Re/Desconfigurado
2 Renascimento
Notas iniciais
"Podemos vender nosso tempo, mas não podemos comprá-lo"
(Fernando Pessoa)
– Processando dados 5%... Processando dados 10%... Processando dados 20%... Proc...
O quê? Que voz é essa? O que está acontecendo?
– Processando dados 60%... Processando dados 70%... Processando dados 80%...
Eu não morri?
– Processamento concluído... Sistema pronto para utilização – disse a voz da mulher na minha cabeça – Seja bem-vindo de volta, senhor Uchiha Sasuke.
Lentamente abri as minhas pálpebras. Pisquei algumas vezes para focar o imenso teto branco sobre mim na sala extremamente iluminada.
Pensava que sentiria grande dor com a iluminação, mas não senti grande incomodo.
Estranho.
Foi a única palavra que pensei para definir a sensação de tentar erguer meu corpo extremamente pesado.
Meus lábios entreabriram-se, mas nenhuma palavra saia.
O que estar acontecendo?, perguntei em pensamentos enquanto passava minha mão direita sobre o meu rosto.
– O senhor estar acordado – respondeu a voz, fazendo-me sobressaltar pela surpresa. Meu impulso foi tão grande que eu caí de quatro no chão alvo.
Olhei assustado para os lados, procurando a mulher ou alguma caixa de som, mas não havia nada. Apenas uma janela grande de vidro negro apropriado para observatório era visível na parede à minha frente.
Eu estava sozinho vestindo uma camisola hospitalar branca que não escondia minha nudez na parte de trás.
Tentei me levantar, mas por alguma razão estranha senti meu corpo extremamente pesado e desengonçado. Meus movimentos não eram sincronizados e como resultado cai com força contra o chão pálido.
– Ajude-me – pedi rouco como se minha voz não fosse utilizada há muito tempo.
– A ajuda já foi requisitada, senhor Uchiha.
Botei as palmas das minhas mãos nas minhas têmporas pedindo para que a voz se calasse e que tudo aquilo só fosse obra do meu subconsciente machucado.
Eu não estou ouvindo vozes, não estou, não estou.
Ouvi passos apressados do corredor além da porta. Ouvi as respirações ofegantes e as batidas fortes de seus corações...
Mas o quê? Não, eu não posso estar ouvindo os corações dos dois homens. Como é que eu sei que são dois homens?
A porta foi aberta com força revelando aos meus olhos que eram dois homens. Um moreno de olhos serpentinos e um mais novo de óculos e cabelos brancos.
– Ele finalmente acordou – disse o mais velho aproximando-se de mim com uma feição de admiração e surpresa.
– O Projeto Falcão finalmente funcionou – comentou espantado o outro.
– Do-do que vocês estão falando? – Sussurrei desorientado tentando me levantar, só que cai de novo – Por que eu não estou conseguindo andar? – Gritei desesperado por respostas.
– Senhor Uchiha, o senhor precisa se acalmar – disse cauteloso o grisalho com as mãos em defesa, em claro sinal de nervosismo e... medo? De mim?
– Calma? Calma? Eu quero respostas! O que está acontecendo? E-eu deveria estar morto! O que aconteceu? – Gritei.
O mais velho suspirou antes de dizer calmamente:
– Você ainda não estar acostumado com o seu novo corpo.
Olhei incrédulo para o homem à minha frente. Do que ele estava falando? Corpo novo? Que brincadeira era aquela?
Mas que merda estava acontecendo?
Uma raiva se instaurou com força em meu ser enquanto eu focava o olhar nos dois homens e sentava com dificuldades no chão.
– Os olhos dele ficaram vermelhos, Orochimaru-sama – ouvi o mais novo murmurar.
– Finalmente podemos ver os resultados de anos de pesquisa em prática, Kabuto – comentou com um sorriso louco o tal Orochimaru.
Trinquei os dentes sentindo meus olhos arderem um pouco, mas o que mais me surpreendeu, não foi a dor, mas a minha visão mudar de coloração.
Como se meus olhos tivessem um filtro de raio-x, eu vi nas tonalidades azuis, a parte interna do corpo dos homens. Vi o funcionamento de seus órgãos e seu coração batendo continuamente.
Letras brancas e setas surgiam pelo ar descrevendo as funções vitais.
Transtornado e assustado, escondi meu rosto em minhas mãos, mas ao fazer esse movimento vi que não eram ossos que modelavam meu corpo, mas inúmeros fios mecânicos.
