Re/Desconfigurado
18 Desativado
Notas iniciais
"Das coisas raras de que eu tenho ciência, sempre me pareceu a mais estranha terem os homens medo, embora saibam que a morte, um fim a todos necessário, vem quando vem"
(William Shakespeare)
As luzes piscavam continuamente, tirando a porta do meu foco, fazendo com que o corredor parecesse mais longo. O zunido e barulho de chiados pelas lâmpadas explodidas e equipamentos robóticos quebrados, era irritante, mas eu continuei meu caminho, focando meus pensamentos na rosada.
Assim que segurei a maçaneta, respirei fundo e olhei para a minha camisa cheia de buracos de bala antes de abrir de uma vez a porta que dava para o quarto completamente escuro.
Haviam dois degraus que eu desci com receio, escutando o pingar rítmico de uma goteira em um canto, mas assim que reativei meu poder ocular, vi Sakura acorrentada ao pé da cama.
– Sakura! – Corri para a mulher que resmungava coisas incompreensíveis. Agachei-me rapidamente na frente dela, tirando o pano do entorno de sua boca, mas a primeira coisa que eu escutei ela dizer, não me agradou:
– Cuidado, Sasuke! – Gritou e antes que eu pudesse indagar o porquê, algo forte acertou o meu rosto do lado esquerdo, jogando-me a metros de distância de Sakura.
Só parei de deslizar pelo chão, quando meu corpo colidiu com força contra a parede.
Mesmo atordoado, tentei me levantar cambaleante, a procura do que me acertara, mas antes mesmo de procurar com a minha visão não humana, a iluminação incandescente resplandeceu pelo ambiente.
Cerrei meus olhos, finalmente focando no homem com a camisa social branca, de manga curta, parcialmente aberta, mostrando parte da tatuagem de um tubarão de dentes afiados iguais ao dono.
Suigetsu sorria como um louco sanguinário para mim.
– Ora, ora, ora. Olha quem finalmente deu as caras e veio me visitar depois de ressurgir dos mortos, princesa – comentou para Sakura que se encolhia, fugindo dos dedos que tentavam segurar rudemente o seu rosto.
– Tire os seus dedos imundos dela – grunhi, erguendo-me lentamente.
– Por que eu soltaria o que me pertence? – Ameaçou segurando com força o pescoço de Sakura.
– Ela não é sua – falei entredentes, fechando minhas mãos em punho. Só não avançava por causa da possibilidade dele sufoca-la.
– E por acaso é sua? – Gritou, resplandecendo por um segundo o demônio que ele era por dentro, mas logo riu suavizando os traços masculinos. – Eu tive a péssima notícia de que você já deflorou a minha amada flor de cerejeira – comentou com o sorriso faceiro – e como você bem sabe, eu não perdoo quando tocam no que é meu – o rosto ficou completamente sério, transparecendo apenas o ódio e o desejo de vingança em seus olhos arroxeados.
Sakura grunhiu pelo sufoco do aperto em seu pescoço ter aumentado, fazendo as correntes ganharem vida devido aos seus protestos inúteis.
– Pare! Está machucando ela – dei um passo na direção dos dois, em agonia, mas o Hozuki levantou a arma que estava em sua mão direita na minha direção.
– Fica parado aí, se não a minha querida rosada vai ganhar algumas marcas novas em seu corpo delicado.
Parei e meus olhos logo encontraram os verdes com princípios de lágrimas, como se ela quisesse me alertar sobre algo que eu não compreendia.
– Por que você não para de ser covarde e vem acertar as contas comigo de uma vez por todas? Se quer me matar, então vem tentar, mas acredite, dessa vez é uma luta justa, porque nenhum de seus homens vem te salvar ou fazer o seu trabalho sujo. Eles estão mortos, a polícia está invadindo e destruindo o seu Império. Você está perdendo tudo Hozuki e vai perder a vida também – desafiei.
Um sorriso cruel e debochado estampou-se nos lábios finos dele.
A cabeça caiu para a esquerda, acobertando o olhar por uma sombra.
