Realidade ou Fantasia?

4 Capítulo 4 Teccire.


Capítulo 4 Teccire.

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No Reino Gelavia, no meio das cordilheiras de Lumi Lible − apesar de estarem por quase todos os lados, eram tão baixas que chegavam a ser insignificantes para a maioria dos mapas de Daeron −, havia um grande acampamento numa rara e extensa planície com numerosas e grandes tendas feitas de oleado, um tipo de pano impermeável. O clima era praticamente polar: frio e seco. Mas como ainda era o começo do verão em Gelavia, em que a duração do dia ficava por volta das 24 horas, a vegetação predominante nas cordilheiras era composta de musgos, ervas, líquens e arbustos baixos, já que as condições climáticas impediam que outras demais plantas crescessem em altura. A tundra era uma das duas vegetações proeminientes daquele reino, porém ambas eram semelhantes, exceto pela taiga ser um tipo de vegetação um pouco mais rica, repleta de pinheiros e abetos que constituíam o local.
Mas por que um acampamento justo naquele lugar? Lá é inabitado, as condições climáticas eram desfavoráveis... ninguém suspeitaria que alguém estivesse morando ali. E era exatamente por este mesmo motivo.
O grupo de pessoas que se abrigavam naquelas tendas era de um exército formado por mercenários, cujo nome era Teccire. Teccire, na língua das fadas, pronuncia-se \"tê-tír-rè\" e seu significado era \"paz\", \"harmonia\" e \"justiça\". E este mesmo significado explicava exatamente o que eles queriam. Para a grande parte dos habitantes de Daeron, eles não passavam de uma lenda ou apenas meros mercenários, para outros, justiceiros... e para alguns, uma ameaça.
Aquela hora, todos estavam no interior da maior barraca do acampamento, situado numa posição dominante no terreno. Era o quartel-general.
Todos discutiam ao mesmo tempo, a ponto de ser insuportável continuar lá.

Felizmente, não demorou muito para que alguém desse um basta naquela situação. E esse alguém era a comandante. Seu nome era Rebecca Klum, e ela era uma fada absurdamente bela − a beleza magnífica é uma das características principais da raça −, de traços frágeis e delicados. Rebecca podia ser tudo, exceto frágil. Seus brilhantes e ondulados cabelos ruivos caiam suavemente sobre seus ombros, indo até seus joelhos. O rosto era gentil, angelical... o contrário do que ela era. Autoritária, áspera, fria, raramente sorria. As aparências enganam, e ela era a prova disso.
Ela era a filha do desaparecido fundador e ex-comandante do Teccire, Lehen Klum. Um dos objetivos de Rebecca, além de restaurar a paz definitivamente em Daeron, era reencontrá-lo. Logo completaria oito anos o seu desaparecimento, mas ela não iria descansar até atingir seu objetivo.
− Basta! − Vociferou, irritada. No mesmo instante, todos se calaram. − Temos de decidir isso de uma maneira civilizada, não como ogros.
Rebecca causava temor nos demais por causa de sua personalidade extremamente incomum para uma fada; ninguém de sua tropa se atreveria em contrariá-la... exceto uma pessoa.
Era um elfo que se destacava em qualquer lugar, seja por sua beleza excepcional... ou por sua personalidade que contrastava com a de Rebecca. Ele era a sombra da líder, seu amigo de infância. Seu nome era Zaoll Skarsgård, filho do braço direito de Lehen − sim, não era apenas uma mera coincidência o fato de seu filho tornar-se também o braço direito da atual comandante −, o mesmo quem o substitui até que Rebecca completara dezesseis anos e já estava madura o suficiente conseguir comandar o exército.

Zaoll era parecido com o seu pai, seja nos traços delicados típicos de um elfo − e os longos e lisos cabelos negros − ou o modo que agia: como um bobo da corte. Fazia todos rirem facilmente com suas piadas − inclusive Rebecca, eram as únicas piadas das quais ela achava graça −; mas nem sempre, pois não sabia quando era o momento próprio para isso. Sempre está sorrindo, rindo à toa e fazendo novos amigos o tempo todo, o que explicava a exagerada quantidade de amigos e conhecidos. Ele era gentil e atencioso com todos, não importando sua raça, origem, etc. Porém, era muito audacioso. Na maioria das vezes não hesitava em contrariar Rebecca, gerando longas discussões, já que ambos tinham pontos de vista distintos, eram como o sol e a lua. Apesar de tudo, havia uma forte ligação entre eles e isso ninguém poderia negar. Combinavam, de certa forma. Mas, como são extremamente teimosos − a única coisa que tinham em comum −, não aceitavam isso... gerando mais outra discussão quando alguém toca no assunto.
