Era um domingo calmo em Santo André. Uma coisa que você não sabe sobre mim é que eu tenho, além do blog, um canal. Aproveitei que a rua estava estranhamente silenciosa e liguei a minha câmera. Eu estava defronte para a janela, onde eu tinha uma boa luz. Tudo estaria perfeito para gravar, se eu não parasse à cada 2 minutos de gravação para fazer uma pausa. Eu estava tendo um bloqueio criativo, graças à minha ansiedade para a chegada da semana que vem.

O roteiro da minha esquete estava sobre a mesa, mas eu realmente não estava no clima para gravar, então pesquisei uma tag qualquer e gravei rapidamente. Comecei a minha gravação com o meu clássico “olá pessoal, sejam muito bem vindos...” e a partir disso gravei meu vídeo em 7 minutos.

Enquanto estava editando o vídeo, não parava de abrir o meu Skype, esperando que a Mari entrasse para que eu pudesse conversar com ela e tudo o mais. O evento começaria na quinta, então faltavam poucos dias para eu ver a minha amiga virtual. Não sei você, mas ter um amigo virtual é algo muito legal, e vocês não veem a hora de se encontrarem pessoalmente.

Quando já estava anoitecendo, percebi que minha tarde tinha se resumido em editar o vídeo, roer as unhas, ver se a Mari estava online, roer as unhas, voltar pra edição, roer mais as unhas, ver se a Mari tava online... Já estava cansado de ficar o dia todo sentado na frente do computador. Resolvi que queria esparecer um pouco.

Liguei para a minha amiga Ana, perguntando se ela queria fazer algo, mas ela estava indo pro cinema com o namorado. Acho que, na verdade, todos estavam. Todos ao meu redor tinham com quem compartilhar as tardes de domingo, eu não. Na verdade, eu não tive muitas garotas em meu histórico, e nenhuma delas foi sério o bastante para eu considerar como namorada. Contudo, eu não me deixei abater e saí sozinho mesmo. Não sabia pra onde ir, mas peguei 20 reais na carteira e fui em direção ao centro da cidade.

Entrei em uma sorveteria que não fazia muito tempo que tinha aberto por ali. O lugar estava cheio e tinha uma fila enorme, mas como não estava com pressa, entrei na fila. Comecei a observar as pessoas que estavam no recinto. O número de casais era espantoso, mas o número de pessoas sozinhas também. Talvez estar solteiro não seja algo assim tão raro, encontrar alguém que combine com você é que são elas.

Quando chegou a minha vez pedi um sorvete de chocolate com menta, meu sabor favorito. Saí equilibrando as três bolas que eu tinha pedido, ansiando encontrar uma mesa antes que a minha torre de sorvete caísse. Quando eu percebi que não havia lugares, meu sorvete já estava quase chegando à minha mão, então eu pedi um copo descartável para a assistente do caixa e virei o sorvete de ponta cabeça dentro do copinho.

Decidi ir até a praça que ficava ali perto, enquanto comia a casquinha antes do sorvete, fazendo muitas pessoas olharem pra mim como se eu fosse doido, afinal, comer a casquinha por último faz parte dos rituais dos sorvetes, não faz?

Quando cheguei à praça meu sorvete já estava pela metade. Sentei em um banco qualquer e logo percebi que ele estava todo sujo e que, possivelmente, eu estava com duas listras marrom nas costas e três na bunda, mas mesmo assim não levantei.

Fiquei observando as árvores, as pessoas e animais que estavam por ali. Visualizei um menino um pouco mais novo que eu lendo um livro debaixo de uma árvore, junto com uma outra menina que eu não conhecia. O menino, no entanto era um estudante do mesmo colégio que eu estudava. Possivelmente ele era um ou dois anos mais novo que eu, pois lembro de vê-lo pelos corredores do colégio, mas não sabia seu nome nem muita coisa sobre ele.

Fiquei observando os dois e pelo visto ele havia percebido eu olhando. Ele acenou com a cabeça e sorriu timidamente, muito provavelmente pensando que eu era um louco pervertido. Retribuí o cumprimento e decidi que era hora de eu voltar para casa.

O apartamento estava tão silencioso quanto antes, o que indicava que Matheus ainda não havia chegado. Tomei um banho e dormi tão rápido quanto levar uma flechada de Katniss Everdeen.

Notas finais
P.S.: O fato de eu ter citado Katniss Everdeen não torna isso uma Fanfic de The Hunger Games. No decorrer dessa estória você verá muitas outras referências literárias, acostume-se com isso.