Re/Desconfigurado

19 Re/Desconfigurado


Notas iniciais
[IMPORTANTE] Re/Desconfigurado está sendo postado na minha conta do SS, no seguinte link: https://socialspirit.com.br/fanfics/historia/fanfiction-naruto-redesconfigurado-4760867 Estou avisando só para que não haja confusão e der problema com denúncia de plágio, porque eu realmente não sou acostumada a publicar histórias lá ^^ Enfim chegamos ao último e viajante capítulo! Sim, minha gente, até eu acho que eu viajei no final kkkkk mas eu realmente queria explicar o que me perguntaram bastante: "Gabyyy, o que é Re/Desconfigurado? De onde surgiu esse nome?" Bom, eu explicarei ou tentarei explicar porque eu dei esse nome para a fic! Eu queria agradecer de todo o meu coração à recomendação que a fic recebeu nesse meio tempo em que estive desaparecida por não estar conseguindo escrever esse longo e problemático capítulo hahahah OBRIGADA DANNONINHO SUA LINDA! Fiquei muito surpresa com a recomendação ainda mais por saber que ela ainda não havia chegado ao último capítulo já postado quando ela parou de ler para recomendar kkkkk ai, dannoninho, você não existe! Muito obrigada pelas lindas palavras e por sempre me dar a oportunidade de sua opinião, mesmo que não seja por comentários, aliás, há tantos outros meios de comunicação ^^ Eu fiquei de queixo caído com a sua delicadeza de percepção de olhar além de um mero romance clichê ^^ e adorei sua associação com a droga e para mim, céus! Sorvete de tapioca, por favor! kkkkkkk Por isso e por muito mais, esse último capítulo será dedicado à você ^^ Obrigada aos que favoritaram e aos que doaram um tempinho seu para deixar seu comentário! Perdão por ter deixado algumas pessoas em desespero com aquele último capítulo O.o hahahaha ESCUTEM as músicas que estão no hiperlink! Eu escrevi ouvindo Fotografia de Yiruma! Admito que em algumas partes lagrimei escrevendo com o clima de despedida, mas, no fim, terminei com um largo sorriso no rosto e um pensamento de que "eu não sou normal!" hahahah Divirtam-se com esse último capítulo de Re/Desconfigurado!

"E se o tempo for te levar eu sigo essa hora e pego carona só pra te acompanhar"

(O Último Romance, Legião Urbana)

"Eu te amo, Sasuke-kun"

O quê? Que voz é essa? Sakura?

Processando dados 5%... Processando dados 10%... Processando dados 20%... Proc...

Kurenai? O quê? O que está acontecendo?

Processando dados 60%... Processando dados 70%... Processando dados 80%...

Eu não morri?

Processamento concluído... Sistema reconfigurado e pronto para utilização— disse a voz mecânica de Kurenai na minha cabeça. – Seja bem-vindo de volta, senhor Uchiha Sasuke.

Meus lábios entreabriram-se, mas nenhuma palavra foi pronunciada.

Sentia grande vontade de gritar, mesmo que a minha confusão fizesse com que eu não soubesse o porquê daquela vontade.

Depois de alguns segundos, consegui abrir lentamente as minhas pálpebras.

Pisquei algumas vezes para focar o imenso teto branco sobre mim na sala extremamente iluminada.

Pensava que sentiria grande dor com a iluminação, mas não senti nada.

Estranho.

Foi a única palavra que pensei enquanto focava na luz vermelha que continuava a girar como se alertasse algo.

Imagens desconexas passavam pela minha memória em grande velocidade, não dando a mim a oportunidade de formar uma sequência lógica.

Vozes e mais vozes se misturavam, algumas eram adultas, mas outras, eram infantis. No entanto, em meio àquele turbilhão de sentimentos e memórias, um grito se sobressaiu entre as demais. Era um grito de desespero. De uma mulher.

Tentei me recordar de quem era aquela voz, mas meu raciocínio foi interrompido quando eu escutei um quase inaudível som de choro vindo de algum lugar à minha direita.

Confuso, tentei encontrar o responsável por aquele som, mas o meu pescoço parecia duro e inutilizado.

Foi com dificuldade que tombei meu rosto para aquele lado e em poucos segundos meus olhos focalizaram a figura singular de uma mulher muito bem vestida e maquiada.

Seus cabelos eram curtos e tonalizados de rosas. Suas roupas tinham a aparência cara e desenhavam seu corpo com singelas e marcantes curvas.

O vestido branco de decote retangular e um cinto de mesma cor, mostrava ao mundo a beleza de suas pernas torneadas e seios medianos. O sobretudo marrom, dava o ar de sobriedade, enquanto seus pés, calçados pelo carmim, contrastavam com a batalha de cores nudes e marcantes que era a mulher.

Não reconheci aquela mulher de imediato, mas quando meus olhos focaram em seus grandes olhos de um verde incomum, cheio de lágrimas cristalinas que escorriam pelas suas maçãs rosadas, enquanto seus dedos escondiam sua boca em uma expressão de incredulidade – a voz feminina voltou novamente em meus pensamentos, algumas vezes eram gritos, outras eram risadas ou promessas sussurradas em meio à um gemido sôfrego.

Instantaneamente as lembranças voltaram com força, enquanto eu sussurrava o nome daquela mulher:

— Sakura...

Minha voz saiu rouca e quase sem vida, mas a mulher provou que havia me escutado, desabando em lágrimas.

Suas pernas perderam forças e aquela que eu tanto amava, caiu de joelhos, chorando impiedosamente enquanto se abraçava como uma criança medrosa.

Com um impulso meu corpo virou para fora da cama. Meu desespero de alcançá-la e a consolar era tanto que não calculei os efeitos daquela atitude.

Meu corpo parecia mais leve do que da última vez que eu me lembrava e por isso, desengonçado e sem coordenação motora, meu corpo caiu com força contra o chão de enjoativas lajotas brancas como todo o resto.

Não senti dor com a queda, mas a posição incomoda não me dava a visão da mulher que eu queria tanto consolar.

Tentei reerguer meu corpo com as minhas mãos, mas estava tudo confuso e não conseguia ter sustento, caindo novamente contra o chão duro e alvo, só que dessa vez, com o rosto voltado para a mulher de cabelos cor de rosa.

O senhor não está acostumado com o novo corpo. Devo aconselhá-lo que permaneça onde estar e não faça movimentos bruscos. A ajuda já foi requisitada.

Não! Gritei em pensamentos. Diga que eu não quero ninguém aqui, agora! Deixem-me sozinho com a Algodão Doce, pelo menos por um tempo, Kurenai.

Ordens repassadas com sucesso. Ninguém os incomodarão.

Sorri minimamente com aquela sentença, fazendo a mulher na minha frente arregalar os olhos e fazer a menção de se levantar para correr até mim, mas eu neguei com a cabeça, forçando o meu corpo, desengonçado e leve demais, a se arrastar pelo curto espaço que nos separava.

Mordia meu lábio inferior em frustração sempre quando eu caia enquanto engatinhava, mas não desistir de chegar até ela por meio do meu esforço. Por ela.

