Re/Desconfigurado
5 Perseguida
Notas iniciais
"Talvez seja da minha natureza não me sentir pertencendo totalmente a lugar nenhum, em lugar nenhum."
(Chico Buarque)
Encarei-me no espelho. Parecia um adulto normal de 26 anos.
Então... eu estou bem?, perguntei para a Kurenai enquanto olhava a minha camisa preta com as mangas até os cotovelos, calça jeans e tênis negro.
– Seus sinais vitais estão ótimos, senhor Uchiha – comentou inocentemente Kurenai, tirando-me uma gargalhada contida.
– Preciso voltar a falar com humanos – comentei.
– Disse alguma coisa de errado, senhor?
– Não Kurenai, estar tudo bem – encerrei a conversa saindo do meu quarto.
Caminhei tranquilamente até a sala de jantar, onde minha família almoçava reunida.
– Boa tarde – falei baixo fazendo com que todos os olhares se virassem para mim em surpresa enquanto me sentava ao lado de Nisuke.
O garotinho me ofereceu um sorriso largo e feliz antes de voltar ao seu almoço em silêncio.
– Fico feliz que tenhas resolvido almoçar com a gente, meu filho – comentou gentil minha mãe enquanto era servido por uma robô humanoide loira que aparentava estar na casa dos 20.
Eu assenti voltando para a minha comida.
– Como foi o passeio ontem, papai? – Disparou inocentemente Nisuke atraindo todos os olhares.
– Foi bom.
– Você saiu ontem? – Perguntou sério e curioso o meu pai.
– Não sabia que estava em prisão domiciliar – soltei fazendo os olhares entristecerem.
– Não é isso meu amor. Só ficamos preocupados com você – tentou amenizar a minha mãe. – Mas afinal, para onde você foi?
– Andar por aí.
– Você vai sair de novo? – Perguntou o meu irmão analisando as minhas vestes.
– Sim.
– Posso ir? – Perguntou Nisuke esperançoso.
– Você tem que ir para a aula, meu querido – disse minha mãe afagando os cabelos rebeldes do garoto emburrado.
Suspirei e voltei ao meu almoço.
O restante da "reunião familiar" transcorreu de maneira silenciosa. Assim que sair da mesa me dirigi a saída do prédio.
Na noite anterior tinha ido a Boca atrás de informações, mas devido ao meu encontro com a Algodão Doce, acabei não conseguindo informação nenhuma.
Dirigi pelas ruas de Pasárgada e observei as pessoas ao redor assim que parei em um semáforo vermelho.
Homens e mulheres vestiam roupas de grifes enquanto falavam coisas banais ou assuntos profissionais pelo celular. Robôs com aparência humanoide ou não, também transitavam pelas pessoas, alguns deles levavam cachorros para passear, atendiam clientes em cafeteria ou simplesmente acompanhavam seus donos.
Pensei no que a mulher da noite anterior havia me dito, algo sobre não se encaixar em nenhum lugar e nesse momento notei que eu não me encaixava também.
Eu não era nem homem, nem máquina. Como poderia dizer em qual local pertencia.
Sai de Pasárgada e passei pela Segunda Zona para poder chegar em Boca.
As ruas estavam bem menos movimentadas do que na noite anterior, mesmo assim ainda marcavam presença os seres tão característicos daquele lugar.
Rodei aleatoriamente pelas vielas até encontrar uma figura particular encostada em uma parede desbotada. Sua perna esquerda estava flexionada enquanto que sua mão direita movimentava o cigarro pela metade para dentro e fora da boca carmim.
– O tempo não te fez bem, Karin – comentei parando a moto na frente dela.
Um sorriso presunçoso surgiu em seus lábios e desenharam o rosto bonito, no entanto que esboçava os efeitos de anos de álcool, drogas e de vida devassa.
– Talvez eu possa mostrar que o tempo não muda nada na cama, na verdade, só melhora – jogou seu marketing enquanto se aproximava rebolando no vestido vermelho. Ela se inclinou sobre mim e alisou lentamente minhas coxas sobre o jeans.
Soltei uma gargalhada incrédula que a deixou confusa, fazendo-a se afastar um passo.
– Você não me reconheceu mesmo, né Karin?
– D-do que você está fal...?
Não deixei que ela terminasse. Retirei meu capacete revelando minha identidade marcada por um sorriso de canto cruel na minha boca.