− Perdoe-me, Rebecca, mas... − sussurrou para ela, porém não demorou muito para que fosse interrompido.
− Cale-se você também e chame Lucy imediatamente. − Ordenou.
Zaoll assentiu e retirou-se do quartel-general rapidamente. Decidiu obedecê-la daquela vez, já que aquele dia estava sendo estressante demais para ela... por causa da chegada da A Humana da Profecia, que foi noticiada naquela manhã, um dia após de sua passagem pela fronteira entre a Terra e Daeron. Por enquanto, apenas o Teccire sabia do acontecimento.
A Profecia era a única esperança restante em Daeron. Seria o fim da tirania e a retomada dos Tempos Dourados. Tudo começou quando uma bruxa que morava num vilarejo situado no Reino Bhratersden começou a ter sonhos constantes, com mensagens sobre absolutamente tudo o que estava prestes a acontecer. Quando estava à beira da morte, contou tudo o que sonhara para sua única filha, uma jovem camponesa benévola cujo nome era Viktoria Triatork, que estava presente no leito de sua morte. Acreditou nela, que falecera no dia seguinte. Decidiu contar à todos os demais camponeses do vilarejo, mas ninguém a ouviu. Revoltada, foi até a capital de Bhratersden, Shadotre, numa tentativa frustrada de conseguir falar com o rei Mozevech IV. Conseguiu relatar tudo o que sua mãe preveu, mas foi considerada como louca pelo rei, já que Daeron estava em plena prosperidade e harmonia, com todos convictos de que nunca mais haveria tempos ruins. Ordenou conená-la a prisão perpétua na masmorra do Palácio de Shadotre.
Viktoria de fato estava completamente alienada, porém, de certa forma, tinha razão de que os Tempos Dourados estavam chegando o fim. Tudo se concretizara em questão de poucos anos após o ato.
A profetisa havia previsto tudo o que ocorreria após o Golpe do Pacto, a conquista do trono do Reino Qaellia pela princessa, atual rainha, Domino van der Quozen.
A princesa não suportava o fato de que seu irmão mais novo, Mognus II, seria o herdeiro do trono e não ela, já que seu pai não a considerava competente para reinar − não tinha compaixão com nada e nem ninguém. Um dia antes da coroação, procurou incessamente pelo Pergaminho Proibido, no qual ouviu falar quando era criança. Subornou, ameaçou e matou os bibliotecários, para que eles lhe entregassem o tal pergaminho. Por fim, abriu-o e finalmente encontrou o que queria: um pacto de sangue, que para selá-lo, deveria matar toda a sua família e beber um copo de sangue de cada um deles, além da renúncia de seus sentimentos de felicidade e amor para que tivesse uma vida eterna como rainha. Não hesitou em aceitar, e o fez. Ousou matar todos, não deixando qualquer outro ser pertencente a nobreza sobrevivente, além dos guardas e empregados ali presentes, afinal, não queria testemunhas.
Poucas pessoas sabiam do acontecimento − e guardavam o mesmo com suas vidas.
O povo de Qaellia não se rebelou contra a rainha; eram covardes demais para se oporem a algum membro da realeza, pois para eles seria o mesmo do que cometer um suicídio. Atualmente, o mesmo povo pusilânime e ignorante está em desgraça, assim como a grande maioria de Daeron. Haviam guerras constantes entre Qaellia e os outros reinos, em tentativas inúteis de acabarem com o despotismo de Domino... sempre falhadas, de alguma forma. Estava incluído no pacto, também: o mesmo reino comandado pelo pactário seria invencível. Mas o que a megera não sabia era que havia uma exceção, que estava oculto no pergaminho que fora roubado por um membro do Teccire anos depois... apenas uma criatura pertencente a uma raça que não era originária de Daeron e desprezada por vários de seus habitantes: uma humana, com ancestrais beorcs de sangue azul de um reino milenar, o Reino Ulüre, a única humana capaz de dominar todos os elementos ao mesmo tempo. Ela era o único ser vivo capaz de derrotar Domino, após aprender a controlar os tais elementos. A notícia espalhou-se rapidamente por Daeron, chegando até aos ouvidos da grande maioria dos burgueses e nobres dos outros demais reinos, inclusive aos ouvidos de Mozevech IV, que libertou Viktoria imediatamente, implorando por mais detalhes da Profecia.
A rainha não sabia nada disso até que um traidor do Teccire se aliar à ela, contando-lhe todas as informações que eles tinham sobre A Humana e tudo o que planejavam contra ela. Desconfia-se que o mesmo traidor ainda circula no exército − e até hoje é procurado, sem sucesso. Desde então, Domino proibira a circulação da Profecia entre os habitantes de Qaellia; não queria que ficassem esperançosos. Quem comentasse algo sobre A Profecia era denunciado por algum espião da rainha − estavam por todos os cantos, vigiavam todas as conversas dos moradores, não havia privacidade naquele reino −, perseguido e morto impiedosamente. A vida em Qaellia era miserável e sem liberdade, por isso sempre haviam fugas para um reino próximo.
