Re/Desconfigurado
3 Algodão Doce?
Notas iniciais
"A pedra preciosa não pode ser polida sem fricção, nem o homem aperfeiçoado sem provação"
(Confúcio)
Era total o silêncio na mesa de jantar e eu não fazia questão de interrompê-lo.
Nisuke, sentado ao meu lado esquerdo, vez ou outra lançava um olhar curioso em minha direção, só que ao invés de retribuí-lo, eu tentava ignorar.
Era confuso. Extremamente confuso.
Nunca imaginamos como pode ser o nosso amanhã. Achamos que nada demais pode nos acontecer, que somos invencíveis, intocáveis e imortais.
Tudo uma grande ilusão...
Aos 20 anos de idade, eu não tinha expectativas de vida. Era apenas um playboy nascido em uma das famílias mais ricas daquela sociedade tão dividida por classes sociais, que eram quase impossível de transpassá-las.
Na sociedade atual, essa divisão é motivo para a manutenção da ordem e sobrevivência da espécie.
Era a verdadeira seleção natural, onde os mais ricos pagam por meios tecnológicos e estéticos a manutenção da sua juventude, podendo sobreviverem por até mais de 200 anos, enquanto que os mais pobres e moradores das regiões ilegais e periféricas morriam na sarjeta todos os dias.
Um sistema falho e necessário para a manutenção do mundo tão globalizado e industrializado, resultado de egocentrismo e cobiça, no qual foi negligenciado os cuidados com o meio ambiente.
É estranho como a vida pode mudar tanto tão repentinamente.
Um dia eu era esse mauricinho que não ligava para esse mundo de luxo que eu chamava de lixo, fugindo para a periferia onde o mundo das perdições eram meu lugar de fuga das futilidades.
Mesmo assim, eu continuava me sentindo vazio.
Nunca que eu imaginaria que acabaria morrendo, para acordar no dia seguinte e descobrir que dormir durante 12 anos, sendo que nesse meio tempo de testes e mais testes em meu novo corpo, meus pais, por capricho deles, resolveram usar meu material espermático para gerar um fruto meu, mais de um ano após a minha "morte".
De início eles pensaram em clonagem, mas complicações poderiam ocorrer no processo, por isso decidiram em reprodução assistida, na qual escolhendo um óvulo anônimo doado no banco de dados das Clínicas Hyuuga, resultou nove meses depois em uma criança no ventre de minha mãe – a barriga de aluguel – chamado Nisuke.
Uma criança sem mãe e com um pai desacordado, fadado a ser uma mera lembrança e capricho daqueles seres pensantes em serem os donos do mundo e principalmente das leis da vida e da morte.
– Estamos tão felizes que tenhamos você finalmente de volta, meu filho – falou doce minha mãe que não parara de sorri feliz, mesmo quando me contara a fatídica história de Nisuke.
– Não posso dizer o mesmo de mim – falei frio surpreendendo a todos presentes na mesa. Até mesmo Konan e Akemi, respectivamente mulher e filha de Itachi, olharam-me sem compreender.
– Sasuke, o que você quer dizer com isso? – Perguntou meu pai sério.
– O que você acha? – Falei frio soltando com força os talheres de prata sobre o prato alvo de porcelana, fazendo o som se propagar pela mesa atônita – Vocês acham mesmo que estou feliz por estar aqui? Acham mesmo que estou feliz por ser um robô? Acham mesmo que estou feliz em saber que meus pais gastaram milhões só por um capricho seu?
– Sasuke! – Repreendeu meu pai raivoso.
– Não, eu não estou feliz. E era justamente nisso que vocês deveriam ter pensado quando iniciaram o Projeto Falcão. Vocês deveriam ter pensado em como eu me sentiria ao invés das vontades de vocês – minha mãe olhou incrédula com lágrimas nos olhos. – Não me olhe assim mãe, você sabe que é a verdade.
Sai da mesa sem me importar com a etiqueta e dirigi-me ao meu antigo e intocado quarto, a única diferença é que agora continha aparelhos necessários para a minha manutenção e desintoxicação.
Sentei na cama e puxei o cabo de aparelho para desintoxicação. Conectei a ponta com cinco agulhas na minha nuca.
Mesmo que fosse perfuração, eu não sentia dor.
Suspirei e olhei para a imensa parede de vidro que dava visão para Pasárgada naquela noite iluminada pelas luzes artificiais da cidade e pela luz ofuscada da lua.
