Realidades - Ernesto e Ema
1 O Grande Dia
Notas iniciais
Ema despertou e tão logo o fez sentiu o peso em seu peito, e definitivamente era algo que não deveria está ali, especialmente neste dia. "Não dá para ter total domínio sobre nossos sentimentos, Ema querida, em algum momento vamos baixar a guarda e eles nos atacará." A voz de Elisabeta veio tão real em sua cabeça que Ema abriu os olhos para se certificar que a amiga não tinha invadido seu quarto. Mas, não, estava sozinha. Viu que realmente o dia já havia amanhecido e lembrou-se novamente que aquele dia era especial, era o grande dia, o dia de seu casamento.
O peso no peito se intensificou, ela levantou-se com medo de sufocar. Essa apreensão só podia ser do nervosismo, afinal, não é todo dia que você se casa, não é? "Na verdade, você só se casa uma vez na vida, Ema!" teve que lembrar a si mesma. Respirou fundo. Sempre planejara casamentos, e secretamente, lá no fundo, talvez em seus sonhos imaginasse o seu. E quando o fazia, via um belo alpendre de madeira nos jardins da Fazenda Ouro Verde, enfeitados com cortinas brancas e flores de laranjeira, uma banda bem disposta a tocar as mais melodiosas valsas, e a mesa cheia de doces e quitutes especiais da região. O sorriso de seu pai e a carranca de seu avô que apesar de parecer contrariado tinha nos olhos um brilho que não se podia esconder era orgulho e felicidade... Mas, não estavam no Vale do Café, tão pouco ela se casaria na fazenda. Fazenda que não era mais sua, e não mais seria. Fazia quase um ano que morava em São Paulo, pôde confirmar isso quando finalmente levantou e se dirigiu a janela, o movimento de carros e pedestres na rua movimentada era tão diferente dos pássaros que assobiava ao longe de sua janela na fazenda lhe trazendo um despertar sempre calmo.
Não! Ralhou consigo mesma. Não podia ficar nostálgica agora. Não podia pensar no que perdera, pois era injusto, já que ganhara tanto depois. Olhou ao seu redor e sorriu. Se adaptar a nova realidade não foi fácil, mas parece que ela havia conseguido. Claro que teve ajuda, muita ajuda dos amigos, mas se sentiu orgulhosa de si mesma. Não podia acreditar que a própria Ema Cavalcanti, a baronesinha do café havia morado por meses num quarto de cortiço. Sorriu novamente. Sim, ela tinha! Pelo menos até seu então noivo concluir categoricamente que uma dama como ela deveria ficar num lugar mais apropriado. E lá estava ela, há alguns meses vivendo num Hotel no centro de São Paulo. Ele fora tão insistente que ela não teve como negar, até tentou convencê-lo, porque na verdade se sentia bem no cortiço, nunca pensou que pudesse acontecer, mas era o fato. Porém, Jorge fora irredutível.
Pensou em como chegara até ali, noiva de Jorge. Há um ano Jorge estava noivo de Amélia. Há um ano Jorge lhe havia dito que já não a amava mais. Há um ano seu mundo tinha desmoronado de todas as maneiras possíveis e agora estava ali, a algumas horas de se tornar a Senhora Jorge Nascimento! Ela já estava morando no cortiço quando o advogado apareceu, naquele momento, ela ainda estava magoada com ele, afinal, ele havia mentido, escondido a falência de sua família, fora cúmplice numa tramóia para enganá-la. Mas, querendo deixar o passado para trás, refez a amizade com o advogado. Ele a visitava sempre, às vezes até trazia consigo a doce Amélia, a quem Ema aprendeu a afeiçoar-se, por isso estranhou quando de repente, as visitas da moça cessou e semanas depois lhe veio a noticia: Amélia já muito doente, havia falecido. Lamentou profundamente a morte dela. Então passado o luto Jorge voltou a aparecer, dessa vez com suas intenções e sentimentos bem evidentes. Ema tentou esquivar-se, porém a realidade era clara, e na voz de Jorge lhe insistia em dizer que aquele lugar. onde ela estava, não era o seu mundo, não era o lugar dela. E com o tempo ela acreditou.