– Se eu morrer, você vai morrer junto comigo companheiro. Se eu não tenho, você também não vai ter – apertou mais o pescoço da Sakura.
– Não! – Gritei avançando contra o homem.
Dei-lhe um soco de direita, logo após sentir um tiro contra a minha perna esquerda.
O homem caiu deslizando pelo chão e Sakura, que antes estava presa pelas garras do azulado, tossia desesperada em busca de ar.
– Sakura! Sakura! – Chamei, trazendo o seu rosto choroso de encontro ao meu. Sorri tentando acalmá-la, mas as marcas roxas em seu pescoço só me davam mais raiva, enquanto arrancava com força todas as correntes que prendiam seus pulsos e tornozelos.
A pele antes alva, estava avermelhada devido ao aperto de suas recentes amarras.
Sakura soluçou e seu corpo caiu sobre o meu, trêmula.
– Shhh... – abracei-a com o intuito de acalmá-la, enquanto afagava suas madeixas rosadas e bagunçadas.
O casaco de pele, não a cobria mais e o longo vestido roxo de costa nua, estava rasgado em algumas partes. Grande parte de suas pernas agora estavam expostas, mostrando as marcas das mãos masculinas que haviam a tocado. Seus sapatos não se encontravam mais em seus pés, e seus braços tinham marcas avermelhadas dos puxões que havia levado.
Um rosnar baixo soou pelos meus lábios pressionados.
Afinal, se eu sou a Fera, então é a Fera que vai se rugir.
– Eu prometi que eu sempre a protegeria – murmurei olhando com ódio para o homem que se erguia com dificuldades, rindo como um louco. – E ninguém vai te machucar enquanto eu estiver ao seu lado – grunhi em forma de ameaça para o homem que cuspia um dente e exibia um sorriso sanguinolento e debochado para mim.
– Que romântico – bateu palmas irônicas. – Deveria ficar emocionado ou só rir dessa cena patética?
– Deveria ficar caído, fingindo-se de morto para não ter que apanhar mais – ameacei me erguendo.
Sakura abraçou-se trêmula, escondendo-se com dificuldade, atrás de mim.
– Como se eu tivesse medo de você, Falcão.
– Pois deveria ter.
Uma gargalhada reverberou pelo ambiente, antes de ser silenciado quase de imediato pelo sorriso de canto subsequente.
– Antes de você, eu era o rei das lutas ilegais, foi a partir daí que eu cresci e virei braço direito do Chefe do Tráfico. Não foi tão difícil destruí-lo para ser o novo Rei de Boca – sorriu extasiado com a lembrança. – Eu tinha ideias bem interessantes para aquele moleque de 20 anos nascido em berço de ouro, mas um deslize em sua lealdade foi o que mudou completamente sua história de vida.
– Eu nunca trabalharia para você.
– Ah você trabalharia sim – sorriu de canto. – Se tornaria a minha influência em Pasárgada e eu expandiria meu domínio sobre a política e negócios corrompidos daquele lugar – desdenhou. – Eu só não tinha influência sobre as duas maiores empresas, Uchiha e Uzumaki. Uma pena eu ter tido que te matar naquela época, você e o Raposa seriam bons aliados.
Cerrei meus olhos.
– Utopias de sua mente perturbada.
O homem abriu os braços.
– É a partir de um sonho que surge as grandes estratégias – murmurou.
– Isso não importa. Você não pode me matar. Eu sou superior a você!
O homem estalou a língua nos dentes enquanto negava com a cabeça.
– Só por que seu corpo é 70% formado por fios mecânicos? – Perguntou zombeteiro. – Sinto em lhe dizer, mas você não é o único.
Lentamente o homem terminou de desabotoar os dois últimos botões de sua camisa.
Meus olhos se arregalaram, assim que a camisa escorreu pelos braços moldados do homem, indo em direção ao chão.
No entanto, o mais absurdo e chamativo estava na altura da articulação de seus ombros.
Grandes cicatrizes com protuberantes queloides rodeavam toda a sua articulação, mostrando as marcas de uma cirurgia malfeita e desatenção para os cuidados pós-operatórios.