– Pelo que eu me lembre, da última vez que nos vimos você era propriedade do Hozuki...
– Falcão? – Perguntou desacreditada.
– O primeiro e único.
– Mas... mas... você deveria está morto.
– Isso faz diferença agora? – Agarrei o pescoço alvo dela com a minha mão direita e aproximei brutalmente seu rosto do meu enfurecido – A única coisa que eu quero saber é cadê o seu amado Hozuki.
A ruiva estava ofegante e desesperada, mas seu lado atriz de muitos anos naquela vida voltou à tona.
– Que isso querido – falou alisando a parte a mostra do meu braço – podemos resolver esse estresse lá dentro – sorriu de canto apontando com a cabeça para o prédio desbotado de dois andares de onde eram ouvidos gemidos de ambos os sexos.
– Pelo que eu me lembre, você era propriedade privada – falei cruel a fuzilando pelos olhos – como é que você acabou aqui sendo de todo mundo?
Ela bufou e finalmente deixou cair a máscara mostrando a verdadeira Karin, só que agora indignada e magoada.
– Aquele Hozuki me substituiu – falou entre dentes – eu passei muitos anos sendo a sua predileta, mas nos últimos anos ele achou algo mais interessante e que virou a sua obsessão.
– O quê? – Falei interessado.
– Uma mulher. Uma coisinha sem sal cor de rosa, mas que por ele não a ter, faz com que ele fique louco, mas não vai demorar muito até ele conseguir o que ele tanto quer. No entanto, ele enjoa e logo larga de mão. O cretino ainda tem a audácia de vim me procurar para se satisfazer quando bem entende – bufou.
– Uma mulher. Uma coisinha sem sal cor de rosa – murmurei tendo uma ideia horrível.
– Como eu queria que uma bala perdida acertasse aquela petulante que roubou o meu posto e que ainda foge dele... – não deixei que ela terminasse.
Empurrei a ruiva com força enquanto voltava a dirigir em alta velocidade sem me importar de colocar meu capacete de volta.
Não. Não. Não.
Gritava em pensamentos enquanto conclusões horríveis percorriam pela minha mente ao mesmo tempo que dirigia pelas vielas.
Foquei na minha audição para aumentar minha capacidade.
Ouvi milhares de vozes, mas procurava uma em particular.
– AHHHH! – Ouvi o grito agudo da Algodão Doce, seguido de um forte tapa.
– Cala a boca vadia – grunhiu uma voz masculina que eu não conhecia.
– Me solta! – Pedia desesperada.
– Hidan, pegue ela e vamos logo embora. Suigetsu-sama está nos aguardando.
– Ah, qual é Juugo. Olha para esse rostinho bonitinho, não dá vontade de usá-la.
– ME LARG... – gritou a Algodão Doce, mas sua voz foi abafada e logo em seguida foi ouvido um tecido se rasgando.
Cheguei na clareira, pulei da moto e arrombei a porta em fúria.
A rosada estava no chão chorando com os cabelos presos por um homem de cabelos cinzentos em pé atrás de si.
Sem pensar duas vezes voei para cima dele e golpeei-o.
Ele largou a mulher que se escondeu de baixo da cama enquanto Juugo atirava em mim. Apenas duas balas acertaram o meu corpo, mas não me afetaram.
Dei um soco de direita derrubando Hidan. Ele fez menção de se levantar, mas sem dó chutei seu corpo que atravessou a parede de papelão da casa e caiu morto no meio da rua.
Eu sentia os meus olhos formigarem de raiva, sabia que eles estavam vermelhos enquanto me dirigia ao homem de cabelos laranjas surpreso ao me reconhecer.
Desviei de duas balas e quebrei seu punho, fazendo a arma cair no chão em um baque surdo.
Soquei com raiva lembrando-me do dia em que aquele cara me golpeou até a morte, mas diferente dele, eu não iria mata-lo.
Ah não... não por hora, porque tinha outro serviço para ele.
– Diga ao verme do seu chefe que o Falcão voltou e que ele voltou para se vingar – grunhi as palavras enquanto erguia apenas com uma mão o grande homem machucado.
Soltei-o sem piedade e olhei para o meu corpo. Uma bala tinha acertado meu antebraço e a outra bala o meu pescoço.
Arranquei as balas daqueles lugares e esperei que minha pele voltasse ao normal.
