Real King

27 Capítulo 27


Notas iniciais
⚠️ ATENÇÃO ⚠️ Esse capítulo contém insinuação de estupro, cuidado com possíveis gatilhos!

Jungkook estava de cara fechada quando voltou para o quarto.

— Odeio quando eles dormem aqui. – Taehyung riu sentando-se na cama e fez uma careta de dor. – Algo errado?

— Minhas costelas doem. – disse pegando na lateral do corpo. – As muletas não ajudam. – disse com um sorriso triste.

— Vou pedir uma cadeira de rodas pra você. Mal se recuperou da sua cirurgia e está fazendo esforço. – Tae concordou. – Quer ajuda pra ir ao banheiro?

— Quero. Quase desmaiei no chuveiro mais cedo. Me carregue pra escovar meus dentes, por favor. – disse o modelo com os braços estendidos pra cima, pedindo colo. Jungkook riu e foi até o namorado, o carregando como um bebê.

Quando voltaram, deitaram-se na cama de Jungkook e começaram a rir como dois adolescentes dos gritos de Jimin do outro lado do corredor.

— A gente devia ter despachado eles pra casa do Yoongi hyung. – Disse o mais novo rindo da cara feia que Tae estava fazendo.

— Não tenho problemas com os gemidos do Jimin. – Ele olhou para o namorado que o encarava inocentemente. – Tô com raiva porque a gente se reconciliou e eu não posso fazer nada com você. – Ele quase se derreteu com o sorriso de coelho que o outro lhe deu.

— Aigoo meu bebê. – Ainda rindo, Jungkook cuidadosamente abraçou o namorado bicudo. – Vamos fazer assim: quando você se recuperar e eu cuidar de quem me deixou daquele jeito, vamos sair e uma viagem. Você escolhe o lugar, só não posso entrar a Itália. – Deu um sorriso sem graça e beijou a mão de Tae. – Vamos passar a semana na cama, e aí você não vai ter motivos pra reclamar. – Ele estendeu o braço e Tae deitou em seu peito. – Agora me diz, você me perdoou mesmo? – o modelo ficou receoso em ter que começar aquela conversa.

— Não é que eu tenha de fato algo pra perdoar, Kook, é só que... Você sabe como foi a minha criação, sabe como eu sou um cara provinciano as vezes, isso é informação demais pra mim, por isso reagi daquele jeito. – O mais novo concordou. – A maior parte da minha vida era simples, até não ser mais.

— Até você sair do armário, você quer dizer.

— Até eu ser arrancado de lá. – O namorado franziu o cenho.

— O que você quer dizer com isso? – Taehyung suspirou e aproveitou o cafuné que o Jeon estava fazendo.

— Eu tenho um primo que é alguns anos mais velho que eu, é o queridinho da família. Eu tinha 17 anos quando ele contou pros meus pais que eu namorava um rapaz da fazenda ao lado, e lembro de ter tomado uma surra como nunca vou esquecer. – Jungkook franziu o cenho, incomodado. – Desde que eu era mais novo ele desconfiava da minha sexualidade, mas como eu era muito discreto, ele nunca conseguiu provar. Mas isso não deixava ele desestimulado para fazer da minha vida um inferno: fazia chacota de mim por não ser tão habilidoso nos esportes, por saber dançar bem, por ser muito bonito desde novo, por não ter um porte atlético, por ter um senso de moda apurado, por gostar de arte, entre outras coisas. Quando fiquei um pouco maior ele viu que as táticas de humilhação não adiantavam então ele mudou de liga; começou a me intimidar na escola. – Jungkook sentiu um arrepio subir sua espinha, desse tipo de agressão ele entendia.

— Eu também fui intimidado no colégio. – Disse baixinho. Taehyung fez um leve carinho em seu tórax.

— Eu sei, Hoseok hyung me contou. Mas ao contrário de você, eu não tinha um trio de amigos mais velhos pra me defender. Eu era o “patinho feio” da escola, por ser tão diferente de todo mundo ali eu era o rejeitado.

— Não estavam acostumados com tanta beleza. – Disse Jungkook num tom indignado que divertiu Tae.

— Obrigado, mas só fui me dar conta disso quando fui expulso de casa e vim pra Seul. Você sabia que eu sou formado em moda? – Jungkook riu daquilo, ele sabia tudo a respeito do Kim.

