Recomeçar
9 Catarse
POV Jasper:
Na manhã seguinte, eu corri para casa, peguei o meu caminhão e fui a Port Angeles comprar todas as coisas que eu precisaria. A minha primeira parada, foi em um supermercado. Agora, eu tenho consciência de que não como; e que igualmente nunca freqüentei a faculdade de medicina ou mesmo de nutrição. Mas como alguém que já passou mais vezes pelo ensino médio do que era necessário e tendo convivido por mais de 50 anos com Carlisle, escutando-o ocasionalmente discutir alguns casos médicos com Edward, eu tinha uma noção bastante razoável de algumas coisas.
Por exemplo: eu sabia que Bella estava francamente desnutrida. Sabia também que para ela chegar a este estado, boa parte da glicose de seu corpo já tinha sido queimada. Pois é o primeiro combustível que o organismo usa quando ele necessita de energia e não está sendo alimentado da maneira adequada. Assim sendo, se eu quisesse que ela pudesse executar o que tinha planejado, eu tinha que dar um jeito de fazê-la repor a glicose e os sais minerais.
Comprei frutas, barrinhas de cereal, alguns pães e frios; bem como cocos verdes, que eram excelentes hidratantes. E ainda lhe garantiriam o necessário potássio e os sais, já que eu esperava que hoje houvesse muito suor envolvido.
A segunda parada foi em uma loja de artigos esportivos. Lá eu carreguei rapidamente tudo o que ela poderia precisar e voltei pra casa. Instalei tudo e fiquei olhando a garagem, que agora, mais parecia uma mini academia.
Esperei ansiosamente pela chegada da garota. Não fui decepcionado. Cerca de meia hora depois do término do seu horário escolar, o caminhão estacionou em frente à casa. Eu já podia sentir um pouco da raiva de Bella quando ela estava a uns bons 100 metros da construção. Reinei sobre a vontade de rir e aguardei pela sua entrada, sentado no sofá. O dia, sem dúvida mostrava-se promissor.
POV Bella:
Acordei sentindo-me revigorada, não havia outra palavra pra descrever o meu estado. Não que uma noite de sono bem dormida tivesse sanado todo o sono que tinha perdido nos últimos dois meses, não era o caso. Mas a minha mente, parecia estar trabalhando melhor, mais leve e mais rápida; minhas pernas não pareciam pesar o mesmo que pesavam ontem. Eu até mesmo andava mais reta, eu suponho. Um olhar no espelho confirmou também que se as minhas olheiras não tinham completamente sumido, elas foram sensivelmente suavizadas. Tudo isso dito, não mudava o fato de que eu ainda queria chutar o traseiro de Jasper por ter me dopado com a porcaria do seu vodu vampírico. Aquilo foi ridículo e desrespeitoso, pra dizer o mínimo. E eu não estava mais com saco de aturar merda de nenhum Cullen. Nem mesmo do único que tinha ficado.
Me vesti naquele dia, pensando em como eu poderia infernizar a vida de um vampiro e sair viva para contar a história. Infelizmente, porém, até o momento em que tinha que ir à escola, ainda não tinha chegado a nenhum plano. Mas, tudo bem. Pra isso eu tinha ainda seis horários de aula pra ficar pensando no assunto e mais o horário da refeição.
Aquele idiota de sorrisinho auto-confiante ia ver só uma coisa quando eu o encontrasse. Neste ponto eu realmente senti falta do meu irmão urso. Nós costumávamos fazer uma boa dupla quando se tratava de pregar peças nos demais. Este teria que ser o meu primeiro vôo solo ao punir um vampiro babaca.
As aulas passaram no tempo devido. Nunca me perguntem o que qualquer dos professores explicou em qualquer delas, por favor. Pela minha vida, eu não faço a mais remota idéia. Nem bem acabou e eu joguei a mochila no banco de trás e parti, sabendo que o meu pai não estaria em casa ate as 18:00 hrs. Ou seja, eu tinha umas boas 6 horas, pelo menos pra me entender com Jasper.