Tudo isso explicava o porquê de tanto alvoroço sempre quando falavam sobre A Profecia no Teccire. Não era à toa que todos estavam tensos no quartel-general naquele dia.
Após a saída de Zaoll e a espera de Rebecca, a discussão tomou conta novamente do local. Quando ele voltou, estava acompanhado com uma garota que possuía cauda e orelhas brancas como a de uma raposa do Ártico. Seus cabelos desgrenhados eram igualmente brancos e de tamanho médio, repicados para todos os lados, que batiam um pouco abaixo de seu ombro. Aparentava ter apenas doze anos, graças a sua ausência de curvas e altura. Mas na verdade, tinha mais de cem anos de idade, já que era uma sub-humana.
Os sub-humanos são seres que possuem duas formas: a humana, na qual eles se aparentam com beorcs, porém, possuem orelhas, caudas, asas ou nadadeiras de um animal; e a de animal, que é sua forma original e mais forte, mas que para poder transformar-se, deve ter uma certa quantidade de energia presente nos alimentos, pedras, etc. Mas normalmente os mais experientes e poderosos conseguem manter sua forma animal por dois dias ou mais, idependente da quantidade de energia possuida. Podem ser animais terrestres, voadores ou aquáticos. A grande maioria dos sub-humanos são as sereias e os tritões, que são capazes de se transformarem em peixes, golfinhos, tubarões e afins, mas todos estes vivem debaixo d\'água e não sobrevivem na terra, pois não são capazes de andar e se desidratariam facilmente sem água em menos de uma hora. Um terço dos animais presentes em Daeron são sub-humanos; já os outros dois terços são os que atravessaram a fronteira acidentalmente − os que são caçados ou criados com fins alimentícios.
O termo sub-humano têm dois sentidos. O original, é o bom sentido, de que eles são parecidos com humanos, mas não são. Já o outro, que é usado frequentemente pelos beorcs que os desprezam, que usam o termo \"sub-humano\" se referindo à tal raça como se eles fossem inferiores aos humanos e as outras demais raças. Os sub-humanos e os beorcs sempre tiveram uma certa rivalidade entre si, pois são as raças predominantes em Daeron, tanto que em alguns reinos os beorcs são altamente discriminados pela maioria que é sub-humana ou vice-versa; felizmente, em outros reinos, as duas raças se aceitam e convivem em plena harmonia.
E, logicamente, a tal sub-humana que o elfo trouxera tinha como sua forma original uma raposa − e agia com astúcia feito uma mesmo em sua forma humana; era visualmente perceptível graças ao seu sorriso e seu olhar malicioso.
− Lucy. − Disse Rebecca ao vê-la, séria. Era assim que cumprimentava as pessoas. − Creio que você já sabe da notícia.
− Sim, já estou ciente disso. O mensageiro veio até a minha barraca para isso. − Respondeu com o mesmo sorriso perspicaz estampado nos lábios. Virou-se para o restante presente no quartel-general, que ainda discutiam incansavelmente entre si, e revirou seus olhos negros e opacos. − Devo dar um fim nesta desordem? Afinal, eu também tenho uma certa autoridade aqui e acho que não faria mal se eu abusasse um pouco dela.
− Não é preciso. Eu mesma o farei, novamente − retorquiu, pigarreando. Aumentou o tom de voz, de modo que todos ouvissem. − Silêncio. Como nossa estrategista já está presente, vamos começar. Obedeceram-na imediatamente e o quartel ficara silencioso novamente. Então, Lucy pegou um alfinete e fincou-o no grande mapa que estava sobre a mesa central. O alfinete estava no Reino Enovia, próximo com sua fronteira com o Reino Qaellia, na ponta ao oeste.
− É exatamente neste local onde há a fronteira, entre a Terra, o mundo dos humanos, e Daeron, o nosso mundo. Isso todos sabem, de fato. A Humana não deve estar muito longe, pois como é extremamente difícil a passagem para Qaellia, provavelmente seu paradeiro deve ser em Enovia. Segundo nosso mensageiro, ela está na Floresta Trollepya. Foi abrigada por um mago do fogo, cujo nome é conhecido pelos demais daqui: James Ellegan.
Todos começaram a fazerem comentários sobre ele, boquiabertos. Como a sub-humana odiava ser interrompida, bateu seu punho na mesa para que a deixassem continuar, assustando-os.
− Acalme-se, Lucy − disse Zaoll, que estava ao seu lado.