Arrastava-me pelo chão frio, quando tateei suas pernas torneadas como um drogado reencontrando sua droga depois de muitos anos de abstinência.

Sakura agarrou meus braços em desespero, para que eu chegasse em seus braços mais rapidamente como se ela estivesse necessitada daquele contato tanto quanto eu.

— Algodão Doce – sussurrei em meio a um suspiro, sentindo os braços lânguidos contornarem meu corpo, que vestia apenas uma roupa hospitalar, enquanto soluços altos e desesperados saiam de sua boca que abafava os gritos na curva do meu pescoço.

Meus braços ficaram pendurados ao meu lado, por medo de não conseguir controlar minha força caso a abraçasse, mas Sakura não se importou, apenas continuou me abraçando e nos aproximando cada vez mais.

Eu não sabia como ou o que havia acontecido para chegarmos ali, mas aquilo não importava por hora, a única coisa que eu queria era chorar e aproveitar todas as sensações que ter Sakura em meus braços poderia me oferecer.

Eu queria agarrá-la em meus braços e sair correndo, gritando para todos o que eu sentia, mas seu corpo quente e trêmulo pelo choro era o suficiente para que meu coração batesse mais forte e descompassado.

Depois de alguns segundos, as mãos trêmulas de Sakura tatearam em busca do meu rosto para que finalmente nossos olhos se encontrassem.

Eu sorri para ela e como resposta recebi um largo sorriso de felicidade em meio às lágrimas que não paravam de cair pelo rosto vermelho pelo esforço.

Antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, Sakura contornou o meu pescoço com seus braços finos e selou nossos lábios com desespero.

Sem o meu costumeiro equilíbrio, meu corpo tombou para trás com ela sobre mim.

Gargalhamos da situação, mas logo em seguida senti o gosto de Sakura de encontro aos meus lábios.

Era estranho beijá-la sem uma coordenação motora, parecia um adolescente dando o seu primeiro beijo. Enquanto tentava beijá-la com calma, reaprendendo o controle de meus movimentos, Sakura avançava com volúpia e desespero, como se a muito tempo esperasse por aquilo.

Em certo momento cedi, deixei que a mulher guiasse nosso beijo da forma que ela queria e ministrava. Nossas línguas se alisaram e acariciaram nossas partes sensíveis, acendendo nosso prazer, fazendo-nos querer cada vez mais.

Quando o ar nos faltou, Sakura deixou o beijo mais lento, separando nossos lábios com o meu lábio inferior sendo deslizado entre seus dentes, enquanto seus olhos brilhavam com malícia de encontro aos meus.

— Você anda sem prática, garanhão – brincou e eu acabei rindo.

— Não tenho controle sobre o meu corpo e – como um estalo, uma dúvida surgiu em meus pensamentos. Meus olhos percorreram o rosto de Sakura e notei que sua aparência estava notadamente diferente, aparentando trinta anos, mas em nossa sociedade, a aparência física nada significava na realidade para determinar a idade cronológica da pessoa.

Toda a felicidade em meu rosto foi tomada pela seriedade que preocuparam a mulher que enxugava as lágrimas sem sair de cima do meu corpo.

— Algum problema, Sasuke?

— Sakura – iniciei com a voz séria, pedindo a Kami que aquilo não significasse o que eu pensava que era. – O que aconteceu depois que eu perdi a consciência?

Toda a felicidade que se estampava em seu rosto de boneca, sumiu instantaneamente, desviando o olhar como se não quisesse tocar naquele assunto.

Com cuidado, trouxe o rosto pálido de volta para a posição anterior.

— Sakura – pedi em um sussurro. – Por favor, diga-me a verdade.

Uma lágrima solitária escorreu por sua bochecha direita, antes de ser rapidamente enxugada pela mulher desconfortável que procurava as palavras certas.

— É... depois que você apagou e não respondeu mais aos meus chamados – sua voz saia fraca – e-eu fiquei com tanto medo – mordeu o lábio inferior, fechando seus olhos com força como se para reprimir as lágrimas que teimavam a voltar enquanto ela tinha aquela lembrança. – Eu fiquei desesperada, mas a polícia conseguiu chegar até nós para nos resgatar. Eles me agarraram e me arrastaram para longe de você enquanto eu gritava e... quando eu percebi, estávamos fora daquele lugar que desmoronou logo em seguida, sendo engolido pelo lago. Você foi o último a ser tirado dali, mas quando jogaram seu corpo sobre a neve e sua mãe gritou, eu desmaiei. Havia muita confusão. Repórteres, helicópteros, curiosos e paramédicos. Estava caótico e essa é a última lembrança que eu tenho, depois de alguns dias eu acordei no hospital. Karin estava ao meu lado quando sua família chegou e... – sua voz morreu.

— O que aconteceu?

— Não me obrigue a falar sobre isso, por favor – pediu com tristeza, tentando soar otimismo e felicidade com a sua próxima sentença – o que importa é que você está aqui, meu amor – sorriu acariciando minha face, mas apenas um sorriso triste e de canto surgiu em meu rosto quando eu finalmente perguntei:

— Quanto tempo eu passei desacordado dessa vez?

Sakura ficou estática e pálida com aquela pergunta repentina.

A voz sumiu de sua boca entreaberta pela surpresa.

Trouxe seus lábios de encontro aos meus e fechei os olhos como se aquilo fosse a prova de que não importava a resposta, por mais dolorosa que fosse, eu aceitaria, mas não poderia negar...

Eu tinha medo. Medo do que a realidade guardava para mim.

— Quando te encontraram, nada do seu corpo funcionava, estava tudo destruído pelo vírus, apenas sua parte orgânica lutava para sobreviver, mas sem o auxílio da parte mecânica, você estava se encaminhando para a morte sem qualquer chance de volta – respirou fundo, tentando manter a calma. – Eles tiveram que recomeçar do zero. Nada foi salvo, apenas a parte orgânica que era mantida por aparelhos eletrônicos. Foi assim que surgiu o Novo Projeto Falcão...

— Novo Projeto Falcão – balbuciei vendo o teto atrás do rosto de Sakura.

Eu sabia o que aquilo significava. Sabia que eles haviam começado tudo do zero, mesmo tendo o estudo completo do meu antigo corpo.

Voltei a olhar nos olhos de Sakura e por mais que eu sentisse medo do que eu escutaria, ou quanto tempo havia perdido, a visão da Rosa Negra em seu pescoço me dava apenas uma certeza...

Sakura ainda me amava.

Eu não havia perdido ela para o tempo.

— Quantos anos eu passei desacordado, Sakura?

Os dentes brancos e bem alinhados morderam a carne macia de seu lábio inferior, inferindo ali, todo o seu medo e preocupação pelos efeitos de suas próximas palavras.

— Já se passaram quase seis anos depois daquela noite, meu amor – admitiu em um sussurro e o mundo pareceu perder foco por alguns segundos.

Níveis hormonais elevados. Alerta. Perigo!— Informou Kurenai mecanicamente.

Eu não vou desmaiar dessa vez. Eu não posso desmaiar dessa vez.