Fechei os meus olhos e foquei meus sentidos para escutar e sentir meu coração pulsante.
Aquilo me acalmava e me fazia fingir que eu ainda era um pouco humano, mas meu mundo das fantasias foi interrompido por três batidas sutis na porta.
– Mãe, eu não quero ser incomodado agora – falei para quem quer que fosse do outro lado.
– Não é a vovó – disse o garotinho abrindo uma pequena fresta da porta, dando-me a visão de seu rosto. – Posso entrar um pouco?
Suspirei e assenti em acordo.
O garotinho entrou um pouco receoso admirando o lugar como se tentasse gravar cada detalhe daquele local desconhecido para ele.
– Eu sempre quis entrar aqui, mas ele vivia trancado e ninguém poderia entrar, mas eu via as vezes a vovó entrando aqui.
Desviei o olhar assim que ele me encarou.
– O que é isso? – Perguntou curioso.
– É uma máquina que eu utilizo para desintoxicar meu organismo, ou seja, é para retirar resíduos de alimentos da minha corrente sanguínea – tentei explicar de uma maneira que uma criança de 10 anos entendesse e sua cabeça assentindo foi a prova que eu havia conseguido.
– Então o que o vovô e a vovó me contaram é verdade? Você tem um corpo de robô? – Perguntou inocentemente em expectativa sentando na minha cama com as pernas cruzadas.
Sorri de canto desacreditado com aquela cena.
– Não é tão legal assim como você imagina.
– Mas é verdade?
– É.
– Você não parece um robô...
– Você é fácil de se assustar? – Perguntei tendo uma ideia.
– Tsc. É claro que não, eu sou quase um homem feito – falou convicto cruzando os pequenos braços e fazendo bico.
Dei um sorriso rápido percebendo o quanto Nisuke era parecido comigo quando criança.
Pressionei os meus dedos da minha mão direita no meu antebraço esquerdo, o que resultou na pele rasgada, dando ao garotinho a visão dos circuitos.
– Uau! – Exclamou se aproximando muito de mim para ver admirado o meu braço mecânico enquanto ajeitava os óculos desengonçado – Não dói não? – Perguntou curioso ao ver minha pele cicatrizando.
– Não, não dói. Eu não sinto dor física – ele assentiu entendendo. – Você... – reiniciei um pouco encabulado pelo olhar em expectativa do garotinho – não ficou com medo de mim?
– Por que eu ficaria? – Falou direto, reendireitando a postura séria – Acabo de descobrir que o meu pai é como os cyborgs que eu vejo nos filmes de heróis, por que eu ficaria com medo?
Soltei uma risada desacreditada para o garoto.
Tinha que admitir, saber daquilo, aliviou um pouco a carga que eu carregava desde o dia que eu acordei.
– Nisuke, como é a sua vida? – Perguntei curioso querendo tirar uma dúvida.
O garotinho fez uma cara de desgosto antes de começar a contar sua fatídica vida.
– É chato. Eu gosto muito da minha família e eles cuidam muito de mim, mas sou meio preso. O único lugar que eu vou, na qual não tenha que implorar para poder ir, é a escola, mas mesmo indo para a escola, eu tenho que permanecer com pelo menos dois seguranças robôs ao meu lado a todo o momento. É horrível sabe, as crianças ficam um pouco receosas quando me veem com aqueles brutamontes ao meu lado e por isso não se aproximam muito de mim. Mas eu tenho um amigo muito próximo e louco o bastante para não temer os robôs, ele se chama Uzumaki Boruto.
– Uzumaki?
– Sim, ele é filho do tio Naruto.
Sorri de canto lembrando-me do meu amigo loiro e idiota que parecia finalmente ter tomado jeito e até filho ter.
– Eu já pedi para o vovô e a vovó deixarem eu transitar pela escola sem segurança, mas eles disseram que não – admitiu triste com o olhar baixo.
– Eles têm medo de te perder como um dia me perderam – conclui.
– Você não é a única vítima dos caprichos deles – murmurou antes de se levantar da cama para ir embora. – Boa noite, papai. Preciso ir dormir, pois tenho escola amanhã cedo.
Eu assenti logo ficando sozinho no quarto escuro.
