Re/Desconfigurado
17 Sem Você
Notas iniciais
"O curso do verdadeiro amor jamais foi tranquilo."
(William Shakespeare)
– Atira! – Gritei para Karin que segurava com força a minha cintura, enquanto costurava o trânsito em alta velocidade.
A ruiva soltou o braço direito e apontou a arma por cima do meu ombro.
Três tiros soaram em meus tímpanos, mas nenhum efeito surtiu contra o sedã em alta velocidade, longe de nós dois.
As buzinas eram altas, mas o motorista desviava do trânsito com maestria.
– O carro é blindado, não adianta!
– Kurenai, dados! – Grunhi com ódio, sentindo minha visão ferver.
A imagem azulada focou-se no carro, onde eu poderia ver, através da lataria, Sakura se debater para pegar a sua arma na coxa, mas seus braços e puxões de cabelo pelos dois homens, no banco traseiro, impedia qualquer ação bem-sucedida.
– Trânsito favorável para o sedã. Possibilidade de alcance, 25%.
– Tsc – acelerei a moto, mesmo sabendo que não conseguiria alcança-los pelos cálculos de Kurenai.
– Essa mulher é muito bonita, Kisame – ouvi um dos porcos, que alisavam Sakura, comentar.
– E cheirosa – completou o tal Kisame, cheirando o pescoço dela.
– Me soltem! – Esbravejou tentando se libertar.
– Vamos nos divertir um pouco com essa gatinha arisca, Juugo-sempai – pediu o primeiro.
– Não! Ela é propriedade do Suigetsu-sama! A menos que você queira estar morto quando chegarmos lá, continue o que estava querendo fazer! – Falou frio, Juugo, compenetrado na direção e em mim.
– Eu não sou propriedade de ninguém, bakas!
– Calem a boca dela! – Gritou Juugo.
– Tsc. Estou vendo se vale a pena morrer por um foda com você, gatinha – falou malicioso o homem, enquanto amarrava a boca da minha mulher.
Grunhi sentindo as minhas articulações mecânicas estalarem pela força colocada nos meus punhos. Por sorte o guidom não quebrou.
– Sasuke, eu sei que é uma situação muito emotiva para você, mas temos que usar a racionalidade para sairmos dessa! – Pediu, com a voz levemente temerosa, a ruiva.
Infelizmente, ela estava certa. Eu estava deixando minhas emoções dominarem meus atos. Meus instintos impulsivos estavam à flor da pele e tudo o que não precisávamos, era de mais complicações.
Assenti a contragosto, ainda sentindo as articulações do meu maxilar, tensionadas ao extremo.
Cada fio mecânico e ferramenta que compunha o meu corpo estava enrijecido pelo meu descontrole. Caso eu continuasse naquele ritmo, era possível que sofresse um curto circuito como das outras vezes e desmaiasse.
– Kurenai, contate a polícia – ordenei frio e baixo, concentrado na perseguição.
– Sistemas pareados com o da polícia. O que o senhor deseja informar?
– Informe que houve um sequestro e estou perseguindo o sedã negro. Dê todas as especificações do veículo e diga para que bloqueiem a ponte para a qual ele está se direcionando. Adicione ao conteúdo que esta é uma mensagem direta de Uchiha Sasuke.
– Entendido, senhor. Informações repassadas para a polícia com sucesso.
– Nossa, que humildade dizer que é um Uchiha – resmungou Karin segurando-se com força em mim para não cair da moto.
– Tsc – ignorei a fala dela, focando meu olhar na mulher amarrada e imobilizada, dentro do carro que eu perseguia.
Pasárgada era um grande bairro central que se comunicava com a Segunda Zona por diversas pontes sobre um rio, o qual era a delimitação física e visível entre os bairros.
Em cada uma delas, haviam guardas de trânsito robóticos que fiscalizavam o trânsito de pessoas por elas.
Na lei, não era proibido o fluxo de pessoas de outras Zonas para Pasárgada, mas na prática, os governantes sempre davam um jeito para impedi-los ou de fazerem com que essas pessoas retornassem para suas Zonas, seja por força da lei ou por força do forte preconceito dos olhares tortos que a população direcionava para esse ser.
Por outro lado, alguém de Pasárgada, assim como eu, tinha a liberdade de transitar pelas Zonas sem nenhum problema, no entanto, a maioria não tinha interesse de sair de seu conforto e tecnologia, indo para lá, somente empresários saiam para fiscalizar suas grandes indústrias que davam emprego e sustento para a população da Segunda Zona, enquanto Boca era o divertimento das outras Zonas.
E por saber exatamente de toda forte divisão social e legal que estávamos submetidos, imperava a dúvida de como aqueles homens conseguiram passar sem problemas para a Primeira Zona.
Sakura tinha o acesso por autorização dos Uchiha, enquanto Karin, possivelmente conseguiu passar por estar com Sakura, mas então, por que não houve fiscalização contra eles? Por que Sakura foi sequestrada com facilidade na Zona mais tecnológica e segura?
Eu só tinha uma resposta e tinha quase certeza de que estava correto o meu palpite...