— Sabia sim, mas confesso que me surpreendi.

— Quase tirei um segundo diploma em história da arte, mas não tinha mais dinheiro pra me manter na faculdade, meu período de bolsa já tinha acabado. Não ganhava tão bem assim como modelo e não queria pedir dinheiro emprestado a Hoseok, ele já tinha feito muito em pegar um desconhecido do meio da rua e ajuda-lo.

— Foi assim que se conheceram? – Essa história ele nunca tinha ouvido.

— Sim. Eu fui expulso ainda no ensino médio, a família do meu namorado me acolheu até eu terminar meu último ano, acredito ter sido isso a me salvar; quando fomos à faculdade tudo mudou. Eu tinha dois empregos de meio período e uma bolsa integral, não me sobrava muito tempo para ele. Os pais o bancavam em tudo: desde o dormitório que eu não quis dividir, até as mensalidades, porque as notas dele não foram suficientes para bolsa. Ele ficou um pouco ressentido de mim por isso, mas tentou passar por cima desse sentimento. Só que ele não entendia que eu passava o dia trabalhando e estudando e quando chegava das aulas só queria deitar na cama e hibernar. – Jungkook sentiu uma leve hesitação em sua voz.

— O que houve? – Tae tentou desvencilhar-se de si, o que só fez o aperto em seu ombro intensificar. – Me conta.

— É que... eu tenho vergonha disso. – Ainda mais curioso, Jungkook aguardou o namorado criar coragem. – É uma história velha, não tem mais importância.

— Se não tivesse você não estaria tão hesitante de me contar. – Vendo que foi pego, o Kim bufou frustrado. – Vamos amor, você sabe que eu não vou te julgar. – Mais alguns segundos de silêncio e enfim ele começou.

— Um dia eu tinha discutido com ele porque tínhamos uma festa na faculdade e eu não podia ir, aí depois de muito brigar ele disse que ia só, e eu não me opus; eu não pude ir porque ia pegar um turno dobrado no trabalho de meio período, precisava de dinheiro pra umas despesas médicas que eu tive e não podia recusar aquela oportunidade. O problema é que eu fiquei com remorso por ter brigado com ele e por todas as outras brigas antes dessa, o motivo era sempre a minha falta de disponibilidade e eu já estava ficando muito complexado com isso, com medo que ele terminasse comigo. Foi então que eu tive a ideia de ir pro dormitório dele espera-lo chegar da festa e dormir por lá. – Jungkook acenou com a cabeça, ele tinha costume de fazer isso consigo também. – O problema foi que quando eu entrei no dormitório ele estava lá com outro cara.

— Que dedinho podre, hein Kim Taehyung? – o modelo deu um risinho triste e bufou.

— Ele me expulsou do quarto no susto todo e eu fui pro meu dormitório. Algum tempo depois ele apareceu lá, me contando um milhão de desculpas: Estava bêbado, eu tinha o abandonado, ele se sentia negligenciado e a culpa era minha... e eu comecei a me sentir culpado mesmo. Fiquei tão mal por tudo o que ele e disse que engoli a minha mágoa e indignação e o perdoei. Ele me pediu pra dormir lá e eu deixei. – Ele pausou um pouco a história e respirou fundo.

— Eu sei que pedi pra você me contar, mas se isso te fizer mal, não precisa me dizer, bebê. – Tae sorriu com o carinho que o mais novo fazia e sua cabeça e aquilo lhe deu coragem.

— Eu já comecei, agora vou até o fim. – Ele se arrumou um pouco mais no braço de Jungkook e escondeu sua cabeça no peito forte. – No meio da madrugada, ele quis transar. Eu fui na onda porque eu estava mesmo me sentindo culpado por tê-lo negligenciado e tudo mais, e pensei que se transasse com ele, ele não me trairia mais. – O Jeon sentiu um bolo se formar na garganta e respirou fundo para controlar-se. – Quando ele disse que não usaria camisinha eu não gostei, e disse que não faria, aí veio o primeiro soco. – Kook fechou os olhos e respirou fundo mais uma vez. – Apesar de ele estar bêbado eu estava exausto de uma semana infernal de trabalho e um turno duplo daquela noite. Eu caí no chão, e de tão chocado não tive mais nenhuma reação. Ele era lutador de jiu-jitsu, acho que ainda é; usou algum tipo de técnica pra me imobilizar e quando dei por mim, minha cueca foi rasgada e ele fez o que quis. – Tae sentiu os olhos encherem de lágrimas quando o braço do amado que o envolvia o apertou muito forte. – No fim das contas, minha dívida no hospital aumentou, eu tive que fazer alguns tratamentos pra evitar DST’s e não consegui ir à polícia porquê... quem acreditaria em mim? – ele deu um sorriso amargurado. – Não tinha família para pedir ajuda; a única família que eu conhecia era a dele, e eles jamais acreditariam se eu contasse o que o precioso filho deles fez. – Junkook tentava a todo custo se controlar, mas a raiva só ia se acumulando.