Suspirei fundo antes de me aproximar da cama simples de solteiro, de onde eram ouvidos gemidos e soluços baixos.
– Ei! – Chamei olhando para de baixo da cama.
– NÃO POR FAVOR, NÃO ME LEVEM PARA AQUELE HOMEM! – Gritava desesperada de olhos fechados.
– Algodão Doce! – Chamei alto, o que fez a garota abrir os olhos chorosos em surpresa para mim.
– Fa-Falcão? – Murmurou ainda desacreditada.
– Eu não vou te machucar – falei baixo tentando acalmá-la. – Vem, me deixa te tirar daqui – estendi a minha mão direita, a qual ela olhou por um momento, mas logo aceitou, deixando que a puxasse para fora daquele refúgio onde ela havia se escondido.
Ela ainda chorava muito enquanto estava de joelhos segurando a alça rasgada de sua blusa.
– Não podemos ficar muito tempo aqui – ergui seu rosto para que ela me encarasse – pegue só o necessário para fugir.
Ela assentiu e se levantou ainda em choque. Correu pelo pequeno cômodo para colocar dentro de uma mochila velha algumas peças de roupa e um... livro?
A garota vestiu por cima da camiseta a blusa com capuz da noite anterior, antes de me seguir para fora daquele lugar.
– Vem – puxei-a para a minha moto. Coloquei o meu capacete nela e sem protestos ela subiu comigo.
Eu sabia que logo o rei do tráfico saberia o que eu fiz, por isso tinha que sair daquele lugar o mais rápido possível. O problema não era eu, mas sim a garota que estava sendo perseguida e que com certeza não resistiria um combate com os seguranças do Hozuki.
Ouvi alguns tiroteios a distância, mas foquei minha atenção na direção e na velocidade cada vez mais alta da minha moto.
Ainda escutava a garota chorar abraçada na minha costa enquanto fugíamos.
Só respirei aliviado quando atravessamos o limite de Boca com a Segunda Zona, mas nunca diminuindo a velocidade.
Andei mais alguns quilômetros até achar uma hospedaria há poucos quilômetros de Pasárgada.
Era em uma rua simples e calma com uma pizzaria logo em frente.
Desci da moto e ajudei a moça a sair da moto, retirei o capacete e engoli em seco ao ver seu rosto machucado tanto da noite anterior como de minutos atrás.
– Vem – falei contornando meu braço em sua cintura enquanto a levava para dentro. – Eu quero um quarto – disse firme para as duas mulheres que olharam assustadas para a cena, mas que logo assentiram de acordo ao perceberem pelas minhas vestes que eu pagaria.
Subimos para o segundo andar e entramos em um quarto com móveis de madeira – uma cama, um guarda-roupa e uma escrivaninha –, havia também uma televisão e um banheiro.
– Traz uma caixa de primeiros socorros – pedi para a atendente que saiu correndo do quarto – Vem, Algodão Doce, deita aqui – levei a mulher para cama deitando-a.
– Sakura – balbuciou entre soluços, focando o olhar esmeraldino em meus ônix com dificuldade.
– O quê? – Perguntei sem entender.
– Meu nome é Sakura – murmurou.
– Combina com você, Algodão Doce – ela sorriu minimamente enquanto me ajoelhava ao lado dela. – Prazer Sakura, meu nome é Sasuke.
– Sasuke – balbuciou meu nome enquanto perdia a consciência.
***
Encarava o imenso manto negro salpicado de estrelas enquanto sentia a leve brisa noturna acariciar minha pele artificial.
As horas se passaram e não houve nenhum sinal do despertar de Sakura.
Já havia desligado o meu celular para não ter que ver as inúmeras ligações e mensagens de texto de meus familiares para saber onde eu estava ou se estava bem.
Pensei em ir embora, mas não achei certo simplesmente largar a rosada em um local onde ela não conhecia ninguém, por mais que sua hospedagem ali fosse por sua segurança.
– O céu está tão bonito – murmurou uma voz baixa atrás de mim.
Virei meu rosto o suficiente para observar a mulher deitada de lado na cama encarando o céu além da janela em que eu me apoiara.
– Está lindo mesmo – murmurei com um sorriso de canto.
Os verdes fixaram-se em mim. Não haviam mais lágrimas, só os olhos inchados denunciavam a crise de choro anterior.
