Reboot
15 Palavras preciosas
Notas iniciais
A supervisora estava feliz e irrequieta. No hospital, a recepcionista lhe deu um crachá de visitante, e ela seguiu em direção ao quarto onde estava Fabiana. Este ficava no segundo andar do estabelecimento, e para chegar até lá, vários corredores precisavam ser atravessados. Isadora não achava que aquele era um lugar agradável, pelo contrário. Um lugar que tem crianças chorando, pessoas doentes e sofrendo está longe de ser agradável.
Após algum tempo, lá estava ela, no corredor da UTI; um lugar mais triste e desagradável ainda. Ao se virar na pequena curva que dava acesso ao corredor, ela viu algo bem inesperado. O diretor Jean estava frente à porta da sala de Fabiana. Isadora deu um passo para trás e se escondeu em uma parede.
“Diretor?... Que estranho, não é do seu feitio vir visitar um paciente de hospital...” pensou a garota “Principalmente sendo alguém que ele mal conhece direito.”
Ela voltou a andar, sempre em passos lentos e silenciosos. Seu rosto já não demonstrava tanto entusiasmo quanto antes. Essa ação lenta e cuidadosa foi desfeita quando a menina viu Jean entrar na sala da órfã. Ela começou a correr, correu muito. Em sua mente, um mau pressentimento ressoava constantemente.
O buquê simples e humilde que ela segurava em suas delicadas mãos, se soltou destas e caiu no chão. Os pacientes que estavam sentados em cadeiras ao longo do corredor notavam a movimentação estranha; alguns, inclusive, suspeitaram disso e foram até a diretoria do hospital, relatar o que estava acontecendo.
A garota, em um impulso, empurrou a porta a UTI, que estava apenas encostada e entrou na sala. À sua frente, o seu diretor. Com seu casaco social, cabelos negros, olhos pequenos. Sapatos simples, calça social e azul. Ele estava com as mãos posicionadas no maquinário que mantinha Fabiana viva... Ele iria matá-la... O porquê dessa ação repentina? Isadora não sabia, mas ela não precisava de motivos para impedi-lo de fazer aquilo.
Com um movimento do braço, o homem corpulento e gordo a empurrou para trás, fazendo-a cair no chão. As pessoas que estavam do lado de fora da sala, mal faziam idéia do que estava acontecendo.
— O que você está fazendo? — perguntou Isadora, caída.
— Eu só estou fazendo o que é necessário – respondeu sem nenhum carisma.
Os dois se encararam por breves segundos, quando o homem decidiu continuar o que havia começado. Ele posicionou sua mão esquerda sob o aparelho de respiração e estava prestes a retirá-lo da face da menina, quando... Uma voz. Infantil, mas angelical. Doce, e suave interrompeu a ação. Os dois ficaram à espera do retorno desse som. Este voltou, mas ele o fez sendo acompanhado por um vulto. Uma garota. Pequena e pálida; feliz; lábios pequenos, cabelos castanhos e cortados na altura dos ombros; olhos de mesma cor. Ela notou a admiração dos ali presentes, e começou a falar:
— Uma pessoa é igual a uma árvore... Às vezes, ela morre sozinha, mas às vezes, o homem contribui para sua morte... Eu não vou deixar que mais alguém morra por causa de mãos humanas...
Isadora estava pasma, simplesmente pasma. Não se movia ou mexia qualquer músculo, apenas observava a figura semitransparente com os seus olhos, que também custavam a acreditar no que viam. Jean por sua vez, estava desacreditando que aquilo era real:
— Ora, ora... Um fantasma...? Que tipo de brincadeira é essa? — ele sorria com um tom irônico enquanto falava. — Há alguma câmera por aqui? Hein? — ele zombava da aparição como se ela fosse um ser inferior, ou, como se fosse apenas uma miragem.
— Diretor... Obrigada por ter ajudado Zack a entrar em sua escola. Sou muito grata por isso. Ah, e Isadora, Zack não colou nos testes; sou testemunha disso... — falou a garota pálida, ignorando as zombarias. — Mas voltando ao assunto: eu não posso deixar você matar alguém... Seria errado... Eu não voltei para cá para deixar coisas assim acontecerem, pelo contrário... — sua voz, apesar de calma, demonstrava um tom de melancolia muito grande.
