na casa mais estranha. – ele disse rindo. Percebeu a minha cara de desentendida e resolveu explicar. – É que nós nunca vimos ninguém morando nessa casa.

- Sério? Por quê?

- Eu não sei, mas vocês são as primeiras pessoas que entraram legalmente na casa.

- Legalmente?

- É, sabe, a casa estava fechada, mas eu e os meninos já entramos lá.

- Verdade? Que legal, então devo acreditar que vocês conhecem a minha casa?

- Com certeza, e sabendo que o seu quarto e de frente para o do Will, devo dizer que o seu quarto é o melhor.

- É mesmo, meu pai disse que eu podia ficar com ele.

- Nós entravamos por lá sempre, nós pulávamos da sacada do Will. — disse ele rindo, parecia que se lembrava de algo engraçado.

- Ok, agora eu já sei que moro na casa mais estranha, mas qual a casa com a melhor história?

- Isso eu não posso te contar. Tenho que pedir permissão antes.

- Permissão? – perguntei levantando uma sobrancelha.

- Sim, vai que os meninos não querem que eu te conte! – ele disse normalmente. – Vê aquela casa? – perguntou apontando para uma casa na esquina.

- Sim

- o Sr. Vallentine mora lá. A esposa dele morreu há uns seis anos e já faz quatro anos que todo final de semana uma garota nova sai da casa. – ele começou a rir e eu o acompanhei. – Naquela casa, mora a família Harker, são uma família louca. De verdade. A Vó Harker tem o cabelo roxo e vive cantando umas músicas bem estranhas. Ela mora aqui desde sempre, é a habitante mais velha de toda a vila.

- Cabelo roxo?

- Aham.

- Que divertido, quando eu estiver velha quero ter cabelo roxo também! – eu disse e não estava brincando. Se eu chegar à terceira idade vou ser uma velhinha legal.

E assim nós passamos o resto da manhã, Leo me mostrando as casas e contando as histórias mais bizarras.

Nós sentamos na calçada e continuamos a conversar.

- V, posso te perguntar uma coisa?

- Claro Baker. – eu continuava a chamá-lo assim, eu adorava dizer aquele nome. BAKER soava legal.

- O Will me contou sobre sua mãe, você não quer conversar sobre isso? – fiquei tentada a recusar, mas eu me sentia tão confortável com o Baker ali que resolvi ceder.

- Bom, cerca de um ano atrás, minha mãe e minha irmã mais velha estavam andando de carro, outro carro passou no farol vermelho e bateu no carro da minha mãe. – eu comecei a chorar. Mentindo ou não eu sentia falta dela. Leo me abraçou e eu continuei chorando com a cabeça no ombro dele. O abraço dele era quente e confortável. Me senti segura para chorar à vontade. Ele ficava sussurrando em meu ouvido coisas como: “Eu sinto muito!”, “Pode contar comigo para qualquer coisa!” e “Vai ficar tudo bem!”. Eu sabia que não ficaria tudo bem, sabia que não precisaria dele, pois não teria tempo.

Ouvi o som do carro se aproximando, me afastei de Leo e constatei que quem vinha era o meu pai. Levantei da calçada.

- Leo, agora eu tenho que ir pra casa. Obrigada. – agradeci. Passar aquele tempo com ele fora incrível.

- Tudo bem V! Qualquer coisa eu estarei ali, — ele apontou para sua própria casa, não era muito longe da minha. – é só gritar e eu apareço. – não pude deixa de sorrir, era bom ter alguém, mesmo que por pouco tempo.

Eu abri o portão para que meu pai passasse com o carro. Depois de descarregar as coisas e arrumá-las nos armários, novamente eu me dirigi à biblioteca junto ao meu pai.

- Pai, posso perguntar uma coisa?

- Claro Sophie!

- Como exatamente o Brian e a Kat morreram? – perguntei, eu não desistiria. Meu pai nunca me contou como realmente aconteceu, eu era muito pequena na época e não vi nada acontecendo.

*~FlashBack~*

- KIMBERLY, KIMBERLY. – eu ouvi meu pai gritando, em questão de segundos vi a porta do meu quarto abrindo e meu pai entrou correndo.

- Kim, acorda meu amor, vamos, nós temos que ir. – nem tive tempo de responder, meu pai me pegou no colo e saiu correndo pela porta, quando abri os olhos vim minha mãe e Kat no chão da sala, minha vista estava embaçada, mas pude reconhecê-las. Tenho certeza de que ouvi Brian gritando.

- BRIAN, BRIAN...- eu gritei de volta, eu queria o meu irmão comigo. Depois disso, lembro de ouvir meu pai gritando e chorando, lembro de ver luzes piscando e muito barulho.