A mão livre esquerda rasgou a pele do braço direito mostrando os fios mecânicos ali depositados, surpreendendo-me.
– Posso não ser tão robotizado como você, mas meus membros são mecânicos dando-me a força e agilidade que você também tem.
– Tsc.
– É incrível o que espiões em Pasárgada e belo arsenal ilegal vindo da Coreia podem fazer com um homem – riu exibindo-se de braços abertos – e acredite, eu estou a um passo à frente de você!
Não deixei que continuasse, avancei sobre o homem que se esquivou com agilidade do meu primeiro golpe, abaixando-se. Antes mesmo que eu pudesse recuperar a posição inicial, o homem deferiu um forte soco de direita na parte inferior do meu queixo.
O golpe foi forte e certeiro, fazendo meu corpo suspender parcialmente no ar, enquanto caia metros à frente do Hozuki, aos pés de Sakura que se preocupava comigo.
– Está bem enferrujado, Falcão – desdenhou caminhando lentamente em minha direção, enquanto disparava mais uma bala da estranha arma na minha perna direita.
Ergui-me lentamente, posicionando-me novamente de frente para o homem, pronto para atacar.
– Para alguém que sabe tanto sobre mim, deveria saber que balas não me prejudicam – grunhi deferindo muitos golpes contra ele, mas a maioria o homem conseguia desviar com habilidade.
No entanto, alguns dos meus golpes acertavam o rosto do homem, enquanto os seus acertavam meu abdome, desequilibrando-me.
Havia algo de errado com o meu corpo que parecia mais lento e pesado, como da primeira vez em que acordei depois de 12 anos desacordado, mas não me importei, continuei tentando deferir contínuos golpes contra o homem de rosto machucado que sangrava cada vez mais, porém, nunca deixando de lado o sorriso zombeteiro.
Suigetsu desviou de mais um golpe meu, mas antes que ele conseguisse me acertar, dei uma joelhada em seu rosto que se ergueu pelo impacto até a minha altura.
Com agilidade, dei um passo direito para atrás, preparando o meu próximo golpe, ao mesmo tempo em que ele sorria.
– Como eu disse, estou a um passo à frente de você – falou de maneira delirante, antes de cair imóvel no chão devido a sequência de golpes, direita, esquerda, direita.
Respirei profundamente apoiando-me em meus joelhos para recuperar o fôlego e o equilíbrio do meu corpo que parecia cada vez mais pesado.
Antes mesmo que eu conseguisse voltar para trás, senti alguém me abraçar pela costa.
Os soluços eram audíveis e a única coisa que eu consegui dizer foi:
– Oi Algodão Doce – sorri por cima do meu ombro.
Um sorriso cálido resplandeceu pelos lábios molhados pelas lágrimas. O alívio era claro nos orbes tão verdes quanto esmeraldas.
– Oi Falcão.
– Vamos sair daqui – falei afagando a sua mão.
Ela assentiu dirigindo-se apressada para a porta pela qual eu tinha entrado, mas estranhamente, não conseguiu abrir, ao mesmo tempo que mais uma explosão reverberou pelo esconderijo, só que dessa vez, abrindo grandes fissuras na sala "secreta".
Grande quantidade de água começou a cair do teto, quando Sakura gritou desesperada:
– Sasuke, a porta não quer abrir! Ela só abre por fora!
Se eu morrer, você vai morrer junto comigo companheiro. Se eu não tenho, você também não vai ter. A fala do Hozuki voltou com força, percebendo o que ele havia feito.
Olhei assombrado para o homem inerte no chão percebendo todo o plano que ele havia feito.
Ele sabia que eu viria atrás de Sakura e sabia que eu conseguiria chegar até ele para derrota-lo.
Trancar-me com Sakura, enquanto o esconderijo era açoitado por inúmeras explosões e por esse mesmo motivo, definhava, cedendo aos poucos a estrutura sob o lago, era a forma de dizer: "Se eu vou morrer, vou levar vocês dois comigo".
Aquele era o verdadeiro significado de estar um passo a minha frente?