***
– Teme? – Ouvi uma voz familiar vindo de trás de mim. Desviei meu olhar da parede de vidro e dei de cara com o meu amigo loiro agora bem mais velho.
Ele veio me visitar uma semana depois de ter voltado para casa.
– Há quanto tempo, dobe – debochei do loiro incrédulo com lágrimas nos olhos, que logo não teve outra reação a não ser sair correndo para me abraçar.
– Eu não acredito! Você voltou! E-eu pensei que nunca mais veria o meu melhor amigo – falava apressado enquanto grossas lágrimas escorriam de seus olhos e manchavam minha camisa branca.
– Está tudo bem dobe, também não precisa fazer essa cena toda. Está ficando muito gay ela – debochei afastando o loiro risonho entre lágrimas de mim.
– E-eu não acredito! Você não sabe o quanto eu estou feliz em te ver – comentou tentando enxugar as lágrimas.
– Sabe, eu sempre tive a impressão de que você era afim de mim, mas ouvindo isso de você, estou tendo quase certeza...
– Cala a boca, Teme! – Falou brincando me dando um soco com força em meu ombro esquerdo, mas... – Aiii! Você é duro – resmungou.
– Sempre ouvi elas dizerem isso – dei de ombros indo para a minha cama me sentar.
– É nojento ouvir você falar o que as suas ficantes diziam para você – sentou-se ou meu lado.
Suspirei cansado.
– É, mas isso faz muito tempo e não irá acontecer nunca mais. É bom relembrar do tempo que eu era o Sasuke.
– Deixa de pessimismo Sasuke! Você é uma pessoa normal e tem muita gente que te ama e quer a sua felicidade. Eu sei que você vai encontrar alguém, assim como eu encontrei a Hinata – falou convicto. – Naquela noite, quando eu estava com aquelas prostitutas e ouvi as sirenes dos carros da polícia, eu fiquei em pânico e sair correndo atrás de você para fugirmos, mas... – sua voz e seu olhar entristeceram – assim que eu te encontrei naquele estado... eu pensei que era o meu fim. Meu melhor amigo quase morto na minha frente e eu não podia fazer nada. Foi o pior dia da minha vida.
– Sinto muito – falei sinceramente, pois nossa ligação era de longa data e se fosse Naruto no meu lugar, eu também ficaria chocado com a cena.
– Não sinta tanto assim. Se não fosse por você ou pela imensa dor que eu sofri, entrando em estágio de depressão grave, levando aos meus pais a me internarem em um dos muitos hospitais Hyuuga, eu nunca conheceria o grande amor da minha vida, minha mulher e mãe dos meus dois filhos. Indiretamente você me fez sair daquela vida sem futuro e me fez conhecer a Hinata. E eu só tenho a te agradecer por isso Teme! Às vezes a vida tem dessas, às vezes ela nos coloca em prova, em situação que nunca imaginamos estar, mas às vezes a mudança é necessária para melhorar. Foi assim comigo e eu sei que será assim com você. Você irá superar e aprender com essa fase.
Sorri de canto lembrando-me de um pensamento filosófico. Algo que eu sabia que se encaixava no que Naruto dizia...
– "A pedra preciosa não pode ser polida sem fricção, nem o homem aperfeiçoado sem provação" – pensei alto.
– Hein? Cara, eu não sei de onde você tirou isso, mas acho que é quase a mesma coisa – riu de si mesmo. – Por isso, para de ficar enfurnado nesse quarto como os seus pais já me disseram e saia para viver – disse se levantando. – Eu tenho que voltar para a empresa, mas qualquer coisa é só me ligar que eu venho correndo te ajudar – deu um sorriso mínimo enquanto socava levemente o meu ombro. – Até logo, Sasuke!
– Até, Naruto – murmurei enquanto via o loiro ir embora.
Obrigado, Naruto!, pensei enquanto me aconchegava em minha cama para dormir um pouco.
***
Quando acordei já era noite. Não sentia fome e por isso acabava ficando trancado em meu quarto.
Já fazia uma semana que eu havia voltado para casa e mal via os meus pais. Eles resolveram respeitar o meu espaço para adaptação, mesmo assim com a minha audição sensível eu podia escutar o choro de minha mãe do outro lado do apartamento e eu sabia que eu era o culpado.
E essa noite não foi diferente...
Levantei da cama, não queria escutar aquilo mais uma vez. Arrumei-me e peguei as chaves de uma moto que meus pais deixaram de presente de boas-vindas sobre o meu criado mudo.