– Não – murmurei incrédulo olhando para as minhas pernas também feitas de metal – Não! – Gritei mais alto. Queria sair correndo dali, mas ao me levantar, meu corpo desequilibrou e eu cai com força sobre a mesa de aço onde antes estava desacordado.
Devido ao meu peso incomum, a mesa se deformou em uma reentrância com a mesma forma do meu corpo.
Eu queria chorar, mas nem isso eu conseguia. Não havia lágrimas em meu corpo para serem derramadas.
– Isso não pode estar acontecendo. Não pode. Não pode! – Gritei a última frase socando com a lateral do meu punho a mesa que se partiu ao meio.
– Níveis elevados de adrenalina.
– Cala a boca! – Gritei para a voz na minha cabeça virando-me cambaleante no chão para os homens agora afastados de mim, assustados com o meu ataque de raiva, por mais que o mais velho ainda esboçasse o sorriso doentio com traços de admiração – Por favor, digam-me que isso não é verdade! Digam-me que eu não sou um robô!
– O senhor não é um robô, Sasuke-sama – disse cauteloso o moreno dando um passo em minha direção – Apenas 70% de seu corpo é formado por máquina. Só conseguimos salvar alguns órgãos internos e vitais de seu corpo humano completamente irreconhecível. Levamos anos para terminar esse projeto...
– Anos? – Interrompi.
– Senhor Uchiha – suspirou o moreno antes de focar um olhar determinado em mim – o senhor estar há 12 anos desacordado.
A surpresa foi imediata. Não podia acreditar no que escutava. Não, não, eu não podia.
Deveria ser brincadeira. Tinha que ser brincadeira.
– Pressão caindo! Pressão caindo! – Alertou a voz enquanto minha visão piscava em tonalidades de vermelho em alerta.
Ainda escutava a voz da mulher enquanto eu caia perdendo a consciência.
***
Encarava meu reflexo no espelho. Era humano. Vendo de fora eu parecia um humano normal, mas por dentro eu era uma máquina com poucos órgãos mantidos, sendo eles, o do trato respiratório, cardiovascular, neural e uma pequena parcela do digestivo para que eu pudesse me alimentar, para que, como Kabuto disse, eu pudesse me relacionar com a sociedade, mesmo ainda precisando de cuidados técnicos e desintoxicação há cada três dias, já que não tinha o sistema renal.
Suspirei tocando meus dedos em meu maxilar.
A textura parece tão real, pensei sentindo a minha pele, mas assim que penetrei e rasguei um pouco dela, vi que ao invés de sangue derramado, fios e circuitos, eram mostrados.
A pele logo se restaurou, devido a minha capacidade de auto cicatrização rápida. Mesmo assim, sem nenhum vestígio da violência por mim causada, eu não conseguia esquecer aquela cena.
Eu não sou humano. Sou apenas um vestígio humano no corpo de um robô.
– Pronto, Sasuke-sama? – Entrou Kabuto no quarto que eu estava hospedado, no que eu havia descoberto ser a empresa de robótica avançada da minha família.
Não respondi, apenas deixei que Kabuto guiasse minha cadeira de rodas – já que eu não havia reaprendido a andar – em direção ao consultório de Orochimaru, o chefe e melhor cientista da Uchiha's Company, responsável pelo Projeto Falcão.
– Bom dia, Sasuke-sama. Como o senhor estar se sentindo hoje? – Falou o moreno o que ele sempre me perguntava e eu nunca respondia.
– Eu quero ver – disse laconicamente surpreendendo os dois que compreenderam o meu pedido.
– Tem certeza? – Perguntou Orochimaru que foi correspondido com um olhar frio meu. Ele suspirou antes de tocar na mesa que nos separava e que na verdade era uma tela digital na sua parte superior.
Prendi a minha respiração assim que eu vi as imagens do meu corpo e da cena do crime ocorrido há 12 anos atrás.
Era horrível. Irreconhecível.
Escoriações, hematomas, ferimentos, ossos quebrados e retorcidos em ângulos incomuns, estavam presentes em meu corpo humano completamente destruído.
Se eu tivesse lágrimas, choraria, mas não tenho, pois sou uma máquina, não um humano.
– É o suficiente – informei para o homem que logo se prontificou em apagar a tela.
– Seus pais e amigos querem vê-lo...
– Já disse que eu não quero que eles me vejam assim. Não quero que eles vejam a aberração que eu me tornei, muito menos que sinta pena de mim.