As recorrentes cartas do pai também a incentivou, ela não as respondia, mas Aurélio era constante em pedir que a filha aceitasse os cuidados do amigo e advogado de longa data. Por fim, ela viu que não adiantava fugir, era seu destino, sempre soubera. Era uma dama da sociedade afinal, fora criada para isso, para passar as tardes dedilhando Chopin ao piano, a preparar o cardápio de cada refeição de sua casa, e dar os melhores bailes que os amigos já viram, sua sina era cuidar dos homens de sua vida, e assim sendo, aceitou o pedido de casamento do amigo.
Logo ele a levou para o Hotel onde ela estava hospedada desde então, pois se recusou a hospedar-se na casa dele, não seria de bom tom. Então vieram os dias de preparação, enxoval, vestidos, decoração, teve ajuda das amigas Benedito — pelo menos as que moravam em São Paulo — e de Tenória que foi realmente uma grande parceira em tal quesito. Jorge também a convenceu a fazer as pazes com o pai e o avô, ela que já não se aguentava de saudade, cedeu. Os dois haviam chegado há dois dias em São Paulo para o casamento, e estavam radiantes de alegria. Iriam se mudar para lá, morariam com o casal na casa de Jorge. Ema se alegrou ao perceber que poderia dar novamente conforto ao seu pai e avô, Jorge era abastardo e com um futuro muito promissor.
Mas, se tudo estava se encaixando tão bem, como realmente as últimas peças de um quebra cabeça, por quê... Por que aquele peso em seu peito?
"É ansiedade! É apenas o nervosismo, é natural, Ema... Acalme-se!" dizia a si mesma enquanto andava de um lado para outro no quarto enrolada no penhoar. "Tudo ficará bem!"
Ela ouviu batidas na porta. Mandou quem quer que fosse entrar. Eram suas escudeiras Elisabeta, Jane e Tenória cada uma trazia caixas nas mãos e sorrisos nos rostos.
— Chegou o grande dia! — anunciaram em uníssono, trazendo uma alegria eufórica aquele quarto antes tão frio.
Passaram o dia entre tecidos e maquilagem, por fim a noiva estava pronta, e se converteu numa bela princesa. Jane tinha os olhos rasos d'água olhando a figura da amiga e segurava-se para não borrar sua maquilagem já pronta, o sorriso de Tenória não cabia mesmo em sua face larga e Elisabeta a olhava profundamente nos olhos.
— Está divina, Ema!
— Uma verdadeira visão!
Ela sorriu olhando-se no espelho. Sim, realmente estava belíssima. Os cabelos presos num coque, com uma tiara de brilhantes enfeitando o topo de sua cabeça, o vestido bem armado com camadas de seda e detalhes de renda francesa, o rosto levemente adornado com a maquilagem e os lábios de um rosa avermelhado realçando sua beleza.
— Obrigada pelos trabalhos, meninas! Creio que estou formidável! — ela sorriu diante do espelho.
— Santa modéstia! — brincou Elisabeta.
— Nem! É capaz do Seu Jorge ter um pire-paque em cima do altar!
— Ora, Tenória nem brinque com uma coisa dessas! – Ema fingiu ralhar, ainda que sorrisse. — Bem, mas acho que já está na hora de vocês irem vestir-se também. Ou quem será as atrasadas neste casamento serão as madrinhas e não a noiva.
Elas sorriram, ainda trocaram mais duas ou três palavras e saíram. Porém Elisabeta continuou, olhando a amiga pelo reflexo no espelho, Ema até tentou sustentar o olhar, mas era Elisabeta ali, como ela conseguiria fazê-lo? E quando não resistindo baixou o olhar sabia que tinha se entregado.
— Eu não entendo você — começou Elisa. — Depois de todo esse tempo, achei que tivesse aprendido!
— Elisa não comece, por favor, não hoje! — suspirou ainda de olhos baixo.
— Ema! — Elisabeta aproximou-se lhe segurando os ombros ainda a mirando pelo reflexo no espelho. — Justamente hoje eu preciso dizer-lhe isso! Você conquistou tantas coisas, dentre elas sua independência, para desistir de tudo assim, e se entregar novamente as convenções.
— Você fala como se tivesse sido fácil conquistar isso. Foi difícil, árduo! Imagine quanto trabalho daria para manter, mais e mais.