— E o que você fez depois?

— Ele me procurou dias depois fingindo que nada aconteceu. Eu passei a evita-lo, mas não dava muito certo; foram meses de perseguição. Tranquei a faculdade e peguei mais empregos de meio período pra pagar minhas dívidas, depois passei mais um tempo trabalhando pra pagar meu último semestre, já que trancar me fez ser desqualificado para a bolsa. – Ele percebeu a respiração de JK ficar mais acelerada pela raiva. – Voltei pra cursar o ultimo semestre e ele também estava lá, seu curso era mais comprido, e ele não era dos mais inteligentes. – Deu de ombros desinteressado. – O fato é que ele me encontrou novamente e o inferno voltou. Eu me mudei várias vezes porque ele descobria onde eu morava e voltava a me cercar. Aí vi um anúncio do Hoseok no jornal procurando alguém para alugar um quarto no AP dele e quando vi a estrutura daquele condomínio, sabia que metade dos meus problemas se resolveriam ali. Usei a grana que tinha guardado pra pagar alguns meses adiantados, e continuei me matando pra garantir que ficaria ali. Essa parte foi eficaz, ele não se aproximava do prédio, mas na faculdade a perseguição continuou.

— O que o fez parar? – De canto de olho, Jeon viu um sorriso radiante nascer em sua boca.

— Eu conheci o Jimin. – Imediatamente ele relaxou nos braços do namorado. – Fizemos a mesma matéria no ultimo semestre da faculdade, e quando fomos designados a fazer dupla em um trabalho, foi amor à primeira crítica fashion. – Jungkook teve que rir daquilo. – Ficamos inseparáveis desde então. Jimin tinha acabado de começar a modelar, e me dizia o tempo todo como eu era alto e tinha o corpo perfeito pra uma passarela. Eu não me achava essas coisas todas, mas gostava da companhia dele. Até que um dia o maluco do meu ex atravessou meu caminho com ciúmes do Jimin. O que ele não diz pra ninguém é que aquela coisa minúscula é faixa preta em Taekwondo, e acabou dando uma surra no jiujiteiro fajuto. Sem saber nada da história, ele abriu a camisa e mostrou o peito e a barriga que estavam cobertos de tatuagens falsas de um ensaio que ele tinha feito naquele dia e disse que era de uma gangue, e se ele continuasse a me perseguir ia chamar os seus companheiros e iam devolvê-lo retalhado aos pais em Daegu. – O Kim contava aquilo tudo rindo.

— Eu juro que se fosse ele me contando isso eu não ia acreditar. – Tae deu uma risadinha e continuou.

— Até hoje ele não me pergunta absolutamente nada sobre o que aconteceu na época, mas eu tenho quase certeza de que ele sabe. – Jungkook sempre gostou do Park, mas depois daquilo o baixinho tinha ganhado um fã.

— E o que rolou depois?

— Bom, ele nunca mais me procurou, continuei amigo do Jimin, ele me levou pra acompanha-lo em um ensaio e acabou me forçando a fazer um teste; passei e emendei lá mesmo meu primeiro trabalho, e desde então não parei mais de trabalhar.

— Mas agora você é famoso, ele não te procurou mais? – Tae balançou a cabeça em negativa.

— Não, e eu espero que isso nunca aconteça. – Jungkook deu um beijo desajeitado no topo de sua cabeça e lhe fez cafuné até ele dormir.

— Não vai.

.

.

.

.

.

.

.