Ela se levantou lentamente para ficar sentada na cama ainda me olhando com um misto de desconfiança e curiosidade.
– Você deve está com fome – supus caminhando para a escrivaninha – comprei pizza aqui na frente, sei que você gosta – estendi a caixa de papelão para ela.
Assim que o cheiro invadiu suas narinas, um pequeno sorriso nostálgico e agradecido apareceu em seu rosto.
– Arigato – murmurou pegando um pedaço.
Assenti sentando na cadeira de frente para a cama. Observei atentamente cada um de seus movimentos.
Ela comeu três pedaços antes de ficar satisfeita e eu guardar o restante na pequena geladeira do quarto.
– Por que você me ajudou? – Perguntou em um fio de voz assim que nossos olhos se reencontraram.
– Porque era a coisa certa a se fazer.
– Como você soube?
– Estava em Boca quando me disseram que você corria perigo, fui até a sua casa para verificar se estava tudo bem, mas quando eu cheguei lá... – minha voz morreu – bem, você sabe de todo o resto.
Ela assentiu e um longo silêncio se perpetuou até que...
– Obrigada por tudo, Sasuke. Se você não estivesse lá... – sua voz sumiu e seu olhar caiu na cama desarrumada – eu nem sei o que teria acontecido comigo.
O olhar esverdeado tomara um tom cinzento por ser iluminado só pela luz da lua.
– Não precisa agradecer – sorri de canto assim que ela voltou a me olhar – digamos que eu faço questão de arruinar a vida do Hozuki na medida do possível e mesmo que não fosse ele, eu iria lá ajudar mesmo assim...
– Você quer se vingar de Hozuki Suigetsu? – Falou com uma voz mais firme. Uma sobrancelha se ergueu enquanto que o olhar antes perdido, fixou-se determinado, estudando-me.
– Não há nada que eu mais queira nesse mundo.
– Se você matar aquele desgraçado, eu te ajudo no que você precisar nesse processo – seu tom era baixo, mas ameaçador.
Sorri de canto me inclinando para frente.
– E em que você poderia me ajudar?
– Que tal todas as informações que eu sei sobre o Hozuki e seu Império? Ainda tem o fato dele está atrás de mim, ou seja, sou o imã perfeito para atraí-lo.
– O que você quer em troca das informações? – Meu sorriso cruel se expandia cada vez mais.
A mulher inclinou-se para frente, apoiando o seu peso nas mãos e me encarou profundamente. Suas mechas rosadas, estavam soltas e dançavam ao leve ritmo da brisa.
– A cabeça dele numa estaca já seria de bom tamanho – debochou com um pequeno sorriso e não pude conter a gargalhada que saiu de minha garganta.
– Fechado – estendi a minha mão e ela apertou com força assentindo. Voltei a seriedade antes de reiniciar a fala: – Mas... por que ele está atrás de você?
Os verdes obscureceram um pouco, enquanto que Sakura abraçava seus joelhos.
– Como qualquer criança nascida em Boca, eu não tive tanta sorte assim – suspirou voltando a me encarar. – Meu verdadeiro nome é Haruno Sakura, mas isso é só da boca para fora, já que no papel eu não existo. Sou um mero borrão esquecido da existência humana.
"Meus pais eram Haruno Kizashi e Haruno Mebuki. Não eram os melhores pais do mundo – seu olhar baixou – mas eram meus pais – sussurrou. – Mebuki há 25 anos atrás era uma prostituta sem uma sobra de esperança para o futuro que a aguardava. Filha de drogado que a vendeu para um cafetão, não teve outro destino a não ser servir os homens da noite de Boca. Sua única vantagem eram seus cabelos dourados e olhos verdes que conquistavam qualquer clientela – sorriu sem humor levantando o olhar e percebi que ela se referia ao fato de ter os mesmos olhos que sua mãe. Os olhos que haviam chamado a minha atenção desde a primeira vez que a vi. – Não foi surpresa ela ter inúmeros admiradores que a faziam propostas de casamento e até de tirá-la daquele lugar. Por mais tentadora que essas propostas fossem para uma simples prostituta sem futuro, ela negava-se por ter se apaixonado pelo homem errado. Por ter se apaixonado pelo meu pai.
