Recomeçar
2 Abandonada
Depois eu soube que eu mal me mexi durante duas semanas. Depois eu soube que tinha sido encontrada na floresta, hipotérmica e inconsciente, quatorze horas depois que ele me deixou. E que surtei, quando o meu pai e a minha mãe começaram a arrumar as minhas coisas, pra que eu me mudasse praFlórida com Renee. Depois que eu acordei eu descobri tudo isso.
Eu não me importei.
Porque eu deveria? Todo o meu mundo perdeu o sentido. Tudo o que restou foram banalidades. Escola, amigos, família... Nada disso me importava. Não de fato. Eu ainda amava Charlie e minha mãe, é claro. Mas eles estavam bem. Não eram objeto de minha atenção ou preocupação. Eu tinha perdido tudo e todos os demais a quem eu amava e esses dois fios que eram os meus pais, não tinham o poder de me manter junto. Eu me despedaçava. O buraco no meu peito era uma dor constante e viciosa.
Às vezes, eu sentia raiva. Porque francamente, como eles puderam me abandonar assim? Eu não era sua irmã? Sua filha? Quem larga a sua filha ou sua irmã da forma como eles fizeram comigo, sem nem ao menos uma palavra de despedida? Aparentemente, os Cullens largam. E ele? Porque ele me deixou? O que eu fiz pra merecer isso? Será que eu nunca passei de uma mera distração? Um curto intervalo para o tédio de sua vida eterna? Será que ao menos eu era uma boa distração? Possivelmente não. Ou ele não teria me deixado como o fez. Merda! Eu podia apostar a minha vida que Emmett teria levado o vídeo game dele com ele. Como distração para Edward, eu deveria ser pior do que um vídeo game.
E então vinha a sensação de insignificância, e de não valor. Como eu poderia pensar, sonhar que eles realmente gostassem de mim ou que me amassem? Eles eram eternos. Conheceram todos os tipos de pessoas, as mais inteligentes, as mais belas. Porque iriam se importar com uma garota desengonçada, magrela e humana que conheceram em uma cidadezinha, perdida no fim do mundo chamada Forks? Eu era patética. Só poderia agradecer o tempo que eu tive para conhecê-los. Que vamos concordar, foi surpreendentemente longo; muito maior do que provavelmente eu merecia.
Todavia, apesar disso e mesmo sem ter nenhuma esperança de retorno, eu escrevia para eles; pra ela, Alice. Eu acho que fazia isso como uma tentativa de manter a minha sanidade, apesar de eu sentir que a cada dia que passava, ela me escapava. Era quase uma sensação física, eu a sentia deslizar para fora do meu corpo e da minha mente. Como a areia de uma ampulheta.
Minha mente... Como se não bastasse a provação que era viver dia após dia sem ele, as noites eram também terríveis. Eu não tinha descanso. Nunca. Será que era assim que Edward se sentia? Diante de sua incapacidade de dormir? Claro que não! Seu corpo era perfeitamente adaptado a ausência de sono. Já o meu... Eu emagreci, muito! Seis quilos em apenas duas semanas. Meu pai me lançava olhares preocupados o tempo todo. Eu sabia que ele se sentia impotente e falho. Mas não era culpa dele. Nada disso era culpa dele. E por ele, eu tentei me manter funcional, comia um pouco, ia à escola. Mas todas estas coisas eram apenas tarefas que eu desempenhava. Nenhuma delas tinha o menor valor para mim. No almoço, invariavelmente, eu ficava sozinha, na antiga mesa dos Cullens. Passava meu horário de refeições lembrando me deles.
Já fazia 7 semanas e 4 dias que eles me deixaram. As olheiras em meu rosto eram uma coisa que ninguém conseguia perder, mesmo que quisessem; tão pronunciadas que elas eram. Eu também perdi mais peso... treze quilos até agora e contando. Puxa, se ao menos eu fosse uma dessas garotas que vivia lutando com a balança, eu poderia agora jogar o jogo do feliz e ficar contente que eu estivesse mais magra. Mas não. Nem com isso eu poderia contar.