− A próxima criatura deplorável que se atrever em dizer mais alguma palavra será expulso do quartel-general imediatamente − ameaçou, rosnando. Sua face e seu timbre de voz eram diabólicos quando se estressava. Mas não demorou muito para que voltasse ao normal, com o seu mesmo sorrisinho malicioso de sempre. − Enfim. Não temos certeza absoluta se ela realmente é A Humana. Mas foi a única humana que conseguiu atravessar a fronteira ontem, que era o dia dito na Profecia. Não sabemos se há outras fronteiras além daquela, que é a única conhecida, e é por esse mesmo motivo que não podemos ir logo alegando com toda certeza que A Humana finalmente chegou. Talvez Viktoria Triatork não tenha ouvido direito na hora em que a profetisa lhe disse o dia. Ressalto que isto é apenas uma mera teoria, então não é preciso perder totalmente as esperanças, porque sem isso não seríamos capazes de continuar com o nosso exército. − Finalmente fez uma pausa, suspirando. − Alguma dúvida sobre o que eu disse até agora?
Todos permaneceram em silêncio, intimidados. − Aparentemente todos entenderam. Prosseguirei. − Disse por fim, satisfeita. − Se queremos achar A Humana antes de Domino, teremos de nos deslocar ainda hoje, isto é, se nossa comandante estiver de acordo − virou-se para a fada, erguendo suas sobrancelhas. − Rebecca, você permitiria isso? Pois eu tenho certeza absoluta que se os outros demais reinos souberem sobre a chegada da Humana, bancariam todos os nossos gastos feitos, já que nos contratariam de imediato. Ou seja, enquanto nós estivermos indo até Enovia, mandaremos nossos mensageiros até outros reinos para informá-los.
− Sim. − Respondeu simplesmente com sua voz grave.
− Certo. Agora, vão arrumar suas bagagens logo, pois partiremos de Lumi Lible ao entardecer. Espero que não sintam enjoô ao andarem de navios voadores que providenciei antes de vir aqui, já que era impossível nossa comandante negar minha tática genial... − finalizava, até que Zaoll a agarrase pelo pescoço e esfregasse seu punho em sua cabeça.
− Sua pirralha metida! − Exclamou, enquanto esfregava mais ainda sua cabeça.
− Pare com isso imediatamente, seu verme desprezível! − Ordenou, enquanto tentava morder o braço dele para que ele a largasse.
Todos que estavam presentes começaram a se retirar do quartel-general rapidamente, pois faltavam apenas três horas para o entardecer.
Uma outra sub-humana mais velha que Lucy − aparentava ter dezessete anos de idade − adentrou no local junto com um rapaz alto e robusto de cabelos azul-piscina. Ambos tinham um tom de pele clarissímo como a neve como a grande maioria dos habitantes de Gelavia. A sub-humana tinha orelhas e caudas pardas e felpudas como as de um lince. Seus longuíneos cabelos de um lilás claro mesclado com cinza se movimentavam com graça enquanto andava. Ambos usavam um capuz de bordas com pêlos, que foram retirados assim quando Zaoll finalmente soltara Lucy, que estava com o cabelo ainda mais desgrenhado. − Eu e Klaus checamos todos os navios e está tudo ok. − Ela disse, sorrindo. Colocou todo o seu cabelo de lado e completou: − Não há problema algum em partir hoje, porque não há nenhuma nevasca prevista durante todo o verão em Lumi Lible.
− Ótimo. Violet Lu Phiorelle e Klaus Zartev, sou muito grata a vocês por terem vindo esta manhã. − Agradeceu.
− Disponha, Lucy. Mas não era preciso citar nossos nomes completos − ela riu. − Todos os armamentos que trouxemos são feitos de yelrevo, assim como você pediu; deixei-os dentro do navio principal no qual iremos embarcar e pretendo distribuí-los quando estiver faltando apenas uma hora para o crepúsculo. Nunca se sabe quando há um ataque surpresa, mesmo em viagens pelo céu. Então é melhor já estarmos com tudo em mãos caso isso aconteça. − Ao ver a comandante, Violet fizera uma reverência. − Comandante Rebecca − assentiu − é bom vê-la depois de tanto tempo. − Respirou fundo, e logo completou: − Minha intuição felina está me dizendo que algo grande está prestes a acontecer que entrará para a história de Daeron para sempre... uma guerra. Rebecca, você está preparada para a guerra? − Mais do que nunca, Violet. Mais do que nunca. − Disse, por fim. Sorria.

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Notas finais
O quarto capítulo já está sendo escrito - 1/5 dele já foi feito, pelo menos - e com ele, virá uma surpresa para vocês. Não posso contar, porque aí não seria mais uma surpresa. :B
Chuu~