O Hozuki Suigetsu tinha contato e pessoas infiltradas no governo e na segurança para vigiar e facilitar o seu tráfico de drogas e armas ilegais!
O que me dava mais raiva é que tínhamos esquecido completamente de investigar a influência dele em outras Zonas, focando-nos na imensa teia que eram os esquemas do Senhor do Tráfico e seus negócios que monopolizavam Boca à cima dos outros grandes traficantes na região mais negligenciada de Tóquio...
Uma cidade tão semelhante às outras grandes metrópoles sobreviventes no mundo.
Certa vez, Karin nos contou que o Hozuki tinha comandados em outras Zonas, mas o fato de Sakura estar sempre ao meu lado e sob a grande asa do temido nome Uchiha, deu-me segurança de que tudo ficaria bem. Até mesmo a nossa boa fase de relacionamento e saída do Hozuki de Tóquio, ajudaram para que negligenciássemos nossa segurança.
– Tsc – grunhi. – Foi alguém daqui de dentro que denunciou a presença da Sakura – comentei fazendo uma curva fechada, transpassando pela ampla calçada, sem me importar de quase atropelar pedestres e robôs que saiam do caminho expressando expressões de horror e surpresa.
Tsc, pessoas fúteis e inertes ao mundo podre em que vivem.
Pelo canto do olho vi Kurama me perseguir, curioso, pelas vidraças dos grandes prédios, mas a minha atenção estava presa no carro que ia em direção à ponte que ficava ao final daquela avenida.
Joguei a moto de volta para a pista cortando os carros, tentando me aproximar o máximo que eu podia, mas o fluxo (mesmo não estando na contramão) me atrapalhava, pois inúmeros carros batiam quando se desviavam do sedã em alta velocidade.
– Kuso! – Grunhi vendo minha visão azulada repleta de setas e letras brancas que me informavam sobre tudo ao meu redor.
Tentei focar na ponte e percebi que ela estava começando a ser aberta, mas o sedã já estava próximo do final da avenida, enquanto eu, ainda estava no meio da mesma avenida.
– Não! Não! Não! – Pedia a Kami para que eles não conseguissem, mas assim que o sedã entrou na ponte deserta e escura, ao invés de diminuírem a velocidade, Juugo aumentou a velocidade, não se importando com a abertura que aumentava a cada segundo no meio da ponte.
Desviei de um carro capotado, antes de conseguir entrar na ponte e acelerar, mas nesse exato segundo, vi o carro que perseguia, perder o chão sobre si, ficando suspenso no ar, enquanto buscava alcançar o outro lado.
NÃO! NÃO! NÃO!
Gritava em pensamentos com meus olhos arregalados prendendo a respiração.
O tempo parecia haver ficado mais lento. Parecia que tudo havia perdido o foco. Os gritos de Karin estavam desfocados e distantes, por isso não conseguia entende-la, mas além de não a entender, eu não queria dar-lhe atenção, pois a única coisa que eu ouvia era a minha respiração forte e os resmungos da rosada que tentava se libertar, ao mesmo tempo que o sedã alcançava o outro lado.
– NÃÃÃÃOOOO! – Berrei assim que conseguir proferir uma palavra sequer.
O desespero tomou conta de mim e acelerei ainda mais a minha moto que naquele momento parecia lenta demais.
– SASUKE! NÃO! SASUKE! PARE! – Gritava desesperada a ruiva que me batia da maneira que podia, para me deter, já que a abertura da ponte já estava grande demais, mas tudo o que eu queria, era alcançar o sedã que agora dirigia livremente pelas ruas calmas da Segunda Zona. – SASUKE! PARE! VOCÊ VAI NOS MATAR!
– Alerta! Perigo! – Alertou-me Kurenai, enquanto a minha visão piscava em um tom de vermelho. – Possibilidade de travessia com sucesso de 0,009%!
Um soluço alto sem lágrimas saiu da minha boca, quando impulsionei a moto para deslizar de lateral, para parar antes que caíssemos no grande vão.
Senti Karin me abraçar e gritar mais desesperada a medida que a moto se aproximava da queda para a morte.
No último segundo a moto parou tensionada para a alta queda que teríamos.
A respiração de Karin era forte, enquanto ela olhava para o negro do rio que batia com força contra as pilastras, denunciando a forte correnteza.
Joguei meu peso para a esquerda, para que a moto ficasse segura.
Karin saiu em um salto da moto, abraçando seu próprio corpo pelo frio e desespero vivido momento antes.
A única coisa que eu conseguia fazer era olhar para o carro que desaparecia da minha visão levando Sakura para longe de mim...
– AAAHHHHH! – Ouvi-me gritar desesperado. Joguei minha moto para longe, em direção de Pasárgada.
Um visor e muitos arranhões surgiram na impecável pintura, enquanto ela deslizava pelo asfalto, mas nada disso importava, nem mesmo os curiosos que se amontoavam ao longe, no início da ponte, para entender o que tinha acabado de acontecer na tão "pacata" e "segura" cidade.
Minhas mãos seguraram com força os meus fios de cabelo, enquanto olhava para o céu mostrando algumas poucas estrelas.