Pensei respirando profundamente, tentando me acalmar, por mais que ainda me mante-se em choque por descobrir que eu já havia perdido 18 anos da minha vida contando com a vez anterior.

Dezoito anos perdidos, enquanto eu só havia vivido meros 20 anos acordado.

— Hoje é o dia do seu aniversário de trinta e oito anos, Sasuke-kun – sussurrou tentando ser otimista. – Pense pelo lado bom. Você voltou para nós – me abraçou com força, escondendo o rosto em meu pescoço.

Eu estava tendo uma terceira chance de viver e isso era o meu conforto, apesar de tudo, mesmo assim...

— E o meu filho, Sakura? O filho que você estava esperando – lembrei sentindo a dor no peito aumentar tendo uma ideia.

Sakura se remexeu, sentando-se entre as minhas pernas e me ajudando a sentar de frente para ela.

— Nasceu – sorriu largamente, mas percebendo a minha expressão melancólica, ela descobriu o que eu pensava.

Eu havia perdido a infância de mais um filho meu e Nisuke já estava com 16 anos de vida, vivendo com a ideia de um pai desacordado, sem nunca me ter ao seu lado ou na comemoração de seus aniversários.

— Sasuke... – ela sussurrou me abraçando em forma de conforto. – Eu entendo sua preocupação, mas não fique assim, ela te ama apesar de tudo...

— Ela? – Perguntei confuso.

Sakura se afastou rindo sem graça, mas sem tirar suas pequenas mãos de meus ombros.

— Desculpe, eu não te contei. Além de já termos um menino, agora temos uma menina linda como filha.

— Era uma menina – sorri com a notícia, mesmo ainda sentindo a dor de ter perdido momentos com a minha família. Momentos esses que nunca mais retornariam.

— Vem – sorriu largamente se levantando, tentando puxar meu braço.

— Não consigo andar, Sakura. Preciso reaprender tudo de novo – falei com pesar.

Sakura ficou pensativa, antes de sorrir tendo uma ideia. Saiu apressada sobre os saltos altos, deixando-me sozinho para trás.

Por mais que fosse estranha a sensação de ser deixado para trás por ela, permaneci no lugar, esperando até que ela retornasse para mim.

Minutos se passaram quando ela retornou empurrando uma cadeira de rodas e um largo sorriso que parecia deixar o mundo melhor ao seu redor.

Seus olhos ainda estavam inchados pelo recente choro, mas a alegria da oportunidade de fazer tudo voltar como era antes, era contagiante para nós dois.

Foi difícil, mas conseguimos me colocar sentado na cadeira de rodas.

Sakura usou um pouco de força para empurrar meu grande peso, mas ela parecia animada com a expectativa de algo que eu não sabia o que era.

— Meu corpo parece mais leve do que antes – comentei enquanto passávamos por alguns corredores alvos.

— Usaram um novo material fabricado pela Uchiha’s Company. É mais leve e tem as mesmas finalidades que o seu material anterior – comentou.

— Anda sabendo muito sobre o andar da Companhia – brinquei olhando-a por cima do ombro.

Ela sorriu, ficando levemente corada com aquela sentença, antes de admitir olhando para um ponto à minha frente.

— Eu venho aqui todos os dias desde que me permitiram a visita. Venho todos os dias te visitar e saber qualquer novidade sobre você – sussurrou e me culpei por toda a dor que eu havia causado a ela, mas meus pensamentos foram interrompidos quando a cadeira parou repentinamente.

Virei meu rosto para frente, encontrando uma porta espelhada, mostrando o nosso reflexo.

Minha aparência estava diferente, mais velha e adulta.

Meus cabelos estavam mais compridos, alcançando meus ombros e uma grande franja cobria metade do meu rosto.

— Grave essa imagem, Sasuke – sussurrou com um sorriso cálido. – Nós dois temos a aparência de trinta anos.

— A única vez em que teremos a mesma idade – sorri para a imagem.

— Sim. Essa é a primeira vez em que olharemos nossos reflexos, daqui para frente teremos muitos anos de vida para nos comparar também – sorri ainda mais com aquela sentença esperançosa de que a partir dali tudo daria certo em nossa vida. – Pronto para reencontrar seu filho e conhecer sua filha?

Inspirei com força antes de assenti em acordo.

A porta foi aberta mecanicamente revelando a sala de espera ampla e cheia de cadeiras acopladas às paredes.

Risadas ecoavam altas, mas com a chegada de alguém, elas sumiram gradativamente pela surpresa.

A primeira a me ver foi Ino – sentada em uma cadeira – limitando-se a piscar os olhos mecanicamente. Em seguida, foi a vez de um rapaz alto e de óculos negros virar subitamente para mim. Ele era muito parecido comigo na adolescência e sua feição de espanto foi a prova de que aquele rapaz era...

Nisuke.

Ele parecia sem reação, assim como a pequena criança em seus braços que olhava para nós dois, confusa.

Ela tinha cabelos curtos e negros. Seus olhos tinham o mesmo contorno que a Sakura, mas eram escuros como a noite, escondidos atrás de um óculos de aro vermelho. Sua pele era alva e suas maçãs eram rosadas.

Não precisei de muito para saber que aquela menininha de cinco anos era a filha que eu havia tido com Sakura.

— O pai de vocês voltou, crianças – Sakura anunciou em um sussurro animado, mas o silêncio e a tensão eram palpáveis.

A menina se remexeu incomodada e Nisuke entendeu seu pedido silencioso, colocando-a de pé no chão.

A criança se agarrou na perna de Nisuke como se estivesse desconfiada.

— Oi – foi a única coisa que eu consegui dizer naquele momento, trocando meu olhar entre o rosto de Nisuke e a pequena menina que mantinha os olhos sérios na mãe como se fizesse uma pergunta silenciosa.

— É ele sim, meu amor. Seu pai finalmente atendeu seus pedidos e resolveu acordar – falou morosamente a mulher de cabelos cor de rosa atrás de mim.

— Vem cá – pedi para pequena que olhou com desespero para o irmão que riu um pouco da atitude da irmã não acostumada a me ver acordado.

Nisuke pegou na mão da menina e guiou ela com cuidado até mim.

A morena não tirava os olhos de mim e eu não parava de sorri, vendo cada semelhança minha e de Sakura estampada nos mínimos detalhes de seu rosto infantil.

Nisuke parou na minha frente e sorriu largamente para mim, fazendo com que eu me chocasse em como aquela pequena criança, que invadia o meu quarto ou eu botava para dormir, havia crescido tanto, se tornado um rapaz com traços adolescentes, mas com um olhar maduro.

— É bom te ter de volta, pai – o garoto disse rodeado o braço livre em meu pescoço. Afundando o seu rosto ali.

Eu sabia só pela leitura corporal, que ele estava se segurando para não chorar, mas não me importei, apenas contornei seu tronco com dificuldade e cuidado para não o machucar.

— É bom voltar para vocês, garotão – sussurrei e ouvi uma risada baixa saindo do meu filho.

Ele se afastou e olhou para a irmã que continuava tensa, remexendo as pequenas perninhas.

