Realidade indefinida
2 Garota sem nome
Notas iniciais
Este capítulo é contado por outro narrador.
Eu, narradora, sou Katerina, a médica.
Estava há horas oscilando entre bocejos e café; meu raciocínio ficara lento desde a última emergência, há uma hora e meia. Quando é necessário agir rápido, o sono se esconde em uma caixinha dentro do meu corpo, para voltar a aparecer depois.
Assim que saí do quarto da garota cujo nome é noventa e sete, peguei os prontuários dos meus pacientes; checaria rapidamente um por um, e depois eu iria – finalmente – para casa. Aquela mulher com certeza tinha medo de hospital, não era tão difícil aparecer alguém assim. Os olhos vidrados, com rosto de pavor, não conseguir responder direito perguntas simples. – Chama a psiquiatria, por favor — pedi a secretária do corredor térreo. Seria um processo trabalhoso e demorado lidar com essa paciente, e ela provavelmente não me ouviria, deve ter medo de médicos também. O psiquiatra saberia como lidar. Eu preciso mesmo dormir, fiquei por dez segundos relendo o nome de um paciente: Antony; não, Antonio, Antonieta! Sim, ela deveria receber alta hoje. Comecei a me encaminhar para o elevador. – Doutora! A garota do quarto 2 era sua paciente? Ela saiu correndo, doutora! – o guarda chegou correndo até mim, ofegante. – Desculpe-me senhora, não consegui contê-la, estava do outro lado, na emergência; quando a vi, tentei pegar seu braço, mas ela estava desesperada. Acho melhor a senhora falar com ela Eu não esperei ele terminar de falar, tirei o jaleco e saí pela porta gritando ordens:– Diga ao Dr. Gomez dar alta aos meus pacientes. Eu tenho que acha-la, chame a psiquiatria de novo. Eu estava me torturando por dentro: mas que irresponsável eu fora, não deveria ter saído do lado do quarto até o psiquiatra chegar, ou deveria ter mandado um guarda ficar com ela. Estava com tanto sono que nem raciocinei direito. Sua burra, disse a mim mesma, as ruas estavam frias e a garota se encontrava apenas com a roupa do hospital, ainda estava desnutrida, apesar do soro, se algo acontecesse a ela seria culpa minha, minha! Que infelicidade! A menina estava sofrendo e eu a deixei sozinha, eu tinha que encontra-la e leva-la de volta ao hospital. Sai perguntando para todos na rua se viram uma garota com camisola de hospital, ela não passaria despercebida. Pelo menos se ali não fosse uma cidade grande ela não passaria despercebida, apenas umas duas pessoas me apontaram um caminho, que por sinal eram contrários. Ótimo, como eu encontraria uma garota no meio de Londres? Não foi muito difícil, andei uma quadra e ela estava lá, agachada no canto de uma calçada, tremendo, com o rosto coberto, ao lado de uma padaria. Ela não poderia ir muito longe mesmo, estava muito fraca. Um alívio se apossou do meu corpo imediatamente, a adrenalina que corria por ele segundos atrás desaparecia e minhas pernas ficaram bambas, com essa tranquilidade veio uma necessidade de me sentar ao lado dela na calçada. Sentei. Ela estremeceu e se encolheu ainda mais, arrastando seu corpo frágil para longe de mim. Eu não a toquei, resolvi manter a distância e tentar conversar, para mostrar que não estava invadindo sua privacidade. – Você parece com frio, pegue minha blusa. – Eu tirei minha blusa e a estendi em sua direção.Ela esticou a mão timidamente e pegou a blusa, colocando-a por cima dos ombros. Deveria estar com muito frio, pensei, a ponto de pegar a blusa de uma estranha.– Vamos só conversar, tudo bem? Não vou leva-la de volta ao hospital.Ela não respondeu, continuou de cabeça baixa.– Está bem! Meu nome é Katerina, eu não vou machucar você, vou apenas conversar. Qual o seu nome?– Noventa e sete – ela, novamente, disse que seu nome era um numeral. Será que quer me dizer algo com isso? Que o número da casa ou da rua dela é noventa e sete ? Que há noventa e sete dias que ela anda pelas ruas?– O que você quer dizer com isso? O que é noventa e sete? – perguntei.– Meu nome – dessa vez ela disse palavras diferentes, mas igualmente sem sentido. Como o nome de alguém poderia ser noventa e sete?– Tudo bem. – resolvi parar de tentar fazer com que ela dissesse seu nome, na hora certa ela diria. — Você pode me chamar de Kat.O que eu estava fazendo? Deveria deixar o psiquiatra fazer isso. Mas algo me dizia que ela se abriria melhor com uma mulher, assustara-se muito quando Dr. Gomez entrou na sala, seria melhor se eu continuasse a conversar.– Você esta com fome? – perguntei.Ela acenou com a cabeça. Os braços tão finos confirmavam, não deveria comer bem há dias, se é que algum dia comera.– Vamos para o hospital então, você não precisa entrar no quarto nem receber medicamentos, nós vamos à cantina, eu pego comida e roupas para você.Só de ouvir o nome “hospital” ela se encolheu mais ainda.– Não, para a casa branca não, médicos não. – ela disse, com voz de medo.O que se passara com essa garota, afinal? Eu me perguntei. O melhor seria leva-la a psiquiatria para ser diagnosticada e tratada. Mas ela não entraria no hospital, então eu poderia levá-la a uma clínica, sem ser branca e sem médicos de jaleco.Escrevi uma mensagem para o grupo dos médicos, falando que a encontrara, mas ela se negava a ir para o hospital. Disse que a levaria para a clínica psiquiátrica a duas quadras dali. Não, apaguei o texto, nesse horário não havia mulheres na clínica, eu teria que levá-la na que se encontrava do outro lado da cidade. Não enviei nenhuma mensagem.
– Tudo bem então, eu vou pedir um taxi, passamos na minha casa para pegar roupas para você e se vestir e depois vou te levar para conhecer uma amiga minha – essa amiga era a psiquiatra. Será que estaria a fazer a coisa certa?Não sei ao certo se ela ouviu o que eu disse, na hora em que comecei a falar um grupo de pessoas passou andando pela calçada, o que provocou tremores dos pés a cabeça dela. Deve ter um medo absurdo de pessoas, pensei, não só de médicos, embora com esses ela demonstrara um completo pavor.– O que é taxi? – ela perguntou. O caso era mais sério do que eu imaginava, assemelhava-se a um cárcere privado, ou algo do gênero. Ela bem que poderia não ter um nome, afinal. O que eu faria com aquela garota? Eu poderia sedá-la e pedir que a ambulância venha para leva-la ao hospital. Se fora realmente mantida em cárcere privado, não poderia se apegar a mim, eu teria que encontrar sua família – se é que havia uma – e submetê-la a tratamento. Ela parecia ouvir meus pensamentos, porque virou a cabeça e disse:– Eu vou com você, mas não me leve de volta ao hospital, por favor, eu vou com você até sua casa, mas não me leve de volta, eles vão descobrir.– Descobrir o que? Ela abaixou o s olhos e não respondeu. Eu chamei um taxi pelo celular. O que eu estava fazendo? Parecia certo leva-la até minha casa, mas não leva-la de volta ao hospital. E se de fato as pessoas das quais ela estava fugindo descobrissem? Preferi entender o que estava se passando para depois envolver outras pessoas no meio. Ela poderia se apegar a mim, o que não seria bom para o tratamento, mas algo me dizia que o eu que estava a fazer era correto.– Vamos, vou te levar a minha casa. – eu a ajudei a se levantar e a entrar no taxi.
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