– Tem que haver uma saída – dei um passo em sua direção com a intenção de derrubar a porta metálica a força, mas nesse exato minuto, minha perna esquerda perdeu o equilíbrio, fazendo-me cair no chão pelo desequilíbrio.
– Sasuke! – Sakura correu ao meu encontro em desespero.
– Perda total de funcionamento da perna esquerda, senhor.
– O que está acontecendo Kurenai? – Perguntei desesperado tentando mover inutilmente a minha perna esquerda, mas nenhum resultado bem-sucedido ocorria.
– O sistema foi infectado por um vírus, senhor.
Arregalei meus olhos lembrando-me das balas.
Sakura percebeu meu assombro, enquanto ajudava-me a andar apenas com uma perna em funcionamento, já que a esquerda apenas se arrastava contra o piso.
– Meu sistema operacional está sendo invadido por um vírus – disse de uma vez.
A mulher ficou estática, encarando-me sem reação. Alguns fios rosados grudavam-se no rosto de boneca.
Ela negou com a cabeça segurando o choro, já que havia entendido a gravidade da situação para mim.
Não queria piorar nossa situação. Estávamos presos, com a possibilidade de soterramento e com um vírus danificando o meu sistema.
– Vamos sair daqui. Vamos dar um jeito – ela sorriu tentando soar confiante, enquanto me ajudava a andar em direção à porta na parede ao fundo do quarto.
Abrimos a porta que levava a um pequeno laboratório ao final de uma pequena escadaria.
Sabia que meu peso estava grande demais para Sakura, mas ela persistia em me apoiar e não me abandonar, enquanto descíamos os degraus em direção ao piso alagado do cômodo escuro.
A escuridão seria total se os flashes que saiam de alguns equipamentos quebrados, não iluminassem o local devido aos seus brilhos esporádicos.
Sakura me puxou para perto da parede direita, mas antes de chegar até ela, minha perda direita cedeu, levando nós dois ao chão.
– Ai! – Resmungou baixo.
– Perda total de funcionamento da perna direita, senhor.
Só pelo meu olhar, Sakura soube o que havia acontecido. Eu não poderia mais andar, estava paraplégico e aos poucos o vírus infectava cada fio mecânico do meu corpo. Destruindo-me e me imobilizando, até não sobrar mais nada.
O rosto de Sakura estava ao meu lado direito, virado para mim.
Durante um dos flashes de luz, eu pude ver seus olhos brilharem pelas lágrimas ali acumuladas, mas que ela temia em não derramar.
Assim que fiz menção de falar algo, ela negou, virando o seu rosto para que eu não visse toda a sua tristeza. Apenas um soluço alto chegou aos meus ouvidos, antes da mulher enxugar as lágrimas e olhar para o teto danificado que continuava a jorrar eventuais goteiras.
– Vamos conseguir! Temos que conseguir! – Falou confiante, se levantando com dificuldades.
A roupa de Sakura já estava ensopada e colada ao corpo.
A mulher irritante que não sabia a hora de dizer "chega" puxou o meu braço esquerdo, tentando me arrastar no chão, já que meu peso era impossível para ela.
Eu sabia que não adiantava insistir, mas continuei me arrastado pela água, até conseguir chegar na parede.
Com dificuldade e ajuda de uma Sakura ofegante, eu consegui me sentar com a costa encostada na superfície fria e metálica.
– Kurenai não consegue mandar uma mensagem externa? – Perguntou desesperada. Os lábios estavam roxos e trêmulos devido a água gelada do lago no inverno.
– Ela já enviou, mas não sei se eles conseguirão chegar a tempo – informei, amaldiçoando-me por provocar mais medo em Sakura.
– Tem que haver outra saída – disse levantando-se. O abraço era forte para tentar conter os tremores que a assolavam enquanto transitava no local de diversas bancadas com equipamentos metálicos sobre eles.
Ela se aproximou de um grande tonel ao fundo e puxou o grande e pesado pano que o recobria.
Um grito abafado saiu pelos lábios dela, mas eu não a culpava. Até para mim, aquela visão me dava náuseas.
Eram os membros amputados do Hozuki dentro de um líquido com uma iluminação verde.