Os soluços vieram mais forte e tudo o que eu queria era ter a possibilidade de chorar, mas como um inútil a vida jogou mais uma vez na minha cara que eu sou uma máquina e havia acabado de perder a única mulher que eu amei de verdade na vida.
– Falcão! – Ouvi Karin me chamar com um tom baixo. Abaixei meu olhar para a mulher que deu um passo para trás, mas contrariando todo o ódio e desespero que eu transferia só pelo meu olhar, a ruiva continuou com um tom mais confiante. – Eu sei que você deve estar entrando em desespero, mas... – desviou o olhar para o outro lado da ponte que agora começava a se juntar novamente – se você quer salvar a Sakura e eu sei que quer. Não adianta gritar! Teremos que conseguir da maneira mais difícil, teremos que entrar no território do Hozuki e tirar a Sakura de lá.
Com dificuldade assenti de acordo, deixando meus braços caírem inutilmente ao lado do meu corpo, enquanto a fria brisa noturna balançava o negro dos meus cabelos.
– Eu vou te salvar, Sakura – murmurei encarando a Segunda Zona. – Eu prometi uma vez que nada te machucaria e eu vou cumprir a minha promessa – apertei meus punhos e trinquei o meu maxilar, ouvindo sirenes reverberarem por Pasárgada.
***
– Tem certeza que é aqui? – Sussurrei para Karin, agachado atrás de uma pilha de destroços.
– Sim – reafirmou a ruiva que já me olhava com raiva por estar desconfiando dela.
Mesmo na escuridão proporcionada pela má iluminação de Boca, eu podia ver o rosto corado e trêmulo da mulher confiante que continuava a me ajudar, mesmo estando prestes a invadir um arsenal altamente seguro do Chefe do Tráfico.
Desviei meu olhar novamente para a pequena casa na frente de um grande lago que se localizava no final de Boca.
Segundo Karin, a pequena residência decrépita de apenas um andar e paredes de concreto, na verdade era a entrada para o arsenal subterrâneo do Hozuki. Era naquele lugar que ele depositava o contrabando e também administrava seus negócios.
O local ficava mais precisamente embaixo do lago e tinha vários seguranças, tantos humanos quanto robóticos transitando por lá.
Ao invés de esperar a polícia nos alcançar em Pasárgada, resolvemos seguir em frente, assim que a ponte se restaurou.
Quanto mais tempo demorássemos, mais tempo o Hozuki teria para fugir com Sakura, como era a suposição da ruiva.
Ele a levaria, assim que pudesse, para alguma outra cidade ou país, onde ele poderia continuar administrando seus negócios e pudesse manter a rosada longe de qualquer informação dos Uchihas.
Desesperado.
Era assim que Karin o denominara. Ele estava pondo tudo a perder, até mesmo desafiar os Uchiha, para ter o que ele queria, mas na verdade, essa era a palavra que eu me definia...
Eu estava completamente desesperado para salvá-la antes que ela escapasse totalmente das minhas mãos.
– Vamos entrar – comuniquei.
– Tudo bem, mas você sabe que não terá acesso a internet lá dentro, não é? – Reiterou.
Assenti de acordo, alisando a arma que Karin havia me emprestado.
O arsenal era recoberto por um material que impedia o rastreamento externo, mas que por isso resultava na não possibilidade de uso da internet.
Quando eu entrasse naquele lugar, eu estaria só lá. Não conseguiria mais saber onde a polícia estava, só sabia que por hora, eles estavam tendo dificuldades para transitar pelos becos e ruas tortuosas de Boca.
– Vamos começar.
A ruiva assentiu caminhando silenciosamente abaixada para um ponto em que ela pudesse atirar de um ângulo melhor.
Por outro lado, eu me aproximei por entre os entulhos do guarda robótico que estava à direita da entrada, acompanhando o tal do Kisame na segurança.
O robô poderia nos localizar facilmente, já que conhecendo o modelo dele – ainda mais que aquele tipo de robô era um de categoria antiga da Uchiha's Company – eu sabia que a análise de dados sobre o ambiente era periódica, por isso eu teria que agir antes que ele me notasse.
O robô ficou de costa para mim com a intenção de começar a análise pelo seu lado esquerdo, próximo de onde Karin estava escondida, por isso aproveitei a oportunidade e sair correndo para derrubá-lo.
– O qu... – Mal Kisame começou a falar, o disparo da arma de Karin soou em direção ao homem. – Aiii... – reclamou segurando seu braço direito que havia sido acertado.
– Bela mira, Karin – ironizei vendo o homem tentar apontar a arma com o braço machucado, buscando quem havia atirado nele.
Minha atenção foi logo voltada para o robô que começava a tencionar o corpo para trás, tentando se livrar da minha imobilização.
Forcei meus joelhos contra os braços do robô, enquanto segurava com as duas mãos a cabeça do inquilino.
– Sabe qual é a maior vantagem de ser herdeiro da empresa de robótica? – Debochei puxando a cabeça dele para trás, enquanto sentia o corpo dele ficar tenso. Kisame dava vários disparos às cegas, mas Karin se camuflava com os destroços. Sorri de canto para a minha vítima. – É saber que o maior ponto fraco na constituição física de um robô é o pescoço – grunhi arrancando a cabeça do robô que ficou completamente imóvel.
