O som de pequenos sapatos rusticamente costurados de couro, com a base de sua sola de madeira, faziam diversos pequenos barulhos enquanto batiam-se contra o assoalho de madeira velha conforme uma garota de seus doze anos, aparentando nove, corria pelo antigo casarão. Possuía longos cabelos ruivos com suas mechas trepadas umas nas outras, formando formas agradáveis a visão dos mais velhos enquanto as fitas lhe moldavam e puxavam. Seu pequeno corpo ainda livre das curvas e volumes femininos era ocultado por um volumoso vestido rosa-bebê, que conseguia ter ainda mais laços do que o cabelo da garota, toda amarradinha a fitas e tecidos caros e chamativos, desnecessários, que somente lhe atrapalhava as brincadeiras e incomodavam seu corpo; mas de que lhe importava? Eram belos, como uma dama deveria vestir-se , sem nunca ser perguntada a respeito, sua função ali era aceitar o que quer que lhe colocassem, sempre com a mesma afirmação; damas deveriam ser daquela forma. Porém, enquanto corria, ela era tudo, menos uma dama; ela era um belo pegasus de pelagem branca cujo deveria proteger o mundo de malignos dragões, ela também poderia tornar-se um boto, vivendo junto as maravilhas do fundo do oceano, ou se preferisse, um excelente malabarista que fugia junto ao circo, repleto de amigos , animais , realizando seu sonho de subir ao palco e maravilhar a todos com seu talento!

— Amy!

Uma furiosa voz chamava-lhe, arrancando a pequena para fora de seus sonhos. O barulho dos sapatinhos contra o piso cessava; a garota agora estava parada frente a alta figura de semblante sério a sua frente. Seus olhinhos verdes encaravam aflitos o homem bem vestido, esguio e magro, com severos olhos castanhos exprimidos por debaixo de grossas sobrancelhas franzidas em fúria.

— Isto não é a atitude de uma dama Amy!!!

A menina suspirava tristemente, evitando encontrar-se com os olhos do homem mantinha sua cabeça baixa como o serzinho fraco e deplorável que era. Sua face coberta por belas sardinhas avermelhadas, que pareciam pintadas com toda delicadeza sobre sua pele albina , corava intensamente pela vergonha que sentira ao julgamento. Não agira como uma dama, trazia decepção aqueles quem apenas devia o respeito e obediência. E era com o rosto baixo que ouvia todo humilhante sermão, palavras graves soltadas ao ar sem consequências, palavras que lhe feriam mais do que qualquer tapa que poderia ser-lhe desferido contra seu frágil corpo. Amy era deplorável; e sabia disto, pois como poderia o contrário se era relembrada todos os dias? Uma coisa errada, incapaz do agrado e indigna de afeições; por que simplesmente encolhia-se para dentro de si própria ao ser metralhada pela desaprovação; por que era incapaz de portar-se da maneira correta? Sabia que se o fizesse, poderia ser amada, porém, era dar um segundo de distração a sua maldita mente que quando podia perceber já havia convertido-se em feiticeira, herói , monstro, pássaro; liberdade. Apenas para desconverte-se de tudo aquilo, e voltar a tornar-se vítima das palavras reprovadoras.

Por um momento tudo silenciou-se, um momento de puro alívio, porém o tempo era curto, não dando-lhe uma oportunidade para obter a coragem de sequer levantar seu rosto; desencolher-se da profundidão de sua alma humilhada; antes sequer de ter tempo de uma reação , minúscula que fosse, nem que por pensamento; pois, já podia sentir as grandes mãos ferozes lhe puxarem os cabelos causando-lhe dor, que mesmo não sendo extrema, ao seu pequeno corpo era mais que suficiente para tirar-lhe lágrimas.

— Veja o estado que esta seu cabelo! Você não tem jeito!

As mãos puxavam-lhe os laços, apertando-os e lhes reatando as pressas com um toque hostil. As mesmas mãos desciam a seu vestido, o tecido era puxado e batido, junto ao corpo da menina escondido por debaixo dele; as fitas das costas eram puxadas desrespeitosamente, refeitas umas a outras ainda mais apertadas do que anteriormente; seus pulmões agonizavam quanto a manipulação de sua aparência, soltando um baixo gemido infantil; outro motivo de reprovação!

— Que vergonha! Uma moça chorando, tão feia! Tão tão feia! Envergonhe-se! Olhe-se no espelho! Está horrorosa! Nunca vai casar-se! Vá a seu quarto olhar a si mesma e tome vergonha na cara!!!

Depois de reajustada a menina era subitamente afastada por um empurrão provindo das mãos maiores. As ordens mesmo que altas e claras ainda eram repetidas mais vorazmente para tirar-lhe de sua ''fuga''.

— Para seu quarto! Agora mesmo Amy!!!

Seus doces olhos verdes arregalavam-se. Um comando fora dado, e não era seu dever seguir comandos? Sim; o que estava esperando?! Mais provas de sua total deploração?

Rapidamente forçou seu corpo tremulo a mover-se; virou-se, finalmente podendo fugir da figura que também lhe virara as costas em seguida. Se rastejou até seus aposentos, fechou a porta lentamente atrás de si, escorando nela em seguida; seu corpo deslizou até o chão, ali era seu lugar. Suas mãos pequenas lhe cobriram a face envergonhada, era feia! Feia e desajustada! Assim que, já no canto que era seu, pode finalmente soltar-se, e como chorou! Por um momento achou que choraria até secar, morrer, sem mais uma gota de água ou esperanças em seu corpo, seu deplorável, feio e desajustado corpo; até que, por fim adormeceu, e voltou a sonhar.