Sakura se equilibrou no tonel, enquanto o vômito vinha com força e se dissolvia na água.
– Sakura! – Gritei quando ela foi ao chão, desaparecendo do meu campo de visão devido a uma bancada.
– Está tudo bem – sua voz soou sôfrega tentando me acalmar.
A mulher se ergueu com dificuldades, mostrando um sorriso fraco, antes de voltar a procurar uma saída ao redor, agora com a facilidade da iluminação do tonel.
Kurenai, há uma saída?
– Não, senhor.
Um soluço baixo saiu pelos meus lábios percebendo que não havia mais esperanças.
O Hozuki estava a um passo à frente como jurara. Ele havia conseguido.
Eu não consegui salvar Sakura.
– Perda total de funcionamento do abdome, senhor.
Meu corpo deslizou um pouco pela parede quando aquela parte perdeu funcionalidade.
O vírus estava subindo, quando chegasse aos meus órgãos tudo estaria acabado...
– Sakura não há saída. Kurenai já analisou – anunciei inutilmente.
A mulher que remexia em uma das bancadas paralisou de costa para mim.
Vi a hora que sua cabeça tombou para frente e as lágrimas, em conjunto aos soluços saíram de maneira libertina, mostrando toda a dor e o desespero que ela sentia.
– Por favor, diz que é mentira, diz que isso não é verdade – implorou entre lágrimas, antes de voltar o olhar desesperado para mim.
Eu não tinha resposta. Eu não tinha uma saída. E clamava à Kami por um milagre, mas nada parecia que nos salvaria.
Mais uma explosão.
Mais uma jorrada de água.
Mais uma desesperança.
Sakura depois de se reerguer, correu para o meu lado, abraçando-me com força.
Ela tremia e sua pele era arroxeada pelo frio intenso.
– Possibilidade de hipotermia identificado na senhorita Sakura, senhor.
Envolvi Sakura amaldiçoando-me por não ser humano e poder passar calor a ela.
Nada de útil sairia das minhas ferragens para salvá-la.
A única coisa que ela esperava de mim era o meu abraço, o meu acalento.
– Perda total de funcionamento do tórax, senhor.
– Merda – xinguei, antes de tossir com dificuldades, devido à parada de funcionamento da parte mecânica que me auxiliava com os movimentos respiratórios.
Agora, apenas a parte orgânica lutava para sobreviver.
Sakura levantou a cabeça, apoiando o queixo trêmulo em meu tórax sem funcionamento. Seus olhos estavam encharcados e cheios de dor e aquela visão me matava aos poucos por dentro.
Apertei-a ainda mais contra mim, antes de ouvir Kurenai reverberar em meus pensamentos:
– Perda total de funcionamento do braço direito, senhor.
Xinguei mentalmente, quando senti meu braço perder a força, mas ainda se mantendo apoiado na costa da rosada.
– Perdão – pedi fechando os meus olhos, sentindo os lábios de Sakura roçarem os meus.
– Nem o perdão agora pode salvar a sua alma maldita e corrompida, meu caro amigo – ressoou uma voz que nos sobressaltou.
Abri o meu olhar com ódio do homem que sorria, apoiando-se em uma bancada.
Seu rosto estava coberto por uma mistura de água e sangue que se exaltavam em suas têmporas e boca inchada.
O homem andou com dificuldades pela água, que já alcançava a altura acima de seus tornozelos, até voltar a se apoiar em uma bancada com a mão esquerda, enquanto a direita erguia a mão trêmula que exibia o revólver com o vírus.
– Perda total de funcionamento do braço esquerdo, senhor.
Senti meu braço perder a força, ao mesmo tempo que Sakura me abraçava com mais força entendendo o que estava acontecendo comigo.
Eu estava tetraplégico... apenas minha cabeça era temporariamente móvel.
– Quem vai morrer abraçado com a minha flor, sou eu – cantarolou alisando o gatilho, enquanto via o revolver erguido na direção da minha testa.
– Não – Sakura chorou mais profundamente agarrando-me com todas as forças, enquanto eu, inutilmente, continuava a olhar o azulado enlouquecido, pronto para dar o último disparo que acabaria com a minha vida.