— E essa princesa – chamei sua atenção que havia desviado para o irmão. Sorri de canto para acalmá-la e ela pareceu me corresponder. – Vem cá – dei uma leve batida em meu colo. – Sente-se aqui. Ainda não posso me levantar para te pegar no colo.

A moreninha assentiu com um leve sorriso e se prontificou em subir em mim sem a ajuda do irmão.

A criança acomodou-se no meu colo para que ela se sentasse de lado e pudesse me ver.

Ela parecia constrangida e nervosa, brincando com os pequenos dedos em confusão.

— Sei que tudo parece muito confuso para você – sussurrei, recebendo a atenção do olhar negro com brilho infantil. – Não consigo imaginar pelo o que você passou, mas – apontei com o queixo para Nisuke que permanecia com os braços cruzados, olhando para nós dois com os olhos marejados, enquanto minha audição detectava baixos soluços vindo de Sakura – acredite, seu irmão teve que passar pela mesma situação há anos atrás e nada disso me faz feliz.

— Você não está feliz em nos ver? – Perguntou preocupada e pela primeira pude sorrir ouvindo a voz infantil da minha filha.

— Não – balancei a cabeça levemente. – Na verdade eu fico muito feliz em ver todos vocês – sorri – só não fico feliz quando eu tenho que dormir muito.

— Você vai ter que voltar a dormir, papa?

Olhei para Sakura com uma sobrancelha arqueada, ela apenas sorriu e deu de ombros tentando conter as lágrimas.

— Papa – repeti. – Gostei de ser chamado assim – a pequena riu um pouco, ressaltando os farelos de bolo de chocolate em seu rosto. – Para falar a verdade, a partir de hoje eu não preciso dormir muito.

— Promete que você não vai voltar a dormir, papa?

— Só com duas condições – sorri, recebendo um olhar confuso da pequena Uchiha.

— Quais?

— O primeiro é que você diga qual é o nome dessa princesa que está no meu colo – brinquei erguendo uma sobrancelha. A criança olhou para a saia de pregas cor de rosa e para blusa branca de botões com mangas curtas, percebendo que eu me referia a ela.

— Meu nome é Sarada – sorria largamente para mim, perdendo um pouco da tensão que sentia por mim. – Eu me chamo Uchiha Sarada.

— Sarada – murmurei sorrindo minimamente. – Você tem um lindo nome, Sarada.

— Qual é a sua outra condição? – Perguntou em expectativa e curiosidade infantil.

— Que você der um abraço apertado em seu pai – tombei minha cabeça para o lado em desafio.

A menina não perdeu tempo, agarrou-se em meu pescoço, apertando o máximo que ela podia, só então ouvi o primeiro soluço sair da boca infantil, que só agora compreendia tudo o que estava acontecendo.

Afaguei os cabelos negros com cuidado para não machucar a criança que começava a tremer cada vez mais, enquanto o choro se tornava mais intenso.

Contornei sua pequena cintura com um braço e afundei meu rosto no cabelo com cheiro floral como sua mãe.

Fechei meus olhos e prometi só para que ela escutasse:

— Eu prometo voltar a dormir só quando você permitir minha pequena Sarada...

***

Eu prometi e com aquela promessa os anos passaram com revoadas de lembranças e memoráveis momentos.

Já fazia cinquenta e cinco anos desde que eu despertara de um sono profundo pela última vez.

Os anos se passaram com calmaria e recheada de felicidades dentro de nossa família, no entanto, tudo tem o seu fim...

Assim que configurei para que a melodia do piano tocasse pelo ambiente, levantei meu olhar e meus negros encontraram com os verdes brilhantes da mulher que repousava sobre a grande cama de casal.

Sorri para ela e encarei meu reflexo pondo as mãos nos bolsos da minha calça jeans.

Minha aparência estava imutável. Ainda tinha meus trinta anos e nenhum sinal de que já tinha noventa e três anos de vida.

Meus braços continuavam fortes e bem trabalhados sob a camisa polo azul marinho que se colava parcialmente no meu corpo.

Nisuke se tornara um dos principais cientistas da Companhia, especializando-se em robótica fina e mais barata para amputados de outras zonas, visualizando a própria situação de seu pai.

Meu filho sempre perguntava se eu não gostaria de envelhecer em aparência, mas eu negava adormecer novamente apenas por um capricho.

Depois que eu acordei, decidi que não perderia mais nenhum segundo que eu pudesse viver com as pessoas que eu amava e foi isso o que eu fiz, recebendo sempre o severo “não” de minha filha para aquela ideia de me adormecer nem que fosse por poucas semanas.

Sorri com a lembrança daqueles dois, antes de voltar a encarar a mulher pelo reflexo do espelho.

Diferente de todos em Pasárgada, Sakura negou todos os tratamentos que a empresa dos Uzumaki’s oferecia.

A minha mulher resolveu envelhecer e viver o tempo que a vida lhe oferecesse e não o tempo que os homens poderiam lhe prolongar.

Seus cabelos não tinham mais os tonalizados cor de rosa, tão característico dela. Hoje em dia, eles mostravam os grisalhos cabelos soltos e curtos que se espalhavam sobre o travesseiro que sua cabeça apoiava, moldando a face enrugada e flácida, tão diferente da pele de boneca que eu conheci há 61 anos atrás, iluminados apenas pela luz da lua em um beco escuro e isolado de Boca.

A boca carnuda, tornara-se mais delgada e rachada pelas marcas da idade, mesmo assim, ainda mostravam o mesmo sorriso gentil com um leve toque infantil de tantos anos atrás.

Seus olhos tão vivos e seu sorriso, eram as marcas que o tempo nunca poderia tirar ou envelhecer, por isso, todas as vezes que eu a olhava, a via como a sempre imutável Algodão Doce, roubadora de pães alheios, mas com um coração grande e sofrido pelas marcas de sua desgraçada infância e adolescência.

No entanto, aquele brilho estava próximo de se apagar para sempre...

As análises dos sinais vitais de Sakura haviam confirmado que seu corpo não passaria daquela noite.

Sakura estava morrendo diante dos meus olhos e como há muitos anos havia decidido, eu seguiria seus passos e desligaria meu sistema operacional para sempre.

Não haviam anteriores parecidos comigo, por isso, não sabia quanto tempo o meu corpo mecânico suportaria, talvez muito mais do que um humano sem nenhuma ferragem, mesmo com os cosméticos dos Uzumaki’s, mas nada disso importava porquê meu prazo seria delimitado pelo limite de Sakura.

Suspirei profundamente antes de ver o céu de Pasárgada sendo cortado pelo multicolorido do pôr-do-sol que dava o lugar à passos lentos para a noite fria e calma que logo abraçaria Tóquio.

Vi alguns reconstrutores de Ozônio subirem a partir de alguns dos muitos prédios tecnológicos que desenhavam aquela Primeira Zona.

As superfícies espelhadas refletiam o restante de luz natural deixando o quarto com um aspecto pirotécnico e multicolorido retratado nas paredes.

Vi ao longe as grandes construções das indústrias da Segunda Zona e, mais ao fundo, Boca com suas vielas, prostíbulos e armazéns abandonados aos pedaços.