O homem assentiu de acordo, antes de reiniciar:
– Eu compreendo o seu lado, sei que é uma situação nova para o senhor e mesmo que meus superiores me intimam a liberar o acesso, tentarei fazer valer a sua vontade – eu assenti de acordo –, mas para que eu continue fazendo valer esse nosso acordo, você terá que cumprir com os seus devidos deveres na reabilitação – fechei a cara. Não queria fazer reabilitação. Não sou um deficiente, sou só um homem que deveria estar morto. Um homem que não escolheu essa existência – durante os anos de andamento do Projeto Falcão, aperfeiçoamos o seu corpo, não só para voltar à sua vida em sociedade, mas também para a sua sobrevivência...
– Sobrevivência? – Perguntei olhando para os dois homens que me observavam pacificamente.
– Sim, Sasuke-sama. Seus pais com medo de perderem-no novamente, pediram-me que eu desenvolvesse um projeto inovador. O seu corpo mecanizado, além das funções normais de locomoção, tem aparatos tecnológicos que o protegem da morte – ele deu um olhar significativo ao pronunciar a última palavra e eu sabia que ele se referia até ao fato de eu não poder cometer suicídio se assim quisesse – seus olhos mudam para o vermelho em situação de estresse, você pode analisar tudo ao seu redor por meio do conhecimento que você tem acesso à internet pelos nano transmissores colocados em seu cérebro. Seu corpo se regenera a cada dano que ocorra rapidamente, a pele é a mais rápida nesse processo. Sua força e velocidade foram aumentados consideravelmente. Tentei usar o metal mais leve para a sua constituição, no entanto, devido à enorme quantidade dele utilizada para a fabricação e imitação quase perfeita dos constituintes humanos, como as fibras musculares, o seu peso também aumentou consideravelmente. Senhor Uchiha – referiu-se a mim enquanto apoiava seu queixo nas mãos cruzadas e apoiadas nos cotovelos sobre a mesa de vidro –, você é como uma criança, você acabou de renascer. Mesmo que você tenha acesso ilimitado à internet e uma assistente pessoal, podemos assim denominá-la, você está em um corpo novo e desconhecido. Você não tem controle sobre ele e muito menos sabe controlá-lo. Doe-me dizer isso, mas é até perigoso para as pessoas estarem perto de você nesse estado, principalmente, caso você tenha algum surto como os que você teve durante essa primeira semana depois do seu despertar. Esse é mais um motivo que eu apoio a sua opinião de não liberar acesso à sua família por hora. Por isso, preciso do seu apoio e cooperação nessa reabilitação onde você irá reaprender as coisas básicas do dia-a-dia, além de aprender a utilizar suas novas habilidades. O senhor cooperará?
– Quanto tempo isso vai demorar?
– Não sabemos. Você é a primeira pessoa que passa por essa situação. Não podemos estipular com exatidão uma data, mas podemos dizer que precisa de tempo e paciência, ou seja, sua reabilitação depende de você – comentou Kabuto.
– Tudo bem – respondi finalizando aquela conversa.
Três meses.
Esse foi o tempo que eles não souberam me dizer, mas devido ao meu notável esforço e progresso, eu pude estar em plenas condições e controle sobre o meu corpo em três meses.
Três meses de fisioterapia. Três meses de treinamento com minhas habilidades visuais. Três meses de treinamento das minhas antigas habilidades de luta em meu corpo novo. Três messes de tratamento psicológico...
Durante todo o tratamento, o único que eu resistir e nunca cooperava era com o tratamento psicológico. Por mais que eu soubesse a lógica e o porquê dele – já que sentia minhas ações obscurecendo e o pessimismo pela vida tomando conta do meu ser – eu não aceitava ficar horas falando sobre o que eu sentia e pensava sobre o que estava acontecendo comigo para o Kabuto.
Por mais que eu, Kabuto e Orochimaru, tivéssemos passado a conviver muito, eu não confiava neles. Na verdade, eu nunca confiei em ninguém completamente na vida, nem para Naruto eu expressava o que eu sentia em sua plenitude. Nem para o meu melhor amigo eu dizia que até mesmo durante minha existência como humano, eu me sentia vazio...
Meus tratamentos nos outros ramos não foram perfeitos. Na verdade, eu perdia o controle incontáveis vezes e quebrava os aparelhos em frustração por não conseguir movimentos simples como andar e segurar um talher.
Era frustrante. Era irritante. E eu me amaldiçoava. Eu me odiava.
E a cada dia mais eu desejava não estar vivo para viver aquilo.