Eu nunca gostei da idéia da velocidade, e verdade seja dita, na maioria dos casos, eu era feliz em dirigir a meigos 40 km/h. Mas hoje, eu estava tão fula da vida que pisei duro no acelerador e obriguei o coitado do meu caminhão a seguir a quase 60. Deus! Que o meu pai não me pegue. Ele ficaria triste comigo. Eu não estava realmente acima do limite de velocidade, mas estava conduzindo o mais veloz que as regras permitiam para uma área urbana. Supostamente falando, como filha do chefe de polícia, eu deveria dar o exemplo. Ele podia não me multar, mas a bronca estaria assegurada.
Bati a porta da Chevy com mais força do que o necessário, e me senti imediatamente um pouco culpada. Não era a coitada da minha caminhonete que eu deveria estar socando. Era um certo vampiro palhaço que tinha mania de brincar de Sandman.
Girei a maçaneta e ao que parecia, pelo menos isso não tinha mudado. A porta continuava aberta. Também, eu tinha até pena se algum ladrão tivesse o azar de tentar assaltar a casa dos Cullens. Realmente, seria o equivalente a ganhar o troféu de azarado do século, se você fosse tentar roubar uma família de vampiros. Enfim... Jasper estava sentado no sofá, aparentemente, zapeando muito feliz pelos canais de TV. Idiota!
Sentei-me a sua frente, esperando que ele fosse falar algo. Ele olhou pra mim, e sorriu. Será que eu já disse que ele é um idiota? Ah sim, já. Não tem problema, eu repito. Idiota! E o pior é que o imbecil não falou nada, como se eu nem estivesse presente.
- E então? – perguntei quando a minha paciência tinha chegado ao fim.
- Então? Ah, sim, me desculpe Bella, boa tarde!
Eu decidi ignorar o cumprimento e apenas estreitei os olhos.
- O que?
Ele me perguntou com a maior cara de inocente. Inocente! Pois sim! Até parece! Eu podia ver o brilho de humor naqueles olhinhos cor de whisky e isso só serviu pra me enraivecer ainda mais. O desgraçado estava achando isso tudo engraçado?
- O que diabos foi aquilo ontem a noite Jasper?
- O que?
- Por que você me pôs pra dormir daquele jeito?
Novamente ele fez carinha de inocente, apenas desta vez ela era temperada por um pouquinho de confusão e surpresa. Eu não comprei.
- Eu achei que tínhamos conversado e que você queria que eu a ajudasse a dormir.
- E eu, que tínhamos combinado de que eu teria uma palavra a dizer sobre estas atividades. Você disse que tinha um plano e quando perguntei a respeito, você me deu o seu equivalente vampírico para uma injeção de valium na veia.
- Bella, seu pai estava subindo. Você não poderia querer que ele me visse em seu quarto, não é? Você faz idéia do que ele poderia pensar se visse nós dois sozinhos lá?
Ele perguntou apontando entre eu e ele e usando aquele sorrisinho sem vergonha que parecia ter sido transferido junto com os gens de vampiro quando o veneno os transforma. Eu fiquei com raiva, mas principalmente, eu fiquei morrendo de vergonha. Eu podia bem imaginar o que passaria pela cabeça de Charlie. Provavelmente ele tentaria me passar a conversa da abelhinha que vai até a florzinha pra pulverizá-la. E me daria um pacote de preservativos ao término. Urght! Só de pensar nisso eu podia sentir as minhas faces ficando muito, mas muito vemelhas. Como eu odiava ser tão branca! Se ao menos eu fosse uma vampira, isso não seria problema.
- Não, mas, isso não muda o fato de que eu poderia fingir e você se esconder; ele entraria, sairia e você me explicaria o seu plano.
Não senhor, mocinho, você não irá escapar tão facilmente. – Pensei comigo mesma — Ele deu de ombros.
- Achei que também tínhamos concordado que você era uma péssima atriz.
- Você disse.
- E você se calou. O que quer dizer que você sabe que eu estava certo. A propósito, acho que você ainda não almoçou, estou correto? – Ele me perguntou indo até a cozinha. Eu me levantei e o segui. Ele começou a preparar alguns sanduíches pra mim de peito de peru com queijo.