Olhei para os fios mecânicos de onde saiam faíscas, antes de voltar meu olhar para a discussão de baixo calão entre Karin e Kisame.
– Sua puta! – Grunhiu o homem que mancava por causa de mais um tiro certeiro da ruiva. A arma dele caiu ao lado do homem que sangrava e não tinha mais forças para segurar.
A ruiva saiu rebolando de trás dos destroços. Um sorriso traiçoeiro brincava em seus lábios que contornava com pequenas covinhas o olhar brilhante com tom de vingança.
– Uma puta tão gostosa que você adorou comer a força quando foi escorraçada pelo seu mestre – grunhiu com um humor negro. – Leve-a daqui Kisame, faça o que quiser com ela, eu não me importo – pronunciou o que um dia foi as palavras do homem que no fundo ela não deixava de amar. Karin puxou o cabelo espetado de Kisame para trás quando ele caiu de joelhos.
Ódio era direcionado para a ruiva extasiada com a visão, enquanto ela colocava a arma dentro da boca dele.
– Vamos ver se você também gosta de comer isso, queridinho...
Um disparo.
Foi o suficiente para aquele ser cair aos pés de Karin, enquanto uma poça de sangue se formava sob os saltos finos da mulher satisfeita.
– A vingança é tão doce – cantarolou passando por cima do corpo, enquanto rebolava vindo em minha direção.
– Você é péssima de mira – cortei-a jogando a cabeça do robô para longe.
– Queria me vingar dele um pouquinho, não teria graça se simplesmente acertasse o seu coração. Ele nem ao menos ia saber que fui eu que o tele transportei para o inferno – deu de ombros abrindo a porta para a sala vazia e escura.
O cheiro de mofo e coisa podre era forte.
Ativando a minha visão, vi insetos e ratos caminharem pelos cantos daquele lugar.
– Desculpe pela recepção. Sabe como é, a empregada não veio no dia marcado – debochou assim que me viu entortar o rosto devido ao meu olfato ser sensível.
Fuzilei a ruiva.
– Não tente mudar o rumo da conversa. Você gastou bala demais.
– Se esse é o problema – a mulher deu de ombros abrindo o casaco negro, dando-me visão para a blusa negra e decotada, mas o que me chamou atenção, foi que nas laterais do casaco haviam balas, recargas, facas e até seringas com algo dentro.
A mulher se inclinou e tirou uma faca de tamanho médio de dentro de uma de suas botas de couro e cano longo.
– Satisfeito?
– Você entrou na casa dos meus pais dessa maneira? – Não consegui esconder a minha indignação.
– Sou uma mulher prevenida e desconfiada. Não confio nem nos ricaços de Pasárgada.
– Tsc – resmunguei voltando o meu olhar para a porta de madeira puída à nossa frente. – Então é aqui que o perigo começa?
– Sim. A partir dessa porta, haverá câmeras, seguranças e armamento pesado contra nós dois. Se você quiser rever a Sakura, terá que passar por tudo isso despercebido e no final chegar ao quarto do Suigetsu, que é onde eu suponho que ele esteja transando com a Sakura nesse exato momento...
– Nunca! – Vociferei fuzilando a ruiva que esbanjava um sorriso sádico.
– Ah qual é Falcão... você sabe que eu estou brincando – moveu a mão em descaso –, mas bem que isso não deixa de ser uma possibilidade... – acrescentou para o meu desgosto.
Grunhi baixo, perfurando minhas mãos com os meus dedos devido a força que eu aplicava em meus punhos, tentando me concentrar e não me levar pelo nojo das imagens que queriam se formar em minha mente.
– Vamos logo – anunciei baixinho dando um passo antes de ser parado por uma mão da ruiva.
– Atrás dessa porta, há uma escadaria, mas o que me preocupa é a câmera que fica no final da escadaria. Assim que eles nos verem, a segurança vai ser ativada.
– Eles conseguem ver quem está passando pela porta? – Ela negou com a cabeça.
– Só quem chegou na metade da escadaria.
Sorri de canto tendo uma ideia.
– Vamos – puxei a mulher pelo cotovelo.
Silenciosamente abrimos a porta que rangia um pouco por ser envelhecida e ter partes podres, mas assim que visualizei o ambiente limpo, claro e completamente recoberto por placas metálicas, não pude evitar arregalar meus olhos.
– Há coisas de boa qualidade em Boca também, Falcão – sussurrou a ruiva próxima a mim, antes de sorrir faceira com segundas intenções e continuar umedecendo os lábios carmim – começando por mim é claro.
Revirei os olhos fechando a porta atrás de nós dois.
Será que não tinha alguém menos inconveniente para se meter comigo nessa missão suicida?
Suspirei desolado percebendo que Karin era a única com conhecimento e loucura suficiente para poder está ali comigo.
Com a minha visão estava azulada, devido ao meu poder ocular, pude analisar o local.
– Como eu esperava, não posso ver através dessas placas de metal, muito menos ter contado externo – observei a porta que por dentro também era de metal fino – mas, pelo menos, ainda tenho acesso à Kurenai – suspirei aliviado.
