Realidade Virtual
3 Capítulo 3
Os dias passavam devagar e eu não conseguia entrar em contato com Mari. Não tinha seu número de telefone, seu Skype não dava nem sinal de vida e não haviam tweets recentes. Eu tenho amigos, não pense o contrário disso. Na verdade, tenho muitos. Os que realmente confio que são um caso a parte.
Você deve achar meio idiota da minha parte considerar alguém que eu conheci na Internet um amigo de verdade, mas eu me sinto mais seguro em contar meus segredos para alguém desconhecido que eu sei que não terá como usar minhas verdades contra mim. Claro que eu não tiro o mérito das pessoas que estão diariamente comigo, principalmente o Matheus.
Faltavam menos de 24 horas para o evento, e eu estava mais ansioso do que criança na véspera do aniversário. Liguei o computador e percebi que já era quase 6 horas da tarde. Tudo o que eu precisava fazer para o blog e o canal já estava feito, mas isso não tornava a internet inútil pra mim.
Abri o navegador anônimo, pois acho uma forma mais segura de não descobrirem que gosto desse tipo de coisa. Sabe, algumas pessoas não gostam e não aceitam que os outros gostem desse tipo de coisa, mas eu não tenho culpa por ter tido uma mãe que me influenciou muito à gostar desse tipo de coisa. Sim, eu estava indo abrir meu horóscopo.
Sempre gostei de horóscopos, oráculos, tarots, runas e outras mil coisas doidas. No início eu achava normal contar aos outros que eu visitava sites com previsões regularmente, mas depois comecei a perceber que as pessoas tratam os signos como "coisa de mulher", então nem falo sobre. Meu signo é leão, mas não sou tão vaidoso como a maioria dos leoninos, graças à meu ascendente, que é em virgem. Você pode não estar entendendo nada do que eu falo, mas muitas coisas fazem muito sentido no horóscopo e você pode nem imaginar.
Fiquei por um bom tempo jogando cartas, consultando runas e até tentei uma previsão com uma cartomante on-line, mas eu precisava pagar, então desisti. Tinha me livrado dos problemas por alguns bons minutos, e mal percebi quando uma luz laranja piscou na tela. Era ela.
Mari: É amanhã! uhu õ/
Eu: ONDE VOCÊ TAVA MENINA? VOCÊ SUMIU!!!!!
Mari: Eu estava aqui o tempo todo, só você não viu... ♫ Brinks! Nem pude entrar aqui direito. :c
Eu: Affs... Mas fia, não vai dar tempo de você chegar e tal daí até São Paulo pro evento!!!!!!!!
Mari: Mas eu já estou em São Paulo, meu bem! muahahaha :*
Eu: Nofa! Nem pra avisar os amigos...
Mari: Queria fazer surpresa. Minha mãe me obrigou à vir com a minha irmã, e bom, já te contei que ela é um saco, né? Só incomoda, meu Deus! Não entendo quando minha mãe vai cair na real que eu já tenho 18 anos e já posso me virar sozinha...
Eu: Se acalma fera! Você está tão perto de mim que até me brota uma lágrima! Ahahuahau
Mari: Vou estar lá no evento às 14:00, um pouco antes de começar pra eu me estabilizar e tals... Tu chega que horas?
Eu: Vou pegar o trem... então acho que até às 14:30 eu estarei aí.
Mari: Eu estou ansiosa, confesso! *-* Vai ser tãaaaaaaaao legal!
Eu: Pois é, também to muito feliz!!!!!!!!!!! SOS
Mari: Ei, vou ter que ir. To pelo note da minha irmã e aquela coisa toda... To putona com ela e com a minha mãe. Me passa o número do seu telefone? Sabe, pra eu poder te localizar lá e também porque a minha mãe disse que é pra minha irmã ter também por segurança, sei lá, acho que elas pensam que você vai me sequestrar.
Eu: Claro.
Passei meu número, pensando o quão psicótica era a mãe da Mari e o porquê dela ser assim. Ela logo se despediu. Nossas conversas nunca foram tão rápidas como ultimamente. Antes ficávamos horas e horas divagando sobre a vida, falando de livros, da faculdade e de outras coisas aleatórias. Não que eu fosse apaixonado por ela ou algo do tipo, mas eu sempre pensei como seria se eu tivesse uma namorada como ela. Eu faria de tudo para protegê-la e a trataria como uma princesa sempre... todavia, não era assim que as coisas ocorriam na vida real. A maioria das pessoas com quem eu me identificava sempre estavam longe de mim.
Liguei para a minha família logo em seguida, como eu fazia todas as noites. Falei sobre signos, problemas e a Mari com a minha mãe, que só falou que torcia para que desse tudo certo. Eu e meu pai falamos rapidamente, nada muito aprofundado. Perguntei pra minha irmã como ela estava lidando ao estar indo para o último ano do Ensino Médio e coisas do tipo. Era como se fosse um script que se repetia todos os dias.
Senti cheiro de hambúrguer caseiro vindo da cozinha e sabia que isso só poderia significar que o Matheus estava de novo cozinhando, o que era ótimo, já que ele fazia isso muito bem. Coloquei uma camiseta e fui direto pra cozinha, para poder comer uma janta que não fosse miojo ou arroz carbonizado.
_ Hmmmmm!! Chef Matheus na cozinha novamente, graças à meu bom Deus!
_ Vai agradecendo mesmo, e de joelhos. Minhas férias estão acabando e em uma plena noite de quarta-feira eu não estou curtindo a night.
_ Claro que está! Você está aqui, com o seu queridíssimo amigo Carlos Henrique Gonçalves. Olhe quanta honra!
_ Nossa, me sinto como se estivesse aos pés da rainha da Inglaterra!
Quando os hambúrgueres ficaram prontos, sentamos na mesa e conversamos por mais de duas horas sem parar. Percebi o quanto eu sentia falta disso, já que com a correria do dia-a-dia não nos restava outras opções. Era bom, era como se fôssemos crianças novamente. Após a nossa conversa, Matheus pegou uma lata de cerveja e eu uma lata de Coca-Cola e fomos jogar vídeo-game, coisa que há tempos não fazíamos juntos.
O sono demorou para chegar, e quando ele chegou já havia passado das 2 horas da manhã. Cada um foi para o seu respectivo quarto, e quando eu deitei em minha cama macia eu pensei que a vida realmente não era contada em anos vividos, e sim em boas experiências. Hoje foi um exemplo disso.
Eu não era o Charlie, mas naquele momento, eu me senti infinito.
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