Fechei os meus olhos, afundando meu nariz nos cabelos de Sakura, assim que ouvi o disparo.
Sakura gritou desesperada, mas eu não sentia nada.
Levantei lentamente o meu olhar encontrando um Hozuki completamente surpreso em seu semblante.
A mão que erguia a arma perdia a força à medida que seu braço caia ao lado do seu corpo.
O rosto incrédulo do homem virou por cima do ombro, enquanto a água aos seus pés tingia-se de vermelho.
– Heh – um sorriso de canto formou-se em seu rosto enquanto via a ruiva ao pé da escadaria com a arma em punho.
A mão esquerda de Karin pressionava seu ferimento, enquanto a direita perseverava para continuar em posição de ataque.
– Até tu, Karin? – Zombou parodiando à célebre frase do imperador romano Júlio César, traído até pelo seu próprio filho. No caso de Suigetsu, traído até pela mulher que o amava.
As lágrimas inundaram os olhos modelados pelos longos fios cor de sangue, enquanto mais dois disparos saíram em direção ao Hozuki que manteve o sorriso de canto para a ruiva, enquanto seu corpo caia no chão em um baque surdo.
A arma da ruiva caiu na água ao mesmo tempo que os soluços eram a melodia de seus passos em direção ao azulado que liberava seus últimos bofares com essência de vida.
A dor física e psicológica levou a mulher ao chão ao chegar no corpo daquele que ela havia amado desde criança.
De joelhos, a ruiva abraçou o homem e chorou.
Chorou da forma que nunca chorara antes.
Todas as amarras e sustentos de sua personalidade ruíram enquanto ela chorava, mostrando a verdadeira Karin...
Mostrando a criança perdida e usada que ela era.
Só naquele momento, eu entendi o porquê que ela queria tanto a morte de quem amava. Só naquele momento, eu entendi o porquê ela era capaz de atirar nele e lhe tirar a vida.
A simples resposta de tudo é que ela, por mais que de uma forma diferente e torta...
Amava-o.
Amava de tal maneira que preferia ver seu grande amor morto, do que se perdendo na loucura e no buraco que se enterrava cada vez mais, perdendo a cada dia, a essência do menino pela qual ela amara a vida toda.
– Perda total de funcionamento do pescoço, senhor.
A pontada veio forte e quando tentei mover ou falar, nada saiu.
Havia perdido a minha voz. Minhas cordas vocais estavam desativadas e minha respiração, mais dificultada.
– Sasuke – chamou a rosada quando desviou o olhar choroso do casal à nossa frente.
Movi minha boca mais nada saia.
O lábio inferior de Sakura foi prensado com força pelos dentes, ao entender que eu estava sem voz.
Ela chorou silenciosamente tentando suportar a dor e o frio, mas estava sendo pesado demais.
Indiquei com os meus olhos o meu bolso da calça social e ela prontamente entendeu, procurando algo no meu bolso.
Estava tudo se acabando. Estávamos os quatro presos naquele lugar.
Suigetsu estava morto. Karin estava baleada. Eu estava sendo desativado por um vírus. Enquanto Sakura tremia com os efeitos de uma futura hipotermia.
Ela seria a última. Eu sabia. Provavelmente seria a última a morrer.
Ela veria todos nós definhando na morte, até chegar à sua vez ou por um milagre, e eu rezava por ele, ela se salvar.
Era a minha última chance e eu queria tentar pelo menos uma vez.
Sakura retirou a pequena caixinha de veludo azul marinho e trouxe para entre os nossos rostos.
O rosto trêmulo e molhado da mulher surpreendeu-se quando viu o anel de brilhantes ressoando poder e beleza mesmo na luz fraca do ambiente.
Sakura me olhou assustada, enquanto eu apenas sorria de canto para ela.
– Vo-Você ia me pe-pedir em casamento hoje? – Balbuciou com dificuldades pelo frio.
Apenas meu sorriso foi a minha reposta.
As lágrimas caíram com mais força e os soluços ressoaram, enquanto Sakura tentava se aconchegar mais em mim.