Enquanto as pessoas da Segunda Zona eram o principal alvo dos cuidados de Nisuke. Sarada havia negado a tradição tecnológica da família se dedicado à sua amada arquitetura, fazendo como projeto de sua vida, a reurbanização daquela Zona tão esquecida pela sociedade e que fora casa de sua mãe por muitos anos.

Mesmo que muitos governantes corruptos tentassem contradizer os desejos da morena, Sarada havia herdado o gênio forte da mãe, impondo até seu poderoso sobrenome para intimidar qualquer um que ousasse atrapalhá-la.

— No que está pensando, meu amor? – A voz idosa e fraca de Sakura perguntou com doçura.

Virei para ela com um sorriso de canto.

— Em tudo e em nada, ao mesmo tempo – respondi dando largos passos para alcançar a minha esposa.

Sentei na borda da cama, antes de acariciar com leveza sua bochecha esquerda.

Sakura suspirou e fechou os olhos como se quisesse aproveitar qualquer sensação que eu pudesse lhe dar. Como se fosse a última vez.

Inclinei-me e dei um longo e demorado beijo em sua testa, antes de me afastar e sorrir encarando a Rosa Negra que nunca saia de seu pescoço desde a noite em que havia lhe dado. A mesma noite em que nos entregamos um ao outro pela primeira vez.

Desviei meu olhar para o criado-mudo e peguei o antigo exemplar de A Bela e a Fera de Gabrielle-Suzanne Barbot. Folheei algumas páginas, encontrando a página amarelada e desbotada com a caligrafia de Sakura, registando a primeira declaração que aquela mulher havia feito para mim.

Olhei tudo sorrindo e com o sentimento de saudade no peito.

O simples marcador de página, mostrando minha moto da época, continuava ali e intocável, marcando aquela página que tanto significava para mim.

Eu sentia meus olhos arderem, mas nenhuma lágrima saia do meu corpo mecanizado.

— Você ainda acha nossa história parecida com A Bela e a Fera? – Perguntou enquanto sua mão trêmula e enrugada buscava minha face.

Segurei sua mão magra com a minha mão direita, dando-lhe força para se manter erguida e trazê-la para os meus lábios, roçando cada ponta dos lânguidos dedos contra a minha pele de os olhos fechados.

— Não vai me responder? – Perguntou divertida, mesmo que seu tom denotasse cansaço pelo esforço.

Abri meus olhos, mantendo seus dedos naquela posição enquanto a respondia mirando os olhos verdes:

— Em parte – fui lacônico.

— Explique-se, senhor Uchiha – falou cortês, com uma sobrancelha erguida em desafio.

— Com todo o meu prazer, senhora Uchiha – pisquei um olho, apoiando nossas mãos sobre o meu colo, antes de iniciar: – Digamos que eu ainda mantenho a minha antiga opinião...

— Que você é a Fera e eu sou a Bela do século XXIII – completou e eu assenti. Ela riu antes de completar. – Não creio que eu continue tão bela em comparação ao passado – brincou e eu prontamente beijei a ponta do seu nariz, antes de afastar meu rosto minimamente do seu.

— Não fale um ultraje desses. Para mim você sempre será a minha Bela, não importa o que aconteça ou quantos anos se passem.

Ela sorriu agradecida.

— Obrigada.

— Posso continuar, Bela? – Ela assentiu sorrindo um pouco mais. – Você foi a Bela que roubou o pedaço de pão e por isso se prendeu a mim, mas você também foi a Bela que foi levada para longe de mim, não por suas irmãs ou por vontade própria, mas porque outro te tirou de mim e eu acabei morrendo por ter te perdido, mas no fim, eu acordei e...

— Tivemos o nosso “Felizes para Sempre”? – Brincou fazendo aspas.

— Não exatamente. Nada dura para sempre, mas fomos muito felizes enquanto tudo durou, mas tudo tem o seu fim.

— E esse é o nosso – sorriu me completando.

— Nosso próprio final feliz e fora do comum – ela riu levemente quando depositei outro beijo cálido na ponta de seu nariz.

— E como seria esse final?

Sorri olhando para além da janela.

— Sendo nós mesmo, meu amor – disse em um sussurro, tendo uma ideia para logo me erguer em um pulo da cama.

— O que você vai fazer? – Perguntou, enquanto eu colocava com cuidado o livro no lugar onde ele sempre permanecia.

— Reconhece essa melodia – ergui um dedo, fazendo com que sua atenção voltasse para a melodia que ecoava pelo ambiente.

Love me, Yiruma – suspirou se lembrando que foi por meio daquela melodia que pedi para que ela me amasse, apesar de ser feito de ligas metálicas ao invés de substância orgânica.

— Concede a honra de uma última dança, senhora Uchiha? – Perguntei, curvando-me como um cavalheiro de tantos séculos atrás o que tirou gargalhadas daquela professora tão amante de literatura e de outras Eras.

— Você não sabe dançar – falou entre risos. – Lembra-se da dança do nosso casamento? Você pisou no meu pé pelo menos três vezes.

— Em minha defesa, a senhorita não me permitiu que fizesse download de como dançar uma valsa perfeitamente.

— Igualdade para os dois – cruzou os braços com petulância.

Suspirei antes de sorrir.

— Se você não me concede a honra dessa dança, então suponho que deva dançá-la sozinho.

Assim que terminei de falar, comecei a fazer os movimentos como se dançasse com alguém imaginário. Sakura acabou rindo levemente, mas um farfalhar na cama me fez parar de dançar para segurar a mulher que tentava se reerguer da cama com dificuldades.

Ajudei para que a ela conseguisse se equilibrar sobre os pés magros e envelhecidos.

Não soltei ela, a deixei nos meus braços, sorrindo enquanto escutava a música se alterar para Fotografia de Yiruma.

— Decidiu me conceder a honra, Sakura? – Provoquei.

— Os anos passam e você não deixa de ser um idiota que adora me provocar – ralhou fracamente, enquanto sua face ficava ruborizada.

Gargalhei um pouco, antes de apoiar os pés fracos e trêmulos sobre os meus para lhe dar equilíbrio e poder conduzi-la. Contornei sua cintura com meus braços, enquanto suas mãos trêmulas se apoiavam em meus ombros.

A pequena mulher, usando uma longa camisola branca, parecia frágil e pronta para se desmanchar a qualquer momento, por isso, a apertei mais contra mim, tentando gravar cada centímetro e sensação daquele corpo que eu tanto conhecia.

Seu rosto se afundou em meu peito, enquanto a ponta do meu nariz se escondeu nas singelas madeixas com seu característico cheiro floral, movimentando-me de acordo com notas musicais.

Meu pensamento voou para a primeira vez em que dançamos juntos...

Foi em nosso casamento, pouco tempo depois de ter feito a readaptação para conviver em sociedade.

Voltei para casa no meio da noite e com um leve susto partido da mulher, a fiz minha naquela mesma noite, querendo matar toda a saudade que sentia dela.

Poucos meses depois daquela noite, nosso casamento aconteceu no campo, longe da cidade, para que durante a nossa noite de núpcias, pudéssemos ver as estrelas pintando e dando vida ao negro que sempre víamos em Pasárgada.