– Chamas-te senhor? – Prontificou-se meu sistema operacional particular.
Kurenai, preciso que você invada o sistema de segurança. Como estamos em subsolo e sem acesso ao mundo externo, suponho que há um sistema operacional próprio aqui dentro.
– Entendido senhor – houve um momento de silêncio, antes do som de processamento começar a reverberar pelos meus pensamentos. – Processamento de invasão do sistema em 5%... Processamento de invasão do sistema em 10%... Processamento de invasão do sistema em 20%... Processamento de invasão do sistema em 30%... – Karin começou a me cutucar com impaciência pelo meu longo silêncio, mas apenas um olhar frio foi a minha resposta para a mulher que logo bufou cruzando os braços. – Processamento de invasão do sistema concluído, sistema operacional pareado com sucesso.
Ótimo, sorri de canto por parte do meu plano está funcionando como planejado. Quero que você copie todas as atuais imagens das câmeras de segurança e enquanto eu passar por cada uma delas, a imagem que será transmitida para a sala de segurança será a anterior, não a minha, entendido?
– Sim, senhor. Imagens copiadas com sucesso.
Registre pelas imagens de segurança onde está cada segurança e também quero o mapeamento do lugar.
– Devo informa-lo que o mapeamento completo demorará alguns minutos, mas que no corredor adiante não há nenhum segurança.
Ótimo, avise-me quando o mapeamento estiver concluído.
– Ordem compreendida com sucesso, senhor.
– Vamos – puxei a ruiva para a decida das escadas.
– Mas e as câ...
– Já dei um jeito em tudo – comuniquei chegando ao pé das escadas, visualizando a primeira câmera.
Mesmo tendo a certeza de que não havia perigo, era inevitável não ficar receoso por algo ter dado errado.
Ouvi Karin soltar o ar em alívio quando o alarme de segurança não foi disparado, mesmo que estivéssemos de frente para uma câmera.
– Por onde? – Perguntei soltando a ruiva.
– Por aqui – caminhou com cuidado para que o som de seus saltos contra o piso não denunciasse a nossa presença.
– Eu saberei caso tenha algum segurança em algum corredor próximo de nós – comuniquei em um sussurro para acalmar a mulher que segurava firme a arma próxima à lateral direita de seu rosto à cada corredor vazio que atravessávamos.
Ela assentiu de acordo e eu pude ver pelos registros de seus sinais vitais, seus batimentos cardíacos diminuírem um pouco, mas a minha calma foi interrompida por três pares de passos fortes no próximo corredor.
Sem pensar duas vezes, puxei Karin para um corredor à nossa direita.
As luzes apagadas, acendiam assim que atravessávamos ele e por isso eu me amaldiçoava, já que os seguranças estranhariam ver luzes acendendo sem nem haver alguém transitando pelo local.
Virei para a esquerda e fiquei parado esperando que os homens que agora estavam no corredor principal passagem. Por sorte as luzes do corredor, pelo qual passamos momentos antes se apagaram antes deles passarem por ele.
O silêncio era sepulcral, mas pela minha audição podia supor que por meio da diferença do impacto do andar contra o chão, eram dois humanos e um robô, cada um com sua arma de alto poder de fogo.
Assim que eles se afastaram em direção à escadaria, continuei o meu caminho por aquele corredor monocromático iluminado à cada passo que eu dava.
Minha respiração ficou mais alta enquanto as batidas do meu coração eram sincronizadas com cada passada minha.
Karin estava um pouco mais atrás da minha direita, assegurando-se que nossa retaguarda estava segura.
Caminhamos por pelo que pareceu horas, naquele labirinto claustrofóbico, mas pelos meus dados eu sabia que tinham se passado apenas alguns segundos.
Eu e Karin estávamos agachados em um corredor escuro, esperando que mais um grupo de seguranças passassem por ele, quando Kurenai retornou:
– Mapeamento concluído, senhor.
Ótimo, mostre-me o mapa.
Na frente da minha visão azulada apareceu uma maquete do lugar formado por luzes paralelas vermelhas.
Impressionei-me com o tamanho daquele lugar e entre os corredores, muitos pontos vermelhos eram mostrados transitando, representando os seguranças.
Onde está a Sakura? Olhei para os inúmeros pontos vermelhos.
– A senhorita Sakura não foi encontrada pelas câmeras de segurança, senhor.
Ela não está aqui? Comecei a me amaldiçoar com a possibilidade.
– Há um lugar que não tem câmera de segurança, senhor.
Onde?
Um retângulo grande, vermelho e vazio ficou mais brilhante, mostrando o lugar que possivelmente Sakura estaria com o Suigetsu.
Onde eu e Karin estamos?
Dois pontos azuis brilharam no meio daquele imenso labirinto.
Suspirei desapontado vendo o imenso caminho cada vez mais cheio de seguranças à nossa frente.
Trace o caminho mais seguro para mim, Kurenai.
– Sim, senhor – poucos segundos foram necessários para o seu cálculo. Logo uma linha azul, partindo de mim até o suposto quarto do Hozuki, apareceu diante dos meus olhos. – Trajeto construído com sucesso. Possibilidade de ser visto por um segurança 85%.