Sai do quarto e quando eu descia silenciosamente pelas escadas, encontrei-me com Nisuke.
– Você vai sair? – Assenti concordando – Posso ir junto? – Perguntou esperançoso.
Suspirei, entendia o lado do garoto em querer sair daquela prisão, mas eu não poderia levá-lo para onde estava indo.
Desci até a altura dele e segurei os seus ombros.
– Hoje eu não vou poder te levar – o semblante do menino entristeceu. – Quem sabe da próxima vez... – deixei a continuação no ar, mas só a possibilidade fez ele sorri.
– Tudo bem. Divirta-se!
Assenti e passei voando por ele.
Não demorou muito até chegar na garagem e ver a luxuosa moto vermelha que me aguardava.
Montei nela, usei a chave e as minhas digitais para destravá-la e em poucos minutos eu estava costurando os carros em alta velocidade pelas ruas de Tóquio, rumo ao lado mais obscuro e abandonado da cidade.
Sai de Pasárgada, passei pela área da classe média até chegar no subúrbio dominado pelo Hozuki Suigetsu.
As ruas antes largas e dominadas por imensos arranha-céus foram substituídas pelas estreitas e tortuosas dominadas por prostíbulos, bares e construções decrépitas daquele lado da cidade.
Olhei ao redor e diferente de Pasárgada, parecia que ali o tempo não tinha passado, só as prostitutas haviam mudado.
Algumas jogavam olhares e indiretas para me convencer a pagar um programa, mas eu não fui ali por diversão. Eu queria me vingar do homem que mudou completamente a minha vida e para isso eu precisava saber o que estava acontecendo naquele lugar.
Parei perto de um bar repleto de bêbados e prostitutas.
Observava tudo através da viseira do meu capacete.
Talvez, eu peça um programa e retire informações da prostituta, pensei observando ao redor até que meu olhar parou em uma figura nas sombras não percebida pelos outros personagens daquela paisagem decrépita.
Fiquei curioso para saber o que aquele pequeno homem de calças largas, coturnos lamacentos e uma grande blusa cinzenta com um capuz que cobria o rosto, iria fazer.
Os bêbados do bar riam e se atentavam em passarem a mão pelo corpo das mulheres da vida, fazendo com que a aproximação do homem passasse despercebida.
Discretamente o homem pegou um pão comido pela metade esquecido por um dos bêbados. Ele escondeu a fatia dentro da blusa e fingiu caminhar como se nada tivesse acontecido.
Nada teria acontecido se o bêbado, dono da fatia, não tivesse percebido o sumiço.
– Ei seu ladrãozinho, volta aqui, não pensa que eu não vi não! – Esbravejou o bêbado largando a prostituta de qualquer jeito correndo atrás do pequeno homem juntamente com outro bêbado. – Volta aqui, seu merdinha medroso! – Gritou para o ladrão que corria desengonçadamente entre os inúmeros seres que transitavam pelo local e atrapalhavam a sua fuga.
Ativei meu poder ocular.
Kurenai, análise de dados, ordenei para a minha "secretária pessoal", na qual descobrir ser um programa de computador que só eu tinha acesso.
– Senhor Uchiha, os sinais vitais e o biotipo denunciam pertencer a uma mulher de 24 anos.
Mulher?, perguntei surpreso.
– Sim, senhor Uchiha. Níveis elevados de adrenalina e batimentos cardíacos também elevados. Possibilidade de ser apanhada é de 99,99%.
Tsc!, resmunguei ligando a moto e seguindo a perseguição daqueles três já distantes de mim.
A mulher era rápida, mas os bêbados estavam se aproximando e armados de facas.
Kurenai, quem é a mulher encapuzada?
– Informação não encontrada no banco de dados.
Indigente?
– Possivelmente senhor.
Tudo bem.
Costurei as pessoas na rua e adentrei o beco que eles haviam entrado, sempre com a minha audição aguçada ativa.
– AHHHH! – Ouvi um grito agudo reverberando o ar.
– Olha Souko, é uma mulherzinha – ouvi um dizer malicioso.
– Não dá para analisar o material com tanto pano cobrindo esse corpinho – disse o tal Souko depois de um riso malicioso.