Girávamos ao som daquela melodia e também ao som das palmas de nossos amigos e familiares.

Sakura sorria apesar dos eventuais pisões que eu lhe dava. Ela estava feliz apesar de tudo e a juventude resplandecia a partir dela.

O seu vestido de casamento era simples e campestre. Seu cabelo estava preso em um penteado simples, enquanto as pétalas de cerejeiras daquela primavera caíam como cascata sobre nós dois.

Minha lembrança se desfez quando senti o corpo de Sakura perder força em meus braços.

Ajoelhei-me com ela, sem abrir meus olhos ou sair de nossa posição.

Sua respiração estava ofegante.

— Perdão por isso Sasuke – pediu com dificuldades.

— Não peça. Você não tem culpa de nada – falei com docilidade, antes de reabrir meus olhos e ver o ambiente escuro pela noite que se iniciava.

Quanto tempo falta, Kurenai? Perguntei em meus pensamentos.

De acordo com os meus cálculos, menos de uma hora, senhor Uchiha.

Obrigado. Agradeci.

Peguei Sakura em meus braços para colocá-la em nossa cama, ela estava ofegante e em seus olhos eu vi que ela sabia que seu tempo estava acabando.

Aconcheguei-me ao seu lado, para que, como todas as noites, ela deitasse a sua cabeça em meu peito.

Sua fina mão alisou o tecido da minha camisa em um movimento repetitório.

— Você está com medo? – Perguntei encarando o teto alvo e escurecido.

— Não – ela me respondeu. – Não tenho medo da morte. Não devemos temê-la se vivemos tudo o que gostaríamos de viver. No entanto, tenho apenas um arrependimento.

— Qual? – Perguntei olhando o topo grisalho de sua cabeça.

— Eu queria ver as estrelas uma última vez – falou fracamente.

Sorri olhando para a parede de vidro que mudou a imagem para o céu estrelado da Segunda Zona. Era a minha lembrança da primeira vez em que admiramos as estrelas juntos.

Ela sorriu com nostalgia ao se ver pelos meus olhos.

— Segundo Kurenai, essa é uma das minhas lembranças mais felizes. Foi a noite em que te conheci, Sakura.

A mulher virou o rosto para mim e vi seus olhos marejados me olhando com alegria.

— Agora eu posso ir sem nenhum arrependimento. Obrigada por tudo, Sasuke. Eu te amo e sempre vou te amar, Falcão.

Sorri com aquelas palavras, antes de sussurrar, aproximando meus lábios dos seus.

— Eu sempre te amarei, Algodão Doce – minha voz morreu assim que nossos lábios se tocaram em um último e longo beijo.

Senti quando a respiração de Sakura parou. Seu corpo perdeu forças e seus lábios tornaram-se frios.

Ela havia partido ao som de Yiruma, sob o céu estrelado, ao lado do conto de A Bela e a Fera, e principalmente, no quarto em que nós nos entregamos ao outro pela primeira vez.

Ela partiu nos meus braços, em meio ao nosso último beijo.

Sakura partiu feliz. Sem arrependimentos. E agora era a minha vez.

Abri meus olhos, sabendo que nunca mais veria seus olhos verdes cheios de vida, encarando-me com amor.

Deitei o corpo sem vida confortavelmente ao lado que pertencia a ela na cama. O lado direito.

Sai da cama e caminhei pelo quarto escuro que pertencia ao apartamento dos meus pais, sentindo que agora faltava algo em mim, mesmo assim continuei caminhando até me encontrar solitário, caminhando por aqueles corredores vazios e escuros.

Respirei fundo, descendo a longa escada encaracolada e sorri ao ver o eterno piano negro e intocado onde havia feito a minha primeira declaração e tivemos o nosso primeiro beijo.

Senti os tantos olhares sobre mim, eram meus pais, irmãos, amigos, filhos e sobrinhos, até mesmo netos haviam ali, mas não olhei para nenhum dos tantos olhos e cores que olhavam para mim sabendo que Sakura havia partido.

Alguns soluços foram detectados pelos meus ouvidos sensíveis, mas não lhes dei atenção, apenas caminhei, com as minhas mãos no bolso, em direção à mulher com um vestido vermelho, do mesmo tom que seus longos cabelos presos em um coque trabalhado.

Suas roupas eram caras, assim como suas tantas joias, ganhadas todas do seu atual e rico marido que estava em outro país, enquanto Karin havia retornada à Pasargada para se despedir da Sakura.

Ela segurava uma taça de champanhe enchida pela metade, enquanto seus olhos miravam a grande cidade tecnológica sendo iluminada por suas tantas e incontáveis luzes artificiais.

Parei ao seu lado admirando aquela imagem, perdido em pensamentos.

— Acabou? – Perguntou em um sussurro a madrinha da minha filha de eterna aparência jovial.

Seus olhos não se voltaram para mim quando a mirei, apenas continuou olhando para frente, sem foco.

— Sim. Ela se foi.

Não precisou de mais palavras. Aquela mulher conhecia nós dois mais do que qualquer outra pessoa. Ela havia sacrificado o único o homem que ela amara de verdade na vida por nós dois. Para que tivéssemos uma chance.

Nem todas as joias e rios de dinheiro poderiam suprir aquela perda, mesmo assim, ela continuava com sua atitude altiva perante toda aquela humanidade. No entanto, naquele momento...

Os olhos de Karin se encheram de lágrimas e um soluço baixo saiu pelos seus lábios pintados de carmim, ao mesmo tempo que uma lágrima solitária escorria pela sua bochecha direita.

A lágrima que ela derramava pela única amiga que ela havia tido na vida e defenderia de tudo e todos, mesmo que isso significasse sua própria morte e infelicidade.

— Perdão por ter feito você sofrer tanto – pedi, recebendo um olhar surpreso da mulher que finalmente voltou seus olhos com lágrimas para mim. – Se não fosse por nós dois...

— Não – negou. – Sasuke, você não precisa se desculpar por nada. Eu não me arrependo pelas escolhas que tomei durante a minha vida. Se eu pudesse, faria tudo da mesma forma novamente.

Sorri abrindo meus braços pela primeira vez para aquela ruiva.

Ela sorriu correspondendo ao meu abraço de despedida. Ela chorou um pouco mais, enquanto eu afagava seus cabelos.

— Obrigado por tudo, Karin.

Ela assentiu e pela primeira vez, apenas trocamos sorrisos ao invés de ofensas.

Desvencilhamo-nos e eu encarei meus dois filhos que aparentavam ter a mesma idade que a minha, apesar de Nisuke ter 71 anos e Sarada ter seus 60 anos.

Os dois morenos se aproximaram abraçados de mim e os guiei, cada um em um braço meu, para o andar superior.

Todas as despedidas haviam ocorrido mais cedo e por hora, só queria me despedir com meus filhos antes de partir juntamente com Sakura.

Sarada, com suas roupas formais, me abraçava, tentando conter as lágrimas que saltavam de seus olhos, enquanto Nisuke mantinha um braço em torno de meu tronco, aguentando para não derramar mais lágrimas do que havia derramado quando se despediu de sua mãe.

