Rebelde
2 Que a justiça seja feita.
Notas iniciais
Tenha uma ótima leitura.
Narração de Lucas.
Quando as mãos dos dois se levantaram, eu me preparei para o grande soco que levaria. Até que, uma voz suave e masculina ecoou pela sala. Limpando a garganta.
— Lucas, o diretor quer falar com você – Era um garoto de óculos, magro e estranho
Suspirei de alívio. Harry e Thalles deram espaço enquanto eu passava.
Thalles segurou meus braços com força e sussurrou em meu ouvido: “Depois a gente termina essa conversa”. Esse colégio está sendo perfeito por enquanto. Só que não. O garoto estranho me guiou até a sala do diretor. Ao chegar lá, tudo parecia bem. Sentei-me em uma das cadeiras e ele fixou o olhar em mim.
— É verdade? – Ele perguntou
— Exatamente o que? – Perguntei confuso
— Você sabe – Ele parecia desconfortado
— Desculpe, não – Disse
— Você é homossexual? – Ele perguntou
Um silêncio incomodava toda a sala.
— Como soube? – Perguntei
— As notícias se espalham em segundos por aqui – Ele disse –, temos notas ruins e decepcionantes nesse colégio. Mas, temos uma ótima rádio-corredor.
— Sim, eu sou – Disse
— Ah, isso é um problema – Ele colocou a mão sobre a testa
— Eu ser diferente?
— Não posso aceitar um aluno gay aqui – Ele disse
— Isso é descriminação, sabia? – Perguntei
— Lucas, regras são regras.
— Eu posso processar vocês – Disse
— Se o fundador dessa escola souber, eu estou demitido.
— É um absurdo. Isso é um país livre. Eu posso ser o que eu quiser.
— Claro que pode – Ele sorriu –, mas não nesse colégio.
— Isso é medo de manchar o nome da escola por eu ser gay? – Perguntei
— Sinto muito, mas a resposta é sim.
— Então, eu estou sendo expulso. Sabia que eu lutei muito para chegar até aqui. Além de bolsista, eu me esforcei para passar nessa prova – Disse
— Sim, eu sei. Sua nota foi à maior – O diretor disse –, mas, Lucas, tente entender. Eu estou arrependido por fazer isso com você, mas é para o bem da escola e ao meu bem.
— Eu estou sendo expulso por ser diferente – Disse em um tom irônico
— Sinto muito – O diretor disse com o tom de voz um pouco decepcionado
— Eu que estou triste. Batalhei a vida inteira por isso – Disse –, e quando finalmente consigo. Sou expulso por não ser igual a todos.
O diretor não disse mais nenhuma palavra.
E então, eu saí da sala. Não consegui evitar as lágrimas.
Narração de Jennel.
Fui até a coordenação pegar meu uniforme, e um dos bolsistas saiu chorando pelos corredores. Deixei o uniforme de lado e fui atrás dele. O garoto estava aos prantos. O que foi que o Bin Laden fez a ele? Quando finalmente o alcancei, ele me abraçou desesperadamente.
— Você precisa me ajudar – Ele sussurrou em meu ouvido
— Quem você acha que eu sou? A Madre Teresa de Calcutá e vim salvar o mundo? Primeiro me diga o que está acontecendo.
— O diretor – Ele chorou
— Ou como eu o chamo, Bin Laden.
Ele sorriu torto.
— Eu fui expulso do colégio.
— Profissional hein? – Dei um sorriso torto
— Não é brincadeira – Ele disse sério –, eu fui expulso por ser gay.
— Eles te expulsaram por ser... Diferente? – Perguntei mesmo sabendo que era óbvio – Isso é...
— Injustiça – Ele completou –, mas, se eu ficar vou manchar o nome da escola – Ele imitou o diretor
— Eu vou falar com ele – Disse
— Ele não vai ouvir Jennel, e você só vai se complicar – Ele comentou
— Não me importo – Dei de ombros –, eu quero um mundo justo. E, se a justiça não existe aqui, eu serei a primeira a fabricá-la.
Puxei o braço de Lucas, empurrando-o até a secretaria.
— Quero falar com o diretor – Disse à assistente dele
— Ele não pode atender agora – Ela sorriu –, sinto muito.
— Ele está ocupado para isso, mas para cometer injustiça ele está sempre disponível né? – Perguntei secamente
— Injustiça? – Ela estava confusa – O que houve?
— Esse garoto – Disse
— Eu – Lucas sorriu timidamente
-... Ele é gay – Continuei – e foi expulso por ser diferente. Isso é injusto. É descriminação.
— Esse colégio é particular, nós temos regras.
— E para que foram feitas as regras? – Perguntei
— Para violarmos – Lucas respondeu
— Exatamente – Disse –, só um pouco que ele ficou comigo e já pegou toda a minha inteligência. Bom menino.
— Crianças, eu vou liberá-los. Mas tentem ser educados, por favor – Ela sorriu
Ao entrarmos na sala do diretor, ele forçou um sorriso. Aqueles tão falsos, que até a Lucy perceberia.