"Ele não era o mais rico, o mais culto, muito menos o mais bonito entre seus pretendentes, mas... ela o amou e seu coração machucado pela vida sofrida que tivera negou-se a aceitar uma proposta de casamento que não fosse a dele.
"Com muito esforço ele conseguiu tirá-la do prostíbulo. Eles se casaram e se refugiaram em uma das muitas casas decrépitas de Boca. Não demorou muito para que Mebuki engravidasse de uma criança fadada ao sofrimento daquela vida em Boca..."
– E você era essa criança – supus atento à história, tentando entender aonde o Hozuki entrava.
– Sim – abaixou o olhar – uma criança que nove meses depois nasceu sendo o brilho dos olhos de uma ex-prostituta. Uma criança de incomuns e fora de moda cabelos rosados, já que os cabelos vermelhos dos Uzumakis – engoli em seco ao ouvir o sobrenome do meu melhor amigo – são os mais desejados. Meus olhos nasceram tão verdes como os daquela mulher. No entanto Sasuke, você deve se perguntar, como é que um homem sem futuro e renda conseguiu tirar uma prostituta famosa de um prostíbulo...
– Seu pai...
– Por favor, não o chame de meu pai, não gosto que denominem um homem como ele assim. Ele não merece ser pai. Nunca mereceu!
– Tudo bem – suspirei levantando minhas mãos em defesa. – Haruno Kizashi não a comprou?
– Comprou, – apoiou-se novamente nas mãos enquanto se inclinava na minha direção – mas com que dinheiro, Sasuke? – Neguei com a cabeça sem achar a resposta. – Com dinheiro de apostas – disse lentamente esboçando um sorriso triste no rosto. – Ele era viciado em apostas. No início não era tão problemático, pois ele ganhava mais do que perdia, mas com o tempo a sorte mudou de lado – seu olhar baixou. – Aos poucos, ele foi perdendo tudo, mas o vício o consumia e o enlouquecia fazendo com que ele não conseguisse abandonar tal ato. Os anos foram se passando e eu fui crescendo...
"Eu cresci vendo ele chegar todas as noites, altas horas da madrugada, bêbado e derrotado. Todas as vezes que minha mãe tentava brigar, ele a ofendia e a batia de maneira covarde.
"Por medo, ela se calou e afundou-se naquele lixo que antes ela achava que era sua felicidade, o amor de sua vida. Kizashi perdeu o emprego de mecânico, perdeu a dignidade, perdeu tudo, a única coisa que restou foi seu amor pelas apostas. Minha mãe em um ato de desespero para sobreviver voltou a fazer programa secretamente em nossa própria casa.
"Perdi a conta de quantas vezes eu vi ela se entregando para outros homens na cama que ela dividia com o meu pai – olhou inutilmente para suas mãos com a voz embargada. – Perdi a conta de quantos homens entraram em nossa casa e se satisfizeram enquanto eu tinha que ficar trancada no meu quarto tampando meus ouvidos com o fino lençol que tinha, engolindo o choro, enquanto sons nojentos e adúlteros ecoavam pelo ar – o olhar verde encontrou os meus penosos pela imagem de uma criança em tal situação. – Não demorou muito para que eu percebesse que o "sacrifício" – fez aspas com ironia no ar – de minha mãe, era a sua válvula de escape da realidade. Ela se sentia amada pelas juras de amor ou pelas joias que recebia de seus amantes e para disfarçar o dinheiro que entrava em casa, dizia para o marido que tinha conseguido com faxina. Ele sempre chegava tão bêbado que caiu feito um idiota nessa mentira – disse com nojo. – Quando eu fiz 16 anos, em uma noite de março, tudo se desmoronou. Meu pai chegou bêbado e derrotado de mais uma aposta. Minha mãe sentiu repulsa e o encarou, falando tudo o que pensava sobre ele e como ele foi o maior erro de sua vida. Não demorou muito para ser audível o som das panelas chocando-se no chão.
"Eu voltava para casa, naquela noite. Sempre fugia de casa durante o dia para não ter que escutar o que minha mãe fazia como quando eu era criança, mas naquela fatídica noite, eu ouvi os gritos deles um quarteirão antes de chegar no local. Eu corri desesperada e quando cheguei consegui apartar a briga, minha mãe estava muito machucada, mas diferente de minha mãe, eu aprendi a lutar e desafiar meu pai. Ele nunca me tocou e nem conseguiria. Ele me disse palavras horríveis e saiu de casa. Cuidei de minha mãe, por mais que eles fossem coisas horríveis, ainda assim eram os meus pais.