– 85%? – Exclamei alto, enquanto Karin me olhava impaciente e sem entender o fato de ainda continuar parado, enquanto os seguranças já estavam longe de nós dois.
– Dois corredores antes de chegar à sala, há três seguranças parados – explicou mecanicamente piscando as três luzes na imagem para que eu os localizasse. – São dois robôs segurança de última geração e o senhor Juugo. Eles estão fazendo a segurança para o acesso que leva à sala.
– Tsc – reclamei e só pela minha expressão, Karin soube que eu não tinha boas notícias.
Tudo bem, kurenai. Guie-nos pelo caminho que você disse ser o mais seguro.
– Sim, senhor.
Caminhamos em silêncio pelo grande emaranhado de corredores que se conectava e se irradiavam como um grande labirinto metálico.
Aos meus olhos "humanos", todos os corredores eram semelhantes. Era como se estivéssemos andando em círculos, mas devido à aparente calma exterior de Karin e sucessivas instruções de Kurenai, avançamos com a certeza de que estávamos na direção certa.
Tudo estava calmo até que uma grande explosão nos derrubou contra o chão.
– O que foi isso? – Perguntou assustada a ruiva tentando se levantar, mas outra explosão sucedeu-se à primeira, levando-a novamente ao chão.
– Kurenai, o que foi isso? – Perguntei observando preocupado o teto.
Fissuras progrediram como garras pelo que antes era uma impecável superfície lisa e monocromática.
Partículas de poeira começaram a planar pelo ar entupindo nossas vias aéreas enquanto as luzes piscavam sem ritmo programado.
– Senhor, sistemas repareados com a polícia.
– Polícia? – Pensei alto encarando a ruiva que conseguiu se levantar assim que nenhum indício de uma terceira explosão ocorreria.
Fiquei tonto com a quantidade de informações que invadiram os meus pensamentos, quando – devido à invasão e diversas fissuras na estrutura – meus pensamentos foram bombardeados com informações ligadas à internet.
– Ai – reclamei fechando meus olhos, apoiando minhas mãos nas minhas têmporas.
– Ei você está bem? – Apressou-se a ruiva em verificar o que ocorria comigo, mas devido o bombardeio de informações, não a compreendia completamente.
Imagens desconexas e descontínuas de inúmeros telejornais, câmeras de segurança, polícia e helicópteros sobrevoando Boca inundaram e duelaram pela minha atenção.
– Kurenai, bloqueio de informações.
– Sim, senhor.
As imagens encerram-se instantaneamente.
– O que aconteceu?
– A polícia invadiu o esconderijo, senhor. Telejornais e a força policial foi enviada para o seu resgate como uma ordem direta dos Uchiha.
Minha boca entreabriu-se surpresa pela dimensão que as coisas haviam tomado devido ao capricho dos meus pais.
Eu havia chamado a polícia, mas até os telejornais haviam sido contatados.
– Precisamos nos apressar – falei apressado, puxando a ruiva pelo cotovelo, enquanto corria pelo corredor vazio com luzes piscantes. – Meus pais chamaram até o jornal. Se o Hozuki descobrir que a família Uchiha resolveu mostrar seu poder e destruir o seu império, é bem capaz que o Suigetsu tente fugir o quanto antes com a Sakura.
Pude ouvir muitos passos apressados pelos inúmeros corredores se direcionando para onde a polícia estava, o início daquele labirinto.
Outra explosão fez o chão tremer sob nossos pés, mas me apoiei na parede esquerda, mantendo nós dois em pé.
– Malditos escandalosos! – Vociferou a ruiva, ofendendo a força policial nipônica. – Não sabem nem invadir um local direito – resmungou mais baixo, tentando se equilibrar sobre os saltos, enquanto corríamos pelos corredores.
– Senhor, meus cálculos indicam que devo informa-lo que seus familiares e amigos estão em Boca.
– O QUÊ? – Gritei e como resultado, uma porta se abriu em uma das laterais. De lá saiu um homem atordoado e nu do abdome para cima.
Segurava uma grande arma, enquanto tentava localizar o meu grito, ao mesmo tempo que sua mão esquerda tentava fechar o zíper de sua calça.
– Está de brincadeira que tem gente transando à essa hora – resmunguei soltando Karin para atirar no peito do homem, assim que ele me localizou.
O corpo caiu imóvel devido ao meu tiro perfeito em seu ponto vital.
Diminuímos nossos passos à medida que chegávamos próximos à porta, onde uma prostituta enrolada em um fino lençol branco tentava esconder sua nudez.
Apontei a arma para ela, mas Karin abaixou rapidamente o meu braço.
– Ela não Falcão!
Revirei os olhos, desinteressado no olhar raivoso que ela me lançava antes de se aproximar da morena de olhos azuis que olhava apática para o corpo morto aos seus pés, que manchavam de sangue a barra de seu lençol.
– Ohina, é melhor você voltar para dentro e esperar que tudo se acalme – informou a minha aliada, entregando a arma do inimigo para a moça que parecia ser menor de idade. – Caso perguntem sobre algo, você não nos viu.
