Notas iniciais
Garota sem nome A número 97 Talvez seja um bom número

O frio foi o que chegou primeiro.

Depois eu senti o asfalto batendo no meu corpo. BUM. Com certeza vai ficar roxo, quando eu caia ficava.

Em seguida foi a fome, fome imensa. Quantos dias não tomava as pílulas, um... talvez dois dias. Não lembro mais.

Sai correndo no meio dos carros. CARROS; Nunca havia visto, só na tela, e na tela as pessoas faziam isso, corriam para não bater nos carros. O compartimento que eu ficara no carro era muito escuro, não dava pra ver nada, mas agora sim. Carros. De algumas cores, por todos os lados.

Frio, frio, precisava me aquecer. Mas para onde correr?

Calçada – era assim que falavam nas telas, calçada -, corri pra calçada, não era mais quente ali. Mas dentro daquela casa deve ser, entrei. A casa tinha varias mesas e um cheiro delicioso. Minha fome se apertou. Ah, aquele era um lugar que as pessoas vão para comer, eu lembro disso, elas pedem pão.

— Me dá um pão?

— Você está louca menina, com essa roupa até parece que pode pagar. – eu perguntei para uma mulher, mas foi o homem que respondeu. Sai correndo daquela casa. Aquele homem não era bom. Tropecei na calçada, eu não sabia correr, nunca tinha feito isso.

— Ei, aquela garota, ela precisa de ajuda, alguém leva ela para o hospital. – a mulher da casa com pães tinha saído para a calçada e gritou essa frase. Ao ver que ninguém tinha dado atenção, deu de ombros e voltou pra casa com pães.

Eu levantei, e cai de novo, estava muito fraca, era difícil ficar em pé. A rua girava. Uma dezena de rostos pareciam me encarar, mas não viam, não sabiam como eu estava me sentindo. Tonta, muito tonta. Eu ia cair de novo. A calçada era dura, apareceria outro roxo, mas eu não me lembro de ter chegado ao chão.

Acordei com uma luz forte na minha frente.

NÃO NÃO NÃO

Eu tinha voltado, tinha certeza disso, a sala era branca e eu estava deitada sobre uma cama branca também, eu voltei. Foi tudo um sonho, a casa de pães, a mulher gritando, os carros. Um sonho. Eu voltei. Ou talvez eles me pegaram de novo, talvez eu fugi e me pegaram de novo. Não, não podia ser! Nunca mais veria calçadas.

— Olá! Você acordou! Qual o seu nome? – uma mulher (mulher¿) me perguntava isso, nunca alguém tinha me perguntado isso, e eu nunca tinha visto uma mulher assim, ela estava sorrindo, parecia médica. Mas onde eu morava só havia uma média, e eu conhecia muito bem ela. Vai ver ela era nova, ainda não tinha decorado meu número.

— 97 – eu respondi.

— 97 – ela perguntou -, ninguém se chama 97.

— Eu sim, sou a única. – E eu era mesmo, era a única 97, os outros tinham outros números.

Um médico entrou na sala. Eu sabia, estava de volta e a mulher tentava me acalmar. Mas ela não conseguiria me acalmar, eu estava de volta. Eu paralisei; nada do que eu fizesse faria diferença. Poderia me soltar dos fios e agulhas que me ligavam a cama, andar um metro, e então me colocariam na cama de novo, só que eu acordaria horas depois.

— Você estava muito fraca, estamos te dando um soro, não se assuste com as agulhas. Eu volto assim que estiver melhor. – Ele deve ter visto o terror estampado em meu rosto, mas não ligaria, nunca ligavam. Ele saiu da sala, melhor, não gostava dos médicos. Esse soro devia ser um comprimido líquido, eles só devem ter mudado o tipo de medicação. Isso, para não me assustarem de novo. Eu deveria ter fugido, e eles mudaram as vitaminas e medicamentos de comprimido para líquido, já haviam feito uma vez antes, quando eu tentara fugir anos atrás.

— Está assustada! Tem medo de hospital? — a médica percebeu que eu estava com medo. Ela com certeza era nova; ninguém perguntava, eles só davam remédios para eu não ter medo. – Tudo bem, eu vou dar um tempo para se acalmar, volto logo.

Ela não deu remédio, eu não iria dormir, e não havia ninguém na sala. Estava tudo diferente, nunca fariam isso, nunca. Eu me soltei dos fios. Se não me deram remédios, significava que eu podia correr de novo, estava me sentindo mais forte, e estava bem acordada. Levantei da cama e fui olhar pela porta: ninguém o corredor. Mais estranho ainda.

Não importava. Corri, corri até a outra porta. Um homem vestido de preto tentou me impedir, mas eu continuei correndo, até chegar... na calçada¿ Calçada de novo¿ Não era possível, não havia calçada onde eu morava.

Depois eu penso sobre isso, falei para mim mesma. Voltei a correr, tinha que me afastar do lugar com camas e paredes brancas. Não era o mesmo lugar que eu morava, mas era parecido, então eu deveria fugir, correr, não queria mais tomar remédios e vitaminas e assistir a filmes na tela. Havia calçadas e casas com pães aqui fora, deveria continuar aqui fora.