Notas iniciais
Oi gente ^^ Eu disse que ia postar só na quinta, mas como eu vou ficar sem internet amanhã, resolvi postar logo ^^ Divirtam-se...

"Se tu amas uma flor que se acha numa estrela, é doce, de noite, olhar o céu. Todas as estrelas estão floridas."

(Antoine de Saint-Exupéry)

A mulher tinha um rosto angelical com curtos cabelos cor de rosa amarrados em duas ligas baixas em sua nuca, mas o que mais chamava atenção, eram os seus grandes e brilhantes olhos de um verde incomum iluminados pela luz da lua.

– Retirei a sua dúvida? – Disse debochada recolocando o capuz certificando-se que estávamos sozinhos no local.

– Mesmo sendo comum pessoas terem cabelos de cores diferentes devido a mutações em seu material genético de maneira intencionada, devo admitir que cabelos rosas não se veem todo dia – comentei apontando com queixo para que ela me seguisse de volta para a minha moto.

– Meu DNA não foi alterado, meus pais não tiveram dinheiro para pagar um absurdo desses. Não tenho culpa deles terem nascido assim – resmungou cruzando os braços enquanto caminhava ao meu lado.

– Tudo bem então – desisti. – Quer ajuda? – Referi-me à cerca.

Ela não me respondeu, apenas me ignorou e pulou a cerca sozinha.

– Vai demorar muito aí princesa? – Zombou do outro lado com um sorriso debochado estampado no rosto.

– Tsc – sorri de canto pulando a cerca da maneira mais humana possível, para que ela não descobrisse o que eu era.

Por mais que eu não admitisse, eu estava gostando de ter alguém normal que não soubesse da minha real situação e me tratasse com um humano de verdade. Por isso não queria me despedir tão rapidamente da mulher misteriosa de cabelos rosas.

– O que você está fazendo? – Perguntou confusa enquanto eu colocava meu capacete em sua cabeça e afivelava de maneira segura.

– Não vou andar com você por aí sem capacete – falei sincero.

– Mas você vai ficar sem...

– Acredite, eu sou mais resistente que você, pode ter certeza – falei ligando a moto esperando que ela subisse.

– Podemos ir andando até um bar – falou desconfortável.

– Você tem medo de andar de moto? – Perguntei desacreditado.

– Não é isso – apressou-se – é só que eu nunca andei em uma – disse envergonhada.

– Vem – estendi a mão para a mulher que encarou com suspeita minhas ações – é seguro. Prometo que vou devagar e vou te levar para um local bem melhor do que aqueles bares de quinta.

Ela ignorou a minha mão, mas se sentou no banco traseiro.

– É melhor se segurar – avisei.

– Aonde? – Falou com o olhar perdido procurando um apoio.

– Aqui – disse envolvendo a sua mão direita e levando ao meu abdome. Ela se assustou com o gesto e afastou sua mão de prontidão de mim.

– Nunca – revirei os olhos impulsionando um pouco a moto para a frente – Ok, ok! Você venceu! – Disse desesperada me abraçando com força tirando um sorriso de canto de mim.

Acelerei e dirigi para fora daquele lugar. Costurei por aquele lugar dominado pelo tráfico com velocidade, em pouco tempo estávamos na zona da cidade da classe média – a chamada Segunda Zona – parei em frente à uma pizzaria pouco movimentada que eu achei pelo caminho.

– Prontinho chegamos – disse enquanto estacionava na frente do estabelecimento.

Meu cenho franziu ao ver a mulher pular da moto e começar a me socar.

– Você prometeu que ia devagar!

Suspirava contendo o ataque da mulher enquanto alguns poucos telespectadores riam da nossa cena.

Assim que ela desistiu bufando pudemos adentrar na pizzaria e nos acomodar em uma das mesas de madeira localizadas no centro.

– Boa noite – um robô humanoide se aproximou da nossa mesa e me olhou desconfiado. Com certeza percebendo o que eu era na realidade. Mesmo sabendo que nunca um robô denunciaria o que eu era, eu fiquei preocupado pela possibilidade da "Algodão Doce" descobrir e sair correndo – o que a senhora gostaria de pedir? – Perguntou para a rosada.

– Ah... eu... hm... – Ela se enrolou com as palavras não compreendendo o cardápio – eu acho que seria melhor perguntar para o rapaz aqui, já que foi ele quem me trouxe aqui – comentou escapando da situação constrangedora.

– Uma pizza grande sabor portuguesa e um refrigerante de um litro sabor coca – pedi, assim que o garçom me olhou. Ele assentiu e se retirou. – Você está machucada – comentei vendo o hematoma em sua bochecha esquerda decorrente do tapa.

A rosada puxou o capuz mais para frente, para que os outros não vissem seus machucados.

– Eu ficarei bem. Quando chegar em casa, cuidarei do machucado – comentou evitando encarar os meus olhos.

– Você mora em Boca? – Perguntei e ela assentiu concordando.