A moça assentiu antes de voltar a se trancar no quarto escuro.
Karin indicou com o queixo para que continuássemos e eu a seguir.
– Pode me dizer o porquê de você ter gritado?
– Meus pais vieram fazer um tour por Boca – ironizei e a mulher revirou os olhos.
– Familiazinha esnobe.
Infelizmente, eu só pude assentir de acordo.
– Estão com medo de que aconteça a mesma coisa que anos atrás.
– É bem provável que encontrem o seu cadáver dessa vez – deu de ombros enquanto corríamos.
– Tsc.
– Vire à direita, senhor.
Indiquei com a cabeça e nós dois fizemos a curva, mas paramos ofegantes antes de chegar ao final do corredor curto, já que a próxima curva à esquerda nos levaria à Juugo e seus capangas.
– E agora? – Perguntou a ruiva em um sussurro.
Kurenai, você consegue informações via satélite da sala que não tem câmeras?
– Não senhor. As fissuras não foram suficientes para que informações de fora possam ter acesso à sala com proteção dupla.
– Tsc – esfreguei minha mão esquerda em meus cabelos, mostrando frustração. – Vamos fazer o seguinte – voltei-me para a ruiva em um sussurro. Aproximei nossos rostos, vendo a determinação no olhar castanho avermelhado com uma mistura de ansiedade brincando neles – eu vou na frente. Como eu não posso ser morto por balas, não haverá efeito em mim caso eu saia correndo na direção deles. Tentarei chamar a atenção deles e te dar a oportunidade para que você mate Juugo.
Karin assentiu concordando com cada palavra minha.
Respirei fundo mais uma vez, passando minha mão livre em meu rosto cheio de poeira que ainda continuava caindo sobre nós dois.
Retirei meu terno e deixei cair no chão. Aproveitei e afrouxei a gravata que me parecia asfixiante naquele momento. Dois botões foram a minha alforria para a busca de ar.
As luzes piscavam mais freneticamente, alternando trevas e luzes.
Eu não poderia negar. Estava nervoso. Nunca havia feito algo do tipo.
Sempre fui um adolescente problemático, que fugia para Boca e apostava com o meu companheiro em lutas ilegais, mas nunca havia me visto invadir o depósito de armas de um traficante, provocando consequente mortes de pessoas por causa de uma mulher...
Uma mulher.
Sakura.
– Lembre-se. O pescoço é o ponto fraco de um robô – essa foi minha última fala antes de sair correndo em direção ao corredor.
Meus pés deslizaram um pouco pelo piso liso e bem polido.
Sorri de canto para o homem surpreso em me ver, mas a surpresa foi momentânea e curta demais para os seres acostumados com aquele ofício.
Os robôs apontaram as suas potentes armas em minha direção.
Enquanto eu corria e era acertado por inúmeras balas, revidei com alguns tiros calculados para acertar o pescoço dos robôs.
O impacto das balas fazia meu corpo tencionar para trás, mas devido à minha força e capacidade de não sentir dor, eu continuava seguindo em frente.
Minha visão com inúmeras informações que eu aprendi a ler no tempo em que estava em reabilitação, ajudavam-me a me guiar naquele meio de balas, ecos e poeira.
Uma das balas disparadas por mim acertou em um ponto crítico no pescoço do robô à minha esquerda, fazendo-o derrubar a arma e entrar em curto.
Seu sistema estava desregulado.
Pulei sobre o da direita, derrubando nós dois no chão.
Ainda sentia a atenção e os disparos de Juugo sobre mim, enquanto golpeava o robô imobilizado sob mim.
– Ei! – Ouvi um grito feminino e familiar chamar a atenção de Juugo.
Assim como ele, eu acabei olhando para a mulher no fundo corredor disparando inúmeros tiros em direção à Juugo que era golpeado e seu corpo sofria espasmos pelo impacto. No entanto, o homem conseguiu dar um último disparo, enquanto seu corpo caia sobre o chão frio.
Aumentei a minha força, rangendo os dentes, ao mesmo tempo que o estalo mecânico denunciava que eu havia conseguido arrancar a cabeça do robô.
O chiado mecânico reverberou pelo local com diversas marcas de tiros pelas paredes metálicas manchadas por respingos de sangue.
Os olhos do homem de cabelos laranjados e fiel escudeiro do Chefe do Tráfico, moviam-se freneticamente tentando se prender em uma imagem. Tentando-se prender a vida que escapava pelos últimos suspiros que saiam pelos lábios masculinos.
Foi impossível não lembrar.
As imagens desconexas dos golpes que eu recebia covardemente por dois seres em um beco sujo e abandonado de Boca, espalharam-se pela minha mente e fizeram-me sentir nada pelo homem desesperado.
Eu poderia sentir pena, mas nem mesmo prazer eu sentia, tão diferente de quando o reencontrei na primeira vez.
Um pequeno sorriso de canto sem humor esboçou-se em meus lábios para o homem agonizado, afogando-se em seu próprio sangue.
– Relaxa, faço questão que você reencontre o seu amado chefe no inferno.