– Sim! – Soluçou. – A resposta é sim!
Inspirei profundamente as madeixas rosadas e molhadas de Sakura com a leve fragrância floral, antes de escutar Kurenai:
– Perda total de funcionamento da parte inferior do rosto, senhor.
Eu não sentia mais os meus lábios e agora não podia mais sentir o cheiro de Sakura.
Apenas em minhas lembranças ele reinaria até o meu fim.
A mulher ergueu o rosto com uma expressão assustada, antes de proferir:
– Sas-Sasuke – abraçou-me em desespero. – Você não pode morrer! Eu... Eu acho que estou... – o silêncio se perpetuou, enquanto os lábios dela continuavam a se mover.
– Perda total de funcionamento da audição, senhor.
O que ela quer me dizer? Pedi em desespero.
– Senhor, pela leitura labial, a senhorita Sakura está informando que supostamente... – a voz falhou como um disco riscado.
O QUÊ? Gritei em pensamentos desesperado para compreender a mulher que parecia gritar.
– Grávida. Ela está supostamente grávida, senhor!
Meus olhos, as únicas coisas que eu era capaz de mover arregalaram-se com a notícia.
Sakura estava grávida!
Analise os sinais vitais e hormonais de Sakura, Kurenai! Gritei contra o tempo que me restava.
Eu precisava ter aquela última certeza...
Minha visão formigou e ficou azulada mostrando todo o funcionamento e dados sobre o corpo de Sakura.
– Cálculos dos dados indicam gravidez confirmada, Senhor.
Um pequeno ponto de luz estava destacado no ventre de Sakura, no inteiro de seu útero.
Eu queria sorri, mas eu não me movia mais.
Eu queria gritar, mas eu não tinha mais voz.
Eu queria correr e pular de felicidade, mas minhas pernas não funcionavam mais.
Eu queria abraça-la com força, mas meus braços são meros arranjos metálicos sem vida.
Eu queria beijá-la, mas meus lábios não são mais capazes de sentir seu gosto.
Desativei meu poder ocular, voltando meu olhar para Sakura que me encarava petrificada.
Eu sabia que só pelo meu olhar ela poderia me entender. Entender que eu a entendia. Que eu sabia sobre a nossa criança.
Olhei o mundo mudo que ruía ao nosso redor, antes de focar novamente na mulher de cabelos rosas que se aproximava cada vez mais do meu rosto, até nossos lábios se tocarem, mesmo que eu não pudesse mais senti-los.
Meus olhos se fecharam, enquanto me lembrava de como era beijá-la.
– Perda total de funcionamento da visão e de qualquer função tátil, senhor.
O mundo não existia mais.
Eu era um mero borrão de existência sem espaço e tempo.
Não havia odor, forma ou dor. Eu só sabia que existia dentro de um objeto sem vida.
– Perda total de funcionamento do...
A voz de Kurenai desapareceu completamente. O vírus já havia chegado ao meu sistema operacional, destruindo-o totalmente.
Aos poucos senti que não havia mais ar. Como se estivesse afundando nas profundezas de um oceano em direção à morte.
Meu único arrependimento, era nunca poder ver o rosto do nosso filho, Sakura...
Uma vez ouvi dizer que nos recordamos de momentos da nossa vida, momentos antes da morte lhe abraçar, mas nenhuma recordação veio a minha mente que se apagava aos poucos.
Eu queria ver o sorriso amável de Sakura, o brilho do olhar de Nisuke, queria ver o rosto de minha mãe amável, o ranzinza do meu pai ou o brincalhão de meu irmão, até o rosto idiota de Naruto estava valendo, mas eu não vi nada, não senti nada...
Era sutil.
Simplesmente sutil e momentâneo.
A morte te abraça, ela é fria e te leva com ela.
Não há passado para se recordar. Não há futuro para se sonhar. Não existe a dor, nem a tristeza. Não existe o medo. Só existe o agora e o fim. Só existe a morte...
É William Shakespeare, talvez você tenha errado... talvez o homem não tenha medo da morte quando vive ela... talvez ele só sinta isso durante a vida, mas a minha já se foi...
Continua...
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