Nunca mais vi nenhum deles, Mamãe, Kat ou Brian.

*~End FlashBack~*

- Nossa Sophia, eu não esperava por essa pergunta!

- Eu sei, mas é que o senhor nunca me contou direito como aconteceu.

- Você tinha apenas seis anos, não iria entender.

- Mas agora eu tenho dezesseis e ainda não sei o que aconteceu.

- O que aconteceu foi que eles morreram, foi isso o que aconteceu. – essa a resposta, “foi isso que aconteceu”.

- Mas...

- FOI O QUE ACONTECEU! – ele gritou, devo dizer que me assustei. Não esperava aquela reação dele.

Me levantei da poltrona e sai da biblioteca sem dirigir a palavra à ele novamente. Voltei ao meu quarto e lá fiquei. Eu já tinha internet no quarto e fiquei lendo os e-mails que eu recebi quando ainda era Melanie. Não chorei dessa vez, acho que não havia mais lágrimas. Como de costume, apaguei a conta de e-mail e não contei a nenhum de meus contatos.

Quando era mais ou menos seis horas da tarde, comecei a ouvir uma música, não consegui identificar qual, mas reconheci a banda, A7X! Ouvi como se alguém estivesse jogando alguma coisa em minha janela, levantei e fui verificar.

Me deparei com Will e Leo parados na sacada do quarto de Will. Eles fizeram sinal para que eu me aproximasse.

- Boa noite meninos!

- Boa noite V! – eles disseram em coro.

- Fazendo o que hein? – perguntou Leo, apontando para dentro do meu quarto.

- Falando com velhos amigos. – menti.

- Ooh! – foi a única reação dele.

- V, você não quer jantar aqui em casa? – perguntou Will, — os outros meninos vão estar aqui também, ia ser legal se você viesse. – pensei por um momento e decidi aceitar o convite.

- Claro, eu vou sim.

- Então vem, vou descer e te esperar lá no portão.

- Ok.

Saí do quarto e desci as escadas gritando para que meu pai ouvisse. Antes que eu tivesse saído pela porta ouvi meu pai me chamando, fiz o caminho de volta à biblioteca.

- Sim? – perguntei secamente, não esqueceria a sua reação hoje cedo.

- Vai jantar na casa do vizinho?

- Vou.

- Está com a faca?

- Pai, eu preciso mesmo levar a faca?

- Sim, você precisa. – ele disse com firmeza. Fui obrigada a voltar ao meu quarto e pegar uma adaga que eu tinha escondido em baixo da cama. Desde que eu tinha oito anos meu pai me obriga a carregá-la para onde quer que eu fosse. Ele me ensinara a usá-la e disse que se algum dia eu precisasse usar, que não hesitasse. Na verdade nunca precisei e sabia que nem precisaria, mas meu pai é meu pai, se ele manda, eu obedeço.

Como de costume, prendi a adaga em um suporte que eu usava na canela direita. Pus uma calça comprida para que ninguém visse.

Cheguei ao portão e Will estava lá, cumprimentando Andrew Moore, que aparentemente havia acabado de chegar.

- V!! – Will gritou como se estivesse surpreso em me ver.

- Will, surpresa te ver por aqui! – se estávamos brincando não seria eu que acabaria com a brincadeira.

- caham... – Andrew pigarreou como quem quer que a atenção se foque nele.

- Oh, boa noite Mr. Moore! – fui educada.

- Pode me chamar de Andy. Posso te chamar de V também? – ele perguntou. Percebi que formalidades não eram o seu forte.

- Opaa, quanta intimidade Andy! – Will brincou e fez cara de indignação. – Entra V, fique à vontade!

- Obrigada. E sim, você pode me chamar de V. – disse me virando para Andy.

A casa de Will era o completo oposto da minha. Toda decorada com móveis modernos. Lindos quadros nas paredes, fotos na mesinha. Pude reconhecer Will e Leo ainda pequenininhos em uma delas. Não pude deixar de sorrir, e de sentir um pouco de inveja. Eu não tinha amigos de infância, e não havia mais tempo para arranjar algum.

- MÃE? PAI? — Will gritou tão alto que fiquei assustada.

- Eu. – ouvi alguém responder e logo após ele apareceu na porta. – Oh, prazer Srta. ?

- Morgan, Sophia Morgan!

- Muito prazer Srta. Morgan sou Michael Gray, pai de Will.

- É um prazer conhecê-lo.

- Venha, junte-se a nós no jantar.