— É mais fácil desistir, Ema?! — ela virou a amiga para si. — Desistir de sua felicidade?!
— Quem disse que não serei feliz com Jorge? — perguntou finalmente olhando a outra.
— Você não o ama... Pelo menos não como se deve amar para se unir em casamento.
— Você não tem como saber de meus sentimentos por Jorge, Elisa! — Ema afastou-se, exasperada. — E por favor, pare com essa conversa, justamente no dia de hoje. Não me ponha mais nervosa do que eu já estou.
— Eu entendo! – respirou fundo. — Eu não queria fazê-lo, mas sei que essa é minha última oportunidade de alertá-la!
— Alertar-me?! Alertar-me sobre o que?!
— Sobre o que está prestes a fazer. Ema! — Elisabeta andou até ela novamente. — Ainda está em tempo de desistir!
— Desistir? Você está louca?! Como assim desistir?! — os olhos dela já ameaçavam embaçar de lágrimas e ela precisou de forças para não borrar a maquilagem.
— Já conversamos tanto sobre isso, Ema!
— Exatamente, Elisabeta! Já conversamos muito sobre isso e você ainda não entendeu... Não entendeu nada!
— Não entendi o que? — dessa vez Elisa tencionou se exasperar. — Seus motivos? Suas razões? Eu até entendo, mas não justifica, Ema! E você concordará comigo no futuro, porém será tarde demais! Porque você não ama Jorge o suficiente para ter com ele o que o casamento exige. E se fosse apenas isso, eu podia me conformar e dizer que você se apaixonaria por ele com o tempo, porém isso não vai acontecer e você sabe bem o por quê. Porque esse lugar dentro de seu coração já está ocupado!
— Chega Elisa! — ela quase gritou. — Justamente você me falando de amor, paixão e casamento? Como se você soubesse o que implica responsabilidades no matrimonio. Justo você que nunca quis saber sobre o assunto.
— Justamente por não querer saber sobre o assunto é que sei. Sempre disse que apenas o mais profundo amor me faria casar-me e quando o encontrei em Darcy e apenas assim, pude ceder a idéia do casamento. Porque amo Darcy com minhas forças. Porque não imagino a minha vida sem ele. Porque quero passar a vida ao lado dele, Ema! Será que você não entende? — A própria Elisabeta já tinha os olhos rasos. — É Jorge que você vê ao seu lado quando fecha os olhos e se ver daqui a cinqüenta anos? É Jorge que você deseja que a aqueça a noite em sua cama? É a Jorge a quem você quer dar filhos, Ema?! É ele quem você deseja?
— Chega Elisa! Pare! — ela gritou, colocou as mãos no ouvido, segurando firme o choro na garganta. — Não tem direito de me dizer essas coisas, não tem!
Alguns minutos de silêncio se seguiram até que ambas pudessem recuperar-se das emoções em seus respectivos interiores. Por fim, Elisabeta pigarreou.
— Me desculpe! — disse ela. — Eu só quis tentar uma última vez. Não vou mais importuná-la. Acho que você sabe o que está fazendo! — ela se aproximou da amiga novamente que tinha os braços cruzados e o olhar perdido na janela do quarto. — Eu só quero que saiba, — virou Ema para ela e lhe ergueu o queixo para mirar em seus olhos. — que sempre estarei aqui. Há qualquer momento, para o que precisar, para os dias difíceis, e pros felizes também. Sempre estarei aqui para você. Não se esqueça disso nunca!
Ema simplesmente a abraçou com força tendo total certeza daquelas palavras.
— Obrigada! Por tudo, obrigada!
Por fim quando Elisabeta saiu para vestir-se Ema voltou a perder-se pelos tortuosos pensamentos que a amiga trouxera a tona, talvez não perdoasse Elisabeta por ter maculado aquele seu dia com dúvidas e incertezas.
Porque aquela conversa tinha lhe trazido lembranças de uma outra conversa. Uma conversa que havia acontecido na noite anterior e que era o motivo real por ela ter despertado com o peso no peito. Ema tinha empurrado tal conversa para bem fundo de si antes de finalmente cair no sono noite passada, mas Elisabeta a trouxera de volta. Com aquele discurso trouxera de volta a essência dele.
...
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