Realidade indefinida
3 Água
Notas iniciais
Não havia luz.
— Eu acendo.
Katerina acendeu. E foi então que eu me deparei com a casa mais bonita que já vira, parecia sair de filme, parecia da tela. Uma tal harmonia de objetos para mim não era real, não poderia ser, a harmonia aparecia somente nos meus sonhos, quando eu visitava o lugar que eu quisesse.
Mas não, era real.
Essa constatação acendeu sensações em mim que eu nunca tivera, lembrei-me dos melhores filmes, dos melhores sonhos, onde tudo era perfeito, onde tudo estava onde deveria estar. Senti um cheiro que nunca havia sentido antes, ele entrou pelo meu corpo, serpenteou e provocou arrepios. Eu estava em um lar.
— Acho que a Barbara acabou de sair e deixou o café pronto. – Katerina estava tirando parte da roupa, estava mais quente aqui do que nas ruas. – É melhor você tomar um banho para se aquecer primeiro, enquanto isso eu preparo alguma coisa para comermos. – Ela estava solta, movia-se pela sala sem preocupações, como se estivesse acabado de chegar em um lugar muito confortável. Era assim nos meus sonhos, eu me sentia solta.
As paredes tinham cor de terra, a terra que eu via em meus sonhos; o chão era de uma terra escura, com alguns panos espalhados, assim como no chão não á só terra, há gramas e flores também. Eu via a terra nos meus sonhos. Havia sofás. Sofás! Eu só os vira em filmes, eram maravilhosos, coloridos, um tinha cor de sangue, e havia vários papeis espalhados por cima dele, e ao lado havia outro, menor, cor de laranja; e um buraco na parece com pedaços de árvore, acho que usavam isso para se aquecerem. Todos esses objetos formavam uma combinação incrível, senti vontade de tocá-los todos, deitar no chão e ficar parada sentindo o arrepio do meu corpo. Eu me sentia uma garota de filme.
Eu olhei para os meus pés e senti que estavam congelando, agora que meu corpo estava mais quente, meus pés desnudos começaram a doer de frio.
— Você está descalça! – Katerina parecia só ter percebido isso naquela hora. – Vem por aqui, eu vou te levar ao banheiro, e você vai tomar um banho com água quente para esquentar.
Ela fez sinal para que a acompanhasse; eu a segui pela direita, onde a parede se abria para outra sala, essa com várias portas; ela abriu a da esquerda e acendeu a luz.
O banheiro! Eu sempre sonhara com um banheiro, e esse parecia o mais bonito, havia a pia, o vaso e uma banheira, de onde vinha água da parede. A parede era azul, da cor do céu, a pia, o vaso, o resto era amarelo claro, como o sol. Eu estava em um pequeno céu.
Katerina se agachou e girou uma torneira que havia ao lado da banheira, começou a sair água, muita água.
Ela se virou para mim e eu percebi que havia água nos meus olhos também, tudo era muito, era extravagante, extrapolava tudo o que eu achava que existia. E isso era maravilhoso! Eu me sentia aquecida pela primeira vez, o meu corpo não queria correr, queria entrar na banheira, queria sentar no sofá, deitar no chão e sentir os cheiros. Ah, os cheiros! Cada sala tinha um cheiro que me provocava sensações diferentes. Onde eu morava antes não havia cheiros, ou melhor, havia, de álcool, lá tudo era branco e limpo, excessivamente limpo. Aqui não, aqui era vivo, como nos sonhos.