Boca era o nome que chamávamos a região mais pobre e periférica de Tóquio. Tinha esse nome devido ao seu apelido, "Boca do Inferno". Quando você entrava, você era engolido pelo mundo das perdições que era aquele inferno na Terra.

– Você mora com os seus pais? – Vi as esmeraldas escurecerem com o assunto.

– Não gosto de falar deles – comentou fria.

– Tudo bem – ergui minhas mãos em defesa.

– Aqui está a refeição de vocês, senhores – o garçom colocou a pizza e o refrigerante na mesa, mas o cheiro da comida fez com que a barriga faminta da moça reclamasse.

Seu rosto corou com a situação que me fez rir.

– Pode comer à vontade – falei assim que ficamos a sós.

Ela assentiu e agradeceu pela comida antes de pegar o primeiro pedaço triangular da pizza. Observei todos os seus movimentos, ela parecia incerta e confusa com aquela comida tão comum para mim.

Ela deu uma pequena mordida incerta antes de seu rosto se iluminar.

– Nossa, isso é muito bom!

Eu gargalhei um pouco.

– Não me diga que você nunca comeu pizza!

– Na verdade, eu nunca comi – falou envergonhada devorando com vontade a comida – devo ter visto no máximo em uma revista velha lá em Boca, mas comer mesmo, eu nunca comi. Desculpe, mas eu não tenho dinheiro como você, cara da Segunda Zona.

Franzi um pouco o cenho.

Ela acha que eu sou da Segunda Zona?, pensei por um momento antes de sorri de canto. Pelo menos não terei que lidar com o preconceito que as outras zonas têm contra a população de Pasárgada.

– Faz quanto tempo que você não come? – Perguntei vendo que ela já estava no terceiro pedaço de pizza e eu ainda estava pegando o meu primeiro.

– Três dias.

– Três dias? – Perguntei surpreso.

Ela assentiu antes de falar:

– Não temos muitas oportunidades, nem comida em Boca.

– Por isso que você rouba?

– Tsc. E você esperava que eu fizesse o quê? Trabalhasse? – Fiquei sério a encarando – Se você não sabe, mas em Boca quando você é mulher, ou você arruma um homem para te sustentar ou você vira prostituta. Digamos que a primeira opção é praticamente impossível para mim e a segunda não passa nem perto de ser uma possibilidade para os meus olhos. Por isso, para não morrer de fome, tento sobreviver da maneira que eu posso.

– Já tentou sair de Boca? – Comentei indiferente terminando meu pedaço e indo para outro enquanto que ela estava no quarto.

Ela riu desacreditada tomando um gole de Coca.

– Olha para mim...

– Estou olhando – falei encarando os olhos verdes firmes.

– Agora olha para as mulheres da Segunda Zona – olhei ao redor e vi mulheres simples, mas bem vestidas diferentes das mulheres de Boca. Algumas delas olhavam discretamente para mim – eu pareço um animal de Zoológico fugitivo. Minhas roupas são usadas e sujas. Não me encaixo nem nos padrões prostíbulos de Boca, nem no da Segunda Zona, pior ainda nos padrões de Pasárgada! Não me encaixo em nenhum lugar, Falcão. Sou apenas uma sobrevivente sem documentação ou futuro, ninguém aceitaria alguém assim, por isso faço o que eu posso para sobreviver, mesmo que isso signifique que eu tenha que roubar pedaços de pão comidos pela metade.

Eu assenti abaixando o meu olhar para o meu copo.

– Aliás, deve ser entristecedor para as mulheres daqui te verem andando com alguém como eu – comentou olhando para um grupo de mulheres em outra mesa. Segui seu olhar e vi elas sorrirem e acenarem para mim. Com certeza, diferente da Algodão Doce, aqueles mulheres perceberam pela minha moto e pelas minhas roupas de marca, que eu sou de Pasárgada.

– Não ligo para isso – comentei terminando o meu refrigerante e apoiando meus braços na mesa para observar a mulher devorar com vontade e sem etiqueta nenhuma o sexto pedaço.

Kami, será que ela tinha um buraco negro no lugar do estômago?

– Você deve estar morrendo de vergonha por ter alguém como eu sentado com você – murmurou com um olhar baixo enquanto terminava seu refrigerante.

Acredite algodão doce, você que deveria estar envergonhada por estar sentada com uma aberração como eu...

– Já disse que não ligo – disse limpando, com um lenço, o canto de sua boca suja de molho de tomate o que a surpreendeu e afastou o rosto do meu toque. Suspirei jogando o lenço sujo dentro da embalagem da pizza. – Aposto que ainda não confia em mim.

– É a desconfiança que me mantém viva – assenti concordando, fingindo não ter ficado frustrado por sua reação. Pedi a conta e depois saímos para a rua deserta e calma. – Aqui é tão diferente de Boca – comentou olhando ao redor – posso até ver as estrelas sem ter medo que alguém me ataque.