Levantei-me em direção à Karin que estava sentada e encolhida na parede à minha direita.
Um soluço baixo fez com que eu apressasse os passos em sua direção.
Agachei-me ao lado dela, podendo visualizar o sangue que escorria pelos languidos dedos alvos de sua mão esquerda.
– Ele me acertou – falou entre lágrimas. Era a primeira vez que via lágrimas rolarem pelo rosto feminino que não perdia o sorriso superior, mesmo tão próxima da morte. – O bastardo conseguiu me acertar – gemeu ao final da frase.
– Shhh – chiei pondo a minha mão sobre a dela, pressionando o ferimento em seu abdome. – Fica quieta e pressione o ferimento para que não piorar a perda.
Um riso desacreditado saiu entre os lábios da mulher que começava a suar e ter leves tremedeiras pelo corpo.
Com um pouco de força, arranquei o casaco dela. O som das armas e ferramentas dela tilintaram de encontro ao chão, mas eu não me importei, apenas voltei a pressionar o ferimento com a mão dela ensanguentada.
– Eu sempre me perguntei como iria morrer e tenho que admitir que nunca imaginei que seria dessa forma – comentou. Não levantei a minha cabeça, apenas visualizei pelo canto dos meus olhos, o sorriso irônico que a cabeça tombada para trás, esboçava.
– Você não vai morrer – falei firme, voltando meu olhar para o líquido que manchava meus dedos mecânicos.
– Eu não quero morrer, Falcão – admitiu e eu sentir o peso do seu olhar sobre mim – mas se eu for, me prometa que vai matar o Sui-kun – levantei o meu olhar assim que escutei o apelido carinhoso, mas dito com uma dose de pesar. Meu cenho franziu para o semblante da mulher. – Você tem que me prometer! Prometa! – Pediu em um quase desespero, entortando a boca em dor, devido ao esforço da fala.
Eu não entendia o desespero que aquela mulher tinha em ver o seu amado morto.
Se ela o amava, então por que o queria morto?
– Eu prometo – minha voz saiu em um sussurro.
Um sorriso satisfeito e agradecido apareceu nos lábios trêmulos da mulher.
– Ótimo – riu levemente. – Essa é a hora que você me deixa para trás e vai bancar o herói da Sakura – seu olhar caiu sorrindo de canto, mas logo ergueu-se para o teto que tremeu devido a mais uma explosão ao longe.
Mais poeira caiu sobre nós, ocorrendo também o tremeluzir das lâmpadas que piscavam, sendo que algumas explodiram no processo, deixando o ambiente menos iluminado.
Uma gota caiu na bochecha de Karin e chamou a nossa atenção.
– As explosões estão destruindo esse lugar – voltou o olhar firme, apesar da dor que não podia ser acobertada. – Se você não for rápido, tudo será em vão e o lago cairá sobre nós.
Assenti me levantando em um pulo para longe dela.
Eu não queria deixa-la. Não daquela forma e muito menos naquele lugar.
Eu não era amigo de Karin e muitas vezes discutimos tendo como aparteadora de nossas discussões, Sakura, mas no fim...
Acostumamo-nos uns aos outros.
Aprendemos a conviver com o outro e de certa forma, nosso dia era vazio se não tivéssemos todos aqueles que consideramos aliados, ao nosso lado, com todas as nossas diferenças e semelhanças. Com todas as nossas virtudes e defeitos.
– Falcão – chamou-me quando eu dei o primeiro passo em direção a porta que me separava de Sakura. Meu olhar caiu na mulher de sorriso torto. – Perdão – sussurrou sincera. Arregalei meus olhos instantaneamente. – Eu sei que não posso pedir desculpas para todos os que eu fiz mal e que isso não vai tirar a minha passagem só de ida para o inferno, mas se é você que está na minha frente nesse exato momento é porque há um significado. E eu acho que ninguém mais do que você merece mais as minhas desculpas.
Meu olhar caiu sobre o chão tingido de sangue.
Sabia que ela pedia perdão por tudo o que havia acontecido comigo. No fundo, ela tinha uma grande parcela de culpa por eu estar ali, naquele exato momento, naquele corpo 70% não humano 12 anos depois de tudo.
Mas... apesar de tudo...
– Se não fosse por você, talvez eu nunca tivesse conhecido a Sakura – comentei baixo, focando meu olhar nela.
O sorriso dela se expandiu, enquanto encolhia o corpo contra a dor da perfuração.
– É... talvez você tenha razão homem de lata. Sou um belo cupido você não acha? – Ironizou e eu não pude deixar de sorrir. – Adeus!
– Prefiro um até logo.
– Tudo bem, então. Se é o que você quer... nos encontraremos no inferno talvez.
– Acho que você já me disse isso uma vez – lembrei-me do dia em que eu morri – e não foi isso o que aconteceu.
– Quem sabe tenhamos a mesma sorte dessa vez – arriscou com dificuldades.
– Quem sabe...
Sorri em despedida, dando as costas para a mulher.
Sentia o olhar sobre mim, enquanto caminhava lentamente sobre o sangue e ferragens dos corpos ao meu redor.
Continua...
Fale com o autor