Dobrei uma esquina encontrando os três. Empinei a moto e fui na direção deles, que desviaram da moto, fazendo com que eu deslizasse e estacionasse a moto de lado.
– Quem é você cara? Por acaso essa belezinha aqui é a sua namorada? – Falou Souko apontando a ponta da faca no pescoço ainda coberto pelo capuz da mulher segurada pelo outro.
– ME SOLTEM! – Berrou a mulher se debatendo.
– Segura ela Sora! – Ordenou Souko.
– Solta a moça – falei frio acelerando a minha moto, ameaçando-o com o ronco do motor.
– E se eu não quiser? – Esnobou Souko – E se eu quiser soltá-la só depois de satisfazer as minhas vontades? – Ameaçou-me com um olhar. – Não se preocupe, vou soltar a sua namoradinha depois dela fazer o trabalho dela.
– Vai a merda! – Cuspiu a mulher na cara de Souko.
– Ah, sua vadia, você vai pagar por isso – gritou o cara, dando um tapa forte no rosto feminino que caiu pelo impacto no chão.
Não deixei que ele se aproximasse dela. Pulei da moto, retirei o capacete e golpeei-o fortemente na nuca, fazendo com que o homem caísse morto ao lado da mulher. O outro homem tentou me pegar pelas costas, mas eu fui mais rápido e golpeei seu queixo com um soco de direita que o desacordou.
Olhei para os dois corpos tendo certeza que eles não me atrapalhariam mais. Voltei meu olhar para o corpo ofegante e caído no chão de terra batida.
– Você está bem? – Perguntei preocupado tentando tocar nela, mas...
– NÃO TOQUE EM MIM! – Gritou afastando a minha mão antes de sair correndo.
– Não, espere! – Sai correndo atrás dela. – É perigoso andar por aí sozinha!
– Vai embora! – Gritou pulando com uma habilidade incomum para mulheres daquela área, uma cerca alta, mas a diferença é que eu não sou humano e passei pela cerca com mais facilidade que a mulher – Mais que droga! – Resmungou vendo-me ainda segui-la por cima do ombro.
Apressei os meus passos e puxei com força seu braço esquerdo.
– Eu não quer... – ela não me deixou terminar porque me deu um soco forte de direita, que com certeza me traria problemas se eu fosse completamente humano. Meu rosto virou com o impacto para a minha direita, mas logo retornei à minha posição inicial encarando aquele ser com certa fúria contida. – Eu não quero te machucar – falei calmamente.
– Eu não confio em você, eu não confio em ninguém – dizia enquanto se debatia inutilmente nos meus braços, mas eu tinha que admitir, aquela mulher era insistente.
Ela se debateu tanto que o pão que ela havia roubado caiu no chão lamacento.
– Mais que droga, olha o que você fez! – Gritou saindo de meus braços ficando de frente para mim. Ela se abaixou e pegou um pedaço de madeira para me ameaçar – Eu tive muito trabalho para conseguir isso! – Seu discurso foi concluído com um ronco alto e vergonhoso de seu estômago.
– Você está com fome – conclui a situação erguendo as minhas mãos no ar em rendição – Eu não quero te machucar, só quero ajudar.
– Por que você quer me ajudar? – Perguntou desconfiada ainda com o capuz lhe cobrindo.
– Porque você parece diferente das pessoas "normais" dessa região e se você sair correndo sozinha por esses becos, eu sei que você vai encontrar outros caras com intenções até piores do que aqueles anteriores.
Ela hesitou por um momento, mas logo voltou a falar mais calma:
– Eu sei me defender.
– Já deu para perceber isso – sorri um pouco de canto –, mas voltando ao que interessa. Eu posso te dar comida, é só me deixar tirá-la daqui.
– Posso confiar em você? – Perguntou desconfiada e eu assenti concordando – Você não parece ser dessa região – observou abaixando sua arma improvisada.
– Só estou de passagem – abaixei os braços. – Qual o seu nome?
Ela riu desacreditada.
– Se tem uma coisa que se aprende nessa amostra de inferno na Terra, é que não se diz o seu nome para estranhos – sorri de canto concordando com ela – mas, e você quem é?
– Pode me chamar de Falcão.
Ela riu um pouco debochada.
– Se você é o Falcão, então eu sou a Algodão Doce!
– Algodão Doce? – Perguntei confuso, mas assim que ela jogou o capuz para trás eu entendi o que ela queria dizer.
Continua...
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