A cada dia que se passava eu desejava que Juugo e aquele robô tivessem me matado antes da polícia chegar no local onde ocorria as lutas ilegais e me encontrassem nos últimos suspiros de minha vida.
– Sasuke-sama, eu preciso da sua resposta – falou cauteloso Kabuto que era o meu psicólogo. Sua cautela era extrema, já que temia minha fúria muitas vezes demonstradas e exaltadas nas sessões que eu odiava. – Como você defini a sua atual experiência? – Já fazia três meses que ele me perguntava a mesma coisa e também fazia três meses que eu nunca o respondia. Ele suspirou desolado – Sasuke-sama, sinto-te dizer isso, mas... seus rendimentos são incríveis em todos os outros ramos de sua reabilitação. Você já foi aprovado em tudo, mas... enquanto você não for aprovado no teste psicológico, não poderemos liberá-lo para convívio seguro em sociedade. Então por favor, diga-me como o senhor defini a sua atual experiência.
Kabuto focou o olhar cansado, escondido atrás de seus óculos, nos meus orbes negros. Um suspiro baixo saiu entre os seus lábios que antes de protestarem, eu interrompi:
– Eu definiria como a contradição de Fernando Pessoa.
Os olhos de Kabuto arregalaram-se de surpresa ao me escutar respondê-lo. Assim que saiu de seu torpor momentâneo, ele se apressou em pegar, de maneira desengonçada, a prancheta e uma caneta, anotando coisas que não estavam ao alcance do meu campo visual. Por mais que eu pudesse usar meu poder ocular ou minha audição desenvolvida para decifrar o que ele anotava, eu permanecia impassível na minha cadeira. Não gostava de usar minhas "habilidades", já que usá-las é a mesma coisa de dizer cada vez mais o quanto sou mecanizado e inumanizado.
– Como assim "a contradição de Fernando Pessoa"? E quem é Fernando Pessoa? – Perguntou confuso tirando-me um sorriso de canto.
– Por mais que vivamos no século XXIII e nosso mundo seja mecanizado e esquecido da cultura, a minha mãe, quando eu era pequeno, lia livros de autores célebres das mais diversas épocas da sociedade para mim. Existe um pensamento de Fernando Pessoa, um poeta português nascido no século XIX e falecido no século XX, que dizia "Podemos vender nosso tempo, mas não podemos comprá-lo". Desde a primeira vez que me disseram que meus pais bancaram milhões, possivelmente bilhões, para me manter vivo como uma memória, mesmo eu não sendo 100% o Sasuke que eu era, eu penso nessa frase e digo-me "Sou a contradição de Fernando Pessoa". Sou a prova que podemos sim comprar o tempo da nossa vida e eu sou justamente a prova viva dessa contradição. Sou um homem morto que devido à um capricho e ao abundante dinheiro de meus pais, estou vivo. Claro que queria ter podido comprar o tempo de maneira que eu pudesse voltar no tempo e ter vivido todos esses anos que eu não vivi, mas isso eu não posso fazer já que ainda não inventaram a máquina do tempo, mas creio que em breve teremos essa possibilidade. A compra de meu tempo é feita apenas da maneira de conseguir mais tempo e não reutilizar o tempo perdido. Mesmo assim ainda me sinto a contradição de Fernando Pessoa. Sou a peça de troca do capitalismo por mais tempo de existência...
Deixei minha voz morrer e Kabuto tomar suas próprias conclusões das minhas palavras.
Eu sabia que eu não estava apropriado ao convívio em sociedade devido ao meu pessimismo, mas Kabuto fez algo que eu não esperava logo após de terminar de anotar coisas incompreensíveis em sua prancheta:
– Você voltará para a casa dos seus pais amanhã, Sasuke-sama.
***
Ainda estava surpreso da decisão daqueles cientistas no dia anterior, mas não poderia fingir não sentir certo alívio ao me ver longe daquela gaiola de testes onde eu era a cobaia dos amados experimentos de Orochimaru.
Pousei minha mão esquerda sobre o local que repousava o meu coração pulsante.
Às vezes eu fechava os olhos e sentia-o bater, imaginando que eu ainda era humano, que ainda tinha um coração, mesmo que esse coração doesse com a realidade sempre que eu reabria meus olhos encontrando a minha atual situação.
Suspirei reabrindo os meus olhos encontrando meu reflexo no espelho.
Eu era um homem de 32 anos, no corpo de 26, com mente de 20.
Que confusão!
A escolha da minha aparência de 26 anos foi para enganar os amigos de meus pais que não sabem sobre a experiência e achavam que eu estava em coma por 12 anos.