- Oferta de paz? – perguntou estendendo o prato com dois sandubas prontos.
- Você não está fora do gancho. – Declarei, mas aceitei o prato. Ei, eu tinha feito uma promessa, afinal de contas. E não era como se eu não soubesse que eu realmente precisava me alimentar melhor. Eu só nem sempre agia de acordo com o meu conhecimento.
Ele sorriu, o desgraçado. Ai vontade que tinha de jogar o prato, com sanduíche e tudo na sua carinha risonha. Mas isso ia depor mais contra mim do que a meu favor; assim, engoli a vontade junto com outra mordida.
- Eu não achei que estivesse.
- Isto vai ter volta, Jasper.
- Pago pra ver! Mas até lá, você não gostaria de saber qual é o meu plano?
Eu dei mais uma mordida. Estava bom. E eu estava realmente com um pouco de fome.
- Bem, eu pensei que você têm muita raiva dos Cullens, especialmente do meu “irmãozinho” e eu acho que você está com toda a razão em ter. O ponto é que, ao invés de você jogar esta raiva nos alvos que a merecem, você está colocando-a pra si mesma. E isso está fazendo você ficar mal. Bom, eu quero ajudá-la a pôr a raiva em quem a merece.
- Espera ai, isso tudo foi uma manipulação? – Eu perguntei baixando o prato até o balcão e olhando para Jasper algo indignada.
- Não exatamente. Na hora, eu realmente agi apenas da forma mais rápida para fazer a situação ficar sob controle. Concordo que foi um pouco insensível, mas também vou admitir que foi engraçado vê-la enraivecida.
- Eu não gosto que joguem comigo, Jasper. E vocês Cullens já fizeram bastante disso. E se estamos mesmo fazendo isso, eu quero ser respeitada. E não me diga que eu sou engraçada quando estou com raiva. Eu apenas tenho vontade de socá-lo. E isso provavelmente só irá me garantir uma mão quebrada.
- Provavelmente. Todavia eu lhe preparei algo pra você socar a vontade.
Eu dei mais algumas mordidas e finalmente, acabei com o sanduíche. Estava me sentindo cheia. Passei direto pra pia e comecei a lavar o prato sujo.
- E o que seria isso? – Perguntei enquanto secava as minhas mãos em um guardanapo.
- Vêm comigo.
Ele me levou até a garagem, onde eu vi um enorme saco de areia com a foto de Edward pregada nele. Só de ver aquele rosto que eu não via há quase dois meses, eu comecei a sentir um pouco de falta de ar.
- Eu não posso. – Eu disse e me virei em direção à porta. A minha visão já turva pelas lágrimas. Imediatamente Jasper estava na minha frente. Ele me segurou pelos ombros e não me deixou ir.
- Quer fazer o favor de sair da minha frente! – Eu praticamente gritei.
- Não, eu não quero. Bella, porque você não quer dar uns sopapos nele?
- Eu não posso.
- Por que?
- Porque não, porque é errado bater nele. Eu não quero machucá-lo.
- Bella, aquilo é um saco de areia!
As lágrimas traidoras caíam e marcavam a minha bochecha. Eu não queria chorar. Droga!
- Você acha que eu não sei? Mas ainda assim. É errado.
- Por que? Deus Bella, até eu quero dar uns socos em Edward!
- Porque eu ainda o amo! Patético, eu sei. Mas eu ainda o amo. Quando a gente ama alguém, não se tem vontade de ferir a pessoa, se tem vontade de protegê-la. E eu o amo!
- Isso não é de todo verdade, você pode amar uma pessoa e ainda ficar puto com os atos que aquela pessoa faz. Bella, não existe amor mais puro do que o de uma mãe por seu filho. e eu te juro que nunca vi nenhuma que ocasionalmente não tivesse vontade de dar uns bons sopapos neles.
-Você não entende. Porra Jasper! Não me diga que você não sabe como é, porque eu sei que você sabe. Eu sei que você ama Alice tanto quanto eu amo ao Edward.