— O que você vai fazer? Vai vir para cima de mim que nem essa defeituosa fez? — prosseguiu, apontando para Isadora, que se ofendeu com a fala de seu superior.
— Que vergonha... — falou a “fantasma” — Você vai tirar a vida de alguém só por causa de seu filho? Você me enoja... Saiba que enquanto você quer matar alguém, seu filho está lá, em sua casa. Ciente que está vivo, mas incapaz de demonstrar isso. Você acha que lhe dando uma sala de UTI para ficar ele vai melhorar?
O homem se silenciou, mas não permaneceu nesse estado por muito tempo.
— Por que eu estou discutindo com uma morta?... Por quê?! Vou acabar logo com isso e...
Nesse momento, a garota pálida abraçou o homem. Ele não sentiu calor humano em seu abraço, mas apesar disso, este o reconfortou. “Saía!” gritou, lançando um soco na barriga do espírito. O punho de Jean atravessou o corpo pálido. Isso o fez calar-se. Ela não era humana afinal... Ela não podia ser uma ilusão, pois Isadora também parecia vê-la.
A menina fantasma sorriu e falou:
“Eu me sentiria um pouco mais realizada se você voltasse para sua casa e cuidasse de seu filho. Ele se sentiria mais feliz se soubesse que possui um pai que o ama. Cuidar de alguém tão necessitado assim, não é apenas colocar uma frauda na pessoa e dar-lhe de comer. Eu tenho certeza que Diogo sempre quis correr, como outras pessoas fazem; sempre quis ir à escola como outras pessoas fazem; sempre quis sorrir como outras pessoas fazem. Mas ele não pode... E você tem que aceitar isso. Você tem que ser um pai de verdade. Não importa se ele tem ou não uma mãe. Ele só quer ter um pai que lhe faça graça, um pai que brinque com ele, um pai que o faça feliz, mesmo que não demonstre...”
Isadora não havia percebido ainda, mas quando olhou para o diretor, ele estava caído no chão, e chorava com todas as forças de um pai. A menina semitransparente parecia estar feliz. Ela sorria levemente enquanto olhava para o homem, que havia perdido todas as forças e começado a chorar e lamentar. Ele estava arrependido. O que ele se tornou? Era o que ele tentava raciocinar. Apesar dela ser só uma criança, sua palavras lhe fizeram muito efeito.
A supervisora estava realmente confusa, mas estranhamente feliz quanto àquela situação. Mas ainda assim, algum sentimento ruim tomava conta de seu coração. Coração... Ela olhou para a máquina que media os batimentos cardíacos de Fabiana. 15 batimentos apenas... E esse número reduzia segundo por segundo. Uma lágrima salgada escorreu até sua boca. Ela se levantou... Seu rosto dizia tudo o que sua boca não conseguia falar. Ela estava perdendo Fabiana.
— Não... NÃO! — gritou. Nesse momento um médico entrou, repentinamente, na sala. Ele viu Jean caído no chão, e uma garota qualquer, chorando. Não havia mais ninguém lá. O som do choro era seguido por um som fino, que aumentava gradativamente.
—... Isadora...?... — perguntou Fabiana com uma voz sofrida e fraca. Ela estava juntando suas últimas forças para dizer uma última frase.
— Fabiana? O que, o que foi?! — perguntou Isadora, impaciente.
—... Obrigada por tudo.....
Os olhos da menina pararam de piscar, seu rosto empalideceu. A supervisora não queria acreditar em seus olhos, mas seus ouvidos denunciavam a verdade: um som fino e constante soava pelo quarto. PIII.....! Zero batimentos cardíacos...
“Calma, calma!” falou o médico, adiantando-se para tentar reanimar a menina.
Era inútil. A máquina continuou a emitir aquele som infeliz.
“Eu... Não pude ajudar...” pensava Isadora “Eu... Eu não entreguei as flores...” pensava enquanto retirava do chão o buquê que estava caído. Ela chorava em silêncio enquanto isso. O médico ainda tentava reanimar sua amiga, dentro da sala. Após longos minutos de espera, ele saiu de dentro daquele lugar. Com um único e simples gesto, ele disse tudo o que seus lábios tentavam não dizer: “eu não pude fazer nada.”
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