Um Jimin ainda meio adormecido estava travando uma luta contra a cafeteira; sabia que o namorado estava atrasado para trabalhar, então improvisou um café da manhã simples, quase teve um ataque cardíaco quando olhou pra trás e um Jungkook com cara de psicopata o encarava sentado atrás do balcão da cozinha.

— Eu odeio quando você faz isso! – A mão pequena massageava dramaticamente o peito enquanto a outra segurava o bule de café. Ao ver que a cara assombrada do mais novo permanecia, ele franziu cenho. – O que houve?

— Quero nomes, Jimin-ssi. – O loiro colocou o bule fumegante em cima do balcão e voltou para a pia para pegar mais uma caneca para o amigo.

— Coreano, por favor Jeon, são sete e meia da porra de um sábado, passei a noite em claro transando com o Yoongi e estou acordado apenas por força divina, seus códigos não fazem sentido nenhum pra mim, eu não falo coelhês. – Terminou de servir tudo ali e sentou-se a sua frente, servindo-se de café e pegando uma torrada.

— O cara que namorava o Taehyung quando vocês se conheceram. – Jimin franziu o cenho confuso.

— Nossa, vai desenterrar isso? – Ao ver que o amigo não estava para brincadeiras, ele ajeitou sua postura na cadeira e respirou fundo. – Eu realmente não sei, Kook, é Dong alguma coisa, eu só chamava o cara de psicopata, assustei ele no primeiro dia, não tenho mais informações que isso. – Ao ver a cara frustrada do mais novo, pensou um pouco mais. – Bom, você tem o sobrenome dele, e a minha valiosa informação de que ele fez todo o ensino médio com o Tae, não deve ser difícil procurar em um anuário. – Concordando com o mais velho, Jungkook sacou seu celular e ficou alguns minutos digitando. Depois bloqueou a tela e serviu-se de um pouco de café também. Quando estava na metade da xícara, uma notificação de mensagem chegara para si. Ele desbloqueou e ficou alguns segundo encarando o aparelho, depois virou a tela para o Park que viu a imagem de alguns adolescentes em um anuário.

— Qual deles? – Apontou para dois rapazes totalmente diferentes, mas que tinham o mesmo sobrenome. Jimin arreglou os olhos, impressionado, e sem hesitação apontou para o rosto mais jovem do perseguidor do Tae. – Você tem certeza? – O olhar e o tom de voz de Jungkook o assustaram um pouco, mas ele confirmou, convicto. – Ok. – Respondeu a mensagem e guardou o celular no bolso. Tomou o resto do seu café e foi pro quarto. Jimin ainda um pouco alarmado com aquela postura do amigo se assustou novamente quando o namorado apareceu silenciosamente na sua frente.

— Mas que inferno! Um homem não pode tomar um café da manhã ser ter um ataque cardíaco? – Yoongi sentou ao seu lado rindo e lhe roubou um selinho de bom dia.

— Não dê piti a essa hora anjo, vão pensar que eu não estou te tratando bem. – Comeu silenciosamente sob o olhar mortal de Jimin.

Pouco tempo depois, quando já estava pronto pra sair, Yoongi foi escoltado por um Jimin manhoso para a porta do apartamento, rindo das ameaças e promessas que o modelo fazia para ele ficar ali a manhã toda. Depois de mais um xingamento do Park o casal se assustou com Junkook aparecendo na porta com seu terno perto de praxe e óculos de grau. Os cabelos penteados para trás e o maxilar trincado.

— Tá puto por que, pirralho? O médico disse que era pra ficar pelo menos uma semana sem ir trabalhar. – O mais novo não deu bola, olhou para Jimin enquanto ajeitava o colarinho.

— Jimin-ssi, vai ficar aqui hoje o dia todo? – Ao ver o amigo confirmar ele continuou. – Pode ficar de olho no Tae? Mais tarde vai vir alguém aqui deixar uma cadeira de rodas pra ele, e as refeições vão ser feitas pela senhora Kang. – Jimin sorriu ao ouvir que a velha senhorinha que às vezes cozinha para eles viria. – Não sei que horas eu volto, mas não pretendo demorar. – O loiro assentiu e viu junto do namorado o Jeon sair.

— Que porra foi isso? – Suga meio contrariado por ser ignorado alternava seu olhar do corredor vazio para o namorado.

— Eu acho que o Kook saiu pra caçar.