"Poucas horas depois, Kizashi apareceu pálido e assustado em casa. Eu não queria que ele se aproximasse, mas quando ele disse que o rei do tráfico estava indo para a nossa casa, eu paralisei. O Hozuki havia me visto pelas ruas de Boca e ficou interessado. Descobriu que meu pai era um apostador e usou isso contra ele. Aproveitou o momento auge de embriaguez e apostou com ele no pôquer, deixando que ele ganhasse várias e massageasse seu ego. Meu pai completamente confiante de si, aceitou a última aposta do Hozuki – o olhar verde obscureceu e abaixou para o tecido alvo da cama – o tráfico pela filha. Kizashi aceitou e no fim perdeu o jogo. E-eu... – engasgou-se – eu fiquei com tanta raiva de tudo, da minha vida, dos meus pais, de absolutamente tudo, o que eu queria era gritar, mas não tive tempo porque Suigetsu e seus capangas estavam vindo atrás de mim.
"Minha mãe se desesperou e mandou que eu fugisse. Não queria ir sem eles, mas sabia que meu desejo era impossível, por isso depois de pegar poucas roupas e as joias que minha mãe tinha ganhado dos amantes, eu sair correndo.... Até hoje o grito da minha mãe sendo pega pelas chamas da minha casa incendiada pelo Suigetsu ainda assombra minhas noites...
– Ele matou seus pais por vingança, por não a ter achado – concluí e ela assentiu.
– Cortei meu longo cabelo, usei roupas que me escondessem, enfim, mudei e passei todos esses anos fugindo desse homem. Perdi anos da minha vida por medo e por minha vida ser manipulada em Boca por Hozuki Suigetsu. Eu sinceramente não sei o que ele viu em mim, mas de uma coisa eu sei, ele não abre mão antes de ter – suspirou. – No entanto, enquanto eu puder eu vou fugir dele, nunca irei me entregar a ele como ele quer, nem que isso signifique abrir mão de todos os anos que ainda me restam, mesmo que isso signifique dormir e acordar todos os dias com medo que ele me encontre...
– Sinto muito pelo que aconteceu com você, Sakura – falei sincero.
– Desculpe-me se despejei toda a verdade em você – falou sem graça olhando para a próprias mãos. – É só que... essa é a primeira vez que eu conto isso para alguém – levantou o olhar envergonhado para mim.
Sorri de canto.
– Às vezes é bom jogar para fora o que nos faz mal por dentro – disse complacente.
Ela riu um pouco.
– É... talvez você tenha mesmo razão. Obrigada por me escutar.
– Pode ficar tranquila que o Hozuki não irá encontrá-la aqui e vamos dar um jeito nele – falei me levantando e indo para a porta.
– Aonde você vai? – Perguntou preocupada e não pude evitar sorri de canto ainda de costa para ela, percebendo que ela me queria por perto e começava a confiar o suficiente para me contar o seu passado.
Será que ela continuaria a confiar e me querer por perto se soubesse que sou uma aberração e não um homem?, pensei voltando a seriedade.
Olhei por cima do ombro.
– Preciso ir para casa.
Ela assentiu abaixando o olhar corada.
– Tsc. É claro que você precisa ir para casa – bateu na própria testa e eu ri um pouco de sua reação. – O que eu deveria pensar? Que o cara da Segunda Zona moraria em um hotel?
Sorri um pouco abaixando o olhar.
– Pode ficar tranquila e peça o que quiser. O hotel já está pago. O café da manhã é até às nove horas.
– A-arigato – murmurou hesitando antes de continuar em um sussurro envergonhado: – Vou te ver de novo?
Eu sorri um pouco mais, sentindo a fagulha de humanidade ainda persistir em mim.
– Claro, como é que vamos planejar a nossa vingança se não nos vermos mais? – Brinquei e ela sorriu um pouco – Volto amanhã, ok?
Ela assentiu.
– Até amanhã, Sasuke – acenou em despedida para mim.
– Até amanhã, Sakura – despedi-me saindo do apartamento tendo certeza que retornaria quantas vezes fosse preciso para sentir aquela minha mísera parte minha que ainda permanecia humana e sempre ganhava vida quando estava com ela...
Continua...
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