Ergui meu olhar e vi o céu salpicado de estrelas. Algo tão banal que nunca reparara de fato, mas que era impossível de ver em Pasárgada, já que a imensa quantidade de luz artificial ofuscava o brilho das estrelas.

Pela primeira vez enxerguei a beleza que nunca reparara.

Era lindo.

Simplesmente lindo.

Era como um tapete negro salpicado de pequenas pedras de diamante.

Abaixei o meu olhar e vi que a mulher que parecia uma flor ainda encarava o céu estrelado.

O capuz havia caído o que me dava a visão completa de seus olhos brilhantes e admirados e, principalmente, de seu pequeno sorriso gentil.

Não sei quanto tempo fiquei a encarando, mas sei que o encanto foi quebrado assim que ela percebeu o que ocorria.

Constrangida ela ergueu o capuz e abaixou o olhar para os coturnos.

– É melhor eu ir indo. É uma longa caminhada até Boca.

– Eu te levo para casa de moto. Vai ser bem mais rápido.

– Olha Falcão, obrigada pela comida, mas Boca é perigoso e não é bom você ficar andando com uma moto chamativa dessa por lá, muito menos eu quero ser vista em cima dela.

– Não tenho medo. E pode ficar tranquila que eu vou passar tão rápido pelas pessoas que elas nem vão te ver – falei subindo na moto, ligando-a. – Vamos, venha! – Chamei com o queixo.

Incerta, a garota de cabelos rosas subiu e rodeou com força a minha cintura depois que coloquei o capacete nela.

– Não ria – disse mal-humorada quando eu sorri um pouco ao ver os braços cruzados em meu entorno.

– Tudo bem, madame – brinquei dirigindo a moto.

Não demorou muito para que saíssemos das ruas pacatas da Segunda Zona para as agitadas de Boca.

Perguntei algumas vezes onde era a sua casa, mas a Algodão Doce só me indicava para onde ir.

Depois de quinze minutos dobrando em inúmeras vielas escuras, encontrando inúmeros casais em sessões de amassos ou bocas de fumo, chegamos em uma pequena clareira iluminada apenas pela luz da lua.

Dentre as três casas decrépitas, eu vi uma feita de diversos materiais, desde alvenaria até papelões.

– Eu moro aqui – apontou para a pior das casas enquanto descia da moto e me entregava o capacete. – Sei que não é nada luxuoso como as casas aconchegantes da Segunda Zona, mas preferiria que você não fizesse nenhum comentário.

– Só acho que deve fazer muito frio durante o inverno que estar se aproximando – falei franzindo o cenho enquanto observava a casa.

Se é que aquilo poderia ser chamado de casa...

– É faz mesmo, mas eu me viro – falou abraçando o próprio corpo enquanto se afastava alguns passos de mim – Obrigada novamente, Falcão – eu assenti. – Adeus! – Murmurou fechando a porta da casa lentamente sem quebrar nosso contato visual.

– Adeus, Algodão Doce – murmurei levantando o meu olhar para o céu incrivelmente estrelado, mas ao ouvir o som de tiroteio a distância, entendi porque ela não admirava as estrelas em Boca.

Dirigi inquieto para Pasárgada. Nem vi o tempo passando, pois quando me dei conta já estava dentro do meu quarto, novamente sozinho e de volta a minha realidade, onde eu era aberração e não havia volta para a minha situação.

Suspirei jogando-me na cama e encarando o céu negro de Pasárgada além da parede de vidro.

Como eu queria poder ver as estrelas agora.

– Se o senhor quiser, eu posso mudar a paisagem – comentou Kurenai.

– Coloque – pedi.

– Sim, senhor.

Não demorou muito para que a paisagem noturna de Pasárgada vista atrás da parede de vidro fosse mudada para a estrelada da Segunda Zona.

Era a imagem da minha memória fotográfica.

Sorri de canto assim que a visão caiu na mulher misteriosa de cabelos rosas que admirava encantada o show da natureza há muito tempo ignorada pelos humanos.

– Bela escolha de memória, Kurenai.

– É a memória de melhores sinais vitais, senhor – comentou séria.

– Vou tentar entender isso como uma memória feliz – zombei. Já estava me acostumando ao fato de ter uma voz falando na minha cabeça, mas tentava evitar conversar com Kurenai quando estava com alguém, já que era estranho para as outras pessoas me verem falando sozinho. – Boa noite, Kurenai.

– Boa noite, senhor Uchiha.

Depois disso o silêncio imperou. Fiquei assistindo a memória até ela terminar e voltar a paisagem normal de Pasárgada.

No fim, a escuridão me abraçou como acontecia todas as noites...

Continua...

Notas finais
Mereço reviews? EXPLICAÇÃO: Essa Tóquio futurística que eu inventei é dividido em três zonas: 1º é Pasárgada: parte rica de Tóquio... 2º é a Segunda Zona: classe média 3º é Boca: periferia dominada pelo tráfico Espero que tenham gostado ^^ Mais surpresas sobre a "Algodão Doce" no próximo capítulo! Boa noite gente! Volto no sábado!