Não seria problemático eu ter uma aparência de 26 anos ao invés de 32, já que avanços na indústria dos cosméticos liderado pela família Uzumaki, garantia juventude eterna para as pessoas que detenham dinheiro.
Olhei meus tênis e calça jeans negros e minha camiseta azul marinho com as mangas longas encurtadas até os meus cotovelos.
Estava razoável. Parecendo a pessoa normal que eu não era.
– Senhor Uchiha, a limusine já estar o aguardando na garagem da empresa – informou-me um robô humanoide que estava me aguardando terminar.
Assenti para ele antes de sair do local.
Caminhei pelos corredores vazios e alvos que era aquele andar da empresa, onde só era permitida o trânsito meu, de Orochimaru e Kabuto, alguns poucos robôs também eram utilizados.
Adentrei o elevador metálico sentindo o nervosismo tomar contar do meu corpo que acelerava meu coração sem comando, enquanto apertava o botão para o subsolo.
Fechei os meus olhos e suspirei me acalmando antes de reabri e visualizar as portas se abrirem dando-me visão para as duas únicas pessoas com quem eu convivi desde que acordei.
– Sentiremos a sua falta, Sasuke-sama – disse-me calmo o moreno – Volte para nos visitar sempre que puder. Estaremos aqui para tirar qualquer dúvida sua.
Assenti para ambos em uma despedida antes de entrar no carro negro dirigido por um robô programado para tal.
Com certeza eu não quero voltar, pensei enquanto via a paisagem de Pasárgada – assim é como chamamos a parte nobre de Tóquio devido à uma analogia a uma literatura estrangeira de séculos passados – dominada de arranha-céus e construções tão diferentes da minha época de vida.
– Chegamos Senhor Uchiha – avisou o robô com a voz mecânica enquanto estacionava em frente ao Edifício Uchiha.
Assenti e sair do carro.
Enquanto entrava no hall do prédio, recebi diversos olhares. Os humanos que me conhecia, olharam-me surpresos já que supostamente sair de um coma. As mulheres que nunca me viram, olharam-me admiradas. Ao mesmo tempo, alguns robôs que transitavam pelo local, olhavam-me curiosos porque devido à sua interligação com a internet, sabiam que era praticamente como eles.
Suspirei e adentrei o elevador sem pedir para ser anunciado, mas eu sabia que já havia sido pelos recepcionistas.
Respirei fundo antes das portas se abrirem para o luxuoso tríplex que era o apartamento dos meus pais.
Meus olhos percorreram o ambiente tão familiar e tão pouco alterado pelo tempo.
Por um momento senti realmente como se o tempo não tivesse passado.
– Sasuke? – Ouvi uma voz feminina e trêmula me chamar enquanto estava no meio da sala admirando o local.
– Oi mãe – falei com um mínimo sorriso observando a senhora tão conservada pelo tempo, com poucos traços que denunciavam que o tempo sim, havia passado.
A mulher chorou desacredita enquanto corria para me abraçar desesperada.
Correspondi ao abraço, sentindo reconforto nos braços que pensei nunca mais sentir ao meu redor.
Vi meu pai e meu irmão se aproximarem emocionados e me abraçarem com saudade.
– Vovó, aconteceu algum problema? Porque a senhora estar triste? – Ouvi uma voz infantil reverberar de um canto a minha direita.
O abraço foi desfeito e me virei para encontrar um garotinho de aparentes 10 anos sentado na escada com um avião de brinquedo nos olhando curioso e preocupado.
Seus cabelos eram rebeldes e azulados como os meus, com uma franja cobrindo a testa. Em seus olhos haviam um óculos quadrado e negro cobrindo os ônix tipicamente Uchiha.
– Que isso meu amor, venha aqui – o garotinho correu para os braços de minha mãe, abraçando a mulher que baixara para ficar na sua altura – eu não estou triste. Na verdade, estou chorando de felicidade.
– Que bom, vovó.
– Vovó? – Perguntei olhando para Itachi – Você finalmente deu um neto para a nossa mãe?
– Dar neto eu até dei, mas esse aí não fui eu que dei não – falou da forma brincalhona típica dele.
Sorri de canto, mas meu sorriso morreu assim que percebi o que ele insinuara, voltando imediatamente meu olhar para o pequeno ser que me olhava intrigado.
– Sasuke, meu filho – falou mamãe – eu quero que conheça Uchiha Nisuke. O seu filho.
Continua...
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