- Seria ótimo! – respondi. Descobri de onde o Will herdou tanta educação. Acho que o Mr. Gray era o homem mais educado que eu conheci em toda a minha vida.

Entrei para a sala de jantar, mais um cômodo espetacular. Uma mesa grande e redonda cercada de belas e delicadas cadeiras.

- Ohh, você deve ser Sophia Morgan não? – a mãe de Will perguntou.

- Isso mesmo, é um prazer conhecê-la Sra. Gray.

- Por favor, me chame de Beth querida.

- Claro!

- Mãe, a V acabou de se mudar para o casarão.

- V? – a Sra. Gray perguntou.

- Sou eu mesma, meu novo apelido.

- Ohh, e como é dentro do casarão querida?

Me surpreendi. A família de Will era perfeita, pareciam muito felizes e acima de tudo, educados.

- É linda. Mas não chega aos pés de sua casa Sra. Gray.

- Obrigada querida. – não, eu não ligava de ser chamada de querida. Era até bom, eu me sentia querida!

O jantar estava delicioso, e a conversa infelizmente girava em torno de mim. Nem preciso dizer mentiras era tudo o que saía da minha boca, afinal, minha vida era uma mentira completa.

Voltei para a minha casa e logo fui para o meu quarto, Will me esperava na sacada.

- A que devo a honra de ter essa bela Srta. em minha sacada? – ele perguntou com uma voz aveludada que, não vou mentir, me deixou louquinha. Mais uma vez entrei na brincadeira.

- Ohh meu nobre Sr. Eu é que devo ao prazer de sua companhia. – eu disse me curvando.

- Doce Srta. não se curve diante de mim, com sua beleza não necessita de tal ato. – percebi que a brincadeira não acabaria tão cedo.

- Nobre Sr. Essas palavras me encabulam e felicitam. Não sei como retribuir tais elogios. – falei com minha educação impecável.

- Ok, chega de brincadeira. Não entendi metade dessa ultima frase. – ele riu e eu o acompanhei.

- Sua casa é incrível Will!

- Obridado. Gostaria de conhecer a sua casa oficialmente algum dia!

- Ahh, o Leo me explicou essa coisa de “oficialmente”. Amanhã talvez você possa conhecer. Mas por hora, isso é tudo o que você pode ver. – eu saí de sua frente para que ele pudesse ver o meu quarto, ou parte dele. De repente Will pulou de sua sacada para a minha, com a maior facilidade. Não me preocupei, eu sabia que ele não era nenhum super herói, afinal as sacadas eram realmente muito próximas.

- Vou começar a trancar a minha porta. – eu falei fingindo medo.

- Não tenha medo, eu nunca faria nada que você não quisesse. – ele falou com a voz aveludada de novo. Era impressão minha ou ele estava me cantando?

Tremi dos pés até as pontas dos cabelos. Rezei para que ele não tivesse percebido. Logo senti sua mão em minha cintura. Nossos corpos estavam cada vez mais próximos, nossos narizes se esbarravam de leve. Aquele frio no estomago só aumentava. O ar já começava a fazer falta. Os lábios quentes de Will esbarraram nos meus. Minha única reação foi morder de leve os lábios dele. Ele gemeu baixinho e separou nossas bocas.

- Muito rápido? – ele perguntou.

- Um pouquinho. – eu fui sincera. Nossas testas ainda estavam coladas e nós ainda estávamos abraçados.

- Desculpe. – ele pediu.

- Não precisa se desculpar, eu te dei espaço. Só não achei que aconteceria. – fui sincera novamente. Ele me abraçou ainda mais forte e me deu um selinho antes de pular de volta à sua própria sacada.

- Boa noite bela donzela!

- Boa noite gentil senhor!

Fechei as cortinas e deitei na cama sem nem colocar o pijama. Aquela atitude de Will tinha me deixada nervosa e feliz ao mesmo tempo. A verdade era que eu queria aquele beijo. Eu queria que Will me beijasse. Mas para ser honesta eu estava tão nervosa, mas tão nervosa que era capaz de fazer alguma coisa muito errada durante o beijo. Eu nunca tinha beijado ninguém. Aquele selinho de despedida tinha sido o primeiro em toda a minha vida. Eu nunca tive nenhum namorado. Nunca tive tempo suficiente para ter um namorado.

Aquele nervosismo todo era também pelo meu medo. Medo de me machucar, medo de me decepcionar e de decepcionar Will. Medo de como seria daqui para frente. Adormeci desejando que Will novamente me beijasse, e dessa vez, eu não hesitaria.

Notas finais
Obrigada a você que leu!!!
e mais uma vez espero reviews..!!
xx
Shads