- As duas situações são diferentes.
Ele falou, mas eu o senti enrijecer e eu, pra me defender comecei a atacá-lo.
- O caralho que não é a mesma coisa. Ela te deixou. No momento em que você precisou dela, ela foi embora. Edward também me deixou, tudo a mesma merda.
- Bella, não é minha intenção te machucar, mas é diferente. Alice não mentiu pra mim sobre as razões pelas quais ela me deixou. Ela não arrancou de mim as pessoas que eu amava. Eu me propus a ficar para trás, porque o erro, quem cometeu fui eu. Ela não me deixou em uma porra de uma floresta; ou melhor, ela o fez. Mas nós dois temos que admitir que uma floresta pra mim, é diferente do que é pra você. Se eu encontrar um urso, eu sobrevivo. Se eu encontrar um vampiro, muitíssimo provavelmente sobreviveria também. Você não. Você não teria a menor chance. E depois de tudo o que vocês tiveram, ele tinha que ter tido pelo menos a decência, de fazer isso em um lugar em que você pudesse estar mais a salvo. Se o tivesse feito, você não teria ficado perdida por 14 horas, e quando encontrada, você não teria hipotermia. Se ele tivesse sido pelo menos um pouco mais delicado com o rompimento, você talvez não tivesse ficado catatônica por duas semanas. Outra: não importa se você acha que isso era ou não razão o bastante para ela me deixar. Mas você não tem o menor direito de julgá-la. Eu sei que ela não é inocente, que houve falha de ambos os lados. Eu sei como ela se sentia culpada cada vez que eu deslizava. Eu tenho o direito de ter mágoa dela, mas não raiva. Ela nunca realmente confiou em mim, porque pra ela, como aliás pra toda a família, eu era uma responsabilidade. O elo fraco de quem todos tinham que cuidar. De quem todos tinham medo, mas também pena. Então não Bella, por mais ruim que seja a minha situação, infelizmente, e eu digo isso de coração, a sua é pior.
Eu tinha um vampiro puto da vida comigo na minha frente. Um vampiro que uma vez tinha tentado me matar. E eu não tinha medo. A única coisa que eu conseguia sentir era dor. Dor por que finalmente, eu estava sendo obrigada a assumir o quanto filha da puta Edward foi comigo. Dor por que, em assumindo isso, eu obrigatoriamente teria que deixá-lo ir. Dor porque não importa o que Jasper tenha dito, quando disse que Edward me amava. Isso não podia ser amor de verdade. Ninguém que ama age do modo como ele agiu.
Eu me agachei no chão em uma bola e chorei. Em minha cabeça cada uma das coisas que Jasper tinha falado, tocava como em uma espécie de ladainha macabra. Ele tinha razão. O próprio Edward me pediu pra não ir pra floresta, me disse que nem sempre ele era a coisa mais perigosa lá. E aquele recado que Charlie encontrou, eu não o escrevi, o que quer dizer que ele o fez. Ele sabia que eu me perderia e deu a minha localização pra que Charlie me encontrasse.
De repente, a dor que eu sentia se transformou em raiva e eu voei pro saco de areia. Soquei e soquei e chutei, enquanto gritava a minha dor. Jasper apenas segurou o saco pra que ele não voltasse contra mim e no fundo da minha consciência eu o escutava dizendo pra deixar ir, pra deixar toda a dor e raiva irem embora. Chegou um ponto em que por mais que eu quisesse continuar a socar, parecia que isso já era uma ação vazia, a raiva tinha se evaporado. Jasper então me abraçou e me deixou estragar a sua camisa com as minhas lágrimas.
- Por que Jasper? Por que ele fez essa merda? Por que?
Quando as lágrimas finalmente secaram, eu me levantei e olhei o céu já começando a escurecer. Eu me sentia triste, porque eu percebi que aquela realmente era uma despedida. Eu jamais poderia voltar pra Edward depois do que eu percebi ali.
- Você sabe? Eu olhava pra ele e via um anjo, perfeito. Ele nunca foi.
- Não querida. Todos nós temos falhas, alguns mais do que os outros.
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