O pior, é que cada vez mais, parecia que eles eram um sonho. E quando digo sonho, não quero dizer nada nem de longe parecido com o que Edward descreveu. Ele sempre estaria na minha mente, eu sempre iria me lembrar dele. Não havia a menor chance de minha vida ser como se ele nunca tivesse existido. Mas de vez em quando eu me perguntava: será que vampiros realmente existiam? Será que tudo aquilo que eu penso que vivi, aconteceu de verdade? Se eu contasse isso a qualquer pessoa, eu com certeza acabaria internada em um manicômio qualquer. Se Charlie tivesse qualquer dúvida de que eu estava enlouquecendo, esta história o iria convencer antes mesmo de ele conseguir abrir a sua lata de cerveja
Ah sim, este é outro detalhe: Charlie parece beber um pouco mais do que lhe é costumeiro. Não é como se ele ficasse bêbado que nem um gambá, e muito menos esteja se tornando um alcoólatra. Pelo menos, eu acho que não. Mas a cervejinha de sexta, foi expandida para um cervejinha todas as noites antes de dormir.Acho que este era o seu método de auto-medicação; para ser capaz de dormir apesar dos meus gritos noturnos quando os pesadelos me acordavam. O que era toda a noite.
No início, ele acordava e ia me ver, me abraçava e acariciava as minhas costas até que eu dormisse de novo. Mas agora, acho que ele só vira para o outro lado. A parte racional em mim entende que ele faz isso porque precisa trabalhar no dia seguinte e portanto, precisa do seu sono. A mais emocional apenas sente que está sendo abandonada... De novo.
Enfim, preocupações e ressentimentos a parte quanto ao meu pai e todos os demais, eu sentia cada vez mais a ânsia de encontrar alguma prova física de que todos eles existiam. Que tudo aquilo de fato aconteceu. Por duas vezes, eu me voltei para o meu álbum, procurando as suas fotos. Apenas para me recordar que ele as tinha roubado de mim, bem como todas as outras lembranças. Eu sentia tanto a falta deles... Eu até cheguei mesmo a agradecer a dor que eu sentia. Porque isso era uma prova de que eles existiram. Ninguém conseguiria imaginar uma dor como esta, que eu tenho o tempo todo no meu peito, certo? Quer dizer, quem em sã consciência usaria a sua imaginação para criar um inferno como este? Mas ai estava todo o ponto: se eles não existiam e eu os imaginei; então, eu estou louca. E se eu estou louca, qualquer coisa poderia muito bem sair da imaginação de alguém assim, correto?
Não. Eu precisava de algo físico, definitivamente! Eu precisava tocar algo, assegurar que tudo aquilo realmente aconteceu. Pensei em voltar a clareira onde Edward me levou, onde de certa forma tudo começou. Talvez isso me desse este senso de re-conexão com Edward. Mas isso seria no mínimo complicado, visto que eu realmente não sabia onde ela ficava.
Foi em um dos dias em que Charlie foi com Billy pra pescar e eu me vi sozinha em casa que eu decidi: eu voltaria à casa dos Cullens.Durante toda a viagem até lá eu respirava com dificuldade, ansiosa e amedrontada com a dor que eu certamente sentiria no momento em que visse o casarão. Mas não era só a dor que eu temia. No fundo, eu também temia que em vendo o lugar vazio, eu teria que deixar ir a minha esperança de que ele voltaria pra mim; que esta visita me desse o encerramento que eu não queria ter. Meus dedos embranqueceram em redor do volante quando o buraco no meu peito pareceu abrir ante o pensamento de ser obrigada a deixar Edward ir. Enrolei uma mão em meu peito tentando me manter junto enquanto fiz a curva na estradinha que levaria a casa dos Cullens.
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