Eu me lembrei de um sonho, o qual se repetira inúmeras vezes durante os anos. Eu sonhava que pisava em um chão fino, era possível pegar na mão e fazer correr por entre os dedos, e claro, luminoso, parecia brilhar em certos pontos, refletir um céu tão claro que meus olhos mal aguentavam ver, mas no sonho não havia dor, então eu levantava o rosto e encarava o sol, fonte de todo carinho e aconchego, de toda quentura do corpo, era imponente, estava ali para me lembrar que sem ele o chão não brilharia e nem a água, ainda não contei da água, vou voltar. Atrás de mim havia árvores, de vários tamanhos, com seus troncos cor de terra, uns mais claros, outros mais escuros e suas cabeças verdes, cheia de cabelo vivo, que se mexia com o vento. O vento! Era ótimo sentir o vento, ele vinha da minha frente, da água, era um infinito de água, não acabava, ela seguia o sol até onde ele fosse, era o oposto do céu, também azul, e formava ondas fracas que batiam até meus pés. Antes da água chegar eu sempre me encontrava em um estado de excitação, esperando que chegasse, e quando batia na ponta dos meus dedos meu corpo já estremecia inteiro, era coisa viva que batia, que abraçava meus pés, ela queria me dizer que tudo estava bem, que cuidava de mim, e eu ficava em paz. Nessas horas vinham diálogos na minha mente, palavras que jamais sequer ouvira, tentava encontrar alguma que descrevesse o momento, mas elas escapavam, eram como as ondas, iam e vinham, e estava tudo bem, nesses momentos absolutamente tudo estava bem. Tudo era tão certo quanto essa infinidade de água seguir o céu, era assim e não poderia ser de outra forma.
Eu olhei para a água saindo da torneira e quis colocar a mão embaixo dela, sentir ela caindo. Katerina a fechou.
— Pode tomar banho, a água está quente, enquanto isso estarei na cozinha. Você precisa de ajuda, quer que eu fique?
Eu fiz um não com a cabeça, Katernia saiu e eu avancei para a banheira, como quem não vê mais nada. Eu precisava me livrar daquela camisola, lembrava-me de coisas ruins, eu a tirei e a joguei no chão atrás da porta, para que não a visse. Sem nem fechar a porta, eu entrei nua na banheira, queria sentir em cada milímetro do meu corpo como era sentir a água. Eu já havia sonhado outras vezes que mergulhava nela, mas agora era diferente, meu corpo estava ali, e ele me obedecia.
Coloquei as duas pernas. O calor foi invadindo meu corpo, estava me sentindo protegida, eu estava cercada e protegida, não era uma proteção dura, fria, como uma parede, era morna, maleável, como um sorriso. Os sorrisos que eu via nas telas, sempre tão carinhosos, eu finalmente sentia esse carinho. Eu sentia! Quando percebi estava saindo água pelos meus olhos, salgada, de quem joga para fora o que não presta mais, a vi se misturando com a da banheira, essa última engolia a menor, purificando-a, dizendo que estava tudo bem. Eu sentei até que meu pescoço tocasse a água. E desapareci. Desapareci por completo do banheiro, eu estava em um mundo quente e agradável, tudo girava em círculos perfeitos, tudo era maleável como a proteção que eu sentia. Afundei minha cabeça, eu com certeza não estava mais no banheiro, estava em um lugar só meu, onde tudo se movia e nada acabava...
— Você está bem? – saí do meu mundo com o grito de Katerina, que entrava desesperada no banheiro e jogava uma pilha de panos no chão. Ela foi ao meu encontro correndo e me pegou pelos braços.
— Eu estou bem, estava só imaginando – respondi assustada, não esperava essa reação dela, eu estava bem.
— Tudo bem, mas não imagine mais com a cabeça por baixo da água, por favor. – ela disse mais aliviada, com a respiração ainda voltando ao normal.
— Está bem – eu obedeci.
— Eu trouxe roupas – ela disse, pegando-as do chão. – Assim que terminar de tomar banho coloque para não passar frio.
Katerina saiu, mas a todo o momento passava a frente da porta do banheiro e me lançava um meio sorriso. Eu não entendia o comportamento dela. Continuei no banho, mexendo o corpo para ver a água se mexer também, e assim passei por um bom tempo, até que minha pele ficou toda engomada, áspera; então decidi sair e colocar a roupa. Era meu primeiro banho, os outros todos eram feitos com pano molhado, agora descobri que banho pode ser divertido.
— Você não se enxugou? – Katerina perguntou, parando à porta.
— Não. Era necessário?
— Eu sempre me enxugo, para não molhar a roupa.
— Ah. – as roupas estavam boas, só um pouco frias.
— Elas ficam geladas se molhadas – ela explicou. – Vem, eu preparei a comida, podemos conversar na cozinha – ela me esticou a mão, e eu a peguei.
Lancei um último olhar para a água na banheira e pensei... ela segue mesmo o céu.
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