— Pensei que você já estivesse indo para casa, garoto – Ele disse fixando o olhar em Lucas
— Ele não vai – Disse
— Como é senhorita Pardo? – Ele riu
— Ele não vai, além de homofóbico é surdo também? A situação está feia para você.
— Senhor – Ele corrigiu
— Não me interessa – Gritei –, você não pode expulsá-lo.
— Eu sou o diretor – Ele disse
— E ele é gay. Ele tem tantos motivos para reclamar. Não quer que sua escola se manche por isso? Espere só ele denunciar vocês. Estamos no século vinte e um. Somos iguais, dane-se a cor da pele, dos olhos, de nada. Somos todos iguais. Todos nós temos um cérebro. – Fiz uma pausa – Bem, nem todos. Lucy tem alguns neurônios a menos. Mas, tanto faz. Homofobia é crime. E eu acho que a sua escola não gostaria de receber uma rebelião gay na porta né? Bom, seja o que fizer. Não o expulse. Além de perder um grande cérebro, vai prejudicar a sua escola – Dei um sorriso torto
— São as regras – Ele disse –, não fui eu que as criei.
— Mas será você que irá quebrá-las.
— Quem você pensa que é? – Bin Laden perguntou
— Uma pessoa justa e sábia. Ao contrário de você, que é uma vergonha para com esta sociedade – Disse
— Isso é desrespeito – Ele disse em um tom decepcionado e bravo
— Mesmo? Desrespeito é o que merecem por descriminarem um...
— Chega – Bin Laden gritou –, ele fica. Você é irritante, garota.
Lucas me abraçou.
— Mas, ele não dormirá com os garotos – Ele disse
— Você acha que ele vai transar com eles? – Perguntei
— Não. Mas, acho que os garotos se sentiriam intimidados com isso – Ele disse
— Sem problemas. Ele dorme comigo – Dei um sorriso torto
— Mas garotos e garotas não podem...
— Diretor – Lucas interrompeu –, eu sou gay. Ou seja, eu não sinto atração por mulheres.
— Nesse caso, eu não vejo problemas – Ele sorriu torto
Um dia depois.
Existe um ser mais irritante que Lucy? Ela acordou cantarolando. Como alguém acorda tão, tão feliz? Tentei jogar uns travesseiros nela, mas foi impossível. Nada impedia a alegria da Barbie. Lucas e ela passaram a noite conversando. Eu fiquei tão sozinha ao ponto de conversar com Free Willy. No fundo de toda aquela banha, ela é uma pessoa legal. Depois de tomar um banho, coloquei o uniforme ridículo. Passei boa parte do tempo customizando-o. Não ficou lá aquelas coisas, mas deu para deixá-lo um pouco parecido comigo. Alguns detalhes pretos e alguns bottons da Nirvana. A calça era um pouco bonita, admito. Coloquei um allstar velho e surrado e estava pronta. Fui com Lucas até a aula, sentamos ao fundo. A primeira aula era História. Uma senhora entrou. Era tão velha que provavelmente seu primeiro animal de estimação, tenha sido um dinossauro.
— Olá, sou Elizabeth – Ela sorriu –, sou a professora de história de vocês.
Eu adoro fazer piadas, e essa não escaparia.
— Ah, de história você entende né? Afinal, você estava lá. Chequei seu histórico ontem, e fiquei sabendo do seu caso com Cristóvão Colombo. Safadinha – Dei um sorriso irônico
Todos os alunos riram. Ela estava com a face séria, mas me ignorou. Sua aula foi cansativa e longa. Por favor, um raio caia em mim.
— Professora – Lucy levantou as mãos –, posso?
— Agora? – Elizabeth perguntou
— Sim, já está acabando – Ela sorriu
— Faça – Elizabeth caminhou até sua cadeira, enquanto Lucy e Rosa se levantavam
— Elas vão dar aula? – Perguntei ironicamente – A matéria “Pensar sem cérebro” já existe? Esse mundo realmente evoluiu, não é mesmo?
Lucy ignorou todas as risadas e começou a falar.
— Bem, como a maioria sabe, a festa de abertura é hoje. E, quero todos participando. Até mesmo a Jennel, se ela tiver roupa, é claro – Lucy sorriu torto
— Eu posso até não ter roupa, mas, ao contrário de você, eu tenho um cérebro – Disse
Quando cheguei ao quarto, peguei minha mala surrada no canto da parede. Fui escolher a roupa para aquela festa. Não sei o motivo, mas eu queria ir. Ao abrir a mala, fui totalmente surpresa. Cada roupa estava rasgada. Em pedaços. Estragada. E agora, eu não tenho mais roupas. Havia uma carta na cama. Demorou um pouco para abrir, mas quando consegui estava escrito em papel rosa e enjoativo: Uma surpresinha de sua "amiguinha", Rosa.
Notas finais
XoXo.
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