Recomeçar

1 Capítulo I


Era uma bela noite de quinta-feira e eu, deitado em minha cama, tirei alguns minutos para observar à minha volta. Olhei pela minha janela, que fica ao meu lado esquerdo, e notei que o céu estava coberto por inúmeras estrelas brilhantes. Não havia pássaros, nem podia-se ouvir o barulho de carros. Com tudo tão quieto, virei-me para checar as estantes, que continuavam ali pois eram fixadas na parede branca que cobria todo o meu quarto. Entretanto, algo parecia diferente, não nas estrelas e nem em minhas estantes. Do lado de fora, pude ouvir alguém batendo à minha porta. Esperei alguns minutos para ter certeza de que realmente não era somente algum barulho causado pelo profundo silêncio da minha cabeça, e ouvi de novo. Fui, então, surpreendido pela presença de Britney, minha pequena irmã de apenas seis anos.

– James, eu não consigo dormir. — Contou-me ela. E antes que palavras pudessem sair de minha boca, Britney apontou para o quarto de nossos pais e, intrigada, me perguntou — Você não está ouvindo?

Naquele momento, pude ouvir. Os segundos pareciam inacabáveis quando a realidade me chegou à cabeça. Era uma briga, e não havia como eu explicar isso para Britney de uma forma agradável e que a fizesse entender que o amor de nossos pais estava se esgotando, porém que isso era normal, acontecia. Por conta do susto, minha reação de mentira foi imediata, contudo eu não poderia ter dito algo pior do que o falado.

– Eles estão apenas ensaiando, Brit!

É incrível como com apenas algumas palavras, você é capaz de mudar a forma de alguém pensar e tranquilizá-lo. Britney soltou — ainda que baixo — um alto suspiro de alívio e eu, outro, por pensar que ali fosse acabar e ela voltaria a dormir. Pronto para voltar para minha cama, Britney me presenteou com sua inocência perguntando-me sobre o que eles estavam ensaiando e se ela poderia participar, dizendo que queria acompanhá-los e até ajudá-los a memorizar suas falas. Gelei. Contei-lhe então que ela não podia saber, pois seria uma surpresa para seu aniversário, que estava chegando. Ela ficou chateada comigo por ter contado sobre a tal surpresa e me perguntou se, para não atrapalhá-los, poderíamos dar uma volta.

Como estava tarde, decidi que sairíamos mas que não demoraríamos. Cronometrei trinta e cinco minutos no relógio e partimos até a sorveteria.

Durante todo o caminho, ouvi Britney falando sobre a tal peça e me segurei para que não lhe contasse a mórbida verdade que destruiria sua inocência e coração. Acredito que se naquele momento eu pudesse desaparecer, desapareceria. Não por ela, nem por meus pais. Mas por mim e minha tremenda mentira.

Passados alguns minutos, talvez dez ou quinze, chegamos à sorveteria e aquele drama em minha cabeça havia sido aliviado por pedidos de sorvete, picolé, pirulito e tudo que minha irmã via pela frente. Tive vontade de comprar-lhe de tudo um pouco, para que assim ela pudesse — nem que por alguns instantes — me fazer esquecer a história que contei sobre nossos pais. Entretanto, antes que outros pensamentos tomassem minha cabeça, ouvi aquele barulho de alarme. Droga. Já estava na hora de voltarmos, caso contrário, seria fácil a percepção de nossos pais sobre dois filhos a menos.

– Britney, está ficando tarde. Temos que voltar antes que o papai e a mamãe fiquem preocupados conosco.

– Só mais um pouco, James! Deixe-os ensaiando para que fique tudo perfeito. Ou você quer estragar tudo? — Falava ela, enquanto atuava feito Rose em "Titanic"; mais dramática impossível.

Deixei Britney sentada à mesa e fui pagar o que devíamos por ter consumido dois picolés e um pirulito. Demorei alguns minutos pois o homem que estava no caixa não havia troco para me dar e eu tive que procurar por outra nota.

Finalmente com tudo pago, inclinei meu corpo para trás para que visse Britney e não a encontrei. Chamei seu nome algumas vezes antes de virar-me bruscamente para a mesa onde estávamos e entrar em total pânico. "Eu perdi a minha irmã" era tudo que eu conseguia pensar.

Perguntei ao caixa se ele não a tinha visto sair, e com sua negação, o desespero foi somente aumentando. Eu não poderia voltar para casa sem ela. Mas e se ela voltou para casa sem mim? Não, ela nem devia saber o caminho direito, não era possível. E, em meio a tantos pensamentos, acabei pegando no sono ali naquela mesa onde a perdi. E acordei no dia seguinte, completamente aéreo e confuso.

Uma belíssima mulher, ao me ver daquele modo, parou e veio me orientar. Perguntou o meu nome, se eu era dali e o que havia acontecido. Olhei para ambos os lados e a realidade retornou à minha alma. "O que havia acontecido". Aquela pergunta perfurou o meu peito sendo fatal em meu coração. Havia acontecido, era real. Eu não tinha Britney em minhas mãos.

Dirigi-me até a rua onde moro, parei alguns instantes no sinal que parecia ficar mais tempo aberto para os carros do que para os pedestres. Nunca chegava a hora para que pudéssemos atravessar. Logo, parei em frente à minha casa e, antes de entrar, pensei positivo. Pelo menos naquele momento, algo me dizia que Britney estaria ali, me esperando voltar como quem espera um ídolo começar um show. Como se todos ainda estivessem dormindo, ouvi a bela melodia do silêncio que me confortava.