— Por que? – Balbuciou a minha eterna menina, buscando meus olhos.

Apenas sorri para os olhos que tanto me lembravam de Sakura, mesmo que sua cor fosse negra como o pingente de sua mãe.

— Porque é a hora de dizer adeus.

— Você pode viver muito mais. Sei que sua tecnologia está longe do termo antiquado, por mais que já façam 55 anos – tentou argumentar Nisuke que derramava lágrimas sem controle.

— Não há mais motivos para permanecer nesse mundo.

— Mama já foi e isso me dói muito, mas papa, você ainda tem a nós. Não nos faça sofrer pela perda dos dois – pediu em desespero, mas apenas parei de andar quando cheguei em frente à porta alva, sabendo que do outro lado estaria o corpo sem vida da minha amada flor de cerejeira.

— Eu não tenho nenhum arrependimento – comecei sem olhar para nenhum especificamente. – Vocês cresceram e tive a oportunidade de ver cada conquista e sorriso de vocês dois. Vocês estão casados e com filhos, vocês têm sua própria família e eu tenho certeza de que fiz tudo, como um pai, deveria fazer para vocês. Por isso, é a minha hora de partir tendo a certeza que vocês continuarão nos orgulhando, seja com seus ideais ou projetos, mesmo que não estejamos aqui fisicamente.

— Você acredita em vida após a morte, papa?

— Eu não tenho certeza de nada, minha filha. Apenas sei que eu aceitarei o que vier ao meu encontro – sorri para a mulher que sempre seria a menininha com bochechas sujas de chocolate que sentava no meu colo todas as vezes que sentávamos perto da lareira, enquanto Sakura lia um livro e Nisuke apoiava sua cabeça no colo da mãe.

Eles assentiram e nós entramos.

A visão era dolorosa para os meus filhos que desabaram em lágrimas ao verem a mãe com a aparência roxeada e sem vida, deitada e bem coberta, sobre a cama, como se estivesse tendo um sono tranquilo.

Guiei meus filhos até o lado da cama e fiquei de frente para os dois.

— Vocês cresceram tanto – acariciei as bochechas dos dois morenos que tentavam se controlar. – Eu tenho muito orgulho de vocês dois – fiz um pequeno toque na testa dos dois, um singelo ato passado do meu irmão para mim e passado de mim para os meus filhos que sorriram com a nostalgia daquele toque. – Nunca se esqueçam. Eu amo muito vocês.

— Nós também te amamos – os dois falaram em uníssono antes de se jogarem em meus braços para me darem um último abraço.

Foi com dor que me afastei daqueles dois seres que faziam a minha alegria e desespero ao lado de Sakura em cada momento de suas vidas, principalmente quando Sarada resolveu namorar, aos 15 anos, com Boruto, melhor amigo de Nisuke e onze anos mais velho do que ela.

Não tínhamos problema com a idade, mas sim com o irmão ciumento e o meu melhor amigo que se vangloriava com aquela união de nossas famílias.

Deitei na cama, ao lado de Sakura e sorri para eles uma última vez.

— Cuidem um do outro – eles assentiram se abraçando, buscando apoio nos braços quentes do irmão. – Sarada, você se lembra da nossa promessa? – Ela se surpreendeu, mas movimentou a cabeça em confirmação. – Preciso de sua permissão.

Ela sorriu largamente apesar das lágrimas. Nisuke a acompanhou no sorriso e assim eu pude ter como minha última memória, o sorriso dos meus filhos.

A última "fotografia" que eu guardaria deles em minha memória...

Sarada mostrou o largo sorriso semelhante ao de sua mãe enquanto dizia:

— Você já pode descansar, papa. Ficaremos bem.

Sorri para os dois, antes de virar meu rosto para a mulher que eu tanto amei, tendo ao fundo a imagem estrelada da Segunda Zona.

Acariciei seu rosto com delicadeza, enquanto sussurrava:

— Logo nos encontraremos, Sakura. Logo a Fera se reencontrará com a sua Bela – sorri fechando meus olhos, deixando os nós de meus dedos encostado em sua face.

Kurenai? Chamei.

Sim, senhor.

Ordem para autodestruição do sistema operacional.

O senhor tem certeza? Devo alertá-lo que a autodestruição do seu sistema operacional acarretará em parada imediata de todas as funções mecânicas, isso levará à parada de suporte aos seus órgãos, levando-o a morte. Isso vai de encontro com as leis básicas da robótica. Preciso de confirmação do senhor para continuar com o protocolo de autodestruição.

É a maior certeza que eu tenho no momento. Essa é uma ordem direta partindo de Uchiha Sasuke, um dos representantes da família principal dos Uchiha.

Ordem recebida com sucesso e confirmado o processo de autodestruição. Sistema sendo desativado em 3... 2... 1...

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Como da última vez, o mundo não existia mais.

Eu era um mero borrão de existência sem espaço e tempo.

Não havia odor, forma ou dor. Eu sabia que existia dentro de um objeto sem vida e que minha existência era apagada aos poucos.

Dessa vez eu não tinha arrependimentos e pude finalmente ver e sentir a morte como ela realmente é.

A morte não é sutil.

Não é simplesmente sutil e momentâneo.

Ela não é fria.

A morte, na verdade, é...

Uma inconstante de sentimentos e momentos.

Ela é quente e amável.

Ela é como o colo de uma mãe que segura o seu filho para amamentar.

Ela te abraça e te acolhe como se protegesse sua nova cria. O novo presente que a vida havia lhe dado.

Há passado para se lembrar e ela te oferece até mesmo as lembranças mais antigas e esquecidas durante a vida. E, por isso, foi com alegria que vi o rosto de minha mãe, meu pai e irmão, em uma outra época e eles pareciam tão maiores que eu.

O colo amável que eu sentia era o de minha própria mãe.

Eu vi Naruto, vi sua família, vi meus sobrinhos e netos.

Eu vi o crescimento de minha pequena Sarada e o amadurecimento de Nisuke.

Vi o largo sorriso que a menina tinha em sua formatura em arquitetura e vi a tensão de Nisuke ao esperar sua noiva no altar.

Vi o brilho do olhar de Sarada quando a entreguei à Boruto e vi o ciúmes de seu irmão.

Vi a última memória que tinha deles...

Por último eu me vi na viela de Boca, na primeira vez em que encontrei Sakura.

Os olhos desconfiados e perigosos. O rosto de boneca, porém machucado pelo seu agressor. A roupa envelhecida e suja de lama. O capuz jogado para trás...

Vi todos os nossos momentos feliz e vi também todos os nossos tristes.

Vi o desespero e a melancolia.

Vi a dor.

Vi a perda.

Vi o medo.

Mas também vi...

A esperança.

O bem.

A solidariedade.

A família.

O amor...

Eu estava errado. Inegavelmente errado.

Ninguém sabe, nem mesmo William Shakespeare, Fernando Pessoa, Antoine de Saint-Exupéry, ou qualquer outro nome da literatura e dos pensamentos filosóficos.

Não tem como definir a morte, apenas senti-la. Apenas vivê-la.

A única coisa que eu sabia eram duas coisas...

