Reboot
14 Ação de desespero
Notas iniciais
O céu ficava cada vez mais escuro. Aquela tarde parecia tão diferente das outras. Parecia triste, sem ânimo... O diretor olhava a rua pela janela de sua casa. Poucas pessoas ainda se atreviam a andar por ela.
O quarto em que o velho homem estava hospedado não era nada muito impressionante. Era pequeno, simples, paredes brancas, uma única janela, armário, guarda-roupa e só. O senhor já sentia saudades de sua antiga moradia; que era excepcionalmente mais confortável que aquele apartamento.
Infelizmente ele não podia nem se atrever em voltar para casa. Ele estava morando naquelas condições por um único motivo. Esse motivo contém duas sílabas: fi-lho.
A esposa do homem havia morrido há pouco tempo. Duas semanas, ou três semanas atrás... Ele havia perdido a noção do tempo desde o trágico acontecimento.
Suas mãos, constantemente trêmulas, indicavam que apesar de não demonstrar, ele estava muito nervoso. Talvez até impaciente... O filho do diretor chamava-se Diego. Era um rapaz forte e saudável, esbanjando alegria aos quinze anos de idade. Mas, depois de um dia específico... Ele não sorriu mais. Na verdade, ele não consegue fazer mais nada. Não anda, não fala, não come, não se mexe, não pisca os olhos – isso o faz necessitar de constantes aplicações de um soro especial nos olhos... Ele simplesmente não vive. Sua vida é e será para sempre, ficar deitado na cama de seu quarto. Sem poder expressar suas dores, alegrias, tristezas...
Frequentemente, o pai ia até o quarto do filho, observá-lo. E lá estava ele. Um impotente. Deitado na cama igual a um inútil. O homem sempre se emocionava ao ver o filho naquele estado deprimente. O garoto sofria de uma doença degenerativa, que afetava o cérebro e, consequentemente, todo o corpo.
O homem se aproximou da cama do filho. Retirou o cobertor de seu corpo. Abaixo da bermuda do rapaz, uma frauda; encharcada -- o rapaz não podia controlar seus estímulos, assim como não podia controlar mais nada. Que estado deprimente... Que condições de vida desumanas...
O diretor sempre foi um homem rico e até mesmo prestigiado. Ele sempre foi egoísta e esbanjava as riquezas na cara de outras pessoas. E vejam só como ele está agora. Tão ignorante quanto seu filho. Tão pobre como qualquer outro. Tão incapaz...
Ele havia guardado uma enorme quantia no banco, da qual nem se atreve a tocar, pois ele usa esta para cuidar de Diego. Seu maior sonho era deixar o filho sob os cuidados de algum médico de confiança, para que ele pudesse ir trabalhar em paz. Mas ele não tinha tal sorte. A fama de egoísta o fez perder boas e várias amizades, o que fez ele se isolar da população.
Ninguém queria cuidar de um menino que tinha um pai tão rude quanto ele. Viram só! O problema nem é o rapaz, e sim o pai dele. Então, pela falta de amigos dos quais possa confiar, um leito de hospital seria a melhor alternativa. Mas não poderia ser um leito qualquer. Tinha que ser um leito de UTI; coisa que já havia se acabado naquela cidade.
O desespero seria o pior sentimento a se sentir em uma situação como essa, e foi o que aconteceu. Há pouco tempo atrás, o velho havia telefonado para um hospital próximo, muito reconhecido pela sua competência. Após uma rápida conversa com o diretor deste, ele descobriu que não havia mais leitos naquela unidade de saúde. Sendo que o último leito havia sido ocupado por uma portadora de câncer que estava prestes a falecer. Foi então que ele ousou dizer: “desligue as máquinas que mantém essa menina viva”, o que gerou um grande rebuliço por parte do diretor hospitalar. Mas, a partir de uma pequena discussão entre os dois, o médico cedeu, e, já que a menina que ocupava o último leito iria falecer em pouco tempo, que mal faria desligar seus aparelhos?
Jean (o nome do diretor da escola) estava ansioso, mas ao mesmo tempo, estava incomodado com alguma coisa.
Já havia passado das cinco horas quando ele havia voltado para a realidade e deixado de pensar em sua atitude desesperada e precipitada. “Já devem ter desligado as máquinas... Vou até lá para conferir”, pensou.
O homem trocou as fraudas do filho e orou para que ele não precisasse dos seus cuidados durante o tempo em que estaria fora; assim como ele costumava fazer todos os dias. Com uma grande angustia no peito, ele abandonou o filho e sua casa e pôs-se a caminhar até o hospital, que por acaso, não ficava muito longe de sua casa.
Ele chegou ao estabelecimento pouco tempo depois. O próprio diretor em pessoa veio ao seu encontro.
-- Penso que veio até aqui para saber do desligamento das máquinas – falou o médico.
-- Fale mais baixo, sabia que tem pessoas aqui?
-- Claro que eu sei... Mas isso não vem ao caso. Sinto-lhe informar, mas não conseguimos executar sua ordem.
-- Como assim?!
-- Fale mais baixo, têm pacientes aqui.
-- Desculpe-me. Prossiga por favor...
-- Por alguma razão, nenhum dos meus subordinados quer entrar na sala de UTI da garota. Até parece que tem um fantasma lá.
-- Por que o senhor não o faz então?
-- Sou um homem muito ocupado. E...
Nesse momento, uma funcionária chamou-o para fazer uma cirurgia em um paciente.
-- Desculpe-me – continuou – mas eu tenho que operar um dos pacientes.
-- Eu entendo. Não se preocupe, eu vou embora agora. Amanhã eu retornarei.
Logo, o médico – cirurgião estava se dirigindo até a sala da operação. Mal ele sabia, mas Jean não cumpriria sua fala de anteriormente. Ele mesmo iria desligar os aparelhos de Fabiana. Mesmo correndo o risco de ser preso, ele tinha que fazer isso.
Jean estava possuído pelo desespero, e faria qualquer coisa para colocar o filho em uma sala de UTI.
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