Recomeçar
2 Capítulo II
Durante alguns minutos, pensei em nunca mais voltar. A coragem e o medo andavam lado a lado, porém a cada segundo me parecia mais difícil escolher. Enquanto pensava, ouvi a porta se abrir e uma voz masculina se voltar para mim.
– James? O que está fazendo aí fora?
– Adam! — Eu o abracei o mais forte que meus braços permitiram. — Você está bem?
– Eu estou... Mas por onde você esteve?
Entrei em casa, fechei a porta e olhei a sala. A nossa mesa era grande e se encontrava bem no centro. Ao lado dela, tínhamos um sofá e três poltronas, que eram viradas para a televisão de 42 polegadas. Nossa mãe tinha o costume de sempre deixar frutas frescas em cima da mesa, e seus cheiros eram magníficos. Por parte de nosso pai, pintor, as paredes azuis eram revestidas por quadros de Van Gogh e Monet, os quais davam um tom culto e ao mesmo tempo, lúdico.
Por alguns instantes, me encantei por aquele cômodo. A simplicidade e autenticidade me fizeram lembrar de Britney, pois ela amava aquilo tudo. E fazia questão de sempre nos dizer isso.
Meus vastos pensamentos foram interrompidos pela voz de Adam.
– James, você está bem? Onde está Britney?
– Ela não está dormindo?
Aprendi em uma aula de teatro que a melhor opção quando não quiser responder a alguma pergunta, é retrucar com outra. E aquilo parecia ter dado certo, Adam apenas balançou a cabeça para os lados, me indicando uma resposta negativa.
Peguei uma maçã e levei Adam para o meu quarto. Disse-lhe que dentro de alguns minutos eu estaria de volta, apenas iriam escovar os meus dentes. Ao invés disso, me dirigi ao quarto de nossos pais.
O chão estava ensanguentado e, em meio a tanto vermelho, pude notar brilhantes dourados. Aquelas eram suas alianças. Caídas ao chão, fora de seus dedos, representavam o "na vida ou na morte" pois, naquele momento, já estavam sem sangue correndo em suas veias. Na cama, seus olhos estavam abertos e ambos permaneciam como as alianças; brilhantes. Ambos pareciam estar vivos, se admirando da maneira como sempre faziam. Três facas enfiadas em seu peito era a situação de minha mãe. Já o meu pai, estava com profundas marcas de cortes cobrindo todo o seu corpo. Me aproximei o suficiente para fechar-lhes os olhos. Com as pálpebras cobrindo seus globos oculares, não era mais possível ver o brilho estonteante dos mesmos. Aquele havia sido o final feliz deles. Apaguei a luz e deixei que o vento fechasse a porta.
Fiz o certo em convidar Adam para dormir comigo, o que eu mais queria era sua presença. Apesar de não ter conseguido dormir, fechei os meus olhos e pude descansar. Fiz questão de mexer nos desarrumados cabelos de meu irmão durante quase a noite inteira. Ele me parecia um anjo.
Olhei ao relógio e logo em seguida, ouvi seu alarme despertar. Eram 5h em ponto.
Saí da cama calmamente para que não acordasse Adam e fui ao quarto de meus pais. Precisei de coragem para abrir a porta que o vento fechara, e consegui. Eles estavam ali, mas com suas almas em outro paraíso. Seus corpos já exalavam o cheiro repugnante da morte. Aquilo me dava vontade de vomitar. Resolvi fechar a porta e ir direto ao quarto de Britney.
Nos fundos da cozinha, eu mesmo havia montado o quarto de Britney assim que mamãe nos deu a notícia que estava grávida de uma menina. Apesar de só ter 10 anos, eu já sabia pintar paredes e vender para poder comprar. Vendi diversos brinquedos meus e com o dinheiro deles, fui aos poucos comprando móveis de boneca para a minha futura irmã. Minha mãe não parece ter ficado muito satisfeita, ela nunca entra aqui para checar como Britney está.
O quarto era cor-de-rosa, com listras brancas. Ao entrar, logo no centro, podia-se ver a escrivaninha lilás. Ao seu lado esquerdo, ficava a janela e, abaixo dela, sua cama. O quarto era pequeno, mas Britney o adorava.
– Britney? — Meus olhos brilhavam.
Deitada na cama com as duas mãos unidas debaixo da cabeça e somente uma perna coberta pelo cobertor branco de flores, ali estava a minha irmã. Queria acordá-la, mas não consegui. Sua face angelical me dizia para que não o fizesse. Quando eu ia acordá-la, tocá-la e falar com ela, ouvi os gritos de Adam.
"Ela está bem", pensei. "Vou checar o que houve com o Adam e depois volto para vê-la novamente. Ela certamente não sairá daqui."
Saí com cautela e deixei apenas uma fresta de sua porta aberta.
– Adam? Onde você está? — Perguntei claro e em alto tom para que ele pudesse me ouvir de onde quer que estivesse.
– Aqui no quintal, acabamos de receber uma carta pelo correio! — Me respondeu ele, completamente alegre por ter visto o carteiro chegando com algo para a nossa família.
De fato não sei se é comum recebermos cartas, pois nossa mãe nunca nos deixa checar a caixa de correios. Por conta disso, fiquei ainda mais curioso para descobrir o que tanto ela escondia de nós.
Ainda que tivesse 7 anos completos, Adam não sabia ler ou escrever. Portanto, me entregou a carta e em seus olhos pude ver que ele me pedia para que a lesse em voz alta.
"Carta de admissão ao hospício Santo André", li para mim mesmo. "Paciente: James Kooper, idade: 16 anos". Eu rasguei a carta sem nem terminar de lê-la e notei a falta de compreensão por parte de Adam. Sem explicar-lhe detalhes, apenas disse que não era nada importante.
Chequei no meu relógio e já eram 6h30. Fui com Adam até a sala onde tivemos o nosso café da manhã. Ele sempre gostava que eu lhe preparasse pão com manteiga e leite. Eu aproveitava e fazia o prato para três; ele, Britney e eu. Britney não tinha costume de vir tomar café da manhã conosco, eu sempre levava seu prato até seu quarto, onde ela comia e depois, levava até a cozinha novamente.
Nessa manhã, foi diferente. Britney veio até a mesa, sentou e disse não querer comer nada. Seu olhar era fixo ao horizonte e não me parecia representar qualquer coisa. Adam olhava para ela com receio e ela não parecia se importar com isso ou com o que quer que fosse.
Ao me sentar, ela imediatamente perdeu o olhar sem expressão, me olhou e me perguntou onde estavam os nossos pais. Mentir estava ficando cada vez mais complicado.
– Eles já foram ao trabalho, Brit. Eles nunca sentam à mesa conosco. — Isso em partes era verdade. Os nossos pais acordavam mais cedo do que todos nós e se arrumavam rapidamente para ir ao trabalho. Em função disso, nunca os víamos antes de voltarem; às 18h. A mentira era que eles não foram trabalhar. Hoje, nós não os vimos dado que eles foram eternamente paralisados pela vida.
Britney pareceu acreditar na minha resposta. Porém algo nela estava diferente, ela estava distante. Eu não sei como ela foi capaz de voltar para casa sozinha, sem mim. E nem como eu fui capaz de voltar sem nem ao menos procurá-la um pouco mais.
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