A primeira é que o homem tem medo da morte, mas ele só a teme quando ele tem arrependimentos, pois quando ele não as possui e sua passagem efêmera na terra estar concluída, você não a teme mais.

Na verdade, você a aceita de braços abertos como uma velha amiga, por isso, não tema a morte. Um dia todos nós a encontraremos como eu encontrei e quando for a sua vez, encontre-a sem arrependimentos.

Viva intensamente cada dia, não deixando nada para depois.

Não tema os riscos ou as incertezas. Jogue-se nelas e as abrace porque talvez você não possa ter um depois.

Viva, seja feliz e seja você.

Eu e Sakura somos considerados o joio do trigo de nossa sociedade.

Ela escolheu se dedicar à uma cultura quase extinta e negou a juventude eterna. Ela aceitou suas marcas, aceitou cada ruga, aceitou suas doenças e também aceitou a perda de seus tons rosados.

Ela aceitou a literatura e se aventurou por ela.

Sakura não fez uma grande obra ou teve seu nome dado à um parque. Ela apenas viveu intensamente cada momento e cada alegria e mesmo não tendo grandes feitos como a sociedade nos cobra todos os dias, ela morreu feliz e sem arrependimentos.

Eu, por outro lado, sou a aberração que Pasárgada não aceita. Sou o homem imperfeito e incompleto, mas, hoje, isso não me atinge mais.

Por muito tempo, tive preconceito por mim mesmo. Me odiei. Me mutilei. Me amaldiçoei. Mas, no fim...

Eu me aceitei.

Não importa quantas vezes a sociedade tenha nos olhado com expressões tortas enquanto eu e Sakura passeávamos pelas praças nas mais diversas Zonas, eu como meus fios mecânicos e ela com sua aparência mudando a cada dia que se passava.

Nada importava. A única coisa que importava e aprendemos a nos importar, era com o amor e proteger aquilo que amamos, apesar de todos os riscos que poderíamos vir a ter.

Nos aceitamos.

Vivemos.

E não nos arrependemos.

E você? Tem arrependimentos? Se tem, corra, os abrace e viva! Chegue até aqui como nós. A morte não é o limite do homem como William Shakespeare determinara. O limite do ser humano é a sua escolha e até mesmo a morte pode ser uma escolha. Você que escolhe se ela será o seu limite.

Não se arrependa de nada...

A Morte vai te estender mão e vai guiá-lo como um velho amigo

Minha segunda certeza, na verdade foi uma pergunta surgida e respondida naquele momento...

Como eu me definiria?

A única palavra que surgiu foi uma que não existe no dicionário, mas que é a junção de tudo aquilo que vivi e sinto que sou...

Eu sou um homem Re/Desconfigurado.

Aquela singela palavra resumia tudo.

Naquele momento eu soube que meu corpo físico era uma metáfora do meu ser.

Eu fui um homem que foi Configurado, Desconfigurado e no fim, Reconfigurado. Eu sou um homem Re/Desconfigurado. Todos nós somos Re/Desconfigurados.

A vida nos faz assim...

Pois somos as máquinas mais perfeitas que o homem tem ciência.

Nós somos Configurados logo ao nascermos. Somos moldados pela nossa família, amigos, pela nossa religião, pela nossa cultura e pelas regras impostas pela sociedade em que vivemos.

Eu fui configurado. Eu estava configurado quando eu me encontrei pela primeira vez com a Karin e quando Suigetsu ordenou a minha morte.

Eu estava configurado com o meu senso moral, leis vigentes pela cultura que vivia e pelo que meus pais haviam me ensinado.

A partir daquele momento, meu corpo foi desconfigurado, fisicamente e mentalmente.

Somos Desconfigurados quando nos encontramos em situações que vão de encontro com a nossas antigas configurações.

E quando eu acordei, me encontrei completamente desconfigurado e perdido.

Minha desconfiguração levou tempo para que eu o aceitasse.

Não se recluse, nossa desconfiguração pode ter ajuda, assim como eu tive a Sakura.

Eu aprendi a me aceitar e a mudar minhas antigas configurações.

Eu as adaptei para a situação até que, após minha segunda morte, eu pude finalmente ser um homem Reconfigurado, fisicamente e mentalmente.

Ser Re/Desconfigurado é simplesmente se readaptar ao que estamos vivendo. É viver em constante mudanças para que no fim possamos nos intitular como Re/Desconfigurados e não apenas uma ideia física do meu corpo 70% formado por fios mecânicos como você possa ter imaginado.

Nossa vida é cheia de situações e readaptações, assim como o meu corpo e minha visão de mundo foram.

Não se assuste. A Re/Desconfiguração acontece todos os dias, em todos os momentos e está acontecendo nesse exato momento com você.

Somos todos, máquinas. Somos todos, homens Re/Desconfigurados.

Eu sou a própria metáfora da existência humana. Eu sou sua própria sobrevivência em sociedade.

Eu sou um homem Re/Desconfigurado. E você, o que é?

Como você se definirá quando a morte lhe abraçar?

FIM!

Notas finais
[ONE ESPECIAL PARA RE/DESCONFIGURADO][Narrado pela Sakura][Referente ao espaço-tempo entre o capítulo 18 e 19] Nome: À sua espera Link: https://fanfiction.com.br/historia/674924/A_sua_espera/ Confuso? Viajante? hahaha Entendo totalmente! À primeira vista parece confuso, mas quando eu planejei essa fic, essa era a minha ideia o tempo todo. Era simplesmente terminar assim, com a explicação desse nome Re/Desconfigurado. Quando eu vi o desafio Nyah fiquei louca para participar, mas não tinha ideia do que escrever, mas foi como um milagre que essa pequena história sem muitos enredos paralelos surgiu em meus pensamentos em menos de 1 hora divagando sobre o que escreveria. Escolhi o tema X (sim, era assim que eu chamava quando ainda não tinha o nome Re/Desconfigurado), ele falaria sobre mudanças de visões de mundo quando você fosse colocado em uma situação, mas aí vocês devem estar se perguntando, onde é que esse tema entraria em ficção científica... bom... foi aí que eu pensei em A Bela e a Fera e fazer um conto moderno dessa história, sei que ficou bem diferente e algumas pessoas nem perceberam que era aquela história, mas algumas descobriram cedo do que se tratava. Foi assim, com uma brincadeira com os nomes configurado, desconfigurado e reconfigurado que surgiu o nome Re/Desconfigurado! A história é dividida em etapas: Capítulo 1: Configurado Capítulo 2 ao 18: Desconfigurado Capítulo 19: Reconfigurado Final: Re/Desconfigurado Sei que pode parecer confuso, mas foi apenas tendo a ideia que teria mortes para delimitar "metaforicamente" as mudanças que surgiu a fic Re/Desconfigurado! Obrigada à todos que acompanharam e os novos acompanhamentos. Obrigada por tudo e agradeço a cada comentário mandado com carinho, transmitindo à mim seus pensamentos. Obrigada por tudo e é com imenso prazer que "Adeus" para Re/Desconfigurado ^^ Quem sabe não nos reencontramos